The Mysterious Lady
7 Capítulo VII
Notas iniciais
Miku acordou tarde na manhã seguinte.
Tomava seu breakfast quando Luka entrou no quarto.
— Você já acordou, Miku! — ela exclamou. — Saiba que o dia está maravilhoso!
— Tenho certeza que sim! — replicou.
Luka sentou-se à beira da cama.
— Gakupo vai levar-me para conhecer os pais — ela informou. — Chegaram da França ontem à noite e por isso não puderam comparecer à festa.
— Estou certa — a mais velha começou — de que eles ficarão lisonjeados por seu filho casar-se com alguém tão charmosa.
— Espero sinceramente que essa seja a impressão deles — Luka comentou. — E você, querida, não se importará se não voltarmos para o jantar? Gakupo têm muitos quadros para mostrar-me e será desagradável ter de retornar antes disso.
Miku sabia que lorde e lady Lambton residiam em Wimbledon. O marquês já lhe dissera que sua irmã sofria de asma no inverno. Os médicos acreditavam que o ar do campo era-lhe mais benéfico que o da cidade.
— Espero conhecê-la — havia dito.
— Ela é encantadora — o marquês replicou. — Casou-se ainda muito jovem, porém não era tão apegada aos seus pais como Kaito o é comigo.
Ele falara com uma nota de orgulho na voz, o que sempre acontecia quando se referia ao filho.
Ficara comovida com as palavras do marquês e naquele momento, então, dirigiu-se à irmã:
— Preciso explicar aos seus futuros sogros que, embora você e Gakupo tenham se decidido tão depressa, vocês realmente se amam.
Luka sorriu e replicou:
— Suponho que Gakupo dirá o mesmo. Oh, Miku, sou tão afortunada por encontrar alguém tão maravilhoso. E queremos casar-nos muito em breve.
Ela fez uma pausa antes de prosseguir:
— Não é magnífico o marquês ter se decidido por realizar a recepção aqui? Você sabe que jamais poderíamos receber todas aquelas pessoas em nossa casa!
Seu modo de falar preocupou Miku e ela se perguntava como e quando explicaria aos pais de Gakupo que era irmã de Luka. Isso significaria contar ao marquês e, consequentemente, ao conde.
Estremeceu ao imaginar como ele encararia o fato com sarcasmo.
— Você não contou a verdade para Gakupo? — apressou-se a perguntar.
— Ainda não — Luka declarou. — Pensei que deveria consultá-la primeiro, porém não desejo ocultar nada de Gakupo no futuro.
— Não, claro que não — Miku concordou. — Apenas me dê tempo para analisar o que faremos.
Desiludida, constatou que, tão logo Luka se casasse, regressaria ao campo. Ficaria sozinha na casa que outrora fora repleta de amor e alegria. Não seria possível permanecer em Londres, fosse como lady Hatsune ou como ela própria.
— O que farei? — perguntou-se consternada.
Imaginou que tal problema pudesse ser resolvido depois. O importante no momento era o casamento de Luka.
"Aconteça o que acontecer", disse a si mesma, "não devo fazer nada que comprometa a felicidade dela".
Após beijar a irmã com afeto, Luka saiu apressadamente para encontrar-se com Gakupo.
— Como chegará a Wimbledon? — Miku interpelou-a antes que saísse.
— Gakupo veio para cá na carruagem de seu pai — Luka respondeu —, que com certeza já voltou para Wimbledon. O marquês emprestar-lhe-á um veículo que ele próprio vai conduzir.
Ocorreu a Miku que a irmã precisaria de uma chaperon. Porém, considerou que era desnecessário fazer tal sugestão, já que Luka era comprometida.
— Peça-lhe que dirija com cautela — ela recomendou.
— Ele fará isso — Luka garantiu com alegria, partindo em seguida.
Miku levantou-se devagar, achando estranho não ter nada para fazer. A não ser que a irmã desejasse mais alguns vestidos para seu enxoval, as compras já estavam feitas.
A festa havia acabado e, agora, os amigos teriam de encontrar um novo assunto para suas conversas.
Durante os últimos dois dias, o marquês informara-lhe quem dentre os convidados para a festa havia sido amigo de sir Kotaro.
Ela desceu as escadas e o encontrou no estúdio.
— Fico feliz por ter vindo lady Hatsune — ele exclamou —, pois desejava falar-lhe sobre os jovens. Que tal encontrarmos uma casa confortável para viverem depois que voltarem de lua-de-mel?
Miku fitou-o com ar inquiridor e ele explicou-lhe com um sorriso:
— Imagino que saiba que Gakupo deseja dar a volta ao mundo, retratando os locais mais bonitos em seus quadros, que no futuro se transformarão em livros.
— Sim, Luka já me falou a respeito — concordou.
— É isto que pretendem fazer — ele prosseguiu —, o que considero excelente idéia. É sempre bom viajar quando se é jovem e ainda não se tem muitos filhos.
Miku deu uma gargalhada.
— É difícil admitir a idéia — ela argumentou. — Na noite passada, Luka era apenas uma debutante fazendo sua primeira aparição no mundo social. Agora Vossa Alteza refere-se a ela como mãe de muitos filhos.
— Esses jovens são rápidos demais para o meu gosto — o marquês queixou-se. — Agora, lady Hatsune, resta-nos o problema de Kaito e aquela terrível mulher.
Miku sentou-se numa confortável poltrona e disse:
— Fiquei aliviada por ela não ter comparecido à festa ontem à noite.
— Eu também — o marquês concordou. — Pensei que Kaito tentaria persuadir-me a convidá-la, mas para meu alívio ele não o fez.
— Talvez já esteja cansado dela — sugeriu.
Na verdade ela não acreditava nessa hipótese, porém julgava que tal argumento fosse alegrar o marquês.
Ele era um homem muito amável e não suportaria vê-lo preocupado com seu filho e triste por causa de seu envolvimento com lady Meiko.
O marquês postou-se diante da lareira.
— Foi tolice de minha parte acreditar que Kaito se casaria com alguém tão jovem como sua enteada — ele ponderou. — Porém, ela é tão bonita que julguei ser impossível alguém não se apaixonar por ela.
— Não quero ser indelicada — Miku tornou —, mas suponho que Luka será muito mais feliz com Gakupo. Afinal, ele é uma pessoa gentil e amável e ela o ama.
— É claro que você têm razão! — o marquês exclamou. — Foi estupidez de minha parte imaginar tal possibilidade.
Ele suspirou e mudou de assunto:
— Vamos falar sobre você. Conte-me o que pretende fazer depois do casamento de Luka.
Miku percebeu que entrava em terreno perigoso, portanto limitou-se a declarar:
— No momento, devo me concentrar em Luka e não me preocupar comigo mesma. Haverá tempo de sobra para tomar decisões depois que comprarmos seu enxoval. Vossa Alteza foi muito amável oferecendo-lhe a recepção!
— Ela ficou satisfeita com minha sugestão — o marquês tornou — e, claro, como Gakupo é meu sobrinho, quero que ambos sejam felizes.
— Assim como quis que outras pessoas o fossem — Miku completou com doçura na voz.
Conversaram até a hora do almoço e então fizeram a refeição juntos.
Depois, como o marquês estaria ocupado, Miku decidiu repousar.
Ela dirigiu-se para seu quarto e, em pouco tempo, adormeceu. Dormiu tranquilamente até a hora do chá, descendo em seguida para reunir-se ao marquês.
— Estive ocupado — ele informou — elaborando a lista dos convidados para o casamento e, também, planejando vários jantares para que Luka possa conhecer seus familiares.
Ele sorriu antes de prosseguir:
— Nossa família, bastante numerosa, com certeza desejará conhecer a jovem com quem meu sobrinho se casará, o mais rápido possível.
— Espero que não assustem Luka — Miku comentou.
Discutiram sobre o casamento até a hora de se vestirem para o jantar.
Enquanto tomava banho, Miku lembrou-se que não vira o conde durante todo o dia. Com certeza ele jogava pólo e não deveria ser esperado para o jantar, já que o marquês não fizera nenhum comentário a respeito.
Ela achou que era muito bom estar ali. Caso contrário, o marquês não teria com quem conversar.
"Ele é tão amável e sempre atencioso com outras pessoas", ela disse a si mesma.
Colocou um de seus belíssimos vestidos e desceu as escadas.
Não havia sinal do conde e, ao aproximar-se do marquês, ela declarou:
— Pensei que o conde fosse jantar conosco esta noite.
— Hoje pela manhã, Kaito enviou-me um recado comunicando-me que tinha muitos compromissos e que eu não o esperasse.
Ao notar o olhar crítico de Miku, ele prosseguiu.
— Ele sempre me avisa quando sai e sem dúvida ficou jogando pólo esta tarde.
Aquela resposta só confirmou as suspeitas de Miku.
Por outro lado, gostaria de discutir com ele sobre a festa da noite anterior.
Em seu íntimo, Miku acreditava que ele se divertia com lady Meiko. Era estranho, mas tal pensamento a deixava triste.
Miku também experimentou um outro sentimento que não soube definir.
Quando o jantar terminou, ela e o marquês dirigiram-se à pequena sala de estar do andar térreo. O aposento era muito mais confortável e atraente do que a grande sala de visitas, tendo amplas janelas que permitiam contemplar o jardim.
Estava muito calor e o marquês ficou observando o chafariz que lançava jatos de água em direção ao céu. As estrelas começavam a cintilar e uma lua cheia surgia por detrás de uma nuvem.
— Vossa Alteza possui o jardim mais romântico de toda Londres! — Miku exclamou.
— Sempre reflito sobre isso — o marquês replicou —, mas, minha querida, julgo-me muito velho para ser romântico, a não ser em meus sonhos.
— Estou certa de que isso não é verdade — contrapôs. — De qualquer forma, Vossa Alteza tem agradáveis lembranças do passado, não?
— Certamente que sim — o marquês concordou.
Depois retornaram para a sala de estar.
Enquanto examinavam a lista dos convidados que deviam conhecer Luka, a porta se abriu. Miku ergueu os olhos imaginando que fosse o conde, mas para seu assombro, lady Meiko entrou na sala.
Trajava um belíssimo vestido preto adornado com renda branca. Sobre a cabeça, trazia um chapéu decorado com plumas.
Miku e o marquês fitavam-na enquanto caminhava em sua direção.
— Acabei de saber, milorde — ela começou em voz baixa —, que meu pobre esposo está pior e, por isso, resolvi seguir o seu conselho e partir imediatamente para o campo.
— Estou certo de que é bem mais sensato — o marquês comunicou, pondo-se de pé.
— Pensei que antes de partir — ela prosseguiu — deveria trazer-lhe um presente pelo delicioso jantar daquela noite. Fui muito negligente não lhe agradecendo por carta.
Ela sorriu de modo encantador antes de prosseguir:
— Assim, trouxe-lhe uma garrafa do vinho do porto preferido de Lionel. Pela admiração que meu querido esposo lhe tem, ofereço-lhe esta bebida.
Enquanto falava, ela estendeu a garrafa ao marquês.
— É muito gentil de sua parte — ele comentou apanhando a garrafa.
— Prometa-me que vai degustá-lo sozinho — lady Meiko pediu. — Meu esposo costuma dizer que esse vinho não é bom para jovens que não conhecem um vinho realmente bom.
O marquês olhou para a garrafa e, então, agradeceu:
— Muito obrigado. Tenho certeza de que vou gostar.
— Kaito me disse que Vossa Alteza adora vinho do porto — lady Meiko complementou — e agradeço-lhe, mais uma vez, pela agradável noite.
Ela estendeu-lhe a mão e, após o marquês cumprimentá-la, lady Meiko dirigiu-se à porta, ignorando Miku grosseiramente e propositalmente.
O marquês colocou a garrafa de vinho do porto sobre a mesa lateral e apressou-me em acompanhar lady Meiko até a carruagem.
Após saírem da sala, Miku examinou a garrafa com curiosidade. Por instinto, ela se deu conta de que havia algo errado com a bebida.
Não conseguia explicar nem mesmo para si própria o que sentia. Mas alguma coisa lhe dizia que lady Meiko tinha um motivo oculto para presentear o marquês.
Aquele gesto não era tão generoso como aparentava.
O marquês retornou à sala.
— Que surpresa! — ele exclamou. — Nunca imaginei que esta mulher fosse capaz de atitudes tão generosas ou que pudesse escrever uma carta de agradecimento pela hospitalidade que recebeu nesta casa.
Ele apanhou a garrafa e comentou:
— Esta safra é realmente rara — prosseguiu. — Lembro-me, agora, que Sakine foi sempre um grande conhecedor de vinhos.
Ele sorriu para Miku antes de acrescentar:
— Sugiro que o provemos juntos.
— Não, não! — ela exclamou. — Vossa Alteza não deve bebê-lo! Sei que há... algo errado... com a bebida!
O marquês fitou-a com olhos arregalados.
— Como assim?
— Deve me achar uma tola! — exclamou. —, mas meu instinto sempre me diz quando algo está errado ou alguém vai ser... ferido. Tenho certeza que se beber esse vinho... Vossa Alteza poderá morrer.
O marquês encarou-a perplexo, avaliando em seguida:
— Acredito, querida, que está exagerando a maldade de lady Meiko. Sempre a considerei uma mulher perversa, mas não acredito que ela pudesse assassinar-me.
— Não tenho tanta certeza — Miku insistiu. — Por isso, por favor, não beba esse vinho. Desfaça-se dele! Jogue-o fora!
— O que está me pedindo não é uma grande extravagância? — o marquês indagou. — Veja bem, este vinho é tão raro e precioso que o provei apenas uma vez na vida!
Ele caiu na risada antes de acrescentar:
— Na verdade, considero um sacrilégio destruir algo tão especial!
— Por favor, imploro-lhe que não o beba e sei que não estou dizendo tolices — Miku suplicou.
Ela notou que o marquês não se convencera e acrescentou:
— Uma vez, quando ainda era criança, tive um pressentimento de que minha nanny estava em perigo. Gritei até que meu pai saiu para procurá-la. Ele chegou a tempo de evitar que ela fosse atingida por um touro.
Percebendo que o marquês a ouvia, ela prosseguiu:
— Em outra ocasião, um dos amigos de meu pai tomou-lhe emprestado um cavalo para ir caçar. Enquanto ele avançava pela estrada pedi a papai: "Por favor, impeça-o de montar aquele cavalo. Sinto que ele vai se ferir".
— E o que aconteceu? — o marquês quis saber.
— Papai pensou que eu estava imaginando coisas, porém o homem em questão caiu do cavalo e... quebrou a espinha.
Um silêncio se seguiu.
— Você está sendo muito persuasiva — o marquês argumentou. — Porém, ainda acho difícil acreditar que lady Meiko recorreria a algo tão drástico como assassinato!
— O que posso fazer para convencê-lo de que está em perigo? — Miku indagou desesperada.
Para sua surpresa, o marquês levantou-se e transpôs a porta-balcão do aposento.
Foi então que ela percebeu que havia um homem no jardim.
Quando o marquês dirigiu-se a ele, Miku constatou que se tratava de um dos jardineiros.
Os jardineiros costumavam desligar o chafariz à noite e ligá-lo pela manhã.
— Boa noite, Sam! — o marquês cumprimentou.
— Boa noite, milorde! — Sam replicou fazendo uma mesura.
— Conseguiu apanhar um camundongo na armadilha que lhe preparou? — o marquês indagou.
— Oh, não foi um camundongo, milorde — Sam explicou. — Apanhei um rato gordo e novo; e não desejamos que ele saia do jardim e entre na casa, não é milorde?
— Claro que não, Sam — o marquês afirmou. — Gostaria que me trouxesse o rato.
— Trazê-lo para Vossa Alteza? — Sam surpreendeu-se. — Seria melhor matá-lo e preparar uma nova armadilha, já que há mais ratos no jardim.
— Faça isso — ordenou o marquês —, mas antes, traga-me o rato e a isca que usou para atraí-lo.
— Está bem, milorde.
Sam correu para um rancho situado nas proximidades do portão que conduzia ao estábulo e alguns minutos depois, regressou com a estranha armadilha de madeira feita por ele mesmo.
Entregou-a ao marquês com um saco de papel.
— Aqui há carne suficiente para dois dias, milorde — ele informou.
— Obrigado, Sam — o marquês sorriu. — Não precisa esperar. Colocarei sua armadilha do lado de fora da porta, quando for me deitar.
— Obrigado, milorde — Sam replicou. — E tome cuidado com esse rato. Eles mordem sem piedade.
— Não se preocupe — o marquês respondeu.
Sam saudou-o com uma nova mesura e afastou-se a passos lentos.
O marquês levou a armadilha para a sala de estar. Colocou-a sobre uma das mesas e Miku notou que no seu interior havia um enorme rato.
Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, já que sempre tivera horror a animais nocivos.
O marquês abriu o saco de papel e nele havia dois grandes pedaços de carne fresca. Colocou o saco sobre a mesa e então apanhou um copo da bandeja de aperitivo, que estava num canto da sala.
Miku assistia a tudo emudecida, imaginando o que ele faria em seguida. Caso seu pressentimento com relação ao vinho estivesse errado, sentir-se-ia muito tola e infantil.
O marquês tirou a rolha da garrafa e despejou um pouco de vinho no copo.
Apresentava a coloração vermelho-escura comum à safra do porto e Miku achou impossível que alguém pudesse adulterá-lo. No entanto, ainda estava convencida de que algo estava errado.
O marquês colocou um pedaço de carne na borda do copo de vinho, que logo se encharcou com a bebida.
Após retirar a carne do copo, ele uniu ao outro peçado intocado.
A armadilha era feita de madeira e fio e havia uma portinhola na parte traseira.
O rato olhava para o aposento iluminado, ansioso por explorar o novo território.
Depressa, o marquês introduziu a carne através da portinhola e a fechou. No mesmo instante, o rato percebeu que havia comida por perto e começou a andar em círculo. Não foi fácil para o animal porque a armadilha era estreita. Porém, quando alcançou a carne o animal a devorou.
O marquês e Miku observavam o rato bastante tensos. Nenhum dos dois se movia.
Após comer a carne fresca, o rato farejou o pedaço que estava por baixo.
Ele deu uma mordida, como que para experimentá-lo.
Miku prendeu sua respiração. Caso o animal não abocanhasse o outro pedaço, a experiência não teria resultado e, com certeza, o marquês a chamaria de tola e, em seguida, beberia o vinho.
O rato deu outra mordida. Mesmo percebendo que o sabor era estranho, o animal continuou comendo. Depois, ele farejou o chão da armadilha, na esperança de encontrar mais alimento.
Miku concluiu que a experiência havia fracassado. Se o vinho era tão perigoso como presumia, o rato daria algum sinal de que fora afetado por ele.
Então, de repente, sem nenhum aviso, o rato tombou para o lado.
Por um momento, Miku nâo pôde acreditar que aquilo havia de fato acontecido.
O rato não se moveu. O animal estava morto.
Parecia inacreditável que aquilo tivesse acontecido tão depressa.
Naquele momento, a porta se abriu e o conde entrou.
Sem pensar no que fazia, Miku correu em sua direção e atirou-se em seus braços.
— Ela tentou matá-lo — Miku gritou. — Ela tentou matá-lo! Como pôde fazer algo tão terrível, tão perverso!
A voz morreu-lhe na garganta e Miku escondeu a cabeça no ombro do conde, chocada com a revelação.
Ele a abraçou e perguntou ao pai:
— Por Deus, o que aconteceu?
O marquês olhava fixamente para o rato, como se não acreditasse que a criatura morrera de fato.
Com a voz repleta de terror, ele replicou:
— Lady Meiko trouxe-me de presente uma garrafa de vinho do porto raro. Tencionava bebê-lo quando lady Hatsune advertiu-me de que podia estar envenenado. Como vê, ela salvou minha vida!
O conde viu o rato morto no interior da armadilha e a garrafa de vinho ao lado. Logo entendendo o que acontecera.
— Não posso acreditar que Meiko fosse capaz de fazer algo tão terrível! — ele exclamou. — Deve estar louca! Foi ela própria quem trouxe a bebida?
— Sim — o pai replicou. — E veio contar-me que o estado de saúde de seu esposo havia piorado e que o vinho expressaria sua gratidão pelo jantar.
O marquês falava em voz baixa.
Em seguida, dirigiu-me à mesa onde se encontrava a armadilha e a apanhou.
— Não seria agradável que alguém soubesse do acontecido — ele advertiu. — Acho melhor destruir a prova.
Ele caminhou em direção às janelas.
Miku ergueu a cabeça para olhar o conde.
— Ela queria matá-lo! — repetiu. — Eu sabia, mas tinha medo de que ele não acreditasse em mim!
— Mas ele acreditou e você salvou-lhe a vida — o conde concluiu.
Ele a fitou percebendo na profundidade de seus olhos verdes terror e consternação.
Sentia o corpo dela tremendo de encontro ao seu.
— Você o salvou! — ele repetiu.
Então ele inclinou a cabeça e seus lábios encontraram os dela.
Por um momento, desnorteada com tudo que acontecera, Miku não percebeu que era beijada.
A pressão dos lábios do conde e a força de seus braços, enquanto a atraía de encontro a si, expulsou todo o medo que sentia.
Ela experimentava um êxtase jamais sentido antes.
Era tão maravilhoso, tão indescritível e, ao mesmo tempo, tão envolvente, que se aconchegou mais junto ao conde.
Enquanto se beijavam, Miku descobriu que o que sentia era amor.
Apesar de não ter percebido antes, amava-o desde o dia em que ele fora procurá-la em seu quarto e ela o rejeitara.
O conde estreitou-a um pouco mais em seus braços. Em seguida, levantou sua cabeça para observar-lhe os olhos.
Pensava que era impossível uma mulher ser tão bonita e inocente ao mesmo tempo. Julgava difícil acreditar, mas Miku era uma parte de seu ser.
— Eu a amo, querida — ele sussurrou —, e acredito que me ame também.
Então ele tornou a beijar-lhe os olhos, as faces e os lábios.
O corpo dela parecia vibrar. Arrepios percorriam-lhe a espinha e ela sentia o coração batendo mais forte naquele momento de glória.
Sabia que era aquele o amor que sempre procurara, mas que julgara jamais encontrar.
Parecia-lhe que um século havia se passado, contudo haviam transcorrido apenas alguns minutos antes que o conde replicasse:
— Minha adorada, como pôde ser tão astuta a ponto de salvar a vida de meu pai?
Por um momento, Miku julgou impossível entender o que ele dizia, mas ao falar havia terror em sua voz:
— Ela não conseguiu, mas pode tentar novamente. Talvez o marquês devesse partir ou se esconder.
Miku tentava pensar com coerência, mas as palavras brotavam-lhe dos lábios sem nenhum controle.
O conde a beijou mais uma vez.
Embora soubesse que aquilo era a coisa mais maravilhosa que havia lhe acontecido, ela ainda se preocupava com o marquês.
Quando o conde levantou a cabeça, ela propôs:
— Temos de conversar... e pensar na segurança de seu pai, e se houver um escândalo ele ficará muito decepcionado.
— Já pensei nisso — o conde replicou — e eu a amo, minha querida, por se preocupar com ele.
— Você têm de salvá-lo! — Miku insistiu.
Ela imaginou que o conde não havia entendido e então declarou:
— Quando ela souber que fracassou, poderá tentar outra vez.
— Você disse que temos que salvá-lo — o conde tornou em voz baixa — e é isso o que faremos. Se você me ajudar, será fácil.
— Claro que o ajudarei — Miku apressou-se a dizer.
Um tremor percorreu-lhe o corpo.
— Foi horrível... assustador ver o rato pender para o lado e morrer! A vítima poderia ter sido seu pai.
Os braços do conde se estreitaram em torno do corpo de Miku.
— Você precisa esquecer isso — ele recomendou. — Salvaremos meu pai de todos os outros perigos que possam ameaçá-lo.
— Como o faremos? — Miku indagou.
— É muito simples — o conde tornou. — Meiko quer que eu me case com ela, mas se eu já estiver casado, ela terá de aceitar o inevitável.
Miku fitou-o sem compreender. Então ele disse com voz pausada:
— Se você for minha esposa, minha querida, poderá proteger meu pai de qualquer tentativa de assassinato. Por outro lado, através de amigos na Scotland Yard, vou me certificar que ela seja detida.
Miku não conseguia entender o que ele dizia e ergueu os olhos para fitá-lo. De súbito, sentiu como se toda a sala em torno de si estivesse repleta de luz.
— Você está me pedindo em casamento? — ela indagou num sussurro.
— Sim, desejo casar-me com você, meu amor — o conde informou —, e não aceitarei não como resposta.
Ele a abraçou com mais força e prosseguiu:
— Não penso apenas em meu pai, mas também em mim. Eu a quero, Miku! Amo-a como jamais amei outra mulher!
A intensidade da luz do amor que os envolvia parecia consumi-la por inteiro.
De repente, com um aperto no coração, escondeu o rosto no ombro dele.
— Eu o amo — ela enfatizou —, mas não poderemos nos casar!
O conde beijou-lhe os cabelos.
— Por que não, meu amor? Você sabe que já me pertence.
Um silêncio se seguiu. Então Miku sussurrou numa voz que ele mal podia ouvir.
— Eu menti... não sou quem você imagina.
O conde sorriu.
— Eu sei — ele argumentou — que é a filha mais velha de sir Kotaro Hatsune.
As palavras do conde causaram-lhe tanta surpresa que Miku levantou o rosto para fitá-lo, os olhos repletos de espanto.
— Como... como soube? Como adivinhou? — ela quis saber.
O conde tornou a sorrir.
— Desde que você chegou, despertou-me certa curiosidade — ele respondeu. — Algo em torno de você me intrigava.
Kaito notou a tensão no corpo de Miku e apressou-se a dizer:
— Está tudo bem. Como você, também tenho intuição, que me advertiu sobre sua verdadeira identidade.
— Como descobriu?
— E como soube que o vinho mataria meu pai?
Miku recostou a cabeça no ombro do conde.
— Então você não acreditava que eu era lady Hatsune?
— Não antes de expulsar-me quando fui dizer-lhe boa noite.
— Você me assustou! — Miku exclamou.
— Eu sei disso — Kaito afirmou — e sinto-me envergonhado por ter sido indelicado. Deveria ter percebido que você era jovem, inocente e pura, minha querida.
Como ela o excitava, ele a beijou novamente e abraçaram-se. O conde então prosseguiu:
— Acho que sou o primeiro homem a beijá-la e prometo que serei o último!
— Como descobriu meu nome? — Miku indagou quando conseguiu falar.
— Aquela tarde, após jogar pólo — o conde explicou — fui visitar um velho amigo de seu pai, alguém que gostava muito dele e ficou muito triste quando ele tornou a se casar.
— Foi bastante inteligente de sua parte imaginar que alguém mais sabia a verdade — Miku elogiou.
— Ele contou-me que teve poucas notícias de sir Kotaro depois que ele foi para o campo. Ele escreveu-lhe uma carta contando que teve uma filha muito linda, e que a batizou com o nome de "Miku", pois parecia uma deusa grega.
— Então, foi assim que descobriu — ela refletiu.
— Soube que você não era uma mulhe casada de vinte e seis anos de idade, e a primeira coisa que farei, minha querida, será me desfazer da aliança que você usa na mão esquerda, pois pretendo substituí-la, muito em breve, pela minha própria aliança.
— Você realmente me deseja? — Miku insistiu.
— Você vai saber o quanto a desejo, assim que nos casarmos — ele respondeu. — E isso, minha querida, acontecerá muito em breve, tão logo consiga uma licença especial. Depois partiremos para nossa lua-de-mel.
— Como posso casar-me com você, quando todos pensam que sou a segunda esposa de papai e, consequentemente, sua viúva?
— Teremos de resolver isso juntos — o conde confidenciou-lhe. — Garanto-lhe que sou um especialista em solucionar problemas, o que muito surpreende as pessoas.
— Eu o amo — Miku confessou — e acredito em sua habilidade, mas tenho um pouco de receio de que as pessoas descubram que menti e que isso venha a magoar Luka de alguma forma.
— Salvaremos Luka, assim como salvaremos meu pai — ele tranquilizou-a —, e prometo-lhe que ambos continuarão sendo protegidos por nós dois.
— Mas como... como? — Miku quis saber.
— Deve confiar em mim — ele recomendou — e a melhor forma é declarando seu amor.
— Oh! Eu o amo! Eu o adoro! — ela exclamou —, ainda não posso acreditar que me ama de verdade.
— Eu a amo tanto que não tenho palavras para expressar meus sentimentos — o conde declarou.
E, então, ele a beijou novamente, até transportarem-se para um paraíso de êxtase.
Ao voltar do jardim, onde enterrara o rato, o marquês colocou a armadilha vazia do lado de fora da janela. Depois disso, viu duas pessoas abraçando-se com paixão.
Contemplou-os maravilhado e então voltou sorrateiramente para o jardim.
Ao caminhar na direção do chafariz, imaginou que não esperava se deparar com aquela cena tão comovente.
Porém, nada podia ser melhor do que aquela união.
"O bem venceu o mal!", ele pensou sorrindo.
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