The Metamorphosis Project
5 Capítulo 5
Eleanor
Aos 60 anos, carregar uma sacola de frutas por quase um quilômetro não era muito fácil. Meus pés ardiam e estavam inchados por conta do calor e do esforço, estava suada e colocava todo o meu peso e esperanças na bengala que me ajudava a não cair.
Geralmente, 60 anos não costuma ser algo tão difícil pras pessoas; mas as minhas limitações físicas se davam, à princípio, por conta de um problema que me acompanhava há 20 anos: uma perna era ligeiramente menor do que a outra. Meu quadril doía, meus ossos rangiam e eu estava totalmente emburrada.
Minha casa ficava ao lado da casa de uma senhora nada simpática. Era religiosa, daquelas fanáticas, e me odiou desde o dia em que viu aquilo. Desde então, vem me perseguindo e instigando outros moradores a fazerem o mesmo.
Naquele dia em específico aquela nada doce senhora – Mary – estava de braços cruzados em frente ao portão de sua casa, e falava com mais duas moças, que traziam no rosto uma expressão parecida com escárnio e medo, ao mesmo tempo.
Passei por elas sem dar muita atenção, até que Mary assovia pra que eu me vire, como se eu fosse um maldito garçom, e fala:
— Eleanor! Essa é a última vez que vou te avisar – disse ela, com aquela expressão mesquinha — se você não conter a merda dos seus cachorros, vou dar chumbinho à eles. E aos seus gatos.
Meu maxilar se fechou, estalando, e encarei aquela megera até ela parecer reconsiderar o que falou.
— Mary, eu garanto à você que se alguém se aproximar dos meus animais será a última coisa que essa pessoa fará na vida.
As outras senhoras me olhavam com uma determinação forçada, como se estavam prestes a chamar a polícia ou simplesmente sair correndo. Mary, no entanto, tratou de empinar o nariz e cerrar os punhos.
— Se isso é um desafio, Eleanor, fique sabendo que...
O clima ao redor mudou. O sol foi coberto por uma espessa nuvem, e um vento terrível começou a sacudir as folhas. Palmeiras dançavam tortas e desesperadas, roupas voavam do varal e portas batiam. As três olharam ao redor, preocupadas, e eu marchei determinada em suas direções:
— Eu estou farta dessas suas queixas, maldita seja! Se você me importunar mais uma vez...
— Mãe— uma voz masculina chamou, logo atrás das mulheres. — vamos, deixe ela em paz.
Era Joseph, filho de Mary. O rapaz sempre simpatizou comigo, e eu nunca entendi porque. Claro que sempre o vi como um filho, ou sobrinho, que eu nunca tive. Era um rapaz doce, honesto e sabia colocar limites nas implicações de sua mãe. Ele chegou até a me convidar para o seu casamento, e mesmo com todos lá me odiando, eu fui. Ele era família.
As outras duas mulheres foram, cada uma, para suas casas e Mary tentou manter o nariz empinado. Sem falar mais nada, deu as costas e entrou em casa, batendo a porta.
— Garoto, sua mãe vai me deixar louca qualquer dia desses.
— É o jeito dela – disse, dando de ombros. – quer ajuda com essa sacola?
— Não, querido. Já estou em casa, obrigada. Vou preparar um suco de laranja, depois passe aqui para pegar um copo, sim?
Entrei em casa, despejando o saco de frutas na mesa e logo em seguida me sentei em uma cadeira de balanço na varanda. É claro que o vento se acalmou assim que entrei, e meus dois gatos, Luna e Darko, se aconchegaram no meu colo.
Luna era totalmente branca, e havia passado por uma metamorfose genética que havia lhe dado um olho de cada cor: o esquerdo era verde, o direito azul. Darko era totalmente negro, exceto pelos seus dois grandes olhos amarelos. Eram meus companheiros desde que nasci.
Sim, ambos estavam comigo há 60 anos, e nem sei quando ao certo eles nasceram. Só sei que me escolheram como companheira; eu os protegia, eles me protegiam. Éramos eternos amigos.
Meus cachorros eram todos vira-latas. Eu gostava de pegar animais da rua e cuidava deles o máximo que podia. Não eram tão especiais quanto Luna e Darko, eram apenas cães normais, mas eu os amava.
Olhei para minha cerejeira e percebi o quão seco seus galhos estavam.
Levantei-me – não sem ouvir reclamações de Luna e Darko – e fui até o quintal. Abaixei-me e toquei as raízes da árvore.
Entramos em sintonia. Busquei, dentro de mim, sua essência. Era uma luz discreta, rosada, um pouco nervosa; mentalizei-a até que ela decidisse vir até mim, cada vez mais forte e com vida, até que a luz era tanta que precisei abrir os olhos.
Levantei e encarei os galhos: estavam repletos de lindas flores, cheias de vida.
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