The Mimosa Confessions (Vol. 1 em Português)
5 Capítulo 5
- Tudo bem, é a minha vez — eu disse.
- Beleza — respondeu Hoshihara. — Até amanhã, então.
- É, até amanhã.
Subi na minha bicicleta e pedalei. Mas não tinha avançado nem dez metros pela rua quando senti meu celular vibrar no bolso. Era uma nova mensagem. Parei a bicicleta e peguei o aparelho; desde que tinha trocado contatos com Hoshihara, desenvolvi o hábito inconsciente de checar minhas mensagens assim que elas chegavam. Abri o celular.
"Ei, desculpa. Tem uma coisa que eu quero te falar. Dá para você voltar rapidinho?"
Era da Ushio.
Sendo bem sincero, eu me sentia bastante desconfortável com a ideia de voltar para a casa da Ushio sozinho. Só conseguia imaginar que o que ela "queria me falar" tinha a ver com a confissão que fizera hoje durante o almoço, e eu ainda não tinha pensado em uma resposta adequada para aquilo. Não sabia o que faria se ela me pressionasse por uma ali mesmo, na hora; só de pensar, meu estômago revirava. Mas, como eu já tinha visualizado a mensagem, não dava para simplesmente ignorar.
Enviei um simples "Beleza" como resposta e fiz o retorno. Pedalando devagar, tentei pensar em maneiras de adiar minha resposta, se necessário — mas não consegui bolar nenhuma desculpa decente. Em pouco tempo, eu estava de volta em frente à casa da Ushio, totalmente despreparado para qualquer que fosse a conversa que teríamos.
"Cara, o que eu faço?" — resmunguei para mim mesmo enquanto descia da bicicleta, pegava minha mochila e caminhava até a porta.
Mas, bem na hora em que eu hesitava em tocar a campainha, a porta da frente se abriu sozinha e a Yuki saiu com uma sacola de compras retornável pendurada no ombro. Presumi que ela estivesse saindo para resolver alguma pendência.
- Ué, Sakuma? — disse ela. — O que foi?
- É, oi de novo. Nada demais. A Ushio acabou de me chamar para voltar...
- Ah, entendi. Bom, ela ainda está no quarto dela, então pode subir.
Ela deixou a porta aberta para mim enquanto se afastava. Não dava mais para voltar atrás. Fiz uma leve reverência para ela e entrei na casa. Depois de tirar os sapatos, subi as escadas, respirei fundo uma vez do lado de fora do quarto da Ushio e bati na porta. Ouvindo-a responder que eu podia entrar, girei a maçaneta e entrei.
- Desculpa te chamar de volta do nada — disse ela de seu lugar na cama, exatamente onde estava sentada quando Hoshihara e eu entramos da última vez. Ela parecia calma e controlada, sem nenhuma intenção ou objetivo claro perceptível em sua expressão.
- Não esquenta com isso. Então... o que você queria me falar? — perguntei, fingindo um ar de serenidade, apesar do suor frio que escorria pelas minhas costas e das palpitações aceleradas do meu coração.
Ushio não disse uma palavra no início, optando por apenas olhar para mim. Então, ela soltou uma risadinha pelo nariz, aliviando um pouco a tensão.
- Por que não se senta? — sugeriu ela.
- Hã? Ah, claro. Sim, vou fazer isso.
- Você parece bem nervoso, Sakuma — disse Ushio, soando um tanto surpresa enquanto eu colocava minha mochila no chão e me ajoelhava no tapete. — Relaxa. Não vou falar nada que vá complicar as coisas para você, não se preocupe.
- N-não vai?
Percebendo que me ajoelhar em uma postura formal era provavelmente um exagero, mudei para uma posição mais casual. Ushio levantou-se da cama, caminhou até a escrivaninha e abriu uma gaveta. Então, de costas para mim, disse:
- Eu li aquele seu romance.
- Hã?
- Aquele que você escreveu na época do ensino fundamental.
Levei alguns segundos para processar o que ela tinha dito e me lembrar de que havia lhe emprestado aquele meu velho romance amador. Minha mente estava tão ocupada com a confissão anterior dela que eu nem tinha considerado aquilo como um possível tópico de discussão. Ushio tirou a pilha grossa de papel de manuscrito da gaveta e a trouxe até mim. Aceitei com as duas mãos, e ela se sentou em sua cadeira giratória de escritório.
- Só achei que seria bom te dar minhas impressões gerais — disse ela, coçando a bochecha de vergonha.
- E foi por isso que você me chamou de volta aqui?
Ela assentiu, e uma onda de alívio me invadiu. Eu não saberia o que fazer se ela quisesse falar mais sobre os sentimentos dela por mim. Mas, à medida que o alívio passava, outra sensação ansiosa e incômoda começou a borbulhar dentro do meu peito — e essa eu conhecia muito bem. Era expectativa.
Ushio tinha lido meu romance e estava prestes a me dizer o que achou. Aquilo era inédito para mim: ter alguém conhecido não apenas lendo o que escrevi, mas também me dizendo o que achou. Era inteiramente provável que não fosse uma crítica muito positiva, mas eu ainda me sentia ansioso e inquieto com a ideia de ter meu trabalho avaliado.
- Ah, você leu mesmo, é? — perguntei, com o coração batendo feito louco. — E aí, hã... Como foi?
- Bem, não tenho certeza de como colocar isso... — começou ela, desviando os olhos — possivelmente sem jeito. — Acho que, para começar, vou apenas dizer que estou realmente impressionada por você ter conseguido escrever tanto. Acho que o texto mais longo que já fiz na vida, original ou não, provavelmente só encheria umas cinco ou seis páginas como estas. Mas quanto à história em si, bem... — Ela lançou um olhar de soslaio na minha direção antes de continuar. — Acho que talvez ela só não seja muito o meu tipo...
Senti uma espécie de espasmo no fundo da garganta. Aquilo era, para todos os efeitos, apenas uma maneira mais suave de dizer "Não ficou bom" sem ferir meus sentimentos.
- E-entendi, então não fez muito o seu estilo... — eu disse, fazendo o meu melhor para evitar que meu rosto ficasse tremendo. — Posso perguntar o que exatamente não funcionou para você?
- Bem, para começar, eu não entendi muito bem aquela lógica onde o mundo inteiro acaba se a amiga de infância e vizinha do protagonista morrer. Eu sei que você incluiu uma explicação superficial sobre ser relacionado à mecânica quântica ou algo assim, mas acho que simplesmente não colou para mim... Embora talvez tenha sido apenas falta de compreensão da minha parte. Além disso, notei que você apresentou um monte de personagens secundários de uma vez só na metade da história, e as coisas ficaram meio confusas a partir dali. É bem difícil acompanhar seis novos integrantes no elenco a menos que você distribua as apresentações deles ao longo do tempo — e, para completar, alguns deles só apareceram naquela única cena e nunca mais voltaram no resto da história. Ah, sim, e outra coisa bem menor...
Ushio continuou por mais vários minutos, desmontando logicamente cada defeito de prosa, discrepância de enredo e inconsistência de caracterização de que conseguia se lembrar ao longo do livro inteiro. Parei de ouvir depois de um tempo — ou, mais precisamente, não aguentei continuar ouvindo todas as críticas dela.
Claro, eu sabia perfeitamente bem que minha história era bem amadora e sem graça. Mas ter que sentar ali e escutar alguém conhecido apontando cada defeito com precisão cirúrgica era muito mais doloroso do que eu jamais poderia ter imaginado. A pior parte era que eu concordava com todas as críticas construtivas dela, então não conseguia nem oferecer um contra-argumento ou um ponto de vista autoral oposto. Arrependi-me profundamente de ter pedido para ela detalhar as partes de que não gostou.
- ...mas é isso, acho que isso resume tudo — concluiu ela. — Er, Sakuma? Você está bem?
- Hã? — perguntei. — Ah, sim... Desculpa, acho que só fiquei um pouco desanimado agora...
- O quê?! — Ushio exclamou, em pânico. — A-ah meu Deus, desculpa! Eu fui longe demais, não foi? Bem, não é como se eu fosse uma crítica literária profissional, então não leve tudo o que eu disse tão a sério.
- Não, tudo bem. Eu também não iria querer que você mentisse e dissesse que adorou só para me agradar... Obrigado por me dar suas impressões sinceras. Eu realmente agradeço.
Na realidade, eu podia sentir meu coração quebrando em tempo real, mas sabia que nada de bom viria se eu admitisse que ela tinha magoado meus sentimentos. Ushio ficou olhando para o manuscrito no meu colo, parecendo que queria dizer mais alguma coisa, mas sem conseguir descobrir o quê. Talvez estivesse vasculhando suas memórias em busca de qualquer pedacinho da história que tivesse gostado para poder me elogiar, e falhando miseravelmente.
Um silêncio desconfortável tomou conta do quarto, e me peguei pensando, divertido, que talvez tivesse sido melhor se ela tivesse me pressionado por uma resposta para a confissão dela, afinal. Eu precisava ir para casa o quanto antes, antes que as coisas ficassem ainda mais esquisitas entre nós. Peguei meu lixo reciclável — quer dizer, meu romance amador — e fui enfiá-lo na mochila.
Uma dor aguda atravessou meu dedo indicador.
- Ai!
Puxei minha mão direita de volta para verificar o estrago; uma gota vermelha de sangue havia se formado na ponta do meu dedo e crescia a cada segundo. Parecia que eu tinha arrumado um corte de papel bem feio.
- O que houve? — perguntou Ushio, inclinando-se para olhar.
- Nada, só cortei o dedo em uma das páginas — respondi. — Se você puder me passar um lenço de papel ou algo assim para limpar, tenho certeza de que vai ficar tudo bem.
- Espera um segundo — disse ela, levantando-se da cadeira e pegando uma caixinha de curativos adesivos na escrivaninha. Ela tirou um e me ofereceu. — Aqui, usa este.
- Ah, legal... Obrigado.
Limpei o sangue com um lenço e depois peguei o curativo da mão dela. Abri a embalagem e tentei aplicar na parte de baixo do meu indicador com a outra mão, mas descobri que era terrivelmente difícil alinhar o ferimento com a parte acolchoada usando apenas dois dedos. Ushio deve ter me visto sofrendo com aquilo, pois arrancou o curativo da minha mão e mandou eu ficar quieto. Ela se sentou ao meu lado e, com cuidado, envolveu o curativo em volta do meu dedo.
- Certo, está pronto — ela disse, assentindo com satisfação ao admirar seu trabalho delicado.
- Uau — eu disse. — Isso foi meio feminino, agora. — As palavras simplesmente escaparam.
Os olhos de Ushio se arregalaram.
Foi só então que percebi que talvez tivesse dito algo ofensivo, e comecei a ficar estressado com isso. Talvez eu não devesse ter acrescentado aquele "meio"... É, deve ser isso. Quer dizer, isso implica que na maior parte do tempo eu não a considero muito feminina, ou então por que eu sentiria necessidade de apontar isso? E o que diabos a maneira como você aplica um curativo tem a ver com ser menino ou menina?
- Er, desculpa, eu só estava, uh...
Enquanto eu me atrapalhava para tentar encontrar uma explicação, notei uma mudança no comportamento de Ushio. Ela estava olhando levemente para baixo e para o lado, mordendo suavemente o canto do lábio. Era uma expressão ansiada. Os lóbulos das orelhas estavam levemente corados, e seus olhos cinzentos tremulavam. Como eu deveria interpretar essa reação?
Parecia quase que ela estava tentando se conter para não sorrir, ou chorar, ou ficar irritada — mas qual das três, eu não fazia ideia. Eu poderia simplesmente perguntar o que havia de errado e descobrir na hora, mas assumindo que ela estivesse chateada comigo, eu realmente não queria ficar cutucando o assunto.
Enquanto eu estava sentado ali, confuso e incapaz de discernir suas verdadeiras emoções, Ushio levou a mão aos fios do cabelo para mexer neles. — Hum... Obrigada?
No início, me perguntei por que ela havia dito isso com uma entonação ascendente, mas um instante depois, reconheci o que estava ouvindo: ela estava se sentindo envergonhada por eu tê-la chamado de feminina. Por um momento, senti alívio ao saber que ela não estava brava comigo, mas então me vi sentindo estranhamente desconcertado. Toda uma série de emoções conflitantes girou em minha mente, deixando-me com uma sensação muito peculiar que não era nem totalmente agradável nem desagradável. Será que eu estava simplesmente feliz por ela ter me agradecido pelo comentário? Será que eu estava surpreso com a reação inesperada? Será que eu estava um pouco perturbado com o aumento da feminilidade de Ushio? Talvez as três coisas tivessem algo a ver com isso. Mas a maior emoção que senti não foi nenhuma dessas — foi uma que eu não conseguia articular direito. Era algo semelhante a uma sensação de vazio, como um vento frio soprando através de um buraco aberto no meu peito. Eu estava desanimado? Eu estava me sentindo desencorajado por alguma coisa? E se sim, pelo quê?
De repente, ouvi o som da porta da frente sendo destrancada e aberta lá de baixo. Parecia que Yuki havia voltado de suas tarefas.
- É melhor eu ir — disse, e então me movi novamente para deslizar meu manuscrito para dentro da mochila — desta vez sem me cortar — antes de me levantar.
- Hm? Ah... Sim, certo — disse Ushio, levantando-se do chão também.
Quando nossos olhos se encontraram, ela já havia recuperado sua habitual postura serena. Mas quando peguei minha mochila e fui sair do quarto, ela me chamou para esperar — e quando me virei, vi que ela estava parecendo um tanto ansiosa e insegura novamente. — Se você escrever outro romance, espero que me deixe ler esse também. Não me importa qual gênero.
- Claro, pode deixar — eu disse. — Não sei se vou ter vontade de escrever de novo... mas se tiver, vou tentar buscar uma avaliação mais positiva da próxima vez, hein.
- Eu já pedi desculpas! — Ushio disse, com sua compostura se desfazendo diante da brincadeira.
Nos despedimos, e desci as escadas. Depois de calçar os tênis e sair, fui imediatamente envolvido pela noite de verão quente e abafada. Um belo gradiente se pintava no céu ocidental enquanto o sol se punha no horizonte. Peguei minha bicicleta e pedalei em direção a casa.
Cortando o vento, desenterrei aquela sensação confusa que tive no quarto de Ushio para examiná-la mais de perto. E desta vez, foi quase anticlimático o quão rápido percebi qual era a verdadeira causa daquela vexação.
Havia um pensamento pelo qual me sentia desanimado, e culpado por sequer tê-lo: "Se ao menos Ushio tivesse nascido menina, tudo isso seria tão simples."
Ela era atraente. Tinha uma personalidade incrível. Era uma boa amiga com quem eu tinha muita história, e ela gostava de mim. E se ela não fosse biologicamente masculina, eu muito provavelmente teria me apaixonado por ela naquele exato momento em que ela enrolou o curativo em meu dedo. Mas apesar de ser seu amigo e apoiar sua transição, eu simplesmente não conseguia mentalmente preencher essa lacuna entre o que ela havia nascido e o que ela se identificava. E essa era uma realização realmente, realmente deprimente para mim.
Tudo o que eu podia fazer era lamentar a triste realidade de tudo aquilo. Eu deplorava seja lá qual criador divino tivesse achado adequado colocar Ushio em um corpo ao qual ela não pertencia. Se ao menos seu sexo e gênero estivessem alinhados, não haveria razão para ela ter que lutar tanto para aceitar sua identidade. Ou pior — para tentar se convencer de que era uma doença ou deficiência mental, e que ela só precisava "deixar isso de lado".
Se ao menos ela tivesse nascido menina, eu poderia até... Bem, não adiantava pensar nisso. Ergui-me do banco da bicicleta e pedalei mais rápido. O mais forte que pude.
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Naquela noite, tive um sonho. Eu estava com gripe, e Ushio tinha vindo à minha casa para cuidar de mim. Nesse sonho, Ushio era uma garota como qualquer outra — ela tinha uma fragrância mais feminina e um peito que se curvava sob as restrições da camisa. Lembrei-me de me sentir feliz por saber que ela estava genuinamente preocupada comigo.
- Ei, Sakuma — ela disse, sentando-se na cama onde eu estava deitado. Um sorriso doce se espalhou por seu rosto — o tipo provocante que só uma verdadeira raposa poderia fazer quando sabia que tinha sua presa exatamente onde queria, e ele também sabia disso. — Olhe para mim. Olhe para mim de verdade.
E com isso, ela começou a tirar o uniforme — primeiro jogando a blusa no chão, depois o sutiã — expondo seu torso nu e pálido ao ar livre. Suas mãos frias e esguias pegaram um dos meus braços e guiaram suavemente minha mão para tocar seus seios. Havia uma maciez tangível ali, e um calor, e uma batida de coração — o que só fez meu próprio coração bater mais rápido. Quando ela inclinou a cabeça como se pedisse minha opinião, os fios de cabelo que estavam sobre sua orelha perderam a batalha para a gravidade, soltaram-se e caíram balançando. E então eu acordei.
Tudo o que pude fazer foi soltar um suspiro profundo e pesado. Não conseguia dizer se tinha ficado aliviado no sonho ou desapontado, mas meu coração ainda estava acelerado mesmo depois que acordei. Algo estava claramente errado comigo; eu nunca tinha sonhos assim.
Arranquei minhas costas do colchão e me sentei na cama. Pela fresta na cortina da janela, eu podia ver a luz da manhã se infiltrando. Levantei minha mão direita para proteger meus olhos do clarão. O curativo que Ushio havia enrolado em meu dedo indicador havia caído quando saí do banho na noite anterior. Ainda doía um pouco aplicar pressão no ferimento, mas ele já havia fechado bem. Esse era o poder da juventude, suponho.
Levantei-me da cama. Era hora de se preparar para a escola.
O espectro do verão começava a se tornar cada vez mais corpóreo. Durante todo o meu trajeto, ressenti o sol da manhã por se tornar mais forte a cada dia, mas rapidamente o perdoei assim que entrei nos corredores com ar-condicionado da Escola Tsubakioka. Depois de trocar os sapatos na entrada, mergulhei na agitação matinal e subi para a Sala 2-A.
Ao chegar, a primeira coisa que fiz foi olhar para a mesa de Ushio. Ela já estava lá com seu livro de inglês da primeira aula e o caderno abertos sobre a mesa, tamborilando distraidamente no celular. Desviando o olhar para o lado, vi Nishizono envolvida em uma conversa matinal com algumas de suas habituais seguidoras. Hoshihara ainda não havia chegado, ao que parecia. Criei coragem, contraí o abdômen e caminhei até a mesa de Ushio. Assim que ela notou que eu estava ao seu lado, desejei-lhe bom dia no tom mais natural que consegui, claro e alto o suficiente para ecoar por toda a sala de aula.
Vários de nossos colegas (Nishizono incluída) se viraram para olhar. A atmosfera geral da sala não mudou muito, mas tive a impressão de que as pessoas que olhavam para cá captaram minha intenção de me aliar a Ushio como amigo, o que já era mais do que suficiente por enquanto.
Ushio, por sua vez, afrouxou os cantos dos lábios e me desejou bom dia de volta. Por um instante, a versão dela que eu tinha visto em meus sonhos naquela noite passou pela minha mente, e não pude evitar de baixar os olhos para o peito dela para ter certeza de que ainda não estava dormindo. Mas não havia seios proeminentes ali no mundo real. Obviamente. Cara, o que diabos eu estou fazendo?
- Sakuma? — perguntou Ushio, inclinando a cabeça para o lado. Balancei a cabeça suavemente e varri o tal sonho para debaixo do tapete no fundo da minha mente.
- Desculpa, não é nada — eu disse. — Você descansou bem ontem à noite?
- Sim. Dormi como uma pedra por umas nove horas.
- Legal. Tomara que você não comece a cochilar durante a aula, então.
- Bem, sim. Eu nunca venho para a escola sem descansar. Não sou igual a você, bobinho.
Ela riu e deu um sorriso modesto. Naquele instante, senti uma sensação estranha e difusa no peito. Senti uma partícula do mais leve calor crescendo em algum lugar lá dentro — mas era uma sensação quase desconfortável, como uma picada de mosquito que eu não conseguia coçar.
- E-eu vou guardar minhas coisas — eu disse.
- Hm? Ah, certo.
Passei por sua mesa a caminho da fileira de trás e coloquei minha mochila na minha. A sensação difusa no meu peito rapidamente diminuiu. O que foi aquilo agora? De certa forma, quase se assemelhava à extrema euforia que eu sentia sempre que tinha a chance de conversar com Hoshihara, mesmo que só um pouquinho... Mas não, não podia ser isso.
Falando em Hoshihara, ela entrou na sala momentos depois de eu me sentar e pegar meu livro e estojo. Ela rapidamente procurou Ushio e lhe desejou bom dia em seu habitual tom alto e animado. Novamente, todos na classe se viraram para olhar. Hoshihara parecia levemente tensa; percebi um traço de apreensão em seus olhos, mas não era o suficiente para abalar sua nova determinação de se manter firme e não se deixar influenciar pelos colegas.
Hoshihara foi direto até a mesa de Ushio enquanto ela retribuía o cumprimento, e as duas começaram a conversar sobre amenidades matinais, comentando como estava ficando quente e tal. Parecia que Hoshihara já estava colocando em prática o plano que me contou na volta para casa ontem — e isso me lembrou que eu precisava começar a agir também. Levantei-me e fui me juntar à conversa; no caminho, meus olhos errantes encontraram o olhar de julgamento de Nishizono, mas desviei rapidamente.
A partir de então, Hoshihara e eu íamos até Ushio e conversávamos durante todos os intervalos. Não importava o assunto, só que não a deixássemos mais isolada e sozinha. Também queríamos ficar perto dela o máximo possível para dissuadir Nishizono de se sentir à vontade para mexer com Ushio sem consequências (ela ainda fez algumas tentativas de falar mal de nós, é claro, mas nós coletivamente as ignoramos todas as vezes). Era evidente que ela não estava nada satisfeita com esse novo estado de coisas. No início, ela apenas estalava a língua com irritação ao perceber que não íamos dar atenção a ela, mas depois de um tempo, começou a descontar sua frustração em suas chamadas amigas — mandando-as comprar um refrigerante para ela, interrompendo suas piadas e causos para dizer o quanto eram sem graça, e assim por diante. E, sem dúvida como resultado direto disso, pude sentir o temperamento geral da classe começar a mudar em relação a ela.
Percebi isso claramente durante o intervalo entre a terceira e a quarta aulas. Eu tinha acabado de fazer minhas necessidades no banheiro e estava lavando as mãos quando dois outros meninos da minha sala entraram, tagarelando alto enquanto entravam em seus respectivos cubículos. Não querendo interromper a conversa nem mesmo enquanto se aliviavam, ao que parecia, eu podia ouvir cada palavra de seu diálogo do meu lugar na pia.
- Sei lá, cara. Acho que ela foi longe demais dessa vez — disse um deles. Dadas as circunstâncias do dia, era fácil adivinhar a qual "ela" ele estava se referindo.
- Quem, a Nishizono? — disse o outro. — É, cara. Concordo totalmente. Não acredito naquela palhaçada que ela fez ontem.
- Né? Tipo, deixa isso para lá a essa altura. Está ficando um pouco chato, se quer saber a minha opinião. Quero dizer, quem se importa?
- Você acha que talvez ela esteja só com ciúmes ou algo assim?
- O quê, só porque ela acha a Tsukinoki mais bonita do que ela ou coisa do tipo? Essa seria boa. Falando em reviravolta, não acha?
Os dois garotos caíram na risada por um tempo antes de mudarem imediatamente para outro assunto, aparentemente bem satisfeitos com aquela piada. Ainda assim, percebi pelo tom deles que estavam começando a desenvolver uma antipatia mais crítica em relação a Arisa Nishizono com base no comportamento recente dela — e eles provavelmente não eram os únicos. Com certeza ninguém que tivesse o mínimo de consciência acharia perfeitamente aceitável ela ter roubado a saia da Ushio Tsukinoki ontem e depois tentar humilhá-la com isso. Todo mundo sabia que ela tinha passado completamente dos limites e, embora eu não fosse do tipo que sentia prazer em ver a queda de um inimigo, tinha que admitir que aquilo era um bom sinal para nós. Se a Nishizono colocasse os colegas de classe contra si mesma, talvez fosse convencida a parar de assediar a Ushio para reconquistar alguns amigos. Eu só podia torcer para que essa tendência continuasse, e de preferência sem grandes incidentes.
O quarto período terminou e o horário do almoço começou. Natsuki Hoshihara pegou sua refeição e foi até a mesa de Ushio, como sempre fazia. A Nishizono costumava ser bem tranquila enquanto comia o próprio almoço, então eu não achava que precisava ficar especialmente vigilante em relação à Ushio naquele momento. Fiquei na minha própria mesa e abri minha marmita. Logo em seguida, Hasumi puxou uma cadeira para se juntar a mim, como de costume.
- Você não vai almoçar com a Tsukinoki também? — ele perguntou.
- Não. Não é como se nós três tivéssemos tanto assunto assim, afinal. Além disso, se eu fosse almoçar com a Ushio, quem iria almoçar com você, hein?
- Quero dizer, eu poderia muito bem ir sentar com alguns dos meus outros amigos... — disse Hasumi, com a expressão tensa devido à condescendência implícita no meu tom de voz.
- Ah... Bem, faz sentido, eu acho.
E eu aqui pensando que estava sendo um amigo atencioso. Esquece. Hasumi abriu sua própria marmita e começou a comer.
- De qualquer forma — ele disse entre uma garfada e outra, enquanto enfiava arroz na boca -, parece que você está bem amiguinho da Tsukinoki hoje. Você só está se sentindo mal pelo que aconteceu com a Nishizono ontem ou o quê?
- Mais ou menos. Quero dizer, aconteceram algumas outras coisas também, mas no geral eu só estou um pouco preocupado com ela, sim.
- Hum. Um pouco surpreendente, não vou mentir. Quero dizer, considerando como você costumava evitar ela feito peste e tudo mais.
- É, pois é. Muita coisa mudou desde então.
As coisas estavam totalmente diferentes agora. Era meio loucura quando eu realmente parava para pensar no assunto: primeiro, um antigo amigo meu e eu brigamos, depois esse amigo se torna uma garota, e então essa garota confessa que está a fim de mim. Seria bem difícil as coisas continuarem do jeito que eram depois de uma sequência de eventos como essa. "Quem sabe o que pode acontecer em seguida, nesse ritmo", pensei comigo mesmo enquanto enterrava meus palitinhos em alguns vegetais em uma pequena divisória da marmita.
E do nada veio o som de algo caindo e estrepando no chão.
- O qu...?! Arisa!
A voz de Hoshihara ecoou pela sala de aula. Olhei para onde ela e Ushio estavam sentadas e vi Nishizono parada ao lado delas, de braços cruzados.
- I-isso foi... Isso foi muita crueldade! — disse Hoshihara, com a voz tremendo. — Como você pôde fazer uma coisa dessas?
Ushio, enquanto isso, estava apenas ali sentada, murcha e de olhos baixos. Dei um jeito de me arrumar na cadeira para ter uma visão melhor da situação e vi uma marmita virada de cabeça para baixo jogada no chão, aos pés de Nishizono. A marmita de Ushio.
- Ah, por favor — disse Nishizono. — Não é como se eu tivesse feito de propósito. Eu só esbarrei sem querer, foi só isso.
Apenas esse testemunho já era suficiente para me dar uma boa ideia do que tinha acontecido. Presumivelmente, ela esticou a mão para derrubar o almoço de Ushio da mesa enquanto passava e não fez o menor esforço para disfarçar que tinha sido totalmente intencional. Eu conseguia perceber pela reação de Hoshihara que não havia margem para dúvidas quanto a isso.
Quase estourei uma veia de tanta raiva. Senti que precisava explodir — começar a berrar palavras duras com Nishizono até ela pedir desculpas. Eu queria defender a Ushio, assim como tinha decidido fazer ontem — mas então hesitei. E se houvesse a menor chance de ter sido um acidente? Além do mais, de que adiantaria ficar bravo nessa situação? Não tornaria as coisas ainda mais complicadas? Todo tipo de pequena incerteza me fez, no fim das contas, conter minha fúria contida. Mesmo assim, as palavras queimavam na minha garganta.
- Mais importante, por que você está defendendo tanto a Ushio hoje em dia, Natsuki? — perguntou Nishizono, deixando seu descontentamento bem evidente.
- Como assim "por quê"? Porque a Ushio é minha amiga, obviamente.
- Desculpe, você disse Ushiozinha?! — Nishizono soltou uma gargalhada estridente e condescendente. Então, após rir com deboche de si mesma por um momento, soltou um suspiro. Sua expressão gelou quando declarou: — Isso é nojento. Você deve ser mais burra do que eu pensava se acha saudável alimentar os delírios dele desse jeito. Não importa o que faça, o Ushio sempre vai ser um garoto. Ou o quê, ele vai fazer uma cirurgia de verdade logo mais? Arrancar tudo fora? Porque, a menos que chegue a esse ponto, é só um garoto vestindo roupas de mulher no fim das contas. Vocês estão se divertindo. Brincando de faz de conta.
- Você acha que isso é "divertido" para mim? — disse Ushio, com a angústia estampada em todo o rosto enquanto erguia a cabeça para encarar Nishizono. — E essas coisas que você está sugerindo... Não são nem de longe tão simples e fáceis de fazer quanto você pensa.
- Ah, é mesmo? — respondeu Nishizono, olhando para Ushio com desdém. — Bem, não que isso importe para mim. Mas deixe-me te dar um conselho, Natsuki, já que acho que ainda somos tecnicamente amigas: não importa o quanto o Ushio consiga se parecer com uma garota, você nunca deveria baixar a guarda perto dele.
Hoshihara franziu a testa, com desconfiança.
Nishizono exibiu um sorriso hediondo e continuou: — Quer dizer, ele é um cara, afinal de contas. Você baixa a guarda por um segundo, e ele vai totalmente tentar te comer e te possuir. Eu garanto.
- Mas o quê-?!
As bochechas de Hoshihara ficaram vermelhas como fogo diante das implicações sexuais descaradas daquela afirmação. Isso não era apenas uma afronta clara e altamente desrespeitosa a ambos, mas também uma tentativa de invalidar completamente as escolhas de estilo de vida de Ushio. Eu ainda não conseguia acreditar na rapidez com que Nishizono se virava contra duas pessoas que tinham estado entre suas amigas mais próximas até recentemente.
A fúria que estava fervendo no fundo do meu estômago atingiu um ponto de ebulição furioso que ameaçava estourar meu autocontrole.
E então estourou.
- Você precisa parar com isso — eu disse.
Nishizono girou para me encarar, com animosidade nua em seu olhar gelado.
- Desculpe? Estava falando comigo? Sua voz era tão fraca e patética que eu não consegui ouvir direito.
Eu me levantei do meu lugar com pernas trêmulas e a encarei. — Eu disse que você precisa parar com isso. Essas duas fizeram alguma coisa para te incomodar? Não. Você só está descontando nelas porque não consegue aceitar a nova Ushio.
- Com licença? Isso não tem nada a ver com você. E sim, elas têm me incomodado, para sua informação. Eu não gosto de Ushio atrapalhando nossos estudos e arruinando o que era um bom ambiente de aprendizado para a turma inteira só porque ele quer bancar a vítima para que todo mundo fique passando a mão na bunda dele e dizendo que ele é especial. Francamente, isso me irrita.
- Isso é tudo uma questão de como você se sente a respeito, porém. Ushio não está fazendo nada para incomodar ninguém. Ela só quer ter uma vida normal e ir para a escola como qualquer outra pessoa.
- É, e eu estou dizendo que a ideia dele de uma vida "normal" é profundamente perturbadora e nojenta para o resto de nós. Eu não pedi nem queria saber sobre os fetiches estranhos ou orientação sexual dele — mas agora eu sou a inadequada por falar sobre isso? Me poupe. Quer dizer, o quão egocêntrico você pode ser? Se você nunca quer que as pessoas te julguem ou sejam confrontadas com pontos de vista opostos, você deveria guardar essas coisas para si. Você não pode simplesmente sair em público e tornar sua vida privada um problema meu. Se esperam que eu apenas "aceite" ele como válido, então vocês precisam aceitar meu sentimento de desconforto como igualmente válido também. Por que Ushio é o único que ganha tratamento especial aqui? Fala em duplo padrão. E vocês agem como se eu fosse a discriminadora aqui.
- Você não tem moral para falar sobre discriminação. E que "pontos de vista opostos" são esses que você está falando? Tudo o que você está fazendo é desferir insultos. Quer dizer, pense no que você está dizendo. Você realmente acha que é aceitável tratar as pessoas com quem você discorda como se fossem inválidas só porque você não as entende? Isso não é uma opinião "igualmente válida". Isso é só você sendo estúpida.
Eu podia jurar que ouvi um som como de vidro rachando vindo de Nishizono.
- Eu sabia — ela disse. — Você tem um fraco pela Ushio, não tem?
- Com licença? Mas que porra você está-
- É por isso que você está tão exaltado com isso, não é? Você simplesmente não suporta ouvir uma única coisa ruim sobre sua preciosa Ushio-chan, não suporta? Eca! Você vai me fazer vomitar. Se você quer bancar o cavaleiro branco, vá fazer isso em outro lugar para que eu não tenha que ser submetida a isso.
Eu já conseguia ouvir o vapor borbulhando dentro da minha cabeça. Isso era ruim — se eu deixasse perder a pausa agora, estaria caindo direto no jogo de Nishizono. E então eu acalmei minha fúria interior e soltei um bufão.
- Tá, certo — eu disse. — Comece a fazer afirmações infundadas que não têm nada a ver com o que estamos discutindo no momento em que você percebe que perdeu. O que você tem, cinco anos?
- Ah, é? Se são tão infundadas, então por que você não diz logo que estou errada, hein? Deveria ser fácil nos contar exatamente como você se sente em relação à Ushio, nesse caso.
- Não é sobre o que estamos-
- Pare de mudar de assunto e apenas responda a maldita pergunta.
Droga. Droga. Droga. Eu não suportava o quão boa ela era em apertar meus botões com essas táticas de instigação infantis. Agora aqui estava eu, em pé com todos os olhos em mim enquanto a turma inteira esperava minha resposta — incluindo Hoshihara e Ushio. Tentar simplesmente ignorar não era a melhor jogada aqui.
Eu sabia qual era a resposta segura; eu poderia simplesmente dizer que não gostava dela desse jeito. Mas para Ushio, isso também funcionaria como minha resposta à confissão dela: um não definitivo. Mesmo que essa fosse a melhor jogada em termos dessa discussão atual com Nishizono, eu sabia que quanto mais eu negasse, mais provavelmente isso machucaria os sentimentos de Ushio. Por outro lado, se eu dissesse que gostava dela desse jeito, então — não. Não era hora de escolher minhas respostas com base em como eu imaginava que seriam recebidas por aqueles ao meu redor. Eu precisava apenas ser homem e dizer como realmente me sentia. Essa era a única opção correta aqui.
- Vamos lá — disse Nishizono. — Fala logo.
- Eu não...
- Desculpe? O que foi isso?
- Eu não sei, está bem?! Eu não sei se tenho sentimentos por ela! — Eu estava praticamente gritando. — Quer dizer, sim, ela é certamente bonita, e eu honestamente meio que fico com borboletas no estômago quando falo com ela. Obviamente, eu gosto dela como amiga, e quero fazer tudo o que puder por ela porque não quero vê-la se machucar. Mas quanto a se eu gosto dela num nível mais profundo... eu simplesmente não sei, desculpe.
- Ah, por favor. Pare de ficar em cima do muro, já.
- Acredite, eu gostaria de poder, mas eu ainda não tenho todas as respostas! Não é como se eu pudesse definir exatamente como me sinto sobre qualquer um e tudo sob comando, tá bem?! E além disso, se você realmente quer fazer afirmações sobre meus sentimentos por Ushio, então eu poderia insinuar algumas coisas sobre os seus também, mas duvido muito que você queira ir por esse caminho!
Eu me arrependi dessa resposta final no momento em que ela saiu dos meus lábios. Embora ela certamente tivesse começado, eu sabia que era de mau gosto trazer fofocas de segunda mão sobre ela, e ao fazer isso eu tinha agora rebaixado ao nível dela. Eu podia ver o rosto de Nishizono ficando vermelho de raiva em tempo real. Enquanto ela rangia os dentes, eu me preparei para algum tipo de retaliação — embora eu não esperasse que ela alcançasse a garrafa térmica de aço inoxidável em cima da mesa de Ushio. No momento em que ela a ergueu e puxou o braço para trás como se fosse jogá-la em mim, Ushio saltou de pé e agarrou o braço de Nishizono para contê-la.
- Você não pode fazer isso, Arisa! — disse Ushio, lutando com ela.
- Solta! — Arisa se debateu. — Não me toque, seu doente!
Ela não conseguia se soltar do aperto de Ushio. A diferença em força física era evidente, mas ainda assim Arisa se recusava a ceder. Ela agitou os braços como uma mulher enlouquecida — até que, eventualmente, a garrafa térmica de metal atingiu Ushio bem no rosto. Imediatamente, Nishizono soltou um pequeno suspiro e a deixou cair, deixando-a cair no chão com um estrondo alto.
- Aiiii...
Isso foi mais do que suficiente para fazer Ushio soltar a presa e se agachar no local, segurando ambas as mãos no rosto em uma tentativa fútil de parar os grossos jatos de sangue que fluíam de ambas as narinas.
- V-você está bem?! — perguntou Hoshihara, pulando em ação. Ela puxou um lenço do bolso e se ajoelhou para pressioná-lo gentilmente contra o nariz de Ushio. O pano floresceu em escarlate enquanto absorvia o fluxo constante de sangue — embora pela maneira como o rosto de Nishizono empalideceu, você quase pensaria que era ela quem estava sangrando.
- Não, e-eu não quis fazer isso... — protestou Nishizono com uma voz trêmula. Ela tinha que saber que não havia uma alma na sala de aula que acreditaria nisso. Na verdade, praticamente todos os nossos colegas agora a encaravam com olhares gelados, seus olhares frios como gelo. E apenas então, quando ela finalmente estava sozinha em seu ódio, pareceu que talvez ela finalmente tivesse percebido seus erros, enquanto estendia uma mão em direção a Ushio no que parecia ser um gesto de genuína preocupação.
Naquele exato momento, a voz de uma mulher soou pela sala de aula silenciosa. — Ei, o que está acontecendo?
Eu me virei em direção à porta e vi a Srta. Iyo parada ali — seu sorriso amigável habitual não estava em lugar nenhum e uma expressão grave em seu lugar.
- Ouvi dizer que houve uma briga — ela disse.
Parecia que alguém a tinha alertado sobre a comoção — bem a tempo de testemunhar as consequências sangrentas, mas não de impedi-la. Por que ela não pôde aparecer cinco minutos atrás?
Quando a Srta. Iyo finalmente entrou na sala de aula e viu Ushio agachada no chão, seus olhos se arregalaram. — O que aconteceu aqui? — ela perguntou.
- Nishizono-san bateu no rosto de Tsukinoki-kun com aquela garrafa térmica de metal — respondeu um colega de classe próximo — uma das garotas que anteriormente havia feito parte do grupo de Nishizono, na verdade.
Essa aparente traição pareceu abalar Nishizono, enquanto seus lábios começaram a tremer em choque. — O quê...? Não, eu só estava...
A Srta. Iyo lançou um rápido olhar para ela, depois olhou para Ushio, encolhida no chão. — Isso é verdade, Ushio?
Mas Ushio balançou a cabeça, ainda pressionando o lenço de Hoshihara contra o nariz. — Não... Foi apenas um acidente.
Se ela quisesse, Ushio poderia facilmente ter colocado a culpa em Nishizono, e ninguém na classe teria discutido. No entanto, ela não fez isso. Mesmo agora, depois de todo o abuso, ela ainda tentava ser uma pessoa decente com Nishizono.
O que me fez pensar: e se Ushio soubesse o tempo todo que Nishizono nutria sentimentos por ela? Ela sentia alguma quantidade de culpa, então, por ter tomado a decisão de parar de ser um menino e viver sua vida como uma menina a partir de agora? Ela sentia como se tivesse iludido Nishizono, de certa forma? Eu podia quase entender por que ela poderia ter sentido que tinha que suportar o abuso, nesse caso.
Concedido, eu não tinha evidências para apoiar essa dedução, mas o pensamento por si só era suficiente para me deprimir. Ninguém deveria nunca sentir que tem que suportar tal assédio e depreciação só porque quer fazer uma mudança em sua vida — só porque quer ser verdadeiro consigo mesmo.
A Srta. Iyo olhou para Ushio novamente, sua expressão séria e preocupada. Então ela aparentemente notou a marmita virada no chão e fez uma dedução própria; tons de raiva e compaixão começaram a dançar em seu rosto. — E quanto a isso, Ushio? — perguntou a Srta. Iyo, ajoelhando-se ao lado dela. — Devo acreditar que isso simplesmente "acidentalmente" caiu também?
A caixa de bento caída não tinha sido um acidente; Nishizono a havia derrubado de propósito, e todo mundo sabia disso. Ushio hesitou por um momento, depois assentiu. Eu não saberia dizer se a professora Iyo engoliu aquela resposta, mas ela se levantou de qualquer maneira.
- ...Alguém, por favor, leve a Tsukinoki para a enfermaria — disse ela. — Nishizono, você vem comigo.
- Espere, não... Mas eu...
- Eu disse que você vem comigo!
Nishizono recuou diante do tom furioso dela. Até eu fiquei um pouco surpreso; nunca tinha visto a professora Iyo ficar brava antes. Assisti enquanto ela saía pisando fundo da sala de aula, com Nishizono a seguindo obedientemente como um cachorro castigado, com o rabo entre as pernas. Aquela arrogância prepotente de antes tinha sumido por completo. Consegui até vislumbrar o que pareciam ser lágrimas em seus olhos. E ainda assim, por mais horrível que eu a achasse, não senti nenhuma satisfação em presenciar o castigo dela.
- Vamos lá. Deixa eu te levar para a enfermaria — disse Hoshihara, acompanhando Ushio para fora da sala de aula.
Assim que as duas saíram, o clima pesado no ambiente melhorou bastante. Fiquei pensando se aquele seria o fim da disputa mesquinha de Nishizono com Ushio. Com sorte, seria — embora eu não pudesse deixar de sentir que tinha sido arrastado para aquilo bem no final, apenas para ser deixado para trás logo em seguida. Olhei para a marmita caída no chão, onde as três garotas estavam de pé um momento atrás, e não pude deixar de sentir uma estranha simpatia por aquele humilde pote de plástico cheio de arroz que todo mundo parecia ter esquecido. Sentindo um início de cumplicidade entre nós, fiquei de joelhos e comecei a limpar a coitada da caixinha.
Não muito tempo depois, Ushio voltou da enfermaria. Ela conseguiu se juntar à classe para a nossa aula do quinto período normalmente. O sangramento no nariz já tinha parado — e, a julgar pela ausência de algodão nas narinas ou gaze no ferimento, presumi que o machucado não tinha sido tão feio quanto parecera.
Nishizono, no entanto, não voltou para a aula. Assim que a escola acabou, um de nossos colegas espalhou o boato de que ela havia sido "suspensa informalmente". Segundo a pessoa, um estudante anônimo tinha denunciado o comportamento de Nishizono para a professora Iyo após a confusão com a saia no dia anterior, então ela já estava pisando em ovos — mas a punição só veio mesmo depois do incidente de hoje no almoço. Eu naturalmente não podia garantir a precisão daquela fofoca, mas certamente parecia plausível. O castigo parecia justo; eu não conseguia exatamente sentir pena de Nishizono nesse caso, mas também não ia guardar rancor dela. Tudo o que eu podia esperar era que essa bagunça toda finalmente a inspirasse a ter um pouco de autorreflexão e mudança.
Comecei a arrumar minhas coisas para ir para casa. Enquanto fazia isso, notei um grupo de quatro ou cinco caras reunidos em um canto da sala, cochichando entre si enquanto davam sorrisinhos e caras fechadas, lançando olhares de soslaio na direção de Ushio. Eles com certeza estavam tramando algo, pensei — e, dito e feito, eles acabaram indo até a mesa dela em bando. Um dos garotos — Utajima, se bem me lembrava — foi o primeiro a falar com ela quando se aproximaram. Ele ostentava um sorriso convencido e satisfeito no rosto.
- E aí, Ushio — disse ele. — Você teve um dia e tanto hoje, hein? Não quebrou o nariz nem nada, quebrou?
Aquela deve ter sido a primeira vez que vi outro garoto da sala (além de mim) se dar ao trabalho de dirigir a palavra a Ushio. Ela pareceu um pouco pega de surpresa por aquilo, mas rapidamente recuperou sua postura defensiva habitual.
- Estou bem, obrigada — disse ela.
- Qual é, não precisa ser tão certinha. Ei, se você não for fazer nada depois daqui, quer ir no McDonald's com a gente?
Os olhos de Ushio se arregalaram diante daquele convite inesperado. Os meus também.
- É que a gente meio que percebeu que não sabia de nada sobre você e a sua situação, só isso — disse Utajima, coçando a cabeça como se estivesse sem jeito. — Então acho que só pensei, tipo, sabe. Que seria legal conversar e ouvir o que você tem a dizer comendo umas batatas fritas ou algo assim. Mas se você não estiver a fim, tudo bem também.
"E-espera um pouco... Eles estão mesmo tentando fazer as pazes?"
A julgar pelas aparências, aquela era a própria definição de uma comunicação saudável: tentar conversar e entender o ponto de vista da outra pessoa quando você não compreendia algo. Pude sentir um calorzinho se espalhar no meu peito. Ushio sorriu para ele, aparentemente lisonjeada com o gesto, mas balançou a cabeça de leve.
- Desculpe, mas eu já tenho outros planos — disse ela. — Muito obrigada pelo convite, de verdade.
- Hum? Ah, tudo bem então. Não esquenta. Fica para a próxima.
E com isso, Utajima e seu bando foram embora. Ushio colocou a bolsa no ombro e se levantou da mesa bem na hora em que Hoshihara terminou de guardar as próprias coisas e veio correndo. As duas trocaram algumas palavras e depois vieram na minha direção. Eu me levantei para cumprimentá-las.
- Pronto para ir para casa? — perguntou Ushio.
- Sim — eu disse, assentindo.
No caminho para fora da sala de aula, notei que nenhum dos nossos colegas estava mais nos lançando olhares estranhos.
Parecia que fazia um bom tempo desde a última vez que nós três tínhamos voltado juntos para casa. O som das correntes das nossas bicicletas girando em uníssono era um tanto reconfortante para os meus ouvidos.
- Só precisamos aguentar este mês, e aí finalmente vão ser as férias de verão! — disse Hoshihara. — Não vejo a hora!
Ela andava bem cabisbaixa nos últimos dias, mas hoje parecia radiante e alegre o suficiente para ofuscar o sol quente de verão. Sua expressão transparecia um toque de alívio, provavelmente porque sentia confiança de que Nishizono não faria mais bullying com Ushio depois do que aconteceu no almoço. Eu estava com o mesmo bom humor pelo mesmo motivo, mesmo percebendo que aquilo era provavelmente um otimismo exagerado.
- É, com certeza — eu disse. — Só precisamos passar pelas provas de fim de semestre...
Hoshihara soltou um gritinho de horror com esse lembrete.
- Ai, meu Deus... Eu não estudei nada! Isso é muito ruim... Se eu bombar, nem vou ter férias de verão direito com todas as aulas de recuperação que vou ter que fazer...
- Você vai se sair bem. Eu também não estudei.
- É, fácil para você falar. Não é nada reconfortante vindo de alguém que já tem notas muito melhores que as minhas de qualquer forma. Acredite em mim, eu queria muito poder simplesmente chegar para uma prova sem estudar.
Ela agora estava me fuzilando com o olhar, e meu único recurso foi dar uma risadinha sem jeito e encolher os ombros. Ushio sorriu com aquela interação de escanteio, aparentemente achando graça da nossa dinâmica.
- Ah, é verdade — disse Hoshihara, lembrando-se dela. — Como está o seu nariz, Ushio? Estava saindo muito sangue no começo. Eu meio que entrei em pânico um pouco.
- Não está tão ruim — respondeu Ushio. — Quero dizer, ainda dói quando eu aperto, mas parece que ela não quebrou nenhum osso nem nada.
- Sério? Bem, tomara que cure logo, então...
Ushio assentiu timidamente, claramente grata pela preocupação, mas sentindo-se um pouco sem jeito com a situação toda de qualquer forma.
"Pensando bem, apesar de todo o assédio, ela não disse uma única palavra negativa sobre a Nishizono esse tempo todo, não é?"
Eu não podia deixar de ficar admirado com a bondade genuína dela. Ou aquilo, ou talvez ela realmente se sentisse culpada por não ser capaz de corresponder aos sentimentos não correspondidos de Nishizono e achasse que sofrer os abusos era o mínimo que podia fazer. De qualquer forma, Ushio era definitivamente bondosa demais para o próprio bem.
- Então, é que... Tem uma coisa que eu queria dizer para vocês dois — disse Ushio, parando de repente para puxar um assunto mais sério.
Hoshihara e eu paramos também, nos preparando enquanto nos virávamos para encará-la.
- Bem... Sakuma? Natsuki? Eu só queria dizer que eu realmente agradeço por vocês dois sempre virem conversar comigo, ou ficarem bravos por mim... Significa muito de verdade. Obrigada.
- Não precisa agradecer — eu disse, sorrindo de orelha a orelha de alívio por não ser nada mais grave do que aquilo. — Nós somos seus amigos. Acho que isso é o mínimo que se espera.
- Com certeza! — disse Hoshihara. — Estamos sempre juntos! Você só precisa continuar sendo você mesma!
- ...É, tudo bem — disse Ushio. — Obrigada.
Ela suavizou sua expressão séria e respondeu como se não soubesse o que tinha feito para nos merecer — mas havia um calor genuíno em sua voz, e uma felicidade genuína em seu rosto, e aquilo foi o suficiente para me fazer sentir bastante aquecido e feliz por dentro também. Vagamente, me peguei pensando que estava feliz por estar ali — que nós realmente parecíamos amigos. Aqueles eram relacionamentos humanos genuínos que eu tinha construído e dos quais tinha me tornado parte através de nada além de sinceridade, boa vontade e consideração. Não havia nada de superficial ou raso neles, e só isso já era o suficiente para me fazer sentir intensamente grato.
Retomamos nossa caminhada tranquila em direção a casa.
- Falando em ficar brava — disse Hoshihara -, você realmente deu tudo de si durante o almoço hoje, Kamiki. Acho que nunca vi ninguém responder a Arisa daquele jeito.
- Ahaha... É, desculpa ter perdido a cabeça daquele jeito. É meio vergonhoso.
- Não, não! Eu disse isso como um elogio! Você foi superlegal lá atrás!
- S-sério?
Minha voz falhou. Bem, caramba... Acho que esse é o meu bônus de confiança da semana. Tenho quase certeza de que se algum estranho viesse correndo me dar um tacle e me jogasse rolando direto nos campos de arroz agora, eu provavelmente só daria de ombros e diria para ele não se preocupar. Inferno, talvez eu mesmo pulasse lá dentro só por diversão. Eu estava feliz por ter reunido coragem para confrontar Nishizono mais cedo hoje. Aquela decisão certamente tinha valido a pena no final.
- Não há dúvida de que o clima na sala de aula vai começar a suavizar agora — continuou Hoshihara. — E aposto que a Arisa está começando a perceber que estava errada também.
- É, espero que sim — respondi sem me comprometer. Saímos da estrada entre os campos de arroz e fomos em direção ao cruzamento de sempre.
- Bem, vejo vocês dois mais tarde! — disse Hoshihara. — Vou começar a estudar firme amanhã!
Segurei a vontade de fazer uma piadinha dizendo que ela sempre podia começar a estudar hoje à noite, enquanto Ushio e eu acenávamos nos despedindo dela. Ela subiu em sua bicicleta e pedalou para longe, de pé sobre os pedais enquanto desaparecia na esquina e sumia de vista.
Tudo bem. Agora que tínhamos nos separado de Hoshihara e éramos apenas nós dois, havia algo que eu sabia que precisava discutir com Ushio. Eu vinha me preparando mentalmente para isso desde toda aquela confusão no almoço hoje, e não ia me permitir evitar o assunto por mais tempo.
- Ushio — eu disse, parando-a enquanto ela começava a andar. Ela se virou para me encarar em silêncio, com uma expressão curiosamente calma. Talvez estivesse esperando que eu trouxesse isso à tona por vontade própria. Engoli em seco e depois limpei o suor das palmas das mãos na minha calça. — Sobre aqueles sentimentos que você mencionou no outro dia.
- Sim? — disse ela.
- Achei que te devia uma resposta... Mas, para ser sincero, é exatamente como eu disse para a Nishizono na sala hoje. Eu realmente acho você fofa, e realmente sinto borboletas no estômago perto de você às vezes. Mas só não tenho certeza ainda se esses sentimentos significam que gosto de você da mesma forma que você gosta de mim... Então eu gostaria de um pouco mais de tempo para pensar sobre isso. Prometo que vou te dar uma resposta direta logo, no entanto.
- Entendi. — A voz dela não traía nenhum significado oculto. Era o tipo de "entendi" que alguém poderia dizer em resposta a uma história levemente divertida, mas no fim das contas esquecível. Ela então acrescentou: — Tudo bem. Não se preocupe com isso.
Essa resposta me deixou confuso. O que ela queria dizer com "tudo bem"? Que não se importava em esperar por uma resposta adequada? Ou que era para esquecer tudo de uma vez? Eu presumia que confessar aqueles sentimentos tinha sido algo muito importante para ela, então queria acreditar que provavelmente não era a segunda opção, mas foi esse o tipo de impressão que tive pelo tom dela — um tom de indiferença casual. O tipo de tom que você usaria para transmitir educadamente sua falta de interesse a um amigo que te convida para jogar boliche ou ir ao karaokê — não que eu já tivesse sido convidado para fazer nenhum dos dois. Ainda assim, eu precisava discernir exatamente o que ela queria dizer, e a única maneira de ter certeza era perguntando diretamente, por mais que eu detestasse fazer isso.
- Er, desculpa, Ushio — eu disse. — O que exatamente você-
- Sabe, tem uma coisa que eu queria te perguntar também, Sakuma — ela interrompeu. Então, após uma breve pausa, e sem esperar pela minha resposta, continuou. — Você tem uma queda pela Natsuki, não tem?
Fiquei totalmente sem fala.
Parecia que alguém tinha subitamente agarrado meu coração no lugar mais macio e vulnerável — aquele que eu tinha me esforçado ao máximo para manter escondido — e o estava apertando com força. Eu não conseguia confirmar nem negar; não sabia que resposta dar. Mas o meu travamento foi aparentemente toda a resposta que Ushio precisava, pois ela sorriu divertida.
- Ah, então eu estava certa.
- O-o que você quer dizer? Eu não disse nada.
- Você não precisava dizer. Dá para notar só de olhar para você. Você acha que eu nunca vi o rosto de uma pessoa apaixonada antes?
Parecia que Ushio não queria me deixar dizer uma única palavra.
- Ela é uma fofura, não é? Tão doce, tão honesta... Consigo entender perfeitamente por que você se apaixonaria por ela. Ah, e não estou dizendo isso só para te fazer sentir mal. Se serve de algo, estou torcendo por você. Se houver alguma forma de eu ajudar, é só falar. Então, por favor, só esqueça que eu um dia disse que gostava de você, está bem?
Ela estava falando assustadoramente rápido, como se estivesse sendo pressionada a cumprir um limite de tempo por algum teleprompter invisível. Ou isso ou ela estava apenas deixando as palavras saírem por reflexo como um mecanismo de defesa para esconder alguma outra emoção, uma que poderia colocar a cabeça para fora se ela parasse por um momento que fosse.
- Além disso, eu só quis dizer que gostava de você como amigo, de qualquer forma. Você é quem entendeu errado e teve a ideia errada. Quero dizer, fala sério — obviamente você não iria querer receber uma declaração de um garoto. Tipo, que nojo, né? Eu sei pelo menos isso. Quero dizer, sério — eu sei. Então, tipo, uhm, acho que eu só... não sei, tipo...
Ushio estava gaguejando agora, e uma única trilha de lágrimas escorreu por sua bochecha. Ela ergueu a mão para limpá-las, depois olhou para o dedo molhado e soltou uma risada autodepreciativa.
- Haha... Eu sou tão patética — disse Ushio. — Por que tenho que ser tão chorona? Não é como se eu já não... soubesse a resposta...
- Ushio... — Dei um passo para me aproximar dela, mas ela balançou a cabeça e baixou o olhar para o chão.
- Tudo bem... Sério, eu vou ficar bem...
Ela enfiou as mãos nos bolsos da saia — para procurar algo com que limpar as lágrimas, muito provavelmente. Não três segundos depois, puxou um lenço do bolso direito e quase o usou para enxugar os olhos antes que suas mãos congelassem, a poucos centímetros de seu rosto. Era o mesmo lenço que ela tinha pego emprestado de Hoshihara mais cedo naquele dia, e estava manchado de um vermelho escuro de sangue. Presumi que ela o tivesse enfiado no bolso para poder lavá-lo em casa antes de devolvê-lo. E, no entanto, eu não conseguia dizer se foram as manchas de sangue no lenço que a dissuadiram de usá-lo ou o pensamento de que ele pertencia a Hoshihara, dadas as circunstâncias. Imediatamente, fiquei enojado comigo mesmo por sequer ponderar uma coisa dessas. Ushio sorriu fraco e ergueu a cabeça lentamente.
- Acho que nunca vou estar à altura de uma garota de verdade, não é?
Ela exibia um sorriso mais fino do que a última camada de geada no chão no final do inverno, no limiar da primavera. Quando imaginei quanta resignação, quanta dor no coração e desespero deviam estar à espreita sob aquele olhar mais gentil, senti um aperto no peito. Não consegui encontrar uma única palavra certa para dizer. Ao longe, eu podia ouvir o som das cigarras. O verão tinha finalmente se estabelecido, e tinha vindo para ficar.
Acordei com o som das cigarras cantando. Assim que levantei as pálpebras, os raios intensos do sol agrediram minhas retinas. Meu rosto parecia quente, banhado pela luz da manhã que entrava pelas cortinas.
Ainda deitado, estiquei o braço em direção ao meu celular, que estava ao lado do meu travesseiro, e o abri. Era 3 de julho, e o relógio marcava 6h40 da manhã. Dei um pulo da cama e escancarei as cortinas. O vasto céu azul do lado de fora da janela parecia ter sido pintado com mil camadas da tinta mais escura e densa.
Quando cheguei ao Colégio Tsubakioka naquela manhã, o suor nas minhas costas fazia minha camisa social grudar na pele como uma cola industrial. O pensamento de que ainda não estávamos nem perto da parte mais quente do dia me deixou profundamente deprimido.
Ao entrar na sala de aula, vi vários alunos se abanando com suas pastas de mesa ou cadernos de exercícios. Hoshihara estava entre eles, puxando a brisa inexistente em direção ao próprio peito enquanto encarava o livro de texto aberto em sua mesa. Ela soltou um grande bocejo — e fez contato visual comigo exatamente naquele momento. Imediatamente, ela fechou a boca escancarada e me cumprimentou com um aceno tímido, claramente sem jeito.
"Deus, ela é tão fofa", pensei comigo mesmo, saboreando aquela descarga de dopamina logo cedo. Acenei de volta e segui para o fundo da sala para me sentar na minha própria mesa.
Olhei para a mesa vazia na parte da frente da classe. Nishizono ainda estava suspensa informalmente. De acordo com Hoshihara, ela não tinha permissão para voltar à escola até que os exames começassem na outra semana. Era um cronograma de suspensão bem severo, mesmo que fosse o que ela merecia. Tirei as coisas da mochila e organizei o material na mesa, então olhei para cima e vi outro aluno entrar na sala — um que parecia totalmente calmo e centrado, apesar do calor. Era Ushio. A essa altura, todos já estavam acostumados a vê-la com roupas femininas, então ninguém nem piscou. Ela ainda era um pouco isolada, é verdade, mas ninguém mais ousava falar mal dela, nem pelas costas. Ela deixou a mochila em sua mesa e caminhou direto para a frente da minha.
- Bom dia, Sakuma — disse ela.
- É, oi — respondi. — Bom dia.
Tudo estava de volta ao normal com ela. De um jeito perturbador.
As aulas passavam mais rápido do que nunca agora que nos aproximávamos da temporada de exames. Mas, enquanto eu observava o professor de história mundial bater seu giz contra o quadro-negro, percebi que não tinha foco nenhum; minha mente estava completamente em outro lugar.
- Você tem uma queda pela Natsuki, não tem?
As palavras de Ushio de dois dias atrás ainda ecoavam nos meus ouvidos. No fim das contas, eu não tinha sido capaz de formular nenhum tipo de resposta sensata, e nós dois apenas seguimos caminhos separados para casa. Eu estava morrendo de medo de ter que encará-la na escola no dia seguinte, arrancando os cabelos tentando pensar em alguma forma de salvar a situação... mas então, quando cheguei à escola, descobri que ela parecia surpreendentemente controlada. Almoçamos juntos com Hoshihara como sempre, e depois os três caminharam juntos para casa da mesma forma de sempre, até contando algumas piadas no caminho.
A princípio, pensei que ela estivesse fingindo e apenas aparentando estar alegre. Afinal, a maioria das pessoas não se recuperava tão rápido de uma rejeição — que foi tecnicamente o que aconteceu. Presumi, com base nas lágrimas dela na tarde anterior, que ela tinha ficado bem abalada. No entanto, julgando por nossas conversas subsequentes, ela parecia ter tido uma recuperação emocional completa em tempo recorde. Não percebi nenhum constrangimento ou mágoa oculta em seu comportamento. Era tão bizarro para mim que eu estava começando a me perguntar se talvez ela realmente só quisesse dizer que "gostava" de mim como amigo.
Talvez fosse melhor para mim assumir isso, sendo verdade ou não. Assim eu não precisaria me estressar mais com a declaração dela e poderia acreditar quando ela disse que me apoiava em relação aos meus sentimentos por Hoshihara. Se eu realmente aceitasse as palavras de Ushio pelo que pareciam, eu poderia sair dessa confusão em uma posição tão favorável quanto qualquer um poderia desejar. Mas era exatamente isso que me deixava tão ansioso.
Soltei um suspiro de desânimo.
- Sim, Kamiki? — disse o professor de história mundial. — Presumo que esteja suspirando porque tudo isso está fácil demais para você? Por que não nos dá a resposta para esta questão, então?
- Hã?!
Fiquei sem reação. Eu não esperava ser chamado; parecia que essa mesma situação tinha acontecido não fazia muito tempo. O professor estava batendo o giz no espaço vazio de uma das frases que tinha escrito no quadro-negro, exigindo que eu lhe dissesse qual palavra preenchia a lacuna. Mas eu não fazia a menor ideia.
- Desculpe... Eu não sei — admiti.
- Bem, deveria saber. E sugiro que comece a levar isso a sério se não quiser reprovar nos próximos exames.
A bronca era merecida; o professor tinha razão. Faltava apenas uma semana para os nossos exames de fim de semestre. Saí do meu devaneio e comecei a copiar o que estava escrito no quadro-negro.
Era a hora do almoço e, como sempre, eu estava comendo com Hasumi enquanto Hoshihara comia com Ushio. Enquanto pegávamos a comida com os hashis em nossas respectivas marmitas, jogávamos conversa fora sobre nada em particular.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!- Sabe, cara, preciso confessar — disse Hasumi, mastigando um pedaço grande de omelete enrolado. — Até que estou me acostumando com o fato do Tsukinoki ser um crossdresser agora.
- Ela não é crossdresser — eu disse, apontando para ele com as pontas dos meus hashis.
- Espera, não é?
- Não. Crossdressers são apenas homens que gostam de usar roupas femininas pelo prazer de usar. A Ushio não está fazendo isso só porque gosta — ela realmente se considera uma garota por dentro. Então não é a mesma coisa, de jeito nenhum.
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