Em qualquer época da minha vida eu poderia reconhecer aquele cheiro, mesmo que o tempo regredisse meu corpo iria responder naturalmente, os pêlos do meu braço iriam se eriçar e minhas batidas cardíacas se desregulariam, meu rosto iria queimar desagradavelmente e meus olhos cairiam para o chão enquanto eu falaria mais baixo do que o normal.

Foi por isso que de fato não me surpreendi quando mesmo de olhos fechados, senti uma corrente elétrica percorrer meu corpo, fazendo o que eu já havia relatado.

Eu não precisava olhar para ela para que meu rosto ficasse vermelho, mas de fato a minha imaginação não causava o mesmo efeito do que a realidade. Engoli em seco sentindo algo queimar minha garganta, bom... ou talvez eu estivesse errado.

- Zel...?

A voz doce e receosa me obrigou a abrir os olhos, eu não permitira nem por um segundo que aquela garota a quem eu tinha como melhor amiga se preocupasse desnecessariamente comigo.

A luz do quarto me cegou e eu fui obrigado a fechá-los novamente, só voltei a abri-los quando usei minha mão como proteção, o cabelo ruivo foi a primeira coisa que chamou minha atenção.

Eu já até sorria.

- Não me assuste dessa forma.

Ouvi um suspiro aliviado escapar por seus lábios macios, minha mente reproduziu uma imagem direta de nosso primeiro beijo no meio da rua, eu apenas ignorei, não era hora pra isso.

Ela se recostou na cadeira de metal que estava ao lado de minha cama, havia uma grande cortina meio transparente que estava puxada, impedindo que aqueles que entrassem na enfermaria pudessem nos ver.

No máximo as nossas sombras, mas isso não era um problema.

- O que está sentindo?

Ela abriu os olhos me encarando com as sobrancelhas juntas e os olhos estreitos, me perguntei se tinha dito algo errado, ela parecia chateada, talvez não fosse uma boa idéia brincar com o humor de Lina Inverse.

- Sou eu quem deveria perguntar isso, quem desmaiou foi você.

Ela de fato estava brava, seus braços cruzados e seus pés batendo no chão me indicavam muito bem isso, sem falar de seu tom de voz ácido, eu realmente não aprecio quando ela começa a falar dessa forma.

É como se fosse realmente ácido e dolorido.

- Mas você não parece bem.

Ela virou o rosto para o lado com a expressão enfezada de todas as manhãs, eu quase sorri, ela sabia que eu tinha razão.

- É claro que eu não estou.

O tom ácido foi mantido, mas agora ela me olhava com os olhos menos rudes, as mãos estavam apoiadas nas próprias coxas enquanto ela se inclinava para frente ficando bem próxima.

Eu via a mim mesmo no reflexo de seus olhos.

- Eu fiquei preocupada!

E eu me sentia culpado por fazê-la se sentir dessa forma, Lina era tão bonita e tão cega, incapaz de ver a própria beleza, ela gostava mesmo de mim?

- Me desculpe.

Com os dedos trêmulos toquei seu rosto macio, ela fechou os olhos com o contato e sua mão igualmente macia envolveu a minha que era áspera e calejada.

Nós ficamos assim por algum tempo, até que com um sorriso que me tirava o fôlego, ela colocou uma mecha do cabelo para trás da orelha e aproximou o rosto do meu.

Ela parou alguns segundos, nossos olhos fixos um no outro, eu tinha certeza que ela também se via refletida, foi com um sorriso que escapou de meus lábios que ergui meu rosto para frente e a beijei.

Capítulo 03;

Tudo que é bom dura pouco foi só o que consegui pensar quando a porta da enfermaria foi arrastada, uma vez que ela era de correr.

- As crianças não estão fazendo nada de errado, não é?

Lina fez uma careta e girou os olhos, ela era uma perfeita duas caras, a menina doce que trabalhava duramente pelo colégio e a minha melhor amiga que debochava das pessoas.

Meus sentimentos são por ambas.

- Acho que você já está dispensado Sr. Greywords.

Antes que ele terminasse, eu já estava de pé, ajeitando o casaco do uniforme que estava um pouco amassado, mas isso era um detalhe irrelevante, não fazia diferença para mim.

- Eu agradeço.

Ele estendeu um papel carimbado e assinado de forma inteligível, o guardei no bolso da calça e com aceno de cabeça para Lina nós deixamos a enfermaria.

O corredor estava lotado como em qualquer horário de refeição.

Minhas mãos estavam afundadas no bolso da calça, enquanto nós andávamos em silêncio para o que eu imagino que seja o refeitório, onde ela seria cercada por todos os alunos existentes e talvez eu tivesse sorte se encontrasse com Gourry.

Pensando nisso eu gostaria mesmo de falar com ele antes de me retirar, com a autorização, eu só precisaria pegar meu material e ir para a casa mais cedo, talvez conseguisse pegar algo bom passando na televisão.

- Zel.

- Hn?

Ela abriu a boca para dizer algo, mas antes do que o previsto vários alunos se aproximaram não se importando obviamente com a minha presença e até me empurrando com o ombro.

Me vi parado em frente a um círculo de alunos que reconheci como do clube de esportes querendo a opinião dela para algumas coisas, não tinha mesmo jeito, as coisas não iriam mudar.

Olhei-a com atenção, seus olhos pareciam querer se desviar daqueles seres famintos por atenção, quando percebi que novamente nos olhávamos eu acenei com a cabeça e me afastei.

Lina às vezes era uma simples conhecida minha.

Não que isso não magoasse, mas não é como se eu pudesse fazer algo a respeito. Meu estômago roncou e decidi seguir meu fluxo, o refeitório não estaria menos vazio.

Sem Lina ao meu lado eu só podia contar agora de vê-la entrando naquele salão e quem sabe nossos olhares não se cruzariam novamente? Foi com um suspiro cansado que empurrei as portas duplas.

A fila estava considerável o que me levaria uns 10 minutos, eu nem sabia quanto tempo ainda tinha para que o quinto período se iniciasse, mas eu não precisaria assisti-lo.

O menu de hoje não era o melhor, mas foi com orgulho que enchi minha tigela com um macarrão com presunto e molho branco, a fumaça atingiu meu rosto e eu inalei aquele cheiro delicioso.

Às vezes eles fazem pratos mais picantes e até mesmo de outros países, o clube de culinária às vezes bagunça os menus e todos viram cobaias, eles tem preferência na culinária italiana e em fast-foods americanos.

O que na verdade é o favorito de Lina, pois normalmente há tantos hambúrgueres disponíveis que você senta-se à mesa parecendo que está fazendo parte de um campeonato de quem come mais. O fast-food é uma variação boa, mas aqueles lunáticos misturam tanta coisa para dar mais sabor que às vezes embrulha o estômago.

- Zel.

Uma mão acenava freneticamente no ar, mas não era isso que chamava atenção e sim o cabelo loiro que se destacava, foi com um sorriso interno que me aproximei da mesa.

- Por que está sozinho?

A pergunta nem havia passado pelo meu cérebro eu podia jurar. Sentei-me na cadeira de metal, enquanto observava o loiro mastigar apressado para que me pudesse responder, eu imagino.

- Umas garotas vieram aqui ainda agora.

Ele parecia não se importa nem um pouco, na verdade eu já havia formado uma teoria em relação ao meu amigo de cérebro de água-viva, ele era mais cego que Lina.

Estaria eu fadado a me relacionar com pessoas assim?

Minha sobrancelha se ergueu inevitavelmente enquanto olhava para o conteúdo no prato de Gourry, eu sabia que o menu de hoje não era tão bom assim, mas porque ele havia escolhido justo o pior prato?

À minha frente estava um prato cheio de carne moída com queijo, o que eu suponho que seja a preguiça dos cozinheiros de fazerem uma lasanha.

- O que aconteceu com você?

Ele perguntou quando seu prato se encontrava limpo, eu havia acabado com o meu há algum tempo, apenas o aguardando. Supus que ele só se lembrava de perguntar agora ou talvez fosse que nem Lina, não abria a boca durante as refeições para não perder nem um segundo de degustação.

Ri idiotamente com meus próprios pensamentos, ele era a versão masculina dela, isso deveria ser um fato comprovado e estudado.

- O que foi?

- Você me lembra alguém que conheço.

Respondi enquanto me recuperava de meu pequeno e raro acesso de risos, meus dedos calejados massagearam minhas bochechas que estavam doloridas, talvez fosse falta de costume.

- Espero que isso seja uma coisa boa.

Agradável como sempre, Gourry exibia um sorriso de criança, ele com certeza era incapaz de perceber a malícia numa palavra e ao julgar pelo seu cérebro de água-viva ele também desconhecia a existência do sarcasmo.

Ele não parece o tipo que gosta de ler também, se não fosse pelo tom de cabelo, eu poderia jurar que Lina e Gourry eram irmãos separados ao nascimento.

Era exatamente isso que eu faria, apresentaria Gourry à Lina, talvez fosse a minha chance.

Mas não naquele dia, eu só estava ansioso pra ir direto pra casa e assistir TV. Eu já disse que os melhores programas passam quando se está sendo torturado no colégio?

Continua.

Notas finais
Dúvida: Será que agora essa fic volta?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.