The Mimosa Confessions (Vol. 1 em Português)
4 Capítulo 4
- Bem, muitas coisas, na verdade... Não teve nenhum tipo de momento específico nem nada. Acho que ele só sempre foi muito gentil, então me senti naturalmente atraída por ele conforme a gente conversava mais e mais... Ah, e eu adorava ver ele correndo. Ele sempre parecia tão lindo, lá na pista...
O rosto dela ficou vermelho brilhante, e os cantos dos seus lábios se esticaram em um sorriso suave. Ela certamente parecia uma jovem apaixonada; arrependi-me imediatamente de ter perguntado.
Ela gostava de ver o Ushio correr, é? Será que isso significa que ela costumava se sentar no treino de atletismo ou assistir de longe...? Não, espera! E aquele dia em que ela e eu trocamos informações de contato, quando a peguei na sala de aula depois da escola, olhando pela janela? Será que ela estava tentando ver o Ushio? Ah, cara... Quem me dera não ter percebido essa possibilidade.
Virei o resto do meu café gelado de um gole só em uma tentativa de afogar minhas novas mágoas. Apesar do leite e da calda, o gosto parecia bem mais amargo agora.
- Você é um bom amigo da Ushio desde que eram crianças, não é, Kamiki?
"Mais para 'quando' do que 'desde'", pensei, mas não dava para me dar ao trabalho de entrar nisso de novo só para corrigi-la, então apenas balancei a cabeça e disse basicamente que sim.
- Então você deve conhecê-la melhor do que ninguém, certo?
- Não sei quanto a isso. Talvez se você estivesse me perguntando sobre os dias de escola primária dela, eu pudesse contar mais algumas histórias ou algo assim.
- Histórias? Tipo o quê?
- B-bem, tipo, err... Deixe-me ver aqui... — Cruzei os braços e tentei puxar minhas memórias de tão longe. — Ah, sim, se você perguntasse para ela 'Ei, você sabe falar russo?', ela te daria o olhar mais feio imaginável, ha ha.
- O quê?! Nossa, que interessante!
Os olhos da Hoshihara brilharam enquanto ouvia com atenção compenetrada — então, de repente, ela puxou o celular e começou a digitar rápido no teclado pequeno. Presumi que ela provavelmente estava anotando para se lembrar desse pequeno tabu. "Bem, ela certamente está entusiasmada", pensei comigo mesmo, de forma um tanto sarcástica. Veio um som alto de blóm do relógio antigo na parede. Já eram seis horas.
- Acho que a gente deveria ir andando — eu disse.
Hoshihara fechou o celular e olhou para cima. — É, provavelmente — disse ela. — Obrigada por me ouvir, de verdade.
- Que nada. Não foi nada.
- Você é realmente a única pessoa com quem posso conversar sobre essas coisas, Kamiki — ela disse com uma risadinha fofa. Eu realmente não tinha certeza se ficava feliz com isso ou não.
Começou a chover na manhã seguinte à minha conversa sincera com a Hoshihara. Isso era praticamente uma sentença de morte para nós que íamos de bicicleta para a escola; tentar andar enquanto estava trancado em uma capa de chuva significava que você seria cozido no vapor como uma cabeça de brócolis quando chegasse à escola — cabelo grudado na testa, camisa encharcada de suor colada na pele como uma roupa de mergulho. No geral, uma sensação muito ruim. E era exatamente esse tipo de dia hoje.
Os estudantes paravam na frente da entrada para sacudir os guarda-chuvas e dobrar as jaquetas. Fiquei em uma das pontas da multidão, batendo na minha própria capa de chuva para secá-la o melhor que podia. Justo naquele momento, outro estudante com um guarda-chuva — uma garota, julgando pela saia — correu para se juntar a mim sob a entrada coberta. Enquanto ela guardava o guarda-chuva, soltei um leve suspiro de surpresa. Era a Ushio. Ela estava consideravelmente menos molhada do que eu; o cabelo dela ainda parecia liso e seco, e não havia uma gota de suor nela.
Quando pensei de volta no incidente do quadro-negro ontem, sem mencionar minha conversa com a Hoshihara, senti um turbilhão de emoções agitando meu peito. Seria melhor não falar nada com ela, ou eu deveria pelo menos oferecer um cumprimento padrão? Depois de um pouco de hesitação, decidi pela última opção.
- B-bom dia — eu disse, vacilando. Ushio olhou para mim e recuou de surpresa. Pelo visto, ela nem tinha percebido que era eu quem estava ao lado dela. — Ah, Sakuma... É, oi. Bom dia — disse ela, rigidamente.
- Não veio de bicicleta hoje? — perguntei em uma tentativa de puxar assunto, achando que seria bom aproveitar o encontro casual.
- Não. Eu não... estava com muita vontade de me molhar. Então pedi para me deixarem aqui.
- Ah, entendi. Cara, quem me dera poder vir de carro para a escola em dias de chuva também. É horrível ficar todo molhado e parecer que acabou de sair de uma sauna.
- ...É.
Ushio claramente não estava muito animada hoje — e, no entanto, também não parecia calma ou cansada. Ela olhava nervosamente ao redor, como se estivesse preocupada que houvesse alguém observando. Dobrou o guarda-chuva e o prendeu no suporte de metal, depois tentou entrar correndo no prédio — mas eu a chamei antes que pudesse escapar.
- Ei! Você acha que nós três poderíamos caminhar para casa juntos de novo hoje? Tenho certeza de que a Hoshihara gostaria muito disso.
Ushio virou-se para olhar para mim. — Vão me buscar depois da escola também — disse ela.
- Ah. Justo, então.
- ...Sakuma.
Preparei-me ao ouvir meu nome ser chamado de repente, presumindo pelo olhar penalizado nos olhos dela que eu não ia gostar do que sairia da sua boca em seguida.
- Você não precisa se forçar a falar comigo — disse ela. — Eu sei que você não quer que as pessoas entendam errado só porque está andando comigo.
Por um momento, as palavras sumiram da minha garganta. Um instante depois, senti uma dor aguda, mas sutil, atravessar meu peito, como a picada rápida de um corte de papel.
- Eu não estou me forçando...
- Não quero tornar a sua vida mais difícil — ela interrompeu. Ela me deu o sorriso mais nitidamente forçado que eu já tinha visto, depois passou pela entrada sem nem me dar a chance de responder. Desprezei-me por não ter negado aquilo instantaneamente.
Um clima sombrio de desconforto e melancolia permaneceu durante todo o dia — e não era apenas por causa da chuva. Tinha muito a ver com o comportamento da Arisa Nishizono.
- Com licença? — perguntou ela em voz alta durante a aula de educação física. — Por que a Tsukinoki nunca mais precisa participar?
- Não se preocupe com a Tsukinoki — disse o professor de educação física, claramente desconfortável.
- Por que o resto de nós não pode simplesmente faltar à aula assim também? — Nishizono pressionou. O veneno dela era tão descaradamente direcionado e impossível de ignorar que Ushio não teve outra escolha a não ser abaixar a cabeça e esperar que a atenção indesejada terminasse. Ela continuou a destilar ainda mais assédio em qualquer oportunidade durante os intervalos entre as aulas.
- Então, gente, a gente ainda não tem uma resposta sobre a pergunta da calcinha? Alguém de vocês devia ir checar.
- Não é uma violação das regras da escola um garoto usar o uniforme feminino de qualquer maneira? Sinceramente, é uma ameaça aos padrões morais e à decência pública, se me perguntarem.
- Ele provavelmente se excita com um monte de mangás estranhos e tarados. Sabe — tipo aqueles onde são dois caras transando. Que nojo. Que aberração.
No início, esses comentários rudes da Nishizono eram recebidos com pouco mais do que acenos hesitantes e risadas desconfortáveis. Mas com o passar do tempo, mais e mais pessoas começaram a deixar de lado as aparências e não mostraram nenhuma restrição em expressar sentimentos parecidos.
Eu tinha certeza de que a Nishizono era a única na sala que realmente tinha um problema pessoal com a Ushio, e os outros estavam simplesmente entrando na "brincadeira" porque era a maneira mais fácil de relevar uma situação embaraçosa e "manter o clima animado". Entristecia-me que tantos dos nossos colegas de classe preferissem entrar na onda e zombar de alguém a deixar a conversa morrer, mesmo por um instante. Mas eu conhecia garotos assim desde o ensino fundamental — era como se tivessem uma alergia mortal ao silêncio.
Não que eu não pudesse entender o impulso. Ninguém gostava de silêncios constrangedores. Se houvesse um alvo fácil que pudessem transformar em assunto, eu conseguia ver por que poderiam ser tentados a ser um pouco cruéis às custas de outra pessoa, mesmo que não quisessem dizer aquilo de verdade. Mas isso não significava que eu aprovava — cumplicidade ainda era cumplicidade, afinal.
Curiosamente, porém, notei que o Mashima e a Shiina — os outros dois membros centrais do grupinho da Nishizono, que tinham apoiado a Ushio naquele primeiro dia — decidiram não participar de nenhum dos xingamentos, embora também não fizessem nenhum movimento para enfrentar a Nishizono. Eles simplesmente morderam os lábios e seguraram a língua, visivelmente desconfortáveis enquanto assistiam à carnificina verbal se desenrolar. Eu não os tinha visto trocar uma única palavra com a Hoshihara recentemente, muito menos com a Ushio.
A situação na sala de aula estava se deteriorando lenta mas seguramente. Quando as aulas terminaram pelo dia, fiquei em um estado de espírito singularmente desanimado. Eu nem me sentia disposto a caminhar para casa com a Hoshihara de novo, então apenas montei na minha bicicleta e fui para casa sozinho.
Os dias de chuva se arrastavam.
O assédio direcionado da Nishizono contra a Ushio só continuou a aumentar. Tinha ultrapassado a barreira dos insultos verbais em voz alta e entrado no território das agressões físicas, incluindo derrubar lápis e livros da mesa da Ushio sempre que passava por ela. A certa altura, Nishizono chegou a derramar uma caixinha inteira de chá com leite nas costas da Ushio.
Por sua vez, Ushio apenas ficava em silêncio e aguentava o abuso. Ela simplesmente fingia não ouvir as palavras cruéis e recolhia o material escolar derrubado. Estava claro que ser ignorada estava apenas enfurecendo a Nishizono, o que parecia encorajá-la ainda mais.
Até a Hoshihara, apesar de ainda se oferecer para almoçar com a Ushio todos os dias, parecia impotente para impedir o bullying generalizado. Ela apenas começava a chorar, mas nunca ousava se levantar e arrumar briga. Não que eu pudesse julgar — ela estava fazendo muito mais para ajudar do que eu. Mas eu queria fazer algo a respeito da situação, se pudesse.
Eu sabia que, se tudo aquilo continuasse, a Ushio talvez nunca mais conseguisse se sentir confortável na escola — mas, ao mesmo tempo, uma parte de mim sentia (talvez de forma fria) que aquilo, no fim das contas, não era problema meu. E eu tinha que me lembrar de que a Ushio ainda era a Ushio, independentemente de gênero. A aluna exemplar sempre capaz — atraente, inteligente, sociável. Era inteiramente possível que ela estivesse mantendo a discrição de propósito por enquanto para não causar alvoroço, mas que, na realidade, já tivesse bolado um plano na cabeça para reverter essa situação complicada de um jeito que a Hoshihara ou eu jamais pensaríamos, voltando ao topo novamente como a sua antiga versão infinitamente popular.
Aquilo não parecia fora da realidade, embora eu soubesse que pudesse ser apenas uma ilusão da minha parte. Eu também tinha que admitir que o que a Hoshihara havia me contado no café me deixou um pouco menos inclinado a intervir. Saber que ela tinha sentimentos pela Ushio complicava as coisas para mim e diminuía bastante a minha simpatia — mesmo sabendo que isso me tornava um tremendo babaca.
Mas, às vezes, sentimentos conflitantes eram difíceis de conciliar.
Um fim de semana se passou e então chegou a segunda-feira. Fazia exatamente uma semana desde que a Ushio começara a viver abertamente como uma garota. O tempo chuvoso que se estendeu até o domingo finalmente deu trégua, e o céu estava claro e azul de novo.
Quando a aula de educação física do terceiro período acabou, eu e os outros garotos voltamos para a Sala 2-A, tiramos as roupas de ginástica, vestimos nossos uniformes escolares de volta, sentamos em nossos lugares e nos preparamos para o início do quarto período. Pouco depois, as garotas que estavam se trocando no vestiário entraram em massa pelas portas para se juntar a nós.
Quando o sinal tocou, a Ushio ainda não tinha voltado. Lembrei-me de tê-la visto entregar seu relatório diário ao professor de educação física e sair do ginásio, então não tinha certeza do que estava demorando tanto. Foi só depois que o professor de matemática de meia-idade entrou na sala, subiu no tablado, colocou o livro de curso no púlpito, coçou a barba por fazer e pegou um pedaço de giz que a porta da sala correu abrindo. Lá estava a Ushio, parada na entrada. A princípio, não notei nada de errado — mas então percebi que ela estava apenas com metade do uniforme trocado. Ela ainda usava a calça de ginástica em vez da saia, mas estava com a camisa do uniforme na parte de cima. Seu rosto parecia pálido e abatido, e sua respiração estava um pouco pesada.
- Desculpe pelo atraso — disse ela.
O professor de matemática olhou para ela — e depois para a calça de ginástica. Ele ergueu uma sobrancelha intrigado, mas não perguntou nada, apenas a liberou com uma leve advertência antes de pedir que se sentasse. Todos os olhos estavam na Ushio enquanto ela caminhava até sua mesa e se sentava.
"Aconteceu alguma coisa?"
Ninguém disse uma palavra sobre isso durante a explicação, mas eu tinha certeza de que praticamente todos os meus colegas de classe estavam se perguntando a mesma coisa. Dito e feito, assim que a aula acabou, o professor saiu da sala e o intervalo para o almoço começou, o ambiente explodiu em murmúrios — como se todas as perguntas que estavam fervilhando na mente de cada um finalmente tivessem transbordado.
- O que você acha que aconteceu?
- Será que ele derramou algo na saia?
- Alguém devia ir lá perguntar.
- É, ótimo plano. Por que você não vai, espertalhão?
Especulações e zombarias abundavam em todos os cantos da sala de aula enquanto a Ushio e a Hoshihara simplesmente se sentavam e tentavam almoçar juntas como de costume. A Hoshihara também estava claramente curiosa sobre o que tinha acontecido, mas evitou explicitamente aludir ao assunto, aparentemente sem saber se era um tema delicado.
De repente, a porta se abriu com um estrondo alto. Arisa Nishizono entrou na sala com o passo triunfante de um imperador retornando vitorioso de uma longa campanha. Ela marchou até o tablado e ergueu seu espólio de guerra na mão direita para mostrar à classe.
- Ei, gente, acabei de tropeçar nisso aqui — alguém reconhece? — perguntou ela.
Foi nesse momento que eu — e provavelmente a grande maioria da classe — percebemos exatamente o que estava acontecendo ali. Balançando nas mãos da Nishizono estava a saia de um uniforme feminino.
- Acho que provavelmente pertence a alguém desta sala — continuou ela. — Alguém quer se acusar?
Ela girou a saia em círculos, com um sorriso sádico no rosto o tempo todo. Era quase óbvio que tinha que ser da Ushio, baseando-se apenas na forma como a Nishizono a havia tratado na última semana. Meu melhor palpite era que a Nishizono mentiu dizendo que precisava ir ao banheiro durante a aula de educação física ou algo assim, depois entrara de fininho na sala multiuso que a Ushio usava para se trocar e roubara a saia de lá. Tudo o que ela precisaria fazer era ir lá e destravar uma das janelas com antecedência para conseguir entrar mesmo depois que a Ushio trancasse a porta. Seria fácil demais.
De qualquer forma, as linhas gerais do que aconteceu eram bem óbvias, assim como o dono da referida saia. No entanto, nenhum estudante se levantou para denunciar as ações da Nishizono. Eles sabiam que ela apenas daria de ombros e negaria qualquer acusação que fizessem contra ela. Pior ainda, eles provavelmente seriam pegos no fogo cruzado da ira dela. Essa era provavelmente a única razão pela qual a Nishizono se sentia audaciosa o suficiente para cometer um crime tão desavergonhado e ousado: ela sabia que sairia impune.
Prendi meus punhos. Suas táticas vis e covardes me davam vontade de vomitar. Mas eu não consegui me mexer para fazer nada. Não importava o quão rápido meu coração batesse, eu não conseguia reunir a coragem para me levantar da cadeira. Olhei para a Ushio, que encarava o chão como se tentasse suportar a humilhação. Eu conseguia ver seus ombros tremendo. Parecia que ela estava tentando desesperadamente segurar algo que queria a todo custo explodir para fora.
- Ei. Isso é seu, não é? — perguntou Arisa, descendo do tablado e caminhando até a mesa da Ushio. Ela inclinou a cabeça para conseguir ver melhor o rosto abaixado da Ushio. — Vamos lá. Dá uma olhadinha rápida e me diz se é seu ou não. Não deve ser tão difícil, né? Olha. Está bem aqui.
A Ushio ergueu lentamente o rosto pálido para olhar para sua intimidadora.
- Sim — disse ela, acenando com a cabeça. — É a minha...
- Espera, não. Isso não pode ser seu, pode? — Nishizono cortou friamente com toda a misericórdia e tato de um assassino com um machado. — Quero dizer, você é um garoto, afinal. Por que você precisaria de uma saia?
Nishizono deixou a saia cair no chão e pisou nela, esfregando o calcanhar no tecido como se estivesse raspando chiclete da sola do sapato.
A Ushio levantou-se num salto, arquejando. Ela olhou feio para a Nishizono com olhos carregados de fúria de sua posição ligeiramente mais alta. Não havia nem trinta centímetros entre as duas — certamente a uma distância de um soco, se qualquer uma delas decidisse partir para a briga. Mas a Nishizono não pareceu intimidada.
- O quê? Vai dar um chilique? — disse Nishizono.
- ...Eu gostaria que você tirasse o pé daí agora, por favor — disse a Ushio.
- Por que eu deveria?
A Ushio mordeu o lábio com força e — em uma mudança drástica de postura — deixou a raiva sumir do seu olhar enquanto sua expressão suavizava, e ela olhou para a Nishizono com olhos suplicantes.
- Porque essa saia... pertence a mim. É a primeira peça de roupa feminina que eu tive, então ela... tem muito significado para mim.
- O quão apegado você pode ser a uma saia estúpida? Você acha que se se vestir como uma garota por tempo suficiente, vai virar uma magicamente ou algo assim? Você é nojento — Nishizono cuspiu com repulsa. — Você sabe que nunca vai ser uma garota de verdade. Quer dizer, você não tem espelho em casa? Você pode até passar no quesito rosto, raspando, mas tenho certeza de que existem algumas diferenças cruciais entre meninos e meninas que você nunca vai conseguir fingir. Não é verdade?
A Ushio franziu a testa diante daquela calúnia terrível, mas manteve a boca firmemente fechada. Essa reação pareceu atingir um ponto sensível na Nishizono, pois ela agora olhava para a Ushio com olhos ferozes e sedentos de sangue, como um lobo pronto para morder.
- Me responde! Eu sei que você ainda tem um aí embaixo! — ela gritou, e então — para a incredulidade minha e de todos os outros na sala — ela estendeu a mão e agarrou a Ushio pela virilha. De uma só vez, todos os fios de cabelo na cabeça da Ushio se arrepiaram.
- Pare! — gritou ela, empurrando Nishizono com toda a força que pôde reunir.
Nishizono caiu para trás, desabando com violência e levando consigo uma carteira e uma cadeira para o chão. O silêncio bizarro que se seguiu fez parecer que a sala inteira tivesse congelado, e todos nós ficamos parados ali, sem palavras diante do que parecia a cena de um assassinato — com o único som sendo a respiração pesada de Ushio. A expressão dela carregava uma mistura dupla de aversão e arrependimento.
Nishizono agora estava tremendo, mas não era de raiva e nem porque estava prestes a chorar. Em vez disso, o primeiro som a escapar de seus lábios, que apareciam sob a sombra de sua franja caída, foi o de uma risada simples e genuína. E então, como um disco quebrado, aquela risadinha se recusou a parar, explodindo em uma gargalhada perturbada. Ela se levantou cambaleando e passou os dedos pela franja bagunçada — que logo puxou para trás para revelar um sorriso verdadeiramente distorcido estampado no rosto.
- Ora, olhe só para você, partindo para a agressão comigo por uma vez na vida... Ótimo! Continue assim! Lute de volta e aja como um homem! Porque é isso que você é!
- N-não, eu não... Eu só estava... — gaguejou Ushio em um sussurro dilacerante, balançando a cabeça como se não conseguisse acreditar no que tinha feito.
Por fim, pareceu que ela não aguentava mais ficar ali, pois juntou a saia do chão e saiu correndo da sala de aula o mais rápido que pôde. Foi só então que eu voltei a mim.
O que eu estava fazendo até agora? Nada — era isso. Eu não fiz absolutamente nada. Fiquei sentado assistindo enquanto Ushio era agredida verbal e fisicamente na frente da classe inteira. Uma onda de arrependimento lavou meu corpo todo.
Embora eu soubesse que já era tarde demais para me levantar em defesa dela, levantei-me da minha carteira e disparei pelo corredor atrás de Ushio. Enquanto corria, eu me xingava por ser um pedaço de lixo tão imprestável. Eu era um amigo de merda e um puta idiota para completar. O que eu estava pensando, tentando me convencer de que Ushio tinha tudo sob controle? Eu estava apenas procurando uma desculpa para não fazer nada por medo de uma retaliação de Nishizono e da rejeição dos nossos colegas. Eu só estava preocupado com a minha própria autopreservação enquanto, nesse meio tempo, Ushio tinha se esforçado para garantir que eu não fosse pego no fogo cruzado do assédio que ela estava enfrentando. Ela tinha sido uma amiga tão boa, e eu praticamente a deixei para morrer. Logo agora que ela precisava de um amigo mais do que qualquer um.
"Que merda...!"
Eu desejei poder voltar no tempo cinco minutos e me dar um soco. Mas eu não cometeria o mesmo erro de novo.
Persegui Ushio escada abaixo, pelo corredor e para o lado de fora, apesar de estar usando meus sapatos de interior — até que, finalmente, ela parou atrás do ginásio. Eu estava arquejando e sem fôlego quando a encurralei, e diminuí meu pique para uma caminhada conforme me aproximava dela. Senti um certo orgulho de mim mesmo por conseguir acompanhar a ex-estrela da equipe de atletismo. Atribuí isso à reação de lutar ou fugir, ou como quer que se chamasse aquela descarga de adrenalina. Não havia mais ninguém ali atrás do ginásio, mas eu ainda conseguia ouvir o tumulto distante dos estudantes conversando no prédio da escola.
- Ushio — chamei.
Os ombros dela estremeceram antes de ela se virar para mostrar o rosto.
Ela estava chorando copiosamente. Lágrimas grossas e pesadas escorriam por suas bochechas. E por mais que tentasse conter o fluxo, elas simplesmente voltavam a inundar tudo cada vez que tentava enxugá-las. Senti uma dor amarga no peito; eu não queria ter que vê-la daquele jeito uma segunda vez.
- Desculpa, Ushio... Eu deveria ter feito alguma coisa. Eu estava tão focado em mim mesmo que fiquei fingindo não ver o quão horrivelmente a Nishizono estava te tratando... E eu sei que não tem desculpa para isso. Mas eu quero ser melhor daqui para frente.
Dei um passo mais perto.
- Não vou mais desviar os olhos. Qualquer coisa que estiver ao meu alcance, eu quero fazer por você. Quero estar do seu lado. Não me importa se você é um menino ou uma menina — gênero não tem nada a ver com isso. Você é minha melhor amiga, e isso é a única coisa que importa.
Senti meu rosto arder de calor enquanto falava. Parecia que eu estava ficando bêbado com o meu próprio surto repentino de sinceridade, e não pude deixar de sentir um pouco de vergonha daquele meu discursinho moralista. No entanto, eu estava falando de coração.
Ouvindo isso, Ushio soltou gemidos guturais entre seus acessos de soluços e fungadas — até que, finalmente, a represa rompeu e ela desabou completamente.
- Não é a única coisa que importa, porém... — disse ela, balançando a cabeça inconsolavelmente.
- P-por que não? — perguntei, sobressaltado por aquela resposta inesperada.
- Porque...
Com lágrimas nos olhos, ela olhou direto nos meus.
- Porque eu gosto de você, Sakuma.
Por um momento, minha mente ficou em branco, incapaz de processar o que tinham acabado de me dizer. Ela me encarou com seriedade, talvez para avaliar a minha reação — mas então pareceu perder a esperança, pois se virou com os olhos baixos e saiu correndo. Foi como se ela tivesse acabado de desistir de algo.
Eu apenas fiquei parado ali, vendo-a ir embora. Eu sabia que se corresse atrás dela — assumindo que conseguisse alcançá-la -, as palavras só ficariam presas na minha garganta de novo. Minhas emoções ainda estavam confusas e dispersas demais para eu pensar direito, quanto mais falar.
Mas de uma coisa eu tinha certeza absoluta.
Ela não estava dizendo que "gostava" de mim apenas como amiga.
Ushio foi para casa mais cedo naquele dia. Pelo resto da tarde, um clima muito desconfortável pairou sobre a sala de aula. Talvez a mudança mais notável tenha sido o fato de eu não ter ouvido uma única menção a Ushio sair da boca de ninguém. Até as pessoas que vinham zombando dela impiedosamente a cada oportunidade agora evitavam o assunto como se ela nunca tivesse existido.
Até Nishizono estava entre elas — embora não parecesse nem um pouco arrependida pelo que fizera. Talvez estivesse apenas pacificada no momento, agora que o objeto de sua ira tinha ido embora, mas ela voltaria a berrar ódio assim que Ushio retornasse.
Eventualmente, as aulas terminaram. Arrumei minhas coisas e saí da sala. Ao longo de todas as aulas da tarde, não consegui parar de pensar no que Ushio dissera durante o almoço. Sinceramente, eu ainda estava me sentindo bastante abalado com aquilo. Presumi que qualquer um ficaria, depois de receber uma declaração de amor de uma amiga de longa data que, até muito recentemente, você considerava do mesmo gênero que você.
Ushio não era mais um menino, é claro. Mas ela também não tinha nascido uma menina. E como um jovem heterossexual bastante comum que se sentia atraído exclusivamente pelo sexo oposto, achei a disparidade entre sexo e gênero um tanto difícil de conciliar em termos de atração. Não que eu não gostasse da Ushio, obviamente — eu admitia prontamente que ela era bem bonitinha e ficava bem em roupas femininas e tudo mais. Mas quanto a conseguir olhar para ela da mesma forma que olhava para qualquer outra garota, eu simplesmente não tinha certeza. Meu instinto me dizia que não — que eu nunca conseguiria ter um relacionamento com ela.
Eu não podia aceitar a declaração da Ushio da forma como ela pretendia. Mas eu também não conseguia me forçar a dar um "não" curto e grosso para ela.
Quero dizer, as coisas já estavam bem difíceis para ela. Imagine se assumir e contar para todo mundo na escola um segredo que você guardou no peito por muito tempo e imediatamente enfrentar preconceito e sofrer bullying por isso — e então, quando você está no seu pior momento, você confessa seus sentimentos para a pessoa que gosta e a resposta é um não doloroso... Meu coração doía só de pensar nisso. Eu provavelmente ia querer morrer se algo assim acontecesse comigo.
Eu sabia que Ushio merecia uma resposta direta minha, mas eu simplesmente não tinha estômago para rejeitá-la cruelmente. Não com tudo o que ela estava passando. Eu precisava descobrir como lidaria com ela daqui para frente — porque eu teria que encará-la, independentemente de quão estranhas as coisas ficassem após essa revelação. Afinal, eu já tinha decidido que não deixaria mais o medo me controlar. Isso, com certeza, não ia mudar.
- Vamos lá... Vê se te enxerga, Sakuma... — falei, tentando me motivar um pouco enquanto cruzava a entrada principal da escola.
Ainda assim, quais eram as chances de a Ushio gostar de mim, enquanto a Hoshihara gostava da Ushio, e eu gostava da Hoshihara? Era um triângulo amoroso perfeito — dava literalmente para desenhar com setas e ficaria parecendo aqueles símbolos de reciclagem. Nunca pensei que me veria preso em um desses na vida real. O mundo realmente era cheio de surpresas estranhas.
Enquanto eu refletia sobre a minha situação atual de uma perspectiva estranhamente distante, cheguei ao bicicletário. Abri o cadeado da minha bicicleta e fui puxá-la pelo guidão — mas os pedais enroscaram na bicicleta ao lado, derrubando-a no chão. Isso resultou em um efeito dominó que fez uma terceira bicicleta cair, seguida pela próxima, e assim por diante...
- Ah, que merda... — resmunguei.
No fim, o meu pequeno acidente tombou um total de oito bicicletas. Eu sabia que não podia simplesmente deixá-las daquele jeito, então me ajoelhei e comecei a levantá-las uma por uma. Por sorte, uma boa alma estava por perto para me ajudar e começou a trabalhar vindo da direção oposta.
- Pronto, vai para cima — disse Hoshihara, levantando a bicicleta mais distante de mim.
- Ei, obrigado. Te devo uma.
- Nem esquenta. Ia ter que levantar todas de qualquer jeito, já que a minha ficou presa no meio.
- A-ah, ficou? Foi mal.
Trabalhamos juntos para erguer as bicicletas restantes e, assim que a última ficou de pé, Hoshihara olhou para mim com os olhos sérios.
- Então, é... Você se importa se a gente for embora junto? — perguntou ela.
Caminhamos pela estrada entre os campos de arroz, nenhum de nós dizendo nada de importante. Aquela já era a terceira vez que vínhamos embora juntos daquele jeito e, embora eu certamente não estivesse tenso ou animado demais a essa altura, ainda não parecia totalmente natural. Mas presumi que aquele leve constrangimento tinha menos a ver com intimidade e mais com o atual comportamento silencioso da Hoshihara. Ela parecia bem para baixo no momento, e imaginei que tivesse a ver com o que aconteceu no almoço.
- ...A Ushio com certeza teve um dia difícil, né? — sussurrou ela com os olhos baixos, e as minhas suspeitas se confirmaram.
- É — foi tudo o que consegui dizer.
- Quando ela saiu correndo da sala durante o almoço, você foi atrás dela bem rápido... Imaginei que provavelmente tinha alcançado ela — estou certa?
- É, alcancei, de alguma forma. A gente conversou um pouco atrás do ginásio.
- Ah é? O que você disse para ela?
- Só falei que ela é uma das minhas melhores amigas e que eu ia me certificar de agir mais como um amigo de verdade daqui para frente. Só isso.
Eu não podia, é claro, revelar que ela tinha se declarado para mim. Aquele não era o tipo de coisa que eu sentia que tinha o direito de compartilhar — menos ainda com alguém que tinha desabafado comigo sobre gostar da própria Ushio.
- Entendi... Então vocês tiveram a chance de conversar e resolver as coisas.
- Eu não iria tão longe, sinceramente. Não foi bem uma conversa.
- ...Sabe, eu fiquei meio que pensando na vida desde o almoço — disse ela. Então, após uma breve mas significativa pausa, continuou: — Sinto que devo desculpas para a Ushio. Por ser tão passiva e só ficar assistindo de camarote até agora. Mas eu decidi que, sim, vou parar de me importar com o que os outros pensam e ser amiga dela de qualquer jeito.
Enquanto dizia essas palavras, ela olhava fixamente para a frente, na estrada. O fogo da determinação ardia intensamente em seus olhos. Fiquei feliz em ouvir aquilo — em saber que ela e eu sentíamos o mesmo. Nós dois daríamos o nosso melhor para ajudar a Ushio a sair dessa enrascada, em vez de ficarmos nos lamentando pelo arrependimento de erros que já tínhamos cometido. Eu sabia que tinha uma boa amiga e um modelo em quem me espelhar na Hoshihara — uma luz brilhante em quem eu podia confiar.
- Combinado — falei. — Eu ajudo também.
- Obrigada, Kamiki. Na verdade, tem uma coisa com que eu queria a sua ajuda agora mesmo, se não se importar... Eu estava meio que esperando que você pudesse ir a um lugar comigo. Mas eu preciso que você me mostre o caminho, obviamente.
- Mostrar o caminho? Para onde? Tipo, agora?
Ela assentiu com a cabeça, um pouco envergonhada.
- É, bom... Na verdade, eu queria ir até a casa da Ushio.
Hoshihara e eu paramos nossas bicicletas em frente a uma casa imponente de dois andares em uma esquina de um dos bairros residenciais de Tsubakioka. Aquela era a casa da Ushio. Eu conseguia sentir o forte desejo da Hoshihara de ser uma amiga melhor daqui para frente, mas eu certamente não esperava que ela quisesse dar uma passada na casa da Ushio logo de cara. Se mudava algo, aquilo me fazia sentir um amigo pior ainda por planejar tomar uma atitude só a partir de amanhã.
Estacionamos as bicicletas na frente da casa e pegamos nossas mochilas de suas respectivas cestinhas. Eu nem conseguia lembrar há quantos anos tinha sido a última vez que estive na casa da Ushio. Comecei a ficar um pouco nervoso, especialmente à luz de sua recente declaração. Definitivamente seria estranho, mas presumi que ela não tocaria no assunto ou me pressionaria por uma resposta com a Hoshihara presente... Ainda assim, eu não conseguia evitar a preocupação.
- Tudo bem — falei. — Vou tocar a campainha.
- T-tá bom...! — disse Hoshihara, evidentemente ainda mais nervosa do que eu. O rosto dela parecia tenso, os ombros rígidos. Para onde tinha ido toda aquela confiança dela?
- V-você tá bem?
- Aha ha... É, só estou um pouco ansiosa. Nunca fui na casa de um garoto antes... Quer dizer, não que a Ushio seja um garoto, obviamente! Isso foi só modo de dizer! Eu quis dizer "na casa de alguém de quem eu gosto", sabe?!
- S-sim.
Ela realmente não precisava se justificar tanto. Eu mais ou menos sabia que ela ainda não tinha conciliado totalmente seus sentimentos preexistentes pela Ushio como alguém do sexo oposto com a sua recente transição. Isso me parecia bem normal; internalizar uma mudança nem sempre era tão fácil quanto apertar um botão.
Apertei o botão ao lado da porta da frente e, nem dez segundos depois, a voz de uma mulher saiu pelo interfone.
- Pois não, olá? Quem é?
- Ah, oi... — eu disse. — Sou o Kamiki. Sou um dos... desculpe, amigo da Ushio. Também estou aqui com outra colega de classe, a Hoshihara. Ficamos um pouco preocupados com a Ushio, então decidimos dar uma passada aqui.
- ...Certo, só um minutinho.
O interfone desligou de repente. Pouco depois, a porta da frente se abriu, revelando uma mulher de cabelos escuros que aparentava ter trinta e poucos anos. Ela era alta e bem magra, o que a fazia parecer elegante mesmo vestindo roupas caseiras e casuais: uma camiseta branca folgada e calça jeans. Ela era definitivamente linda; até a Hoshihara não conseguiu conter um suspiro de admiração respeitosa ao meu lado. Presumi que aquela era a madrasta que a Ushio tinha mencionado — Yuki.
- Desculpe a demora, pessoal — disse ela. — Você deve ser o Sakuma, certo?
- Ah, sim. Sou eu mesmo — respondi, curioso para saber como ela sabia meu primeiro nome, já que era o nosso primeiro encontro. Talvez a Ushio tivesse contado a ela agora há pouco.
Ela abriu um sorriso amigável.
- Sim, eu reconheço você de alguns álbuns de fotos antigos. Você e a Ushio se conhecem há bastante tempo, não é? Obrigada por virem ver como ela está.
- Não, que isso. Não precisa agradecer... — falei, desviando o olhar por reflexo. Era verdade que tínhamos vindo por preocupação, mas não parecia certo receber agradecimentos por aquilo.
- Bem, entrem, por favor.
Hoshihara e eu fizemos uma breve reverência antes de entrar no hall de entrada. O cheiro marcante e acolhedor da casa de outra pessoa invadiu minhas narinas quase imediatamente. Aquele aroma suave de pot-pourri — da Ushio e de sua família simplesmente vivendo dentro daquelas paredes — impregnava a casa. Era um cheiro quase nostálgico para mim, considerando a quantidade de vezes que vim aqui para brincar quando era criança. Tirei meus sapatos e me preparei para subir no piso de madeira elevado da casa principal, mas fui parado no meio do caminho.
- Ah, antes de entrarem... tem uma coisa que eu gostaria de perguntar a vocês, se não se importarem — disse Yuki.
Hoshihara e eu trocamos um breve olhar. Sem motivos para recusar, assentimos, e Yuki deu um sorriso sem jeito.
- A Ushio não está... sofrendo bullying na escola ou algo assim, está?
Senti um peso repentino no estômago. "Como deveríamos responder a isso? Deveríamos apenas contar a verdade ou garantir que não há problema nenhum?" Presumi que a segunda opção era o que Yuki esperava ouvir, mas eu realmente não me sentia confortável mentindo. Ela provavelmente só estava perguntando porque já tinha um forte palpite, então a chance de sermos pegos na mentira era alta.
Antes que eu pudesse me decidir, a Hoshihara tomou a frente e respondeu por mim.
- A Ushio... bem, ela tem sido assediada por uma colega de classe em particular, sim.
Ela optou pela honestidade, e me senti um pouco mal por deixá-la responder a uma pergunta tão delicada. Mas agora que o segredo tinha vindo à tona, não vi motivos para ficar enrolando, então assenti para confirmar o que ela acabara de dizer.
Yuki abaixou os ombros e coçou a cabeça, sem jeito.
- Entendi... — disse ela, arrastando a palavra em um suspiro. — É, eu imaginei que fosse algo assim, dadas as circunstâncias. Cara, essas coisas são difíceis. Especialmente quando se é jovem.
- N-Não se preocupe! — Hoshihara garantiu. — Nós não vamos deixar que isso continue! O Kamiki e eu já decidimos que vamos fazer de tudo para defender a Ushio de agora em diante!
- É mesmo?
Hoshihara e eu assentimos repetidamente, feito bonecos de posto. Yuki cruzou os braços e nos avaliou por um momento antes de dar um sorriso caloroso.
- Tudo bem, então vou deixar isso com vocês por enquanto. Cuidem bem dela por mim.
- Pode deixar — Hoshihara e eu dissemos em uníssono.
- Agora, entrem — disse Yuki, e nós dois subimos para o interior da casa. — A propósito, Sakuma... me lembre, você já esteve na nossa casa antes?
- Ah, sim. Muitas vezes, antigamente.
- Então acho que você se lembra de onde fica o quarto da Ushio?
- Humm... Subindo as escadas, a primeira porta, não era?
- Isso, acertou em cheio. Caramba, você provavelmente conhece esta casa melhor do que eu.
- Ah, não. Que isso...
Essa era uma daquelas interações estranhas com os pais de um amigo em que eu não sabia como responder — embora tenha notado a Hoshihara me olhando de rabo de olho durante a conversa. Havia uma ponta de inveja em seu olhar, mas ela certamente não podia estar com ciúmes por eu ter vindo muito aqui quando criança... certo?
- Opa, desculpe segurar vocês — disse Yuki. — Fiquem à vontade para subir.
Fizemos uma reverência educada pela segunda vez e seguimos em direção ao quarto da Ushio. Nesse exato momento, ouvi a porta da frente se abrir atrás de mim. Ao me virar para olhar, vi uma garota vestida com um uniforme escolar de marinheiro. Ela tinha a pele clara, era magra e usava o cabelo preto cortado em estilo chanel. Era a irmã mais nova da Ushio, Misao. Yuki deu as boas-vindas a ela, mas Misao não respondeu, mantendo seus olhos desconfiados fixos em nós, as visitas inesperadas.
- ...Sakuma? — disse ela. — O que você está fazendo aqui?
- É, oi — eu disse. — Só queríamos conversar um pouco com a Ushio. Há quanto tempo, aliás.
- É, acho que sim.
Foi uma resposta bem seca. Parecia que não éramos os convidados mais bem-vindos aos olhos da Misao. Ela fechou a porta e tirou os sapatos, subindo no piso de madeira antes de parar de repente e se virar para mim.
- Isso me lembra, Sakuma... você poderia fazer o favor de mandar o meu irmão parar de se vestir de mulher, por favor? Isso está me enojando de verdade.
Tive que admitir, a brutalidade franca e descarada daquele pedido me pegou de surpresa. Parecia que ela não tinha escrúpulos em expressar sua desaprovação pela nova identidade e estilo de vida da Ushio. A Ushio tinha mencionado que sua irmã estava se recusando a falar com ela ultimamente, mas parecia que o relacionamento delas era ainda pior do que eu imaginava.
- Ei, olha os modos! — Yuki repreendeu a enteada enquanto eu ficava ali, sem saber o que responder. — Você sabe que não deve falar assim. E a Ushio é sua irmã agora, não seu irmão...
- Ah, cala a boca — disse Misao. — Você não é minha mãe.
E com esse último comentário cortante, ela saiu batendo o pé e desapareceu pelo corredor. Senti que aquela pequena interação tinha me dado um vislumbre bem revelador da complicada dinâmica familiar na casa dos Tsukinoki ultimamente.
- Er, desculpe por vocês terem que ver isso. — Yuki riu sem graça para disfarçar. — Vão em frente. Vocês dois deviam subir. Não queremos que a Ushio comece a se preocupar com a demora.
Mesmo relutantes depois do que tínhamos acabado de presenciar, Hoshihara e eu obedecemos e subimos as escadas. Senti muita pena da Yuki, mas sabia que não havia nada que pudéssemos fazer, então optamos por não nos meter nos assuntos de família deles por enquanto.
Chegamos ao segundo andar, e lá estava a porta do quarto da Ushio exatamente onde eu me lembrava. Por uma fração de segundo, foi uma sensação estranha, como se eu tivesse sido transportado de volta no tempo para uma visita de fim de semana qualquer nos tempos do ensino fundamental. Se a Hoshihara não estivesse aqui comigo, eu talvez até gostasse de ficar ali parado saboreando aquela ilusão por mais um tempo.
Bati na porta. Ushio respondeu lá de dentro, e então eu a abri.
- ...Oi, pessoal — disse ela, cumprimentando-nos desanimada de onde estava sentada em sua cama, vestindo um casaco de moletom e shorts de academia.
Ela nos olhou com uma expressão que sugeria um certo desagrado ou irritação por termos aparecido sem avisar. Por um momento, captei aquele mesmo olhar que ela tinha me dado após aquela declaração durante o almoço de hoje, e isso quase me fez perder a coragem — mas engoli essas emoções e entrei no quarto de qualquer maneira.
- Ei, estamos entrando — eu disse.
- D-Desculpe a invasão — Hoshihara acrescentou, nervosa.
O quarto da Ushio não tinha mudado muito de como eu me lembrava. Era um espaço limpo e organizado, com uma variedade de mangás de ação populares alinhados em suas grandes prateleiras. As lombadas de cada volume estavam em perfeito estado, o que sugeria que ela não os relia muito. Ou que os manuseava com muita delicadeza.
- Podem sentar onde quiserem — disse Ushio.
Deixei minha mochila de lado perto da cama dela e sentei no chão, como instruído. Hoshihara sentou-se logo ao meu lado.
- Vocês estavam conversando sobre algo lá embaixo? Notei que demorou um pouco para subirem depois que ouvi a campainha tocar.
- Sim — respondi, assumindo a liderança, já que a Hoshihara ainda parecia um pouco assustada. — Nós, bem... conversamos um pouco com a Yuki e depois com a Misao.
- Ah, entendi. Então você falou com a Misao, é...?
Ushio não disse mais nenhuma palavra depois disso, olhando fixamente para o nada. O assunto tinha morrido. Dei um sinal com os olhos para a Hoshihara, incentivando-a a dizer o motivo de estarmos ali. Ela engoliu em seco e olhou para a Ushio.
- Er, oi, Ushio... Na verdade, eu queria te pedir desculpas.
- Pedir desculpas? Pelo quê?
- Eu... me sinto mal por não ter feito nada para ajudar durante o almoço de hoje. Sei que deve ter sido... muito difícil para você, e eu meio que só fiquei sentada assistindo... Mas de agora em diante, não vou mais ficar de braços cruzados tolerando coisas assim. Eu prometo. Era só isso que eu queria te dizer — só queria que você soubesse disso.
Ushio assentiu em silêncio enquanto a Hoshihara entregava aquele breve discurso de forma hesitante. Sua expressão ao escutar atentamente ainda era difícil de decifrar. Eu não conseguia dizer se ela estava tocada pelo que a Hoshihara dizia ou se simplesmente queria demonstrar que estava prestando atenção.
- Você é muito gentil, Natsuki — disse Ushio com naturalidade, seu sorriso suave fazendo parecer que os sentimentos expressos não tinham nada a ver com ela. — Com certeza senti minha paciência ser testada na escola hoje, sim... Honestamente, me deu uma vontade de nunca mais voltar para lá.
- O quê?! — Hoshihara engasgou de susto.
- Tipo, talvez eu devesse me transferir para outra escola. Começar do zero em um lugar completamente novo, onde ninguém me conheça ou saiba do meu passado, e eu possa apenas viver minha vida como uma garota sem ser julgada. Tenho pensado que essa pode ser uma opção atraente para mim ultimamente.
- N-Não, você não pode!
- Ah, é? Por que não?
Ouviu-se o som de lençóis se mexendo quando a Ushio deslizou para fora da cama e caminhou para se sentar diretamente ao lado da Hoshihara. Ela olhou bem nos olhos da outra garota através de seus cílios, com os ombros praticamente se tocando. Havia um resquício de um sorriso preguiçoso desenhado em seus lábios — e por alguma razão, havia algo quase sedutor em sua atitude ao encurtar a distância entre elas daquela forma, a ponto de eu me perguntar se a Ushio estava planejando beijá-la, quem sabe.
Hoshihara (compreensivelmente) travou e ficou vermelha que nem um pimentão, da ponta das orelhas ao rosto. A tensão era palpável até de onde eu estava sentado, e comecei a suar frio. Não, talvez estivesse sentindo algo mais parecido com arrepios. Obviamente, eu sabia que ela provavelmente não faria nada de verdade, mas ainda assim dava nervoso de assistir. De qualquer forma, eu não podia exatamente intervir, então tive que ficar ali apenas observando.
Então, inesperadamente, Ushio desviou o olhar da Hoshihara para mim, e uma expressão estranhamente desapontada cruzou seu rosto. Ela então se levantou e foi se sentar do lado oposto da mesa de centro no meio do quarto, de frente para nós.
- Desculpe, Natsuki. Eu estava só brincando com você. Não vou me transferir, não se preocupe. E não vou parar de ir à escola também.
- Tudo b-b-bem, que bom, sim! — gaguejou Hoshihara. — Ufa, que alívio... Tenho que admitir que você me pegou por um minuto ali. Ha, ha...
Eu também soltei uma risada fraca de alívio. Realmente esperava que a Ushio evitasse "piadas" como aquela daqui para frente — eu estava em canais de agulhas ali por um minuto.
Houve uma batida na porta, e Ushio deu permissão para entrar, então Yuki entrou carregando uma bandeja de lanches.
- Fiquem à vontade para comer se quiserem — disse ela, colocando a bandeja de bombas de creme e três copos de suco de maçã na mesa de centro.
Não pude deixar de pensar que ninguém nunca receberia doces ocidentais tão chiques assim como convidado na minha casa. Assim que a Yuki saiu pela porta, a Ushio pegou uma bomba de creme e começou a comer.
- Vocês dois deveriam pegar — ela nos disse.
- Bem, já que está oferecendo... — eu disse.
- N-Não vou fazer desfeita! — disse Hoshihara.
E assim os três ficaram sentados ali comendo bombas de creme em silêncio. Eu não sabia o que mais dizer. Era um momento muito, muito estranho. Ushio foi a primeira a terminar a dela, e quando se levantou para jogar o papel de embrulho no lixo, notei uma coisa.
- Ei, Ushio — eu disse. — Tem um pouco de creme no seu nariz.
- Hã?
Ela esticou a mão para verificar. Com o creme confirmado, ela imediatamente correu para uma caixa de lenços próxima e limpou tudo rapidamente. Não contive o riso ao ver como aquela revelação boba a deixou momentaneamente desesperada.
- Não é do seu feitio comer fazendo sujeira — brinquei.
- Ah, cala a boca. Isso pode acontecer com literalmente qualquer um.
Ela me encarou de cara amarrada, fazendo bico — com um toque de vergonha nas bochechas. Ela costumava ser muito cuidadosa para evitar até mesmo pequenos momentos de "pagar mico", no entanto. Perguntei-me se ela simplesmente tinha baixado a guarda no conforto de seu próprio quarto. Essa provavelmente era a primeira vez que a via ficar sem jeito por um erro bobo daqueles desde o ensino fundamental.
Coloquei o resto da minha bomba de creme na boca e virei para o lado enquanto mastigava. Hoshihara estava com a dela na mão, mas focava menos em comer do que em examinar cada canto do quarto da Ushio.
- Você com certeza não tem muitas coisas no seu quarto, não é? — observou ela.
Eu sempre tive esse pensamento também — especialmente agora que a Ushio era uma adolescente -, embora nunca tivesse prestado muita atenção nisso. Talvez houvesse um motivo para isso, contudo.
- É, sempre me dizem isso — disse Ushio, rindo sem jeito enquanto coçava a bochecha. — Acho que nunca fui uma pessoa muito materialista, mesmo quando era bem pequena.
- Ah, uau. Isso é realmente interessante. Porque eu sinto que estou sempre pensando na próxima coisa que quero comprar, então meu quarto vive enchendo de cada vez mais tralha. Até que inevitavelmente minha mãe começa a berrar comigo para limpar o quarto e jogar algumas coisas fora.
- Ha, ha. Isso parece muito a sua cara mesmo — comentou Ushio.
"Realmente parecia", concordei mentalmente. Sem querer fazer suposições maldosas, mas eu conseguia imaginar o quarto da Hoshihara bem bagunçado e cheio de coisas — com pelúcias de mascotes fofos e almofadas espalhadas por toda parte. Enquanto eu sorria com a imagem mental, Hoshihara de repente soltou um gritinho de surpresa e alegria, deu um pulo e caminhou até a estante. Presumi que ela tinha visto algo que chamou sua atenção.
- Espera. Esse é o seu anuário da escola primária? — perguntou ela, apontando para um volume encadernado em vermelho na prateleira de baixo da estante.
Ela estava certíssima — era mesmo o anuário do nosso ano de formatura na Escola de Ensino Fundamental Tsubakioka do Oeste.
- É sim — disse Ushio. — Quer dar uma olhada?
- Você está brincando?! Mas é claro que eu quero!
Hoshihara puxou rapidamente o anuário da prateleira, abriu-o sobre a mesa e começou a folhear as páginas.
- Vamos ver... Tsukinoki, Tsukinoki... Achei! Olha só você! Meu Deus, você era tão fofiiinha!
Ela estava radiante. Eu me inclinei para olhar a página com os retratos individuais dos alunos, organizados em ordem alfabética, e rapidamente encontrei o rosto de Ushio. Não foi difícil, já que não havia outras crianças com cabelo loiro. Era uma foto dela na época em que estávamos no sexto ano — e, para ser sincero, ela já parecia bastante uma garota mesmo naquela época. Seus olhos eram grandes e ela tinha o cabelo mais comprido do que o de um garoto típico do ensino fundamental. Raramente, ou nunca, o cortava tão curto.
- Então quando foi que você começou a sentir que realmente nasceu para ser uma garota? — perguntei, expressando a pergunta que naturalmente surgiu em minha mente.
- Difícil dizer — disse Ushio, balançando a cabeça. — Acho que esses sentimentos sempre estiveram lá, pelo menos desde que me lembro, então não tenho certeza se houve um momento específico.
- Hmm. Certo, interessante.
- Mas se você quer saber quando percebi que havia algo diferente em mim em comparação com as outras crianças, diria que foi provavelmente por volta da terceira série.
Isso fez sentido para mim. Pelo que me lembrava, era mais ou menos naquela época que a escola começava a separar os alunos por gênero para atividades em grupo, trocar de roupa antes da educação física e coisas assim. Ushio deu um gole em seu suco de maçã e olhou para o teto, perdida em devaneios.
- Lembro-me de quando a nossa turma decidiu apresentar "Cinderela" para o festival de arte da escola, e todos estávamos tentando decidir quem faria quais papéis: o Príncipe Encantado, a Cinderela, a fada madrinha, as irmãs más... Por alguma razão, eu realmente queria fazer o papel da Cinderela. Então, quando a professora pediu para quem quisesse se candidatar ao papel se manifestar, eu levantei a mão.
Assenti em silêncio. Percebi que Hoshihara tinha deixado o anuário de lado e também estava ouvindo com atenção.
- E eu só me lembro da professora rindo de mim, dizendo: "Você não quer dizer o Príncipe Encantado, Tsukinoki?" Aí a turma inteira começou a rir. Eu comecei a rir junto com eles, só para acompanhar o clima, eu acho. Mas me lembro de que foi um momento de realização bastante chocante para mim. Tipo: "Ah, certo. Então é estranho eu querer fazer o papel da princesa." Acho que a partir daí, comecei a tentar agir mais como um "garoto" — tanto porque não queria ser alvo de risadas novamente quanto porque não queria fazer minha mãe se preocupar que havia algo de errado comigo.
A mãe biológica de Ushio estava com uma doença terminal desde que éramos crianças. Eu tinha ido visitá-la com Ushio no hospital onde ela estava internada algumas vezes. Falávamos sobre coisas que fazíamos na escola — conversas básicas de infância — e ela ouvia atentamente com um sorriso agradável e maternal no rosto. Mas parecia que parte do motivo pelo qual Ushio havia guardado suas dúvidas e orgulhosamente representado o papel do filho briguento e masculino por tanto tempo era porque ela não queria colocar nenhum fardo mental desnecessário sobre sua mãe. Eu não conseguia nem imaginar o tipo de turbulência e ansiedade interna que isso deve ter lhe causado.
- Cara... Parece que você deve ter tido uma infância bem difícil, então — sussurrou Hoshihara no silêncio.
- Ah, não foi tão ruim assim — disse Ushio, exibindo um sorriso tranquilizador. — Pelo menos, não parecia que eu estava sofrendo ou algo assim. Eu realmente não me importava de ser agrupada com os meninos, e não é como se todos os meus gostos e hobbies fossem tradicionalmente femininos, mesmo que eu sempre desejasse poder ser uma garota. Não é como se não houvesse garotas despojadas e garotas que preferem calças a saias, afinal. Você sabe o que quero dizer?
Ushio fez uma pausa, sua expressão se escurecendo.
- Mas devo dizer que eu realmente não gostava de ter que me trocar com os meninos ou usar o banheiro dos meninos... Com toda aquela cultura de "ir dar uma mijada" juntos nos mictórios e tudo mais.
Um choque percorreu meu corpo. Eu tinha convidado Ushio para ir dar uma mijada comigo em várias ocasiões no início do ensino fundamental. Não sabia se ela se lembrava especificamente daquelas ocasiões ou não... mas senti que deveria me desculpar de qualquer forma, só para garantir.
-...É, desculpa por isso — eu disse.
- Ah, você se lembrou — disse Ushio. — Não, tudo bem. Não guardo rancor de você nem de ninguém, realmente. É apenas uma coisa, e você não poderia ter sabido.
Então ela se lembrava. Ufa, ainda bem que pedi desculpas, então. Soltei um suspiro silencioso de alívio e pensei em outra pergunta que estava pairando em minha mente.
- Ei, então, Ushio — comecei, mas parei de repente, percebendo tardiamente que a pergunta que tinha em mente provavelmente seria bastante constrangedora para ela responder. Me repreendi internamente por não ter pensado nisso antes de abrir a boca.
- Sim, o que foi? — ela perguntou.
- Er, desculpe. Não é nada importante.
- Não, vamos. Termine seu pensamento. Senão, vai me incomodar.
Eu tinha cavado minha própria cova. Tive a sensação de que haveria uma tensão estranha entre nós se eu me recusasse a elaborar agora, então pensei em engolir minha vergonha e dizer o que originalmente ia dizer.
- Hum, bem... Acho que eu estava apenas meio que me perguntando qual banheiro você tem usado na escola recentemente...
Lembrei-me de um dos meus colegas trazendo isso à tona no primeiro dia em que Ushio se assumiu como garota — e ela parecendo claramente perturbada pela pergunta. Naquele momento, sentada em frente a mim, ela ainda parecia bastante desconfortável por ter que abordar o assunto. Mas, ao contrário da última vez, parecia que ela pretendia responder.
- Não tenho usado nenhum.
- Hein?! — exclamamos Hoshihara e eu em uníssono.
- E-espere — disse Hoshihara, colocando as mãos no chão e inclinando-se em direção a Ushio. — E-então você tem segurado o dia inteiro?
-...É, mais ou menos — disse Ushio. — Quer dizer, a professora me disse que eu poderia usar o banheiro dos funcionários se quisesse, mas não me senti bem fazendo isso...
- M-mas você não pode fazer isso! Não é saudável!
- Certo, eu entendo... Mas não é como se eu realmente precisasse ir ao banheiro na escola com muita frequência para começar, então não é um grande incômodo.
- Mas... — Hoshihara franziu a testa com preocupação.
Eu também estava bastante preocupado. Claro, não era tão difícil meio que treinar seu corpo para não precisar ir ao banheiro durante o horário escolar, mas certamente não era bom segurar quando você realmente precisava ir — e todos têm momentos assim. Eu achava que esse era um problema bastante sério. Ao mesmo tempo, não me sentia confortável tentando aconselhar ou advertir alguém sobre seus hábitos de banheiro, já que esse era um assunto extremamente privado para a maioria das pessoas. Enquanto ficava pensando em como oferecer soluções sem parecer invasivo, Hoshihara hesitantly tomou a iniciativa.
- B-beleza, então que tal isso? — ela disse. — E se eu fosse com você sempre que você precisasse ir?
Eu quase pude sentir um enorme ponto de interrogação gigante e cartoon aparecer sobre minha cabeça. Embora eu presumisse que Hoshihara não quisesse dizer que iria ao banheiro junto com ela, ainda era uma oferta bastante ousada, visto que Ushio já havia compartilhado seu desconforto a esse respeito. Mas Ushio não pareceu tão surpresa.
- Não, tudo bem. Não preciso de uma acompanhante como uma criancinha que acabou de assistir a um filme de terror... — ela disse, parecendo ligeiramente insultada, mas principalmente divertida com a ideia. Hoshihara percebeu isso e desviou o olhar para o chão, encolhendo-se retroativamente com sua própria sugestão. — Agradeço a oferta e a intenção, sério. Vou tentar não segurar daqui para frente se puder evitar.
Ushio sorriu suavemente, e Hoshihara ergueu a cabeça e sorriu de volta.
- Certo, que bom! Sim, parece um plano! — ela disse.
Bem, então. Acho que está tudo bem quando termina bem... certo? Eu sabia que provavelmente não seria tão simples assim. Ainda assim, se essa conversa fez algo para ajudar Ushio a se sentir mais confortável na escola, fiquei feliz por tê-la trazido à tona. Bebi o resto do meu suco de maçã e olhei para o relógio de parede. Já passava das cinco.
- Devemos ir embora daqui muito em breve — sugeri.
- É... Você provavelmente está certo. — Hoshihara parecia um pouco triste enquanto se levantava e devolvia o anuário à prateleira.
- Vou acompanhá-los até o andar de baixo — disse Ushio.
Hoshihara e eu nos levantamos, pegamos nossas coisas e descemos as escadas para calçar nossos sapatos na entrada. Antes de sairmos, Hoshihara se virou e olhou para Ushio com olhos solenes e suplicantes.
- Vem para a escola amanhã, tá? Quero que nós três voltemos para casa juntos de novo.
Ushio sorriu.
- Certo — ela disse baixinho, com um pequeno aceno.
Eu me despedi e agradeci pela hospitalidade, e então saí pela porta da frente com Hoshihara atrás de mim. Ainda estava incrivelmente claro lá fora, o sol batendo forte no asfalto como uma criança mimada determinada a se fazer notar. Levantamos os cavaletes de nossas bicicletas, que havíamos deixado em pé na frente da casa, e retomamos nossa jornada para casa.
- Ufa... Que bom que fizemos isso — disse Hoshihara, com o tipo de suspiro satisfeito que sempre acompanhava a sensação de dever cumprido.
- Sim, concordo. Ela parecia um pouco pra baixo, mas parece que ainda vai voltar para a escola amanhã, o que é bom.
- Sim. Tenho que ser uma amiga melhor a partir de amanhã. Se a Arisa tentar alguma coisa, vou dar um belo pedaço da minha mente nela, pode esperar!
Fiquei divertido com a súbita explosão de confiança, embora tivesse que admitir que a mera menção daquele nome causava uma sensação desagradável no fundo do meu estômago.
- Certo, Nishizono... Se ao menos houvesse algo que pudéssemos fazer em relação a ela.
- Sem brincadeira... Ela é como a líder, a autoridade máxima de todos os que têm dificultado a vida da Ushio-chan. Se conseguíssemos convencê-la a parar, aposto que a turma toda também deixaria de lado. Mas ela é uma noz bem difícil de quebrar, devo dizer.
Difícil. Essa era certamente uma palavra que você poderia usar para descrevê-la. Seria muito difícil chegar até ela, especialmente porque ela não era de medir palavras quando se tratava de suas convicções. Eu não tinha certeza se conseguiríamos convencê-la.
- Será que ela tem algum ponto fraco que poderíamos explorar? — refleti.
- Arisa? Hmm... Bem, acho que ela não aguenta comida apimentada, por exemplo?
- E como isso nos ajuda? Estou falando de segredos — sujeira suja, sabe?
- Hum, deixa eu pensar... — Uma expressão pensativa apareceu em seu rosto enquanto ponderava por um momento. — Bem... ela também teve uma queda pela Ushio-chan, suponho.
Mesmo com a longa e dramática pausa antes, essa revelação me pegou completamente desprevenido. Esta era definitivamente a primeira vez que ouvia falar disso.
- Acho que isso pode ser parte do motivo pelo qual ela está provocando tanto a Ushio-chan. Tipo, para tentar assustá-la e fazê-la voltar a ser um garoto de novo ou algo assim...
Eu queria dizer que certamente nem ela seria tão imatura a ponto de achar que essa era uma boa ideia, mas honestamente não podia descartar a possibilidade. Além disso, eu podia entender o choque relativo que poderia acompanhar a revelação de que um membro do sexo oposto pelo qual você tinha uma queda agora era do mesmo gênero que você. Embora muitas pessoas provavelmente vissem isso como motivo suficiente para abandonar seus sentimentos por essa pessoa e seguir em frente, fazia sentido que alguns achassem mais difícil desistir, querendo tentar convencer a pessoa a reconsiderar. Parecia que, no caso de Nishizono, "convencer" assumia a forma de bullying.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Embora certamente não pudesse aprovar seus métodos, eu podia pelo menos entender um pouco melhor por que ela poderia ter dificuldade em aceitar a transição de Ushio à luz disso. Mas ela estava indo longe demais, e seu comportamento recente era totalmente inaceitável, independentemente do quão magoada ela pudesse se sentir.
- É, acho que isso pode se qualificar como um ponto fraco, em certo sentido — eu disse. — O problema é que não tenho certeza se conseguiria usar esse conhecimento contra ela.
- Nem eu — disse Hoshihara. — Nem quero trazer isso à tona...
Não importa o quão horrível Nishizono pudesse ser, eu não me sentia bem usando os sentimentos íntimos de alguém contra ela para fins de chantagem. Por enquanto, pensei que seria melhor guardar essa informação em um canto do meu cérebro. Chegamos ao cruzamento em T.
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