The New Continent

25 Capítulo 24 – Contra o tempo.


Loren

22 fevereiro, 2200, 00:47.

A tempestade gradativamente ia desaparecendo. Sarah, Frank e eu nos encontrávamos sob uma marquise de uma rocha côncava e esperávamos na subida do vale que dava de volta a cabana. Já havíamos coletado sementes o suficiente e esperávamos por Anne e Will que haviam ido para o outro lado do vale, contudo já estávamos aguardando a quase uma hora para a chegada deles.

— Acho melhor irmos atrás deles. – Sugeri.

— Fique calma, eles já devem estar chegando. – Mencionou Sarah tentando disfarçar um olhar preocupado.

— Mas essa demora não é normal. Pode ter acontecido alguma coisa.

— Eu entendo sua preocupação, mas marcamos de esperá-los aqui, portanto não vamos correr o risco de eles chegarem e não nos encontrarem. Talvez a demora não seja nada demais.

— Eu espero que tenha razão.

Passaram-se mais dez minutos até vermos Anne atravessando o matagal com um olhar desesperado. Segui-a com o olhar a procura de Will e ela estava sozinha. Meus pensamentos vagavam na pior das hipóteses. Ela estava cansada e cambaleava para andar, corri até ela para ajudá-la com o peito acelerado.

— Onde está o Will? – Perguntei aflita com o olhar desesperado. Peguei-a pelos braços para ajudar a andar até nós, recostei-a sobre a rochas e a menina respirava ofegante. – Anda responda, onde ele está?

— Calma Loren! A garota mal consegue manter o fôlego. – Sarah retirou de sua mochila uma garrafa de água e deu a ela. A loira bebeu e seu estado crítico parecia se normalizar. – Você está bem?

— Sim eu estou, mas precisamos voltar. – A garota falava de pressa.

— Voltar?! Ficou louca. Onde está o Will. – Esbravejei.

— Eu já falei para ficar calma Loren. Deixe ela se explicar. – Sarah se agachou ao lado dela e olhava em seus olhos. – Voltar? Mas voltar para onde?

— Precisamos trazer ajuda. – A loira soluçava.

— Do que você está falando? Nós queremos saber onde está o Will!

— Cala a boca Loren! Não estou a fim de lidar com duas pessoas surtando no meu ouvido. Pare de falar e deixa isso comigo. – Me calei e andava de um lado para outro agora. – Anne, por favor, me escute com atenção. Porque precisamos de ajuda?

— O Will! Ele está preso em uma caverna. – A garota se debulhava e lágrimas.

— Numa caverna? – Indaguei.

— Loren!

— Desculpe, continue.

— Tudo bem, mas como isso aconteceu?

— Estávamos dentro de uma caverna para nos protegermos da chuva e... – Gaguejou.

— Devagar, não precisa ter pressa. – Consolava Sarah.

— Enfim, eu não tenho tempo para explicar. Precisamos ir até a cabana trazer ajuda para tira-lo de lá.

— Tudo bem, vamos voltar. – Ordenou.

— Não! Não vamos voltar. Nem sabemos se o que ela está falando pode ser verdade. Ela acabou de chegar e era do grupo de pessoas que tentaram matar a gente. Não podemos confiar nela tão fácil assim.

— E o que você espera que façamos?

— Nos mostre essa caverna.

— Não podemos, não temos tempo. Umas pedras caíram sobre ele e com isso deve ter sofrido cortes ou pode ter hemorragias, precisamos voltar e pedir ajuda.

— Não, você vai me levar até ele e vamos conseguir tira-lo dali.

— Tudo bem, mas se ele morrer não é culpa minha. – Ela atravessou andando por todos nós e seguiu e direção a selva. – Venham, vou levá-los lá.

— Loren?! Você não escutou o que ela disse. – Retrucou Sarah

— Agora é a sua vez de calar a boca. Eu já to cansada de seguir ordens de pessoas que eu mal conheço. – Revirei as costas e segui em direção a Anne. – Vocês não vêem? – Frank e Sarah se entreolharam e vieram logo atrás.

Seguimos pelo vale passando por aquele festival de cor das árvores incandescentes. Era uma visão fascinante ver todo aquele lugar, todavia a apreensão e o medo em meu peito me consumiam. – Espero ter tomado a escolha certa. – Caminhamos por alguns minutos até chegarmos a entrada da caverna. Ela estava recoberta por um amontoado de pedras enormes que formara uma montanha rochosa. Corri até aquele monte e subi sobre as pedras pegando algumas delas e jogando para longe.

— Pare com isso! – Gritou Frank, a voz do garoto me pareceu estranha por nunca tê-la ouvido sua voz. – Saí logo daí, você não sabe como as pedras estão posicionadas, uma gafe e tudo pode dar errado. Anne ele está perto da entrada?

— Sim, ele está.

— Então, anda saia logo daí, ou uma pedra pode cair sobre ele lá dentro e tudo ficar pior.

— Você disse que ele está perto das pedras? – Disse olhando para Anne, a garota apenas assentiu.

— Will! Pode me ouvir, sou eu Loren.

— Esquece ele não vai conseguir te escutar eu já tentei isso antes de sair.

— Então você estava lá dentro e não ajudou ele?

— Tudo estava desmoronando e ele ficou preso numa rocha que caiu sobre ele. Ele mesmo quem pediu para eu sair e pedir ajudar. Eu não consegui contar tudo de cara porque não sei agir em situações que exigem minha pressão psicológica. No desespero eu fiquei por quase trinta minutos rondando o vale sem saber para onde ir.

— Mas como vamos tirar ele daqui?

— Precisamos analisar a formação das pedras melhor a luz do dia e precisamos de reforços, ou seja, principalmente pessoas que saibam carregar peso.

— Mas se esperarmos a luz do dia, talvez ele morra lá dentro. Não temos outras opções?

— Viáveis? Não.

— Então só nos resta voltar né.

— Eu avisei, tínhamos que ter ido o quanto antes. – Murmurou Anne.

— Olha só...

— Ei, pare vocês duas. Vamos embora logo daqui. A barulheira de vocês pode atrair outros animais para cá e já está muito escuro, iríamos ter dificuldade para nos defender, então, vamos estou cansada da voz de vocês. – Interrompeu Sarah entrando na mata em direção a saída do vilarejo.

Respirei fundo e a segui, pois precisávamos urgente chegar até a cabana. Andávamos em passos apressados, afinal nunca havia perambulado as matas durante a noite. O caminho era iluminado pela marcar enigmáticas nos troncos das árvores e pela luz lunar, entretanto conforme caminhávamos a neblina parecia aumentar até ao ponto de todo local ser infestado por uma névoa branca que não nos permitia enxergar nítido.

— Acho melhor pararmos por aqui para descansar e esperar a névoa passar. – Mencionou Sarah.

— Não podemos, precisamos chegar lá o mais rápido possível. – Retruquei. A morena me puxou pelos braços e me deixo frente a frente com ela.

— Olha só eu entendo que queira salvar seu namorado, amigo ou o que seja, mas já estamos andando a mais de uma hora e eu preciso descansar. Alias neblina está nos cegando e poderíamos nos perder dentro dela. – Ela largou meus braços e sentou-se debruçada sobre a árvore. — Olha só para você, está mais cansada do que todos nós. Não vai conseguir ajudá-lo estando nesse estado, então eu vou perguntar de novo: O que vocês acham de pararmos para descansar aqui?

— Tudo bem, podemos para um pouco por aqui. – Respondi sentando em uma árvore do outro lado.

Ficamos ali por dez minutos, bebemos um pouco d’água, secamos o suor e tomamos um pouco de fôlego. Cansados de esperar a bruma abaixar decidimos enfrentá-la, era sufocante no inicio, contudo conforme andávamos parecia que as coisas se tornavam mais fáceis. Depois de conseguirmos atravessar toda a massa de ar, faltava apenas alguns minutos para chegarmos a praia andávamos mais devagar, pois as pernas já bambeavam o olhar decaia e o corpo precisava relaxar. A caminhada ficava cada vez mais lenta até que Sarah que nos guiava caiu no chão, corremos até ela e a morena estava apagada no chão. Corri até ela me ajoelhei no chão e sacolejava seu corpo.

— Sarah está me ouvindo? Por favor, acorde. – A menina parecia nem dar sinal de vida. – Anne e Frank me ajudem a carregá-la. – Antes que Frank pudesse chegar até mim ele também caiu no chão.

— O que é isso?! Estamos sendo atacados?

— Eu não sei, não tem nada no corpo dela. Carregue o Frank que eu carrego a Sarah. – Peguei pelos ombros da morena e a levava comigo. Quase não tinha forças para carregá-la, mas minha vontade em chegar o mais rápido possível era maior. Andamos por mais duzentos metros e foi a vez de Anne cair desacordada no chão. – Anne, por favor, não me deixa aqui agora resista.

Chegou a minha vez e como peças de um jogo de dominó todos caímos apagados no chão.

Não sei ao certo quantas horas fiquei desacorda. Acordei com a cabeça latejando, o corpo transpirando e a respiração ofegante, como se o sono não descarregasse nenhuma das minhas emoções. O cenário me deixara confusa, estava na cabana deitada sobre uma das redes como se estivesse passado uma noite normal.

Estava em um pequeno transe tentando finalmente despertar e me ligar a realidade, olhei para o lado e vi Cory e Mike deitados sobre as redes parecendo dois defuntos, foi quando o nome de Will saltou em minha cabeça. Meu coração acelerou, corri rapidamente até a estufa e lá estava Berry.

— Bom dia Loren. Você está bem? – Disse Berry cortando alguns vegetais nativos.

— Onde está todo mundo?

— Se acalme, pode ficar tranquila que Anne já nos contou o que aconteceu com Will e todos foram lá ajudar. Sente aí e coma alguma coisa. – Ele puxou um banco de madeira do canto do cômodo.

— Não eu não posso ficar. Eu preciso ir ajudá-los.

— Não se preocupe, já foram pessoas o suficiente para lá. Fique aqui e se acalme logo eles estarão de volta.

— Uma pergunta. Como eu acordei naquela rede ali?

— Pietra como sempre saiu para sua caçada matinal e encontrou vocês caídos no meio da selva. Acho que vocês foram pegos pela neblina do sono.

— Neblina do sono?

— Sim, é uma espécie de fumaça que uma espécie de flor solta durante a noite. É como se fosse uma anestesia.

— Entendo, mas infelizmente eu não posso ficar. Eu vou atrás deles.

— Você vai ir sozinha? Você não sabe nada sobre andar pela selva.

— Eu sei sim, já não é a primeira vez que eu irei ao vale. Agora eu digo o mesmo para você, pode ficar tranquila eu vou ficar bem.

Revirei-me e voltei até a alcova, calcei minhas botas, coloquei a mochila nas costa e amarrei o cabelo. Subi até o segundo andar e fui até o Maffy, retirei algumas sementes da mochila e dei a ele. O bichano parecia feliz ele rondou por todo o meu corpo se arrastando em mim. Ver aquela criaturinha de alguma forma me acalmava.

Depois de passar alguns poucos minutos, desci as escadas e estava pronta para partir. Berry estava na porta me esperando com uma lança e uma garrafa.

— Tome isso, você pode precisar. – Disse ela entregando-me os objetos. – Agora vá, mas tome todo cuidado possível.

— Eu já disse, eu vou ficar bem. – Trocamos um breve sorriso e parti.

Caminhava pela floresta apreensiva, pois criei uma coragem imaginária para poder fugir dos meus medos. Era como se a cada passo eu sentisse que quebrava uma barreira e ultrapassava os meus limites. – Eu preciso seguir e ser forte. – Repetia essa frase diversas vezes a mim mesma.

Depois de caminhar durante duas horas parei a beira de um rio e sentei em uma rocha, respirei fundo, bebi alguns goles de água e fiquei ali sentada por alguns minutos pensando e olhando as águas pluviais se arrastarem. Enquanto fitava a correnteza meus olhos eram hipnotizados pelas águas e meus músculos relaxavam gradativamente, pois não haviam descansado o suficiente.

Eu não posso perder tempo! – Levantei-me; fui até o rio e com as mãos em concha molhei o rosto para despertar. Quando revirei-me para prosseguir uma criatura enorme como uma pantera roxa cintilante de dentes enormes pulou em cima de mim. A pressão me fez cair no rio e ser levada pela correnteza. Agarrei-me num tronco e nadei até a outra margem do rio, porém o bichano ainda se encontrava do outro lado da margem. – O que acabou de acontecer? O que eu vou fazer? – Meu coração batia acelerado e começava a ter uma crise de falta de ar, titubeie até o tronco de uma árvore para recuperar o fôlego.

Do outro lado, a criatura rondava a margem tentando encontrar alguma forma de atravessar. Tudo aconteceu tão rápido que minhas ações eram tomadas por impulso, não conseguia raciocinar em uma saída dali. Fechei os olhos matutando uma maneira de atravessar o rio sem ser pega, mas não encontrei nenhuma solução. Quando olhei novamente para o outro lado o animal havia subido em uma rocha e estava pronto para pular.

Agarrei-me na árvore e comecei a subir. – Alguma hora ele iria desistir. – Estava quase chegando ao topo dos galhos quando o bichano pulou em cima do tronco e arranhou minhas pernas. Mesmo com dificuldade, continuei a subir. Já lá em cima eu precisava de um plano. Olhei para o outro lado do rio e minha lança estava caída do outro lado da margem. – O que eu faço? – Quando eu achava que as coisas não poderiam piorar a pantera roxa saltava sobre o tronco da árvore fazendo ela sacolejar, escorreguei com um dos pés, porém rapidamente voltei a me estabilizar ali em cima agarrando em seu tronco central.

A força com que o animal fazia sobre o tronco mostrava as primeiras rachaduras. — O tronco iria partir e a árvore iria cair, sendo assim, eu estava perdida. – Peguei a garrafa no bolso externo da mochila e quando a criatura tomava impulso para mais um salto joguei a garrafa de ferro sobre o rosto do bichano. Ele gemia de dor, seu rosto criou uma marca de sangue e o animal recuava. – Acho que deu certo. – Entretanto depois da dor veio a raiva, o bicho se levantou e partiu em choque com a árvore, a força foi tão intensa que quase metade do tronco se partiu.

O que eu fiz?! – o animal fez seu segundo ataque e a árvore sacolejou completamente, no próximo choque era o meu fim. Tirei a mochila das costas e retirei uma serra – Essa era minha única chance. – Pensei em cortar um galho na hora que ele viesse. Peguei a serra e apunhalei como uma espada. Comecei a cortar o galho devagar de forma que ele só precisasse de um golpe final. – Era matar o morrer. – Meus olhos se arregalavam, minhas mãos tremiam e meu cheiro exalava pavor. Aqueles segundos eram angustiantes. – Eu não sei se consigo fazer isso. – Enquanto isso, parecia que o animal tomava fôlego para o bote.

Comecei numa contagem regressiva. Eu estava pronta, ou precisava estar. A criatura começou a correr ele estava se aproximando e quando chegou a hora certa, eu falhei. Eu consegui pular de uma árvore com uma faca para matar um atirador para proteger as pessoas, mas não consegui cortar um galho para salvar a minha própria vida. Quando o animal saltou sobre o galho, a árvore tombou e antes que ela pudesse chegar ao chão meu pé escorregou e a serra foi direto ao rosto do animal, sua cabeça rolou e seu sangue espirrou sobre todo meu corpo.

Eu havia matado ele e eu estava viva, mesmo fora dos meus planos eu sobrevivi, no entanto eu não fui corajosa. O sangue em meu corpo fazia-me sentir um monstro, corri até o rio e mergulhei, eu queria estar limpa isso fazia com que eu me sentisse livre. Mergulhava e nadava contra o curso da água e quando subi para superfície era como se sentisse um sentimento nostálgico de estar em casa.

Depois de relaxar saí do rio, recolhi minha mochila, utensílios e lança e parti para finalizar meu objetivo. Caminhei durante mais algumas horas até chegar a entrada do vale, desci as rampas de terra e perambulava pela floresta, fiz questão de reunir mais algumas sementes. Andei até a abertura da gruta e lá estavam eles, todos trabalhando em retirar pedras. Aproximei-me e fui até Frank que se encontrara mais próximo.

— Como estão indo? – O menino levou um susto ao me ver.

— O que está fazendo aqui? Como chegou aqui sozinha?

— Isso não importa vocês já conseguiram falar com ele?

— Porque o seu cabelo está molhado? – O garoto me olhava confuso.

— Eu não te perguntei isso.

— Ah tudo bem, você chegou em boa hora. Eles estão tirando a última pedra do topo, assim provavelmente teremos uma abertura para falar com ele.

— Obrigada. –Corri em direção a montanha de pedra para ajudar.

— Ei, onde você está indo? – Ignorei a pergunta. Subia cada pedregulho como se estivesse escalando a montanha mais alta do mundo.

— Loren? O que faz aqui? – Perguntou Tina espantada.

— Quantas vezes será que eu vou ter que repetir para todo mundo. Vem anda, eu vim para ajudar.

Eu, Tina, Ralf, Kim, Nofre, Jihan, Zenaya e Sarah empurrávamos a rocha com todas as nossas forças a pedra foi abrindo brecha e cada vez mais sentíamos mais forte, fizemos todo esforço até que a pedra rolasse do topo e chocasse contra o chão. O pedregulho não revelou um espaço muito grande, mas já dava para observar a caverna internamente.

Fiz questão de ser a primeira a olhar, infelizmente eu preferia não ter visto. Do outro lado, havia um animal gigantesco, sangue e órgãos por todos os lados e único vestígio de Will eram pedaços de pano de sua blusa dilacerada. Chegamos tarde demais. Mesmo que não fosse culpada, sinto que eu fiz tudo isso.