Notas iniciais
Como mencionado no Aviso Legal, a estória se passa no século XIX, na Inglaterra, onde os costumes e tradições são completamente diferentes daqui. Boa leitura, e espero que gostem.

1875

Miku abriu a carta que acabara de chegar da França.

Notou que a letra forte e decidida no envelope não pertencia a seu pai. Por um momento, imaginou que a remetente era sua madrasta. Lembrou-se então de que a caligrafia de Maika era bastante diferente e muito francesa.

"De quem pode ser?", ela perguntou-se.

Miku decidiu que precisava ler a carta para encontrar a resposta.

Ao terminar, voltou ao início e leu outra vez. Qualquer pessoa que a visse naquele momento, saberia que havia levado um choque violento.

Finalmente, sentou-se no banco sob a janela e fitou com olhar distante o jardim à sua frente.

Quase uma hora depois, a porta abriu-se e Luka, irmã de Miku, entrou na sala. Ela estava adorável, os cabelos rosados emoldurando-lhe o rosto ligeiramente corado. Seus olhos azuis tinham a mesma cor do céu.

Luka era tão bonita que parecia ter descido do paraíso.

— Fiz uma cavalgada maravilhosa, Miku! — ela exclamou animada. — Fui até Beacon e não havia vivalma por lá.

Como sua irmã não respondesse, Luka aproximou-se um pouco mais.

— O que aconteceu?

— Recebi... uma carta... da França — a mais velha replicou. — Por favor, sente-se, Luka.

— De papai? — questionou. — E por que isso deveria aborrecê-la?

A irmã de Miku sentou-se na cadeira mais próxima à janela e seus cabelos cintilaram ainda mais à luz do dia.

— É uma carta... — Miku começou devagar — da polícia de Nice.

— Da polícia? — Luka exclamou, assustada. — O que aconteceu a papai?

Miku conteve a respiração.

— Papai... morreu — ela respondeu, afinal — e... Maika também.

Luka limitou-se a fitar a irmã sem dizer nada.

Após um momento, indagou com voz incerta:

— Você disse... morreu?

— Sim. Segundo esta carta da polícia, papai e Maika estavam velejando, como ele sempre apreciava fazer. Uma tempestade súbita abateu-se sobre o iate, que colidiu com um navio cargueiro e... foi a pique. Conseguiram resgatar seus corpos... morreram afogados.

A voz de Miku soava bastante estranha, como se lhe fosse muito difícil proferir as palavras. Luka cobriu os olhos com as mãos.

— Oh, pobre papai! Como ele pôde se afastar tanto assim de nós?

— Achei difícil acreditar também — Miku comentou. — Leia a carta você mesma. Está em francês.

— Sabe muito bem que meu francês não é tão bom quanto o seu — Luka reclamou. — Por favor, diga o que está escrito.

— Como já lhe contei — continuou —, papai e Maika foram velejar. Ambos se afogaram após o acidente e a polícia levou algum tempo para descobrir quem era papai e quem podiam contatar para informar sobre a tragédia.

Miku olhou para a carta que tinha nas mãos e prosseguiu:

— Na verdade, foi só depois de terem lido a carta que enviamos que descobriram o endereço de papai.

— Então a polícia escreveu a carta para você — Luka concluiu. — Quando... tudo aconteceu?

— É difícil acreditar, mas foi há um mês.

— Por que levaram tanto tempo para nos informar?

Por um momento, Miku nada disse. Então, com a voz embargada pela dor, comentou:

— É terrível imaginar que, enquanto nos divertíamos, papai já estava morto.

Um novo silêncio se seguiu. Depois de algum tempo, Luka observou suavemente:

— Mas... ele não se preocupou muito conosco depois de seu casamento com... Maika.

Havia um tom de amargura na voz da menina que não passou despercebido a sua irmã. Luka se levantou de sua cadeira e aproximou-se de Miku, envolvendo-a em seus braços.

— Imagino como deve estar magoada — ela comentou —, pois sei quanto o papai significava para você. Mas sabe, tanto quanto eu, que o perdemos depois que ele se casou com aquela francesa.

Miku conteve a respiração.

— Tem razão — concordou. — Aquela francesa, como você mesma diz, mudou-o completamente. Parece que papai não viveu em Nice usando seu próprio nome, o que significa que ele não desejava ser localizado por nenhum de seus amigos.

— Como ela conseguiu dominá-lo tanto assim? — Luka indagou, completamente aturdida.

Sua irmã não respondeu.

Dois anos mais velha que Luka, ela sabia que Maika havia dominado seu pai inteiramente, fazendo dele um homem egoísta.

O pai de Miku havia ido a Paris, na esperança de esquecer a morte da esposa.

A casa em que viviam pareceu-lhe de repente intolerável e triste.

— Vejo sua mãe em cada canto! — ele comentara a filha mais velha. — Eu me vejo chamando por ela quando entro pela porta de entrada e não consigo dormir à noite sem tê-la a meu lado.

Antes que o pai dissesse qualquer coisa, Miku já sabia o que viria a seguir.

— Tenho de ir embora daqui — resolvera Sir Kotaro Hatsune. — Preciso aprender a ter controle sobre mim mesmo, mas sei que aqui, nesta casa, acabarei ficando louco.

Havia uma tal agonia na voz dele, que Miku não teve dúvidas que o pai dizia a verdade.

— Tem razão, papai — ela respondeu com voz gentil. — É melhor mesmo que se ausente por algum tempo, pois sei que quando voltar vai se sentir bem melhor.

Miku ajudou o pai a fazer as malas e sir Kotaro partiu no dia seguinte, sem levar o valete consigo. Ela sabia que o pai tomara aquela atitude na intenção de esquecer o que sua casa significara para ele durante tantos anos.

Por ser mais velha que a irmã e mais chegada ao pai, sir Kotaro lhe confidenciara que aproveitara muito a sua juventude. Ele tivera vários affaires de coeur, tendo se divertido em Londres e viajado por todo o continente.

Ele podia arcar com as despesas de todos os seus divertimentos e prazeres. Não tinha problemas financeiros. Possuía cavalos magníficos e uma matilha de cães excelentes, com a qual saía para caçar. Tinha ainda dois ou três cavalos que havia ganho vários prêmios em corridas. Sir Kotaro jogava pólo e era membro de dois clubes sofisticados da St. Jaimes: White's e Boodles.

Sem que seu pai lhe dissesse, Miku já sabia que ele fora um homem cortejado por todas as anfitriãs de Londres.

Sempre que ia à França ou a qualquer outro país da Europa, era recebido na embaixada britânica. Ele era sempre hóspede das famílias mais nobres nos vários países que visitava.

Sir Kotaro era o oitavo baronete, e sua família conhecida como uma das mais respeitadas e tradicionais de Londres. A rainha e o príncipe consorte frequentemente convidavam-no para o Castelo de Windsor.

Mas sem que ninguém esperasse, ele se apaixonou.

Miku tinha consciência que sua mãe fora uma mulher belíssima, muito embora tivesse pouca importância social. Seu pai era um cavalheiro e nobre rural, porém, jamais sonhara em brilhar na sociedade sofisticada em que vivia.

Após ter se apaixonado, seu caráter e personalidade sofreram uma sensível mudança. Ele adquiriu uma casa medieval em Worcestershire e lá se estabeleceu com a mulher que amava. Esqueceu os amigos íntimos, com quem convivera a maior parte do tempo em Londres.

Seu único desapontamento, durante os anos que se seguiram ao enlace, foi o fato de não ter tido um filho.

Todavia, sua única filha era belíssima e adorável.

Ele a batizou com o nome de Miku, por achar que ela lembrava uma deusa grega.

Miku era bastante diferente da mãe, com seus cabelos cianos e lustrosos. Seus olhos eram azul-esmeralda.

— Ela é adorável — sir Kotaro declarara — e tenho certeza de que foi um presente enviado dos céus.

A segunda filha, Luka, que nascera dois anos mais tarde, lembrava bastante Emiko Hatsune.

Ela também era dona de um caráter gentil e doce, o que fazia com que todos a amassem, como amavam sua mãe.

Miku era impetuosa e ativa como seu pai. Herdara dele a imaginação e inteligência aguçadas.

Sir Kotaro ficava bastante surpreendido com os atributos da filha e ambos se completavam. Ele costumava contar-lhe sobre as crenças e lendas gregas, que ela ouvia com atenção.

"Quando o homem foi criado, viu-se sozinho no mundo, necessitando de uma companheira", ele dizia.

"Os deuses dividiram-no em duas partes."

"Pelo resto de sua existência o homem passou a procurar a mulher que significava sua outra metade, para que se completasse e se tornasse um com ela."

Miku costumava imaginar que seus pais haviam se encontrado e se completado. Não se lembrava de vê-los discutindo ou brigando.

Quando ficou mais velha, sentiu-se feliz ao constatar que podia discutir com o pai sobre vários assuntos e que tinha a mesma força de caráter e inteligência dele. Ela também possuía uma tal intuição que lhe permitia fazer jogos de palavra com o pai.

— Quando você se casar, minha querida — ele lhe dissera certa vez —, espero que encontre um homem que a adore e que a estimule da mesma forma como você me estimula.

Para Miku, aquelas frases do pai pareciam perdidas no passado. Já fazia um ano que a desgraça abatera sobre eles.

Aquele fora um inverno bastante rigoroso.

Apesar do fogo que crepitava na lareira, oferecendo o máximo de calor e conforto à casa, Emiko Hatsune sucumbiu à estação gelada e se recolheu ao leito.

Era incomum não vê-la ao lado do esposo. Pela primeira vez na vida, sir Kotaro sentiu-se totalmente perdido.

Miku era a única pessoa que saía para cavalgar com o pai nas horas mais estranhas, simplesmente porque ele não tinha nada mais a fazer, a não ser pensar na esposa enferma.

— Mamãe logo ficará boa, papai — tentava tranquilizá-lo.

Deitada na cama confortável, adornada por cortinas de seda, Emiko Hatsune parecia definhar dia após dia. Finalmente, ao acordar numa manhã fria, sir Kotaro encontrou a esposa morta a seu lado.

Tanto quanto ele, as duas filha também não conseguiram acreditar no que havia acontecido.

Sir Kotaro entregou-se a um desespero tão grande, que não havia nada que o consolasse, apesar do esforço de Miku em animá-lo.

— Não podemos deixá-lo sozinho — advertia a Luka.

Ambas revezavam-se, a fim de darem o máximo de atenção e conforto ao pai.

Após o funeral, ciente de que jamais tornaria a ver a esposa que tanto adorava, sir Kotaro resolveu partir.

— Vou para Paris — ele decidira após Miku ter-lhe perguntado para onde pretendia ir.

Sir Kotaro ficou ausente por vários meses.

Apesar das cartas que suas filhas lhe enviavam frequentemente, ele quase nunca respondia.

Então, após um longo intervalo sem notícias, uma carta chegou quando elas acabavam de voltar de uma cavalgada.

— Uma carta de papai! — Miku exclamou assim que entrou no hall. — Graças a Deus! Esse silêncio já começava a me preocupar.

— Talvez tenha resolvido voltar para casa — Luka propôs, com animação na voz.

Miku abriu o envelope e começou a ler a carta do pai.

— Leia em voz alta! — Luka pediu aproximando-se da irmã.

Como Miku nada dissesse, Luka apanhou a carta de suas mãos e começou a ler.

Após alguns minutos, exclamou:

— Eu não acredito! Como papai... pôde se apaixonar... assim tão... depressa, depois da morte de... mamãe?

Luka não conseguiu dizer mais nada, deixando que as lágrimas lavassem seu rosto.

— Papai... esqueceu... mamãe! — ela soluçava.

Miku passou o braço em torno dos ombros da irmã.

— Ele jamais esquecerá mamãe — garantiu. — Ele só vai se casar, porque não consegue viver sozinho.

Um mês depois, sir Kotaro retornou de Paris, acompanhado da esposa. As duas garotas limitaram-se a fitá-lo com os olhos cheios de espanto, como se estivessem sonhando.

Maika era completamente o oposto da mãe.

Em primeiro lugar, ela era francesa.

Miku tinha certeza de que Maika não passava de uma bourgeoise.

Apesar de não ser aristocrata, ela possuía charme, fascínio e encantamento próprios de toda francesa. Chegou usando sapatos de salto alto e roupas que Miku jamais vira antes

Era óbvio que sir Kotaro a achara irresistível. Ele não conseguia desviar os olhos da mulher. E ela flertava com ele de maneira tão escandalosa que não passava despercebido a Miku.

Maika era espirituosa e divertida. Seus olhos brilhavam como o fogo da paixão.

Miku era adulta o bastante para entender por que seu pai se esquecera de toda a mágoa que sentira com a morte da esposa. Na verdade, sir Kotaro não era mais o mesmo homem que conhecera e aprendera a amar desde criança.

Por amor ao pai, Miku e Luka tentaram entender e gostar da madrasta. Mas era evidente que Maika não se importava nem um pouco com as garotas.

Sua única preocupação era manter sir Kotaro cada vez mais apaixonado.

Maika aceitava todos os presentes que o esposo lhe dava como prova de afeição. Casaco de pele, jóias, roupas de todos os tipos chegavam de Londres diariamente.

Maika parecia querer cada vez mais.

Sir Kotaro oferecia-lhe presentes como se com isso pudesse pagar-lhe pelo prazer que lhe proporcionava. Miku tinha certeza de que o pai se sentia agradecido.

Era evidente que ele não queria que seus amigos ou vizinhos conhecessem-na. Essa era a razão pela qual ele não a levara a Londres, assim que chegaram à Inglaterra.

Quando se instalaram no campo, sir Kotaro apresentou todas as desculpas possíveis para não convidar os vizinhos para jantar.

Tão logo chegavam convites, ele os recusava.

Após duas ou três semanas, ficou óbvio que Maika estava impaciente.

— Vamos para Londres, mon cheri — Miku ouviu-a pedir a seu pai.

— Por que Londres? — sir Kotaro inquiriu.

— Tudo é tão enfadonho aqui, com exceção, é claro, de você, querido — Maika replicara de maneira carinhosa. — E eu gostaria tanto de ir ao teatro e dançar, sentindo seus braços em torno de mim.

— Mas posso abraçá-la sem que tenhamos de dançar — seu pai argumentou.

— Eu quero ouvir música. É tão romântico... quando estou a seu lado, sinto-me tão romântica, mon brave!

O tom persuasivo da voz de Maika fez com que o esposo lhe estendesse os braços. Miku, sentindo-se embaraçada ao ver o pai beijando a francesa, saiu da sala.

Ela, porém, não se esqueceu do que a madrasta dissera. E não foi surpresa quando, uma semana depois, seu pai anunciou que partiriam para a França.

Estavam em novembro.

Para consternação das filhas, sir Kotaro não fizera nenhum esforço para se reunir ao grupo de caçadores, como acontecia todos os anos. Nem, tampouco, tomara parte nas corridas de cavalos, onde, tantas vezes, saíra vencedor.

Sir Kotaro preferia ficar em casa, na companhia de Maika. Ambos passavam a maior parte do tempo trancados no quarto.

A ideia de irem para a França deixou-a mais animada do que nunca. A francesa falava depressa, usando as mãos para expressar o que dizia. A maneira como ela elogiava sir Kotaro fazia com que Miku se sentisse constrangida.

Antes de partirem, ela perguntou ao pai:

— Espero que não tenha se esquecido, papai, que mamãe planejou levar Luka na próxima temporada em Londres.

Miku sabia que seu pai havia se esquecido e então prosseguiu:

— Perdi meu début, pois, como sabe, vovó havia morrido e estávamos de luto. Mas mamãe prometeu que iríamos a Londres no mês de abril, para sermos apresentadas à rainha.

— Sim, é claro que me lembro — sir Kotaro replicou com impaciência. — Podemos levá-la a Londres tão logo retorne de Paris.

— Vai voltar a tempo para o Natal? — Miku indagou. — Quando as festividades terminarem, você poderá escrever aos seus amigos dizendo que iremos a Londres. Sei que você e mamãe fizeram uma lista.

— É claro que sim — o pai concordou —, mas falaremos sobre isso depois. Agora, por favor, tome conta de tudo durante a minha ausência e exercite os cavalos.

— Farei isso, papai — prometeu —, mas vou sentir tanto sua falta...

Havia melancolia na voz de Miku.

Aquele ano fora horrível sem a companhia da mãe.

E agora, que tinham acabado de pôr de lado os trajes de luto que, tanto ela quanto Luka detestavam, o pai partia outra vez.

— Vai retornar no Natal? — Miku tornou a indagar.

Enquanto falava, ela experimentava a estranha sensação de que o pai escapava-lhe dos dedos, como areia. E nada podia fazer para detê-lo.

— Sim... claro — sir Kotaro apressou-se a dizer. — Retorno agora a Paris simplesmente porque sua madrasta detestou o frio da Inglaterra.

As garotas passaram o Natal sozinhas.

Chegaram-lhes presentes bonitos e muito caros de Paris, o que, contudo, não conseguiu preencher o vazio deixado pela ausência do pai.

— Papai voltará em janeiro — Miku dizia a si mesma.

Foi então que souberam que sir Kotaro havia ido para Nice. Ele escreveu uma carta para as filhas, dizendo:

"É bem mais quente no sul e aluguei uma casa nos arredores de Nice com jardim e uma maravilhosa vista para o mar."

Após ler a descrição, Miku imaginou que o pai fosse convidar as filhas para se reunir a ele. Porém, ele não fez nenhuma menção ao fato. Ele se limitou a pedir às filhas que exercitassem os cavalos.

Finalmente, ela resolveu escrever uma carta ao pai, implorando-lhe que voltasse para casa e advertindo-lhe que o mês de abril se aproximava.

"Precisa escrever a seus amigos em Londres", ela lembrou-lhe.

Miku tinha tanta certeza de que o pai retornaria tão logo recebesse a carta, que começou a comprar vestidos novos tanto para si como para Luka.

— Seus vestidos devem ser adquiridos na Bond Street — ela avisara à irmã. — Há apenas uma ou duas lojas em Worcester que parecem ter modelos mais modernos. Não podemos chegar à festa maltrapilhas, Luka!

A irmã mais nova caiu na risada.

— Você jamais parecerá maltrapilha, querida irmã — Luka comentara. — Tenho certeza de que todas as pessoas em Londres vão admirar seus olhos turquesas e seus lindos cabelos cianos.

Seria insensata se não admitisse que era bonita e que chamava a atenção. No entanto, Luka era tão bela quanto a mãe o fora. E Miku sabia que a irmã causaria sensação no mundo social tão logo aparecesse em público.

O tempo ia passando e ela se tornava cada vez mais ansiosa com a ausência do pai.

"Ele vai chegar em breve", Miku tentava se convencer.

Agora, após ter recebido a notícia da morte trágica do pai, e com Luka nos braços, Miku tentava reprimir suas próprias lágrimas. Sabia que não tinha perdido apenas o pai, mas também a esperança no futuro.

"O que vamos fazer agora?", ela se perguntava.

Um velho criado anunciou a hora do chá. Ele estava a serviço na casa desde que os pais de Miku se instalaram e Worcestershire. Olhando para o rosto do velho criado, Miku sentiu um aperto no coração e achou impossível contar que seu pai havia falecido.

Em vez disso, foram para a sala de estar.

Ela sentou-se no mesmo sofá que sua mãe costumava ocupar para tomar chá, que era servido num bule de prata georgiano, que pertencera à sua bisavó.

Quando se viram sozinhas, Luka indagou em voz baixa:

— O que faremos?

— Não há nada que possamos fazer — replicara. — A carta diz que papai e nossa madrasta estão sepultados no cemitério católico de Nice. A polícia pergunta o que desejamos colocar na sepultura, isto é, se estivermos preparadas para pagar.

Como Luka nada dissesse, após um momento, Miku continuou:

— Percebi, através da carta, que papai não estava usando seu título, o que prova que ele não desejava encontrar nenhum amigo em Nice.

— Acho que... ele sentia... vergonha... da mulher com quem se casou — Luka comentou, um tanto secamente.

Miku sabia que a irmã tinha razão. Apesar disso, achou melhor não fazer nenhuma observação a respeito. Ela sabia que sua mãe jamais convidaria uma mulher como Maika para frequentar a casa em que viviam.

Miku não precisara de muito tempo para ter certeza de que o passado da madrasta, antes de se casar com seu pai, fora bastante duvidoso. Bastaram apenas algumas palavras.

— Creio — Luka comentou com voz indolente — que não podemos mais ir à Londres, o que significa que aqueles vestidos que compramos não servirão para mais nada!

Ela soluçou antes de acrescentar:

— Estava tão ansiosa para comparecer aos bailes e conhecer outras pessoas. Não há ninguém por aqui que possa se interessar por nós.

Miku sabia que aquilo era verdade. Seus vizinhos eram todos velhos e seus filhos já haviam se casado e deixado Worcestershire.

Dois jovens que as garotas conheciam desde criança haviam sido convocados pelo exército e estavam a serviço no exterior. Um outro rapaz que conheciam era marinheiro e vivia eternamente no mar.

Luka tinha razão.

Não conheciam ninguém interessante no lugar em que viviam. E, contudo, haviam sido muito felizes, enquanto seus pais eram vivos.

— Já tenho quase dezoito anos — lembrou a mais nova — e não há nada mais injusto do que viver enterrada neste lugar até que eu fique tão velha quanto você.

Luka viu a expressão de desagrado no rosto da irmã e, levantando-se, correu para abraçá-la.

— Oh, me desculpe! — ela apressou-se em dizer. — Sei que você não podia ir à Londres, já que vovó havia morrido, mas cheguei a pensar que papai não me desapontaria. Tenho certeza que aquela francesa terrível o impediu.

Miku abraçou a irmã e declarou:

— Sei o que está sentindo agora, querida. Senti o mesmo durante muito tempo.

— O que... podemos... fazer? — Luka indagou com um soluço.

— Tenho uma ideia — respondeu com voz firme, como seu pai costumava fazer.

De repente, ela deixou escapar um grito.

— O que foi? — a mais nova perguntou.

Na verdade, ela não esperava uma resposta, mas Miku anunciou, com voz pausada:

— Tenho uma ideia que parece impossível, mas... sei que conseguiremos!

Luka se desvencilhou dos braços da irmã.

— Conte-me — implorou.

Miku cruzou a sala e foi se postar junto à janela. Ela olhava os raios do sol banhando o belo jardim da propriedade.

Luka fitava a mais velha com expectativa. Não queria ter tantas esperanças para depois de decepcionar. Porém, Miku sempre fora bastante original, desde os tempos de criança.

Era ela quem inventava os jogos para brincar, quem subia nas árvores e nadava no lago. Luka sempre achava graça quando a irmã se vestia de fantasma para assustar os criados. Era Miku, também, quem levava a mais nova para o teto do celeiro. Ambas permaneciam lá, até que alguém viesse buscá-las, já que não conseguiam descer.

Ao observá-la, Luka pensou em como Miku era adorável. Bastante diferente de sua irmã, Miku tinha todas as características do pai. Da mesma forma como ele fora elegante e distinto, ela era bonita e educada.

Naquele instante, Miku virou-se para a outra.

— Vou dizer-lhe o que devemos fazer, Luka — ela começou —, mas tenha certeza de que ninguém vai lhe privar de seu début. Era isso o que mamãe desejava para você e é isso o que terá. Vamos para Londres!

Luka bateu as palmas e seus olhos se iluminaram.

— Maravilhoso! Mas como? De que forma serei apresentada à rainha sem mamãe? Ela sempre dizia que os parentes de papai ou estavam mortos ou eram velhos demais. E o que sobrou da família residia nas floresta de Northumberland.

— Sei disso — Miku declarou. — Mas se você deseja ser apresentada, precisará ter alguém para levá-la ao palácio de Buckingham.

— Mas quem poderá fazer isso? — Luka indagou, curiosa.

A excitação que até então cintilava em seus olhos começou a se desvanecer. Imaginou que já sabia o final daquela história e que os planos de Miku não passavam de fantasia.

— Vamos para Londres — Miku repetiu devagar — e você terá uma dama de companhia, tanto nos bailes a que deverá comparecer, como no palácio de Buckingham.

— Mas quem? Você mesma sabe que não há ninguém.

— Eu vou ser sua dama de companhia! — Miku anunciou.

Luka encarou a irmã antes de exclamar:

— Você deve estar brincando comigo! Pois saiba que isso só torna as coisas piores do que já estão. Posso não ser tão inteligente quanto você, mas sei que uma dama de companhia não pode ser solteira. Não acredito que tenha um esposo escondido em algum celeiro da propriedade!

Havia uma nota de angústia na voz de Luka e uma expressão de desapontamento em seu rosto. Por alguns momentos acalentou a esperança de que Miku tivesse a solução para seu problema.

Sem se preocupar, a outra disse:

— Pois saiba que não pretendo ser sua dama de companhia como mulher solteira, mas sim como Lady Hatsune.

Luka fitou a irmã com olhos arregalados.

— Lady Hatsune? Mas você não pode fingir que é mamãe. Nem mesmo o homem mais estúpido e cego do mundo poderia confundi-la com mamãe.

— Não pretendo fingir que sou mamãe — Miku emendou —, mas sim sua madrasta!

Luka engoliu em seco.

— Vai fingir que é... Maika?

Miku sacudiu a cabeça com veemência.

— É claro que não! Maika não passava de uma francesa comum e vulgar. Apesar de ter se casado com papai, pouquíssimas pessoas na Inglaterra chegaram a conhecê-la e ninguém a viu em Londres.

Os olhos de Luka pareciam dominar-lhe todo o rosto.

— O que... está... dizendo? Eu não entendi... Por favor, explique-me.

— Deixe-me explicar — Miku pediu, pressionando as têmporas. — Papai era casado com Maika, porém, foram sepultados como monsieur e madame Hatsunne. Como pode ver na carta, a polícia escreveu o nome de papai errado. Portanto, Hatsunne é o nome que vou solicitar que seja inscrito na sepultura.

Ela fez uma pausa antes de prosseguir:

— Não há motivos para que alguém saiba que papai e nossa madrasta morreram recentemente. Tenho certeza também de que ninguém vai visitá-los no cemitério.

— E... o que isso tudo... significa? — Luka questionou completamente aturdida.

— Significa que papai se casou há nove meses e que morreu imediatamente após o casamento. Portanto, lady Miki Hatsune está de luto, mas cumprindo a obrigação de levar a filha de sir Kotaro à presença da rainha, já que a menina tem quase dezoito anos.

Luka ouvia com atenção, como se não acreditasse nas palavras que a irmã dizia. Então, num sussurro, ela inquiriu:

— Acha... que alguém vai acreditar... nisso?

— E por que haveriam de questionar? — Miku perguntou. — Fomos sepultadas vivas neste lugar e ninguém demonstrou interesse por nós depois que mamãe morreu e papai viajou. Só os criados sabiam quando ele voltava para casa.

— Não acha que eles farão comentários?

— Em Londres?

— Sei o que quer dizer com isso — Luka respondeu — mas, Miku, não acho que seja adulta o bastante para passar por viúva.

— Mas Maika também não parecia tão adulta! Sei que vamos conseguir.

Miku cruzou a sala duas vezes, como se achasse impossível manter a calma.

— Vou providenciar algumas roupas para que eu pareça bem mais velha e ajeitar meu cabelo como mamãe fazia. O que acha de eu usar um pouco da maquilagem que Maika deixou aqui?

— Você nunca me disse que ela havia deixado algo aqui! — Luka exclamou.

— Bem, mas deixou — Miku replicou. — Não achei que isso tivesse alguma importância. Há, ainda, os dois vestidos que papai comprou-lhe, mas que ela odiou. Maika costumava dizer que eles eram austeros demais, mas sei que papai os comprou numa loja bastante cara.

Ela sorriu com sarcasmo antes de dizer:

— Acho que papai tentava torná-la mais modesta. Talvez ele pensasse que se Maika usasse os vestidos, ela poderia ser apresentada a seus amigos, sem problemas. Porém, quando os vestidos chegaram, ela os jogou a um canto e me disse: "Nunca pretendo usar esses vestidos apagados e austeros! Vou parecer uma velha desengonçada".

— Mas você não me contou nada disso! — Luka acusou-a, indignada.

— E por que deveria? Na época, pensei que o comportamento de Maika era bastante vulgar, mas não quis fazer nenhum comentário para não magoar papai.

— Não sei o que papai viu nela! — Luka murmurou.

Miku lembrou-se de quando seu pai havia entrado no quarto, Maika levantara-se da banqueta da penteadeira e, atirando-se nos braços do esposo, exclamara:

Merci, cheri! Je t' adore! Fiquei felicíssima com os presentes que me deu.

A francesa costumava usar pouquíssima roupa. O espartilho, bem apertado na altura do busto, punha em evidência os seios exuberantes e belos.

Ela passou os braços em torno do pescoço de sir Kotaro e puxou o rosto dele de encontro ao seu. Beijou-o longamente até que Miku, sentindo-se embaraçada, deixou o quarto com a certeza de que seu pai jamais abandonaria Maika.

Agora, ao se lembrar dos dois vestidos, concluiu que era exatamente deles que precisava, pelo menos até que pudesse comprar alguns em Londres.

— Acho que não conseguiremos! — Luka exclamou. — Seremos descobertas.

— Você vai ter seu début em Londres, custe o que custar! — declarou. — E, se tivermos sorte, você vai encontrar um marido que a ame.

Miku viu a irmã observando-a com os olhos arregalados.

— É essa a ideia principal. Terá muitas dificuldades em escolher o homem certo, mas estou aqui para ajudá-la.

Notas finais
Mais uma fanfic minha! (yay!) Eu gostaria de avisá-los que esse romance é água com açúcar, portanto, a estória será pequena, se comparada com Alfa & Ômega. Além disso, a história é simples, por isso, não irei escrevê-la muito detalhada. Vocês acham que eu terei de explicar os títulos da Realeza Britânica? E sobre a apresentação à rainha no palácio de Buckingham? Se sim, postarei a explicação nas notas finais do próximo capítulo. Espero que tenham gostado.