The New Continent
27 Capítulo 26 – Vermelho.
Will
22 Fevereiro, 2200, 00:35.
Uma queda que fez meu mundo girar. Uma chuva de pedras que fez meu mundo desabar. Uma escuridão e um silêncio que fez meu mundo enlouquecer... Nem um feixe de luz, nenhum resquício sonoro. Eu estava em completo isolamento. Depois do desabamento eu contava os segundos para não perder a noção do tempo, porém após algumas horas, a boca ficou seca e as palavras já transcorriam com certa dificuldade.
Minhas últimas lembranças foram à fuga Anne e um aprisionamento um tanto inusitado, contudo o mais irônico é estar preso num lugar em que eu já estava aprisionado. – Eles vão voltar para me tirar daqui. – Em meio ao breu, eu repetia para mim mesmo essa frase. Antes de tudo eu precisava me fazer acreditar ou aquele seria o meu fim.
A solidão me fazia frágil e vulnerável. Conforme o tempo passava meus pensamentos se tornavam cada vez mais pessimistas. – Será que ninguém virá? Eu vou morrer aqui sozinho? – Mesmo com tudo isso o que mais me incomodava era o fato da incerteza de que toda a minha vida teria ou não valido a pena.
Pouco a pouco parecia que meus pensamentos iriam saltar da minha cabeça. O tempo transcorria a ideia de estar imóvel, como se talvez aquelas poucas horas se tornassem a eternidade. – Eu só quero sair daqui. – Gradativamente as horas e minutos iam se passando e eu era tomado de tais reações impulsivas, como por exemplo, uma vontade enlouquecedora de querer gritar e quebrar tudo em minha volta. Era como se eu estivesse me transformando em um ser incontrolável.
Eu gritei, precisava ouvir minha voz e reconhecer que eu ainda era eu mesmo, entretanto depois de uma série de pensamentos para achar uma solução, eu decidi dormir. Acho que essa seria a melhor forma de relaxar e esperar ajuda, mesmo que ela nunca chegue e tudo passe a ser falsas esperanças.
Não tinha nenhuma noção de tempo só sei que eu acordei e nada havia mudado no ambiente, contudo a sensação mais traumatizante foi acordar e não sentir uma das minhas pernas. Não conseguia movimentá-la era como se ela não fizesse mais parte do meu corpo. Sentia um calafrio mesmo transpirando excessivamente. – O que estava acontecendo? – O mais assustador foi olhar para o lado e ver Herly com uma faca em uma das mãos toda ensanguentada e o corpo de três pessoas caídas sobre o chão. Não sei como, mas no meio da escuridão eu conseguia vê-los. O garoto se aproximava e eu tentava me esgueirar para trás sem sucesso.
— Já foram sua mãe, seu pai e sua avó. Agora só falta você. Não vai doer nada. – Ele apunhalou a faca.
— Não! – Gritei em desespero.
De repente tudo pareceu desaparecer e o breu voltou a reinar. Logo em seguida meu relógio de pulso acendeu e era uma chamada conferência de Steve. – O que ele quer? – Não nos falávamos há algum tempo. Aceitei a chamada e seu holograma apareceu.
— O que estava pensando? Você ficou maluco. Quer se matar! – Gritava o mais velho sem ao menos eu entender tal motivo.
— Me matar? Foi ele quem veio para cima de mim. – Retruquei.
— Em cima de você?... Espere aí, quem estava indo em cima de você? – Fiquei um pouco confuso com a pergunta.
— Você não viu? O Herly! – Falei demonstrando ser o mais óbvio possível.
— Essa não, eu preciso que você me escute... Você precisa sair daí o mais rápido possível.
— Sair daqui?! Ficou louco, eu mal sinto as minhas pernas.
— A sua circulação deve ter parado, mas eu preciso que você use toda a sua força para poder arrastar algumas pedras e dar o fora daí. Seu oxigênio parece estar diminuindo e você já está começando a ter alucinações. Eu sei que você me mandou cair fora e te deixar em paz para você decidir aquilo que você quiser, mas só me obedeça por alguns minutos ou você vai morrer antes que qualquer pessoa venha te salvar.
Enquanto ele falava era difícil assimilar tudo aquilo. Eu havia escolhido não mais seguir as ordens de Steve, mas e se ele estiver certo, se eu morrer aqui por causa do ego.
— Anda logo, você quer salvar a sua vida ou não. – Murmurou Steve.
— Tudo bem, o que eu faço?
— Bem, primeiro de tudo tente se virar. – Retorcia meu corpo contra o chão e tentava rolar, demorou algumas tentativas, mas consegui.
— E agora? –Perguntei.
— Agora arraste com cuidado as duas pedras que estão sobre os seus joelhos e quando elas caírem você tem que retirar a sua perna rapidamente antes que outra caia em cima e o estrago seja pior, você acha que consegue?
— Eu tenho que conseguir. – Declarei com firmeza.
Primeiramente, respirei fundo, ajeitei-me em uma posição e comecei a usar toda minha força para empurrar. Era mais difícil do que parece. – Eu não posso desistir. – Foquei meus pensamentos em minha família e parece que tudo transcorreu mais fácil, quando a pedra rolou para cair retirei a minha perna e tudo pareceu dar certo.
— Ótimo, deu certo. Agora eu quero que com cuidado você faça a mesma coisa para retirar a outra perna.
— Infelizmente eu não consigo mover a minha outra perna.
— Eu sinto muito, mas você precisa tentar. Impulsione seu corpo para trás quando chegar a hora e vai dar tudo certo. Você não pode parar agora.
— Eu vou tentar.
Respirei fundo mais uma vez e comecei a juntar forças para empurrar. Empurrava com cuidado, eu podia não ter outra chance. Quando ela estava quase caindo eu fui tomado por um medo tão grande que desisti.
— Ei o que está fazendo, por que parou?
— Eu não posso, eu não vou conseguir.
— Olha só se acalme o importante agora é salvar a sua vida. Então, esquece se você não conseguir tirar a perna. Qualquer coisa eu te ajudo a amputar, ai você vai precisar ter mais coragem do que isso aí.
— O que? Não é você que vai ficar sem uma perna. Cretino. – Retruquei esbaforido.
— Escute bem, eu só quero muito que você viva. Então caso o pior aconteça eu faço de tudo e te tiro desse lugar.
— E como você vai explicar a minha família que o filho deles voltou perneta?
— Isso é o de menos, por favor, eu só peço que tente. – Ele me olhava me passando confiança. Um olhar que eu nunca havia visto antes. Pensei por mais alguns segundos, por fim, aceitei.
Rolei cuidadosamente a pedra para o lado e quando ela estava prestes a cair, impulsionei meu corpo para trás e como um bebê em um parto eu consegui sair. Pareceu uma vitória até uma dor insuportável tomar minha perna por completo. Gritava de dor e me debatia sobre o chão. A operação final não foi um sucesso. Antes de retirar a perna por completo a pedra superior abriu uma fratura sobre o meu fêmur e tudo aquilo virou um marejar de sangue.
— Will deu certo. Eu sei que está com muita dor, mas tudo deu certo, pulamos até mesmo uma etapa. Você precisa aguentar a dor e deixar o sangue sair. Você sentir dor é um bom sinal e a saída de sangue vai proporcionar uma circulação mais rápida, então, aguente mais um pouquinho e tente não desmaiar.
Eu conseguia escutá-lo, porém toda minha atenção se concentrava em minha perna. Mesmo assim, consegui assimilar algumas palavras. As sensações de desmaio iam e viam a todo segundo e eu lutava contra meus impulsos.
— Quanto tempo eu vou ficar assim. – Eu gritava e tentava abafar a dor.
— Tire a sua camisa e rasgue-a para formar uma espécie de gaze para estancar o sangue. Agora!
Em meio à dificuldade e com toda a dor eu tentava retirar a blusa. Tirei a mochila e o colete. A camisa parecia estar grudada em meu corpo. Minhas emoções eram tomadas pelo desespero, parecia que eu estava à beira do abismo, mas depois de uma série de tentativas eu consegui. Rasguei a camisa com os dentes pressionei-a sobre a fratura e a amarrei. A dor parecia diminuir, logo, rasguei mais alguns pedaços e fiz um curativo maior.
— Isso Will, você conseguiu garoto. – Steve parecia orgulhoso e feliz o que me pareceu estranho.
Não conseguia responde-lô havia passado por um momento de tensão muito forte. Eu relaxava aos poucos, mas acredito que ainda estava um pouco traumatizado. A dor ainda latejava, todavia era suportável e de alguma forma eu sentia o sangue voltar a minha perna e aquela que parecia meio cinza parecia voltar à cor da pele aos poucos.
— E agora? Como vamos sair daqui? Você não espera que eu retire todas essas pedras do caminho não é?!
— Não, não é nada disso. A caverna tem outra saída pelo lado leste, você vai ter que andar até lá. Esse é o seu único desafio. O holograma vai te oferecer luz para adentrar e fique tranquilo que vocês espantaram todos aqueles bichos voadores de luz para fora desse buraco.
— Entendi não parece ser um plano difícil levando em conta todos os outros. – Um silêncio pairou no ar e uma dúvida inquietante surgiu. – Por que me ajudou? Foi por causa do seu trabalho? Ou seu senso comum?
— Infelizmente eu não posso negar que grande parte disso foi sim por causa do CAIG, mas eu também não digo que meu senso comum agiu rápido.
— Então, caso eu perdesse a perna você não ia me tirar daqui não é? Você pensou no seu trabalho na hora? – Era notória a sua mudança de expressão. – Hein, o que você disse não era verdade não é? – Ele respirava fundo tentando pensar em uma resposta.
— Eu não vou mentir. Não eu não poderia tirá-lo daí, mas não porque eu não queira, mas porque eu não posso.
— Mentiroso desgraçado, você está brincando com a minha vida como se fosse algo qualquer. – A raiva subia a cabeça.
— Esse mesmo mentiroso que podia deixar você morrer. Nem todo mundo é como eu Will. Muitos deixariam você morrer e bater a cabeça naquela rocha.
— Bater a cabeça? Do que você ta falando?
— Quando você teve alucinações você estava indo direto com a cabeça contra a rocha. Eu podia deixar você morrer lentamente com a cabeça aberta, mas eu também sou humano. – Repensei alguns segundos.
— Tudo bem, então para eu confiar em você novamente eu quero que me faça um favor. – Comecei a jogar as cartas na mesa.
— Que tipo de favor? Do que você está falando? Salvar sua vida já não foi o suficiente?
— Não! Eu tenho um amigo com uma fratura exposta prestes a morrer. E eu sei que você pode dar um jeito nisso. Eu também estou com uma fratura e preciso do mesmo antídoto, então, anda logo eu preciso que você me ajude e as suas dívidas estarão quitadas.
— Eu não lhe devo nada, além do mais isso está fora dos regulamentos, sem condições de eu fazer esse tipo de coisa.
— Se não for por eles faça por mim. Steve eu estou suplicando seu lado humano agora. – Ele parecia irredutível, mas eu não podia desistir. – Por favor, Steve me ajude.
— Ai que raiva seu imbecil de merda. Eu já avisei para você, mantenha a sua pele viva e esqueça os outros. Você não sabe a intenção deles. Você é um tremendo idiota, mas eu vou te ajudar. Sendo assim, você vai ter que me ouvir a partir de agora e eu posso te xingar do que eu quiser.
— Fechado. – Sorri. – Mas pode deixar que eu tomo cuidado e eu sei onde eu piso.
— Bom, o vale tem diversas dessas sementes. Entretanto a que vocês procuram não está aí. Por sorte ela se encontra do outro lado da gruta, não se preocupe que faz parte do caminho. Elas são sementes vermelhas que provocam um efeito regenerativo, ela vai servir para você e o seu amigo, então não me decepcione. Agora anda logo, suas pernas já estão melhores para poder andar, tente-se levantar.
Aos poucos me esgueirei até a parede rochosa e comecei a levantar e até que não foi tão difícil. Apoiava-me nas paredes e mancava com uma das pernas. O peito nu agora eu olhava a camiseta no chão coberta de sangue e completamente dilacerada. – Não havia como resgatá-la. – Pus o colete apenas e segui. A luz do holograma provocava uma penumbra que me permitia ver e caminhar pela caverna.
Enquanto andava, eu e Steve conversávamos sobre tudo aquilo que havia acontecido nos últimos dias, ele sabia de detalhes que eu mal houvera notado. – Como ele sabia tudo aquilo? Existem câmeras pelos locais? – Tentei perguntá-lo, mas parece que ele mudou de assunto. Como ele soubera de tudo que havia ocorrido ainda será um mistério, entretanto no momento não me importava muito pelo fato de apenas querer sair daquele lugar.
Passávamos por lugares que alternavam em pequenos corredores rochosos e tortuosos até aberturas amplas com diversas bifurcações que formavam uma espécie de labirinto. O chão era infestado de poças d’água pelas goteiras das estalactites. Aqueles poucos quilômetros se tornaram uma eternidade com o meu andar, porém depois de uma longa jornada, ao final de uma curva eu já conseguira ver a luz solar. – Era o fim.
Quando estou contornando a última rocha, avisto na entrada da gruta um animal gigantesco. Ele era muito maior que um Tetradius, parecia um urso com a pele alaranjada recoberta por espinhos negros, uma calda comprida com a ponta afiada, garras pequenas e uma antena na cabeça que emitia uma luz. Tive um reflexo rápido, joguei-me atrás de uma pedra. O corpo em contato com as pedras do chão me causou alguns arranhões, mas não podia reproduzir nenhum murmúrio oprimido de dor. – O que faço? – Desliguei a chamada do holograma para a luz não chamar a atenção, sendo assim, eu estava sozinho.
Só me restara esperar. Eu não tinha forças para andar e muito menos para lutar contra uma criatura duas vezes o meu tamanho. Olhei por uma brecha do pedregulho e o animal estava no meio de uma refeição, carregava em sua boca outro animal dilacerado que não era possível identificá-lo. – Droga! Ele ainda vai demorar. Preciso sair daqui o quanto antes. – Vasculhei minha mochila a procura de algo que me ajudasse. Achei uma chave de fenda. Fechei a mochila, levantei-me em posicionamento para correr e joguei a chave para dentro da caverna. O barulho atraiu o animal que correu rapidamente para o interior da gruta. Quando ele saiu do meu campo de visão corri em direção à enorme abertura.
A luz do sol causou-me incomodo e a minha visão se tornou meio turva. – Já havia amanhecido. – Cambaleie para longe, queria estar o mais longe possível dali. A visão gradativamente foi se estabilizando e ver todas aquelas árvores me fizera ter uma maior sensação de alivio. Sentia o ar mais rápido ventilando os pulmões e perpassando meu rosto ressecando o suor. De alguma forma eu me sentia livre.
Depois de alguns metros eu consegui avistar uns arbustos com as sementes avermelhadas – Steve estava certo, ele não mentiu dessa vez. – Devorei algumas semente e recolhi o máximo e as guardei na mochila. Andei por mais alguns segundos e uma pressão muito forte recaiu sobre a minha cabeça e depois de lutar tanto eu decai no chão e desmaiei.
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