The Misery Machine
1 Velma Dace Dinkley
Notas iniciais
Tennessee, nos arredores de Nashville
O plano deu errado, como sempre, sempre tudo acabava saindo dos eixos, mas quando eles estavam aqui tudo acabava bem, até o dia que a sorte falhou com eles.
Ela não foi rápida o suficiente e Scooby acabou se machucando na luta contra o monstro de Nashville, era uma farsa, um cara com uma fantasia estúpida, mas ela falhou em prever os comparsas. Um deles tentou feri-la, mas o cão dinamarquês reagiu protegendo-a.
Scooby respirava com dificuldades, precisava de socorro. Conseguiu carregá-lo até a Misery Machine com muita dificuldade. Percebeu um corte em seu antebraço, revirou as coisas nos fundos do veículo em busca de algo para estancar o sangue. Pegou o primeiro pano que encontrou, rasgou um pedaço e amarrou com toda a força que seus músculos cansados permitiam, somente quando terminou o "curativo" que percebeu o que tinha feito. Era uma camisa verde musgo.
Era a camisa favorita do Salsicha.
Ele ficaria bravo, realmente gostava daquela camisa. Ela deixou um suspiro escapar. Estava cansada, exausta. Queria dormir e sonhar, sonhar com o tempo da Mystery Machine e dos subornos com biscoitos Scooby ou caramelos, quando só havia falsos fantasmas. Queria deixar a nostalgia tomar conta, mas nas raras vezes que dormia não eram sonhos que povoavam sua mente. Era engraçado, o modo nós nos lembramos do início quando o fim chega perto.
Ela acariciou Scooby com cuidado, enrolou uma manta entorno dele, não podia perdê-lo, não depois de tudo que já tinha perdido.
Escutou tiros acertando a Misery e agradeceu mentalmente pela blindagem recém adquirida. Pulou para o acento do motorista e acelerou com tudo para fora de Nashville Shores Waterpark enquanto o sol ganhava os céus.
Em poucos minutos Scooby já estava sendo atendido por um veterinário. O recepcionista se assustou com o estado da moça quando ela foi dar as informações como responsável pelo cachorro, arranhões e cortes nos braços e pernas, sem contar que o antebraço que sangrava novamente, ele insistiu para que ela fosse ao hospital ser atendida por um médico, mas ela se negou, lhe pediu permitisse que ele ao menos pudesse fazer um curativo descente, ela pretendia dispensar a ajuda, mas viu o sangue que aceitou. Depois de alguns minutos Scooby estava medicado e fora de risco, quando ouviu que ele somente precisaria de alguns dias de descanso ela respirou aliviada.
Este alívio durou exatos nove minutos, ela acariciou o cachorro que dormia tranquilamente na maca quando seu telefone vibrou. Ela ignorou o aparelho e deixou que ele vibrasse até que a pessoa desistisse. O veterinário garantiu que Scooby estaria apagado pelo resto do dia e, vendo o estado da garota, sugeriu que ela desancasse.
Ela achou melhor procurar um hotel onde pudesse tomar um banho e se sentir uma pessoa novamente. Repassou toda a noite enquanto a água caia pelo seu corpo, considerando cada movimento e escolha que a levaram até ali, procurando onde tinha falhado. Enrolada em um roupão ela espalhou o conteúdo da sua mochila na cama, mapas, uma faca, granada de luz, amuletos, papeis, muitos papeis.
Comeu alguns biscoitos, abriu o computador e enviou um relatório onde identificava a pessoa por trás do monstro de Nashville e pedia para que outra equipe ficasse a frente do caso. Seu telefone tocou novamente e ela continuou a não atendê-lo. Pegou os papeis e começou a rever as informações que havia juntado. E, algum ponto adormeceu.
Dormiu um sono agitado repleto de pesadelos, lembranças e medos que insistiam em ocupar a mente da jovem. Um ruído a trouxe de volto do reino de Morfeu, instintivamente ela pegou a faca, sentiu a presença de alguém no quarto e pressionou a arma contra o pescoço do seu visitante enquanto o derrubou no chão.
A respiração dela estava pesada e suas mãos ainda tremiam, resquícios do pesadelo que ainda estava presente em sua mente.
— Seria muito gentil de sua parte abaixar a arma, Agente Dinkley. — O homem grisalho falou com calma.
Agente, ela nunca se acostumava com esse título.
— Como está, Alfred? — Ela falou levantando-se e ajeitando o roupão corando.
O homem de terno levantou-se e bateu as mãos contra sua roupa com o intuito de retirar a poeira do hotel de quinta que a jovem se hospedará.
— Não me chamo Alfred, Dinkley. — Como fazia desde a primeira vez que ela o chamou assim. — Deveria ter atendido ao seu telefone.
Ela fez uma careta e colocou seus pertences de volta para o mochila. Ainda estava de tarde.
— Se vista, sairemos em 30 minutos. — A moça abriu a boca e ele levantou a palma da mão simultaneamente. — Já providenciei o transporte do Scooby, um agente está levando aquela monstruosidade que insiste em usar como veículo e um helicóptero nos espera.
Ela se manteve parada, somente uma pessoa moveria tantos recursos de uma só vez.
— Nos estamos indo para o Ohio, não estamos, William?
Ele assentiu. Ela usar seu nome real provava que ela compreendia o quão séria as coisas estavam, quando saia do quarto ele acrescentou.
— 30 minutos, Velma, você não quer fazê-la esperar.
{...}
O helicóptero desceu no topo da corporação Blake no coração de Coolsville, em silêncio Velma seguiu William, eles tomaram o elevador e seguiram para a sala do presidente, a secretária dizia que já eram esperados. Will deixou a menina seguir sozinha e aguardou o resultado deste encontro.
No instante que abriu a porta, por um segundo Velma achou que Daphne estivesse ali, o cabelo ruivo muito bem penteado, a postura correta e a roupa de grife, mas não.
Nan Blake se virou e olhou para a melhor amiga de sua filha mais velha, ela estava mudada. Como aquela menina com um sorriso tímido, óculos caindo do rosto e opiniões inteligentes havia se transformado em uma mulher de semblante triste e rosto cansado. Ela se lembrou de uma foto que Daph mantinha em sua penteadeira, nela a ruiva ria e abraçava a mais baixinha pelo pescoço e esta ria com o rosto vermelho tentando fugir do abraço.
A culpa destruiu Velma, deixou-a em pedaços e a motivou.
— No que estava pensando? – Toda a preocupação de Nan estava ali.
Velma já imaginava, seria repreendida, mais uma vez. Ela tentou falar, mas não havia uma resposta, Scooby estava ferido, deu sorte de não ter ela mesmo morrido. Ela abaixou a cabeça, Nan fazia com que sentisse com 14 anos novamente. Como na primeira vez na qual enfrentaram um vilão de verdade, há nove anos atrás, receberam parabéns da polícia, mas os pais ficaram uma fera, principalmente os seus já que era a mais nova do grupo e era conhecida pelo comportamento exemplar.
— Tem noção da situação na qual você se colocou e incluiu Scooby nisso? Afinal o que estava fazendo no Tennessee? Seu último relatório te posicionava na Califórnia.
Ali estava justamente a pergunta que não queria responder. Velma olhava para longe quando respondeu.
— Recebi uma pista. Não achei necessário compartilhar, poderia dar em nada como aconteceu.
— Uma pista sobre...
—Não deu em nada. Foi só um desperdício do meu tempo. – Ela não queria isso, que Nan tivesse esperança.
Nan tinha o coração acelerado e se sentou para absorver a informação, não era surpresa que Velma ainda estivesse procurando pelo culpado. Ela sabia que a jovem nunca iria parar, porque se fizesse isso teria que contemplar o fato que ter sobrevivido.
—Você não vai mais trabalhar sozinha. – Mais uma conversa que Velma gostaria de evitar.
— Eu não trabalho sozinha, tenho Scooby e Will comigo...
— E onde o Sr. William estava hoje, quando você dirigia a 200 km/h e Scooby sofria por ter levado uma pancada por você? – Nan tentou se acalmar, mas só de lembrar do relatório que leu falhava nisto, ela se preocupava com a garota. – Nós fizemos um acordo, eu transformei Mystery Inc., expandi a nível global, apliquei tecnologia de ponta e mantemos agentes muito bem treinado, tudo isso para que o que aconteceu com Daph nunca aconteça novamente, você quis se manter na ativa e eu concordei, mas vive dando voltas em Will e faz as coisas sozinha, não posso deixar que continue a se colocar em situações como a de ontem. Você vai trabalhar com uma equipe ou não fará trabalho de campo. Escolha.
— Como ousa? – Velma já estava exaltada de pé, batendo as mãos contra a mesa de Nan. – Você quer a Mystery Inc.? Pois então fique com ela, não preciso da sua tecnologia, nem de seus agentes, posso investigar por mim mesma.
Aquela discussão estava indo além do que Nan gostaria. Tinha que dar um basta naquilo. Ela se sentou e falou com toda a calma que não possuía.
— Não fiz o que fiz para tomar a Mystery de você e sabe bem disso. Você pode não precisar da corporação para realizar suas investigações, mas garanto que será bem mais difícil se eu usar todo o poder das Industrias Blake para atrapalhar você. – Nan se sentiu mal por usar seu poder para forçar Velma, mas não conseguia convencê-la de outra forma — Eu só quero que você não fique sozinha contra tudo, não é seguro. Por favor, Velma, aceite trabalhar em equipe.
Os passos duros de Velma denunciavam a raiva contida, em silêncio atravessou a sala em direção a saída.
— Porque isso funcionou muito bem da última vez, certo? – Disse antes de bater a porta e se afastar o máximo possível de Will, Nan e Mystery Inc.
{...}
— Eu rasguei sua camisa, foi um acidente, juro. Quando vi, já estava em pedaços. Eu sei que vai dizer que não foi nada, mas eu sei o quanto gosta daquela camisa. – Ela andava de um lado para outro. – O Scooby não está aqui, ele está machucado, é minha culpa. Ele me salvou e quase morreu por isso, te lembra alguém? Pois é. As pessoas tendem a fazer essas coisas, a morrer para me salvar. – Ela suspirou e colocou a mão no bolso. – A mãe da Daphne está me forçando a trabalhar em equipe, acredita nisso? – Ela soltou um sorriso fraco. – Eu estou cansada, sabe? Talvez seja o momento de parar. Encontrar um lugar onde as pessoas não olhem para mim como o povo de Coolsville faz, com pena, conseguir uma casa bacana, dar aulas de ciências para crianças. – Ela sentou e deixou sua mão correr pela grama recém aparada. – Ele não fala mais, sabe? O Scooby, nem uma palavra. Talvez ele mereça que eu pare, talvez ele esteja tão cansado quanto eu.
Ela se arrastou e apoiou as costas na escultura que ficava no meio do Park Mystery. Após o incidente o pai do Fred abriu um espaço no centro da cidade e criou o park, bem no coração do Park ficava a escultura, nela Salsicha, Fred e Daphne foram eternizados como os grandes detetives que foram. Ela gostava de ir lá, conversar com eles, estar perto deles pelo menos por um pouco. Ela deixou algumas lágrimas escaparem, abaixou sua guarda e deixou o sono vir. Mais uma vez teve um sono agitado, mas diferente de todas as outras vezes não foi por um pesadelo, no meio de uma confusão de informações havia algo mais em sua mente, algo que não pertencia àquele lugar.
— Acalme sua mente! TEM MUITO RUIDO AQUI DENTRO! Faz ideia de quanta força eu preciso para conseguir sua atenção. — Daphne colocava a mão na cintura e balançava levemente a cabeça. – E outra coisa, minha mãe está certa, você precisa de uma equipe, você precisa de nós!— Daph deu um sorriso de lado e sumiu.
Ela acordou, seu coração estava disparado e a única coisa que tinha em mente era a imagem de Daphne. Então a pior coisa do mundo aconteceu, seu coração se encheu de esperança, ela estava prestes a desistir e um mundo de possibilidades surgiu em sua frente, por um segundo implorou ao universo que estivesse certa, ou esse mar de esperança seria sua ruína.
Ela se levantou com um sorriso que não aparecia nos seus lábios há muito tempo, em sua mente tentava organizar as hipóteses e teorias. Não percebeu que falavam com ela até que lhe gritassem seu nome.
— Velma Dace Dinkley! Se dê ao trabalho de me ouvir quando eu estiver gritando com você!
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