The New Continent
21 Capítulo 20 – Exército.
Notas iniciais
Will
18 Fevereiro, 2200, 05:00.
Estava em um sonho tranquilo até ser acordado pelas mãos de Loren sobre a cabeça. A menina não disse absolutamente nada, apenas sorriu e se direcionou até a uma rede antes de deitar e dormir com os outros. Já estava na hora do meu turno de vigilância, assim pelo canto dos olhos avistei Tina de pé calçando as botas e arrumando o cabelo. Ainda sonolento levantei-me, estiquei os braços e pernas e por fim um bocejo me fez despertar e ir até uma bancada pegar minhas botas as calcei e fui até a janela. O céu estava parcialmente escuro com apenas alguns resquícios do amanhecer e as marés começavam a se agitar.
Quando me dei conta Tina já havia saído do cômodo, em seguida sai da alcova e a morena estava sentada em um dos degraus da escada exterior, olhando fixamente o horizonte. Antes de me juntar a ela, fui até a estufa e peguei um pouco de água que restara do dia seguinte para lavar o rosto e em seguida fui ao seu encontro sentando ao seu lado:
— Bom dia! – Espreguicei-me mais uma vez. – Ou boa noite, seja lá que horas são.
— Vamos considerar o bom dia, afinal já vai amanhecer não é verdade. – A garota diz sem ao menos tirar o foco de sua visão.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, pois talvez ainda perpassasse pelas nossas cabeças todo o fato da noite anterior que de algum modo preferíamos esquecer ou pelo menos deixar de lado. Até que Tina finalmente saiu de seu ponto de concentração e me surpreendeu com uma pergunta:
— Por que escolheu a mim? Quero dizer, por que escolheu a mim para ser a sua acompanhante da noite? Você e Loren são muito mais íntimos e...
— Essa é a questão. Tentei miscigenar os grupos de uma forma também racional, dando a oportunidade para todo mundo se conhecer melhor, criar laços mais firmes, entende?!
— Eu compreendo, na verdade isso foi uma ótima ideia, mas sinto que não foi somente por causa disso acertei?
— Bom... Você tem razão. Ainda não me conformo com o que aconteceu ontem. Estou tentando entender melhor a situação e o porquê disso tudo ter acontecido. Eu pessoalmente não conheço muito a Pietra, mas você acha que é verdade tudo o que aconteceu? Acha que ela seria capaz de ter feito tudo aquilo?
— Will, sinceramente eu não sei nem mais o que é a verdade. Estou tão confusa quanto você mesmo conhecendo Pietra há mais tempo, e pensar que Berry fez tudo aquilo é quase inacreditável. Elas eram as únicas amigas que eu tinha aqui dentro e ambas se foram. – Seus olhos começaram a se encher de lágrimas e sua voz começou a ficar cada vez mais embargada.
—Por favor, se acalme. Se não quiser continuar a falar, paramos por aqui. – Disse consolando-a em um abraço. Ela limpou as gotas do rosto e em seguida se afastou devagar.
— Bom... Eu só posso afirmar uma coisa. Pietra é e sempre foi apaixonada por Oliver, então se toda essa história for real há possibilidade de ela ter feito isso por mera vingança. Depois que Oliver morreu Pietra nunca mais foi à mesma, seu coração se amargurou de uma forma tão surpreendente que ela se fechou para o mundo. Não conheci Herly, no entanto acredito também na possibilidade de ela ter sido usada por ele sem ao menos saber, na verdade são muitas as hipóteses e talvez eu só não queira acreditar na verdade.
— Você tem razão, podemos estar pondo interrogações onde já existe um ponto final. Porém e a história de que Berry foi à primeira, será que ela pretende vir atrás de mais alguém?
— Eu não sei, não consigo confiar mais em ninguém. Contudo acho melhor ficarmos atentos.
Deixamos aquele assunto de lado e começamos a conversa sobre outros assuntos, nos conhecendo melhor. Tina era uma Surfista profissional no Peru, no entanto os pais queriam que ela arrumasse uma “profissão de verdade’’ Por isso mandaram para o CAIG e isso foi à pior coisa que já aconteceu em sua vida. Contei junto a isso um pequeno relato da minha vida e assim começamos a criar um ciclo de confiança.
O sol nascia no horizonte, àquela enorme esfera de tons tropicas. Alguns animais semelhantes ás aves dispersavam seus sons e a luminosidade penetrava nossos olhos que se comprimiam. Era hora de acordar a todos. Ficamos esperando um pouco mais para ver aquela paisagem exuberante do amanhecer e renovar as nossas forças e a paz de espírito. Tudo aquilo parecia tão normal como se fossemos amigos há anos apreciando a vista em uma praia qualquer, sem ao menos levar em conta que ainda estava em Alfalumia com uma garota que ressuscitou.
Quando o sol nasceu, levantamos e fomos até a alcova acordar os outros, pouco a pouco todos foram gradativamente levantando-se das redes e se preparando para um novo dia. Fiquei apreensivo em acordar o Cory, mas mesmo assim o fiz. Diferentemente do imaginado, o garoto não reagiu a qualquer tipo de estimulo agressivo, ele simplesmente não expressou nada em seu semblante, ficou sentado na rede por algum tempo antes de levantar e sair em direção a praia. O segui observando seus passos. Nenhuma palavra sequer saiu de sua boca, ele foi até o mar; lavou seu rosto e sentou sobre a beira d’água, fitando a paisagem.
Os outros já haviam se aprontado e esperavam na estufa na esperança de que alguém lhes dissesse o que fazer, pois todos ainda pareciam confusos e desorientados. Juntei-me a eles e todos os olhares direcionaram-se a mim como visões robóticas, junto ao silêncio dos burburinhos que se calaram à espera de um discurso.
— Então Will, o que vamos fazer? – Todos pareceram fazer a mesma pergunta mentalmente, no entanto esta veio de Ralf. – Vejo que Cory não está em condições de decidir alguma coisa e não podemos ficar aqui parados, não temos nem ao menos água.
— Tudo bem, tudo bem... Eu entendo que vocês estejam preocupados, mas vamos com calma. Bom... Tenho certeza de que todos aqui ainda estejam assustados com tudo o que aconteceu ontem à noite, no entanto eu peço para que por um momento esqueçam-se disso tudo, tudo bem?
— Como podemos esquecer? Tudo aquilo foi muito sinistro e confuso e além do mais temos uma assassina rondando por ai, espera que fiquemos tranquilos com isso. – Indignou-se a oriental.
— Como eu disse anteriormente, eu entendo o que esteja passando pela cabeça de vocês porque eu também estava lá, mas como Ralf falou, temos outras prioridades no momento, precisamos de comida.
— Eu concordo, poderíamos perde o dia inteiro falando sobre o que aconteceu ontem e isso não nos levaria a nada, acho importante esse debate, mas não é hora para isso. – Comentou Loren em destaque.
— Bom... antes de tomar qualquer decisão, alguém tem mais alguma coisa a dizer. – Todos se entreolharam e ninguém opinou, sendo assim prossegui. – Tudo bem, Ralf ontem você disse que encontrou uma caixa de suprimentos e que a guardou em algum lugar, você saberia nos levar lá?
— Sim é claro, as rochas ficam perto do acampamento dos andarilhos, podíamos passar por lá para conhecê-los. Confie em mim, ele são pessoas legais, dispostas a ajudar.
— Tudo bem, falamos sobre isso no caminho, então já temos um plano por hoje. Iremos atrás da caixa todos nós, sem exceções, assim estaremos mais seguros e acredite que carregar aquela caixa não é nada fácil.
— Acha mesmo uma boa ideia deixar a cabana sem ninguém? – Interrompeu Tina.
— A cabana é apenas alguns pedaços de madeira, melhor arriscá-la do que arriscar vidas, não concorda? – A garota concordou e então prossegui. – Para finalizar arrume suas mochilas e preparem as pernas porque a viagem é longa.
Todos ali saíram para arrumar suas tralhas. Ainda faltava o trabalho mais difícil, convencer Cory de ir conosco. Saí da alcova e segui em direção a praia, ele ainda estava lá sentado olhando o infinito como da ultima vez. Sentei ao seu lado e novamente não disse uma palavra se quer. Era notório sentir o luto em seu espírito mesmo diante de toda aquela atrocidade. Sua alma estava morta junto a sua vontade de viver. Dessa vez o silêncio permeou por muito tempo e não o tínhamos a perder, sendo assim introduzi a conversa:
— Eai amigão, como você está? – Demorou alguns segundos mais finalmente ele respondeu.
— Como espera que eu esteja? – Perguntou com desdém.
— Tudo bem, essa pergunta foi um pouco idiota, mas saiba que jamais vou desistir de você.
— Por que, continua a acreditar em contos de fadas... Esquece, você é imaturo demais para entender.
— Olha só, é você que não entende! Esse lugar ainda não me transformou, ainda sou humano e possuo minha moral, mas vejo que mesmo desse jeito você ainda continua teimoso e ignora as pessoas, não entende que nós estamos aqui, porque nos importamos com você, que se não ligássemos não faríamos questão de saber se você está bem. Berry tinha razão, você está cego demais. Eu só digo uma coisa, aproveite enquanto as pessoas estão estendendo as mãos para você e sai desse buraco ou será tarde demais. – Levantei virando as costas e indo embora.
— Espera... Por favor. – Parei no meio do caminho, me virei voltando para onde estava. – Eu não sou acostumado com isso, nunca fui de pedir ajudar, mas infelizmente eu não posso deixar meu ego sobressair, por favor, me perdoe. – Enquanto isso o resto das pessoas saiam da cabana prontas para partir.
— Não precisa de perdão, venha levanta. Vamos esvazia essa cabeça. – Disse estendendo a mão, e o menino a segurou e levantou-se, sendo assim juntos fomos em direção aos outros. Tina entregou a Cory sua mochila e agora estávamos todos prontos. – Todos prontos?! Aí vamos nós.
Adentramos a selva e seguimos na direção noroeste, a paisagem já era quase banal, sem muitas surpresas. Ficamos atentos a todos os detalhes, caso houvesse um ataque inesperado e ao contrário da noite anterior as pessoas pareciam cada vez mais recuperadas. Caminhamos por algumas horas entre árvores, rochas, rios, sendo assim preparávamos para uma pausa. Mesmo com toda exaustão é nítido perceber a união de um com os outros, afinal estamos todos num mesmo barco.
A distância parecia não ter fim, quando decidimos parar no sopé da montanha, a praia onde estava à caixa ficava logo após alguns quilômetros do local. Enquanto vínhamos Loren e Tina haviam recolhido algumas frutas e no caminho, não eram muitas, mas o suficiente para todos nós, e assim as redistribuiu. As garrafas de água também estavam cheias, visto que passamos por uma série de riachos. Sentamos em pontos estratégicos para ficar de espreita, caso acontecesse uma emboscada. Ralf e eu sentamos sobre uma pedra mais alta, com vista para os outros. Quase que simultaneamente começamos a comer, depois de alguns segundos sem mensurar nenhuma palavra, decidi iniciar:
— Bom, creio eu que a conversa de ontem ainda não terminou. E bom... Essa é à hora, quero saber suas propostas? Acha mesmo que deveríamos ir até esse novo grupo?
— Eu não vejo outra opção, eu sei que é arriscado, mas acho que vale a pena, não quero mais ficar nesse lugar nem por um segundo. – O moreno carregava um semblante sério, olhando para o além. – Bom, se o que você quer saber é se são realmente pessoas de confiança, eu acredito que sim, me trataram muito bem e acho que não vai ser diferente dessa vez.
— Confia tanto neles a ponto de se sacrificar? – Perguntei descrente.
— Não é sacrifício quando se já está morto. – A frase se tornou tão impactante dentro de mim que optei por mudar de assunto.
— Falando em mortos, o que você acha que o psicopata do seu amigo Herly, anda fazendo por ai?
— Herly está doente, ele não é assim.
— Como assim? – Indaguei. – Afinal, nunca nos contou como se conheceram.
— Eu fui fraco e covarde esperando a morte. Desde que eu vim para cá... Com toda essa loucura de estar no fim do mundo, em meio a isso tudo, Herly me salvou. Estava prestes a morrer afogado, quando o conheci. Ele me tirou da água e me perguntou por que eu tinha feito aquilo. A questão foi eu não ter a menor ideia do quê responder. Começamos a conversar e ele me convenceu do contrario, e foi a partir dai que começamos a sobreviver juntos e prometemos ajudar os próximos que encontrávamos. Ele era feito de bons ideais, seu objetivo maior era salvar as pessoas...
— Como ele se tornou o que ele é hoje? O que aconteceu?
— Bom, não tínhamos os mesmos ideais. Depois que o número de pessoas aumentou em nosso grupo, decidimos então parar de migrar e construir uma espécie de refúgio. Acho que a ideia de permanecer ali era boa aos seus olhos, desse modo Herly acreditava que esse lugar podia ser bom, um novo recomeço.
— Mas... Esse lugar é um inferno, por que ele queria viver aqui? Isso é loucura. – Indignei-me.
— Você não entende Will, o mundo lá fora também não é bom, ainda mais quando a guerra se torna rotina. – O mais velho fez uma pausa e concomitantemente continuo. — Herly e eu somos de países onde há zona de batalha todos os dias. Ver pessoas morrendo na sua frente, observar a miséria da destruição e da dor tendo que muita das vezes passar fome. Somos de regiões paupérrimas onde nenhum ser humano se quer deseja viver. Ter o CAIG como oportunidade de sair dali, é quase um milagre. Para Herly estar aqui é o seu paraíso, no entanto ele não entende que continuamos em uma guerra oculta e que estamos presos e sendo manipulados, entretanto para ele isso não importa, visto que ele possa dormir sem o barulho de uma explosão. Foi então que um dia eu cogitei em fazer uma rebelião para fora daqui, e a partir daí ele enlouqueceu, não queria deixar esse lugar de jeito algum, talvez seja culpa minha, mas eu juro que tentei concertar as coisas, porém já era tarde demais.
— Não é culpa sua ambicionar um futuro fora daqui...
— Eu sei, no entanto se eu não tivesse feito isso, pessoas não iriam morrer. – Pela primeira vez, as lágrimas começaram a escorrer daquele grandalhão. — Desde que chegaram à vila e Herly descobriu os planos propostos por Cory, ele fez de tudo para que isso não acontecesse. Eu não sabia do que ele era capaz e das loucuras que ele podia fazer, de alguma forma eu sinto que poderia ajudá-lo. Éramos amigos e agora eu tenho medo do que ele pode fazer.
— Independentemente do que fizesse Herly já tinha as suas ideologias. Não há como concertar isso, apenas continue e evite pisar em falso. Eu entendo que no estados que estamos um erro pode ser fatal, mas não fomos preparados para estar aqui. – Levantei-me e limpei a calça. – Venha, chega de remexer no passado, vamos até esse novo grupo. Precisamos recomeçar.
Ralf levantou-se limpando as lágrimas e reencontramos os outros para continuarmos a caminhada. Subimos por alguns quilômetros, parecia nunca ter fim até chegarmos à parte plana do planalto e começarmos então a descer. O percurso durou por alguns minutos até avistarmos uma praia pequena, todavia essa possuía grandes e largas ondas.
— Só faltam alguns metros e então chegamos. – Pronunciou Ralf.
— Nossa que lugar incrível, essas ondas são fascinante. – Comentou Tina.
Não ficamos apreciando a paisagem, partimos direto ao local do esconderijo perto de umas rochas cobertas de musgo e cipós. Ficamos parados em frente à fenda das pedras esperando que Ralf retirasse a caixa para fora, após alguns segundos o menino retornar com um semblante pálido e assustado.
— Ralf o que houve lá dentro? – Quis saber Zenaya apreensiva.
— A caixa... Ela desapareceu. – Disse espantado.
— Achou mesmo que ia nos enganar?! – Uma voz próxima nos rondava.
Quando fitei em volta, estávamos cercados. Havia pessoas em todos os pontos, com lenços nos rostos e lanças nas mãos prontas para nos atacar. Não sabia como agir e nem pensar naquele momento, por um instante eu fiquei estático até que uma interrogação ressaltou sobre minha mente. Será que era tudo uma enrascada?
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