Notas iniciais
Boa leitura

Sakura acordou de repente. O bebê gemia baixinho.

— Pronto, pronto. Está tudo bem. Nós dois estamos bem. Graças a Itachi — ela falou.

Talvez seu chefe nunca mais se recuperasse do choque de ter tido de fazer um bebê nascer. Ele estava, inclusive, pálido demais no final, mas fora maravilhoso durante todo o parto.

Com um suspiro, ela mudou de posição. Para sua sur­presa, notou que não sentia dores. O parto fora mesmo muito rápido. Da primeira contração até o nascimento, haviam se passado apenas duas horas.

— Bem, não sei o que devo fazer agora, mas talvez seja melhor alimentá-lo, não acha? — indagou, carinhosa, olhan­do para o filho.

Então, ajeitou os travesseiros na cabeceira da cama e procurou o interruptor do abajur. A luz suave iluminou o quarto espaçoso.

Através da janela, além da saleta envidraçada, podia ver que a noite já se instalara. Flocos de neve golpeavam os painéis de vidro e amontoavam-se nas bordas externas.

Consultando o relógio sobre a mesinha-de-cabeceira, desco­briu que passava poucos minutos das oito horas. Por seus cál­culos, havia chegado ali às cinco horas da tarde, porém não tinha certeza. O tempo perdera o significado na última hora.

Sakura ergueu a camiseta até a altura dos seios e acomodou o filho no colo. Por sorte, nos últimos tempos, apenas o sutiã de amamentação lhe proporcionava conforto, portanto foi só abrir a aba e um de seus seios ficou exposto. Então, levantou o bebê e passou os lábios rosados em seu mamilo. Isso pareceu realmente acordá-lo. Seiji abriu os olhinhos e mexeu a cabeça de um lado para o outro freneticamente. Ela o guiou na direção certa, e o bebê agarrou o bico com sofreguidão.

— Ai! — exclamou, jogando instintivamente o corpo para trás.

O recém-nascido perdeu o bico e reclamou com um ge­mido. Sakura ajudou-o de novo e, dessa vez, já preparada, não se moveu quando ele começou a sugá-lo.

Uma sensação estranha a invadiu, não era exatamente dor. Várias outras vezes, Seiji perdeu o mamilo, e Sakura teve de ajudá-lo, até que, aparentemente satisfeito, o bebê adormeceu.

Ela ficou imaginando se ele conseguira mamar alguma coisa. Apertou o bico do seio, mas não saiu nada.

De repente, ela ouviu passos no corredor e logo puxou o lençol para cima, cobrindo inclusive o bebê, enquanto ten­tava, com apenas uma mão, fechar a aba do sutiã e abaixar a camiseta.

Itachi entrou justamente quando Seiji gemeu, contrariado.

— Está tudo bem aí? — indagou.

—Sim,claro.— Sakura colocou o bebê sobre seu abdômen, agora estranhamente plano, e tentou, mais uma vez, fechar o sutiã. O bebê reclamou alto.

— O que está tentando fazer? — Itachi franziu o cenho, sem entender o que se passava.

O rubor tomou conta da face de Sakura. Sabia que era ridículo sentir-se envergonhada, depois do que passaram juntos havia pouco tempo, mas não podia evitar.

— .. eu... — balbuciou, enquanto procurava uma boa resposta.

— O que há de errado com o garoto? — Ele se inclinou sobre a cama, parecendo ameaçador, devido a seu tamanho.

Itachi era um homem de constituição física grande, com mais de um metro e oitenta e cinco centímetros de altura e ombros largos, como os de um jogador de futebol ameri­cano. As mãos e os pés eram proporcionalmente grandes.

Ele não se barbeara pela manhã, e a sombra da barba cer­rada cobria o rosto másculo, dando-lhe a aparência de um charmoso vagabundo.

A calça jeans, as botas já gastas e a camisa de veludo azul puída nos cotovelos realçavam essa impressão. Os ca­belos escuros estavam ligeiramente despenteados, o que au­mentava ainda mais a diferença entre esse Itachi e o Itachi urbano, seu chefe no escritório.

Só uma coisa permanecia a mesma. Os profundos olhos negros continuavam a olhar com firmeza para seu interlocutor, como se pudessem ler o pensamento da pessoa.

Sakura observou as mãos pousadas sobre a cama. Eram grandes, porém, ao contrário do olhar duro que ele lhe lan­çava, gentis.

Aquelas mãos não haviam tremido ao amarrar e cortar o cordão umbilical, e ao colocar uma bacia plástica para os procedimentos pós-parto, de acordo com as instruções de Sakura. Quando levantaram o bebê para que ela pudesse ver que seu filho nascera bem, elas haviam sido capazes e muito, muito gentis. Sakura amava aquelas mãos.

— Sakura — ele chamou.

Ela piscou, voltando à realidade. Então, abaixou o len­çol e colocou o filho sobre um dos ombros, para ver se ele arrotava.

— Ele está bem. Eu tentei amamentá-lo, mas ele ador­meceu. Não tenho certeza se mamou alguma coisa ou não.

Subitamente, sentia-se estúpida e desamparada. O que sabia sobre criar uma criança? Nada. Não tivera irmãos ou irmãs. Sua mãe falecera havia muitos anos, e seu pai no primeiro ano de faculdade. Fora a filha única de dois filhos únicos. Não tinha tias, tios nem primos. Nunca ficara a sós com um bebê nem trabalhara como babá na adolescência, como tantas outras garotas.

— Oh! — Sakura exclamou, sentindo um líquido quente
correr sobre seu abdômen.

Itachi seguiu seu olhar.

— Vou procurar alguma coisa para usarmos como fralda. — E, no segundo seguinte, ele já saíra do quarto.

Pobre homem, provavelmente estava morrendo de medo que alguma coisa ruim acontecesse em sua casa. Como se fazer um parto improvisado já não fosse difícil o suficiente para um solteirão como ele.

Sakura não pôde reprimir uma risadinha. Era muito en­graçado. Itachi Uchiha um expert em assuntos legais, um dos mais respeitados advogados do país, que defendia casos frente à Suprema Corte, encontrava-se incomunicável em um chalé, nas montanhas, com uma mãe inexperiente e um recém-nascido, tendo de fazer o papel de babá.

Quando ele retornou, carrancudo e com ar distante, ela não conteve outra risada. Essa situação ridícula merecia ser colocada no papel. Se tivesse a quem escrever, ela o faria. Entretanto, não tinha ninguém no mundo a não ser o filho.

— Pare com isso — ordenou Itachi. Sakura ficou séria.

— Sim, senhor — disse, com vivacidade, e recomeçou a rir.

— Você está histérica? — ele indagou, num tom mais gentil.

Sakura meneou a cabeça em negativa, procurando se controlar.

— Desculpe-me. É que me pareceu tão engraçado você, um advogado poderoso, fazendo o papel de enfermeiro e babá.

Itachi lhe enviou um olhar zombeteiro e arqueou as sobrancelhas. Quando ele sorriu, pequenas rugas se forma­ram nos cantos dos olhos negros.

— Sim, esta é uma situação bastante cômica.

Ela adorou o sorriso que Itachi lhe deu. Apesar das palavras repletas de cinismo, parecia genuíno, não um da­queles sociais, que ele costumava distribuir no escritório.

— Também me sinto envergonhada.

— Não precisa ficar assim. — Itachi estendeu dois panos de prato sobre a cama e um pedaço de .saco plástico. — Achei que poderíamos usar isto. — Colocando a mão no bolso, ele retirou dois alfinetes de gancho.

— Ótimo. -— Ela desembrulhou o bebê, secou-o, então colocou-lhe a fralda improvisada e o saco plástico e pren­deu-os com os alfinetes.

Itachi passou a ferro uma toalha limpa e entregou-a para Sakura, que envolveu o filho com o tecido felpudo.

— Acho que de agora em diante não precisa mais passar as toalhas a ferro. Obrigada.

Por alguns segundos, Itachi ficou pensativo, em silêncio, depois perguntou:

— Está com fome?

— Não sei... ainda estou meio tonta. — O rubor lhe subiu às faces. — Quero dizer, depois de tudo o que aconteceu, nem tive tempo de pensar em comida.

— Preparei uma sopa na hora do almoço.

— Ora, ora — ela falou, sorrindo. — Você tem múltiplos talentos, e todos eles surpreendentes. — Assim que terminou de fazer o comentário, teve vontade de morder a língua. Se não se controlasse, ele a despediria na primeira oportunidade.

— Vou lhe trazer algo para comer — disse, sem esperar que Sakura tomasse uma decisão, e saiu do quarto.

Recostando-se nos travesseiros, ela se pôs a pensar em Itachi. Ele já estava com quase trinta anos de idade. Por que ainda não havia se casado?

Já ouvira falar de algumas moças com quem ele saíra, a maioria pertencente à alta sociedade de Tokyo, onde ficava seu escritório, mas parecia não ter nenhum relacionamento sério. Algumas ve­zes, ouvira-o fazer reservas ou comprar ingressos para con­certos e eventos no Tokyo Center e lugares como esse.

Deveria ser muito bom sair com um homem como Itachi. Ele sabia ser charmoso quando queria. Certa vez, escutara-o rindo ao telefone com uma de suas acompanhantes habi­tuais. O tom de voz baixo, profundo e repleto de intimidade causara-lhe arrepios.

Isso, entretanto, acontecera quando Sakura começara a tra­balhar no escritório. Nos últimos meses, ele estivera tão ocupado que não tivera tempo para eventos sociais.

Ou, talvez, tivesse combinado os passeios quando ela não estava por perto. Sakura ficou boquiaberta. Então era isso! Não o ouvira mais falar ao telefone com as namoradas desde o funeral de seu marido. Estaria fazendo isso por conside­ração a ela?

Quando alguma mulher, eventualmente, ligava para o escritório, Itachi fechava a porta que separava as duas salas, antes de pegar o fone. Ele deveria imaginar que seria muito doloroso para Sakura ver ou ouvir outras pessoas fa­lando de amor naqueles primeiros meses, após a perda do marido.

Isso antes de ela descobrir que estava grávida. A partir daí, o mundo tornou-se cor-de-rosa novamente.

Tinha de falar desse aspecto de Itachi a Konan, quando voltasse ao trabalho. Afinal, ele não era a fera insensível que imaginavam.

Pouco depois, Itachi retornou com uma bandeja em uma das mãos e uma camiseta na outra. Colocou a bandeja sobre a cama e estendeu a peça de roupa na direção de Sakura.

— Oh, muito obrigada! — Ela não quisera pedir outra camiseta seca, pois não sabia se ele tinha roupa disponível.

Ao sentir o aroma da canja de galinha feita em casa, ela percebeu quanto estava faminta. Muito tempo se passara desde a hora do almoço. Ela olhou em volta, procurando um lugar para colocar o bebê e acabou resolvendo deitá-lo no outro lado da cama.

Itachi pousou a bandeja sobre uma mesinha auxiliar e foi até o armário, de onde retirou vários travesseiros. Então, arranjou-os à volta do recém-nascido na cama king-size, for­mando uma espécie de ninho para protegê-lo.

— Perfeito! — ela exclamou, enquanto Itachi se inclinava para ajeitar a bandeja em seu colo.

Ele se encontrava muito perto, o rosto não estava a mais que quinze centímetros de distância do dela. Os olhos negros eram delineados por um tom azulado, extrema­mente atraente.

Por um instante, ele parou o que estava fazendo e fixou o olhar no de Sakura. Ela tentou dizer alguma coisa... qual­quer coisa.

Itachi, então, endireitou o corpo, quebrando a magia do momento. Seu rosto voltou a ter a expressão de sempre, de educada e indiferença.

Sakura não estava bem certa do que acontecera com eles. Se é que algo havia acontecido.

Ele murmurou alguma coisa que ela não conseguiu en­tender e, em seguida, saiu do quarto.

Sentindo-se incomodada com a camiseta úmida, Sakura tirou-a e vestiu a limpa. Sua mente, no entanto, estava longe.

Havia lido sobre a mudança de hormônios e de humores típicos do pós-parto que atingia as mulheres durante os primeiros dias ou semanas depois do nascimento da criança, quando o corpo começava a voltar ao normal. Isso deveria explicar o nó que ela sentia na garganta e a aceleração de seu pulso. Isso e o fato de ter colocado seu chefe em uma posição constrangedora, ao vir até seu refúgio.

Puxando a bandeja mais para perto, ela desejou que fosse capaz de, num passe de mágica, piscar os olhos e estar em sua própria cama no início desse mesmo dia. Com certeza, faria muitas coisas de maneira diferente.

O bebê se espreguiçou e começou a chupar o dedo. Uma sensação estranha tomou conta de Sakura, uma mistura de amor e ternura por aquela pequenina criatura, que dependia somente dela.

Continuou a observar o filho enquanto comia. Ele era a única coisa que não mudaria na comédia de erros que fora seu dia.

Sentindo-se muito cansada, terminou de comer a canja feita por seu chefe.

Já estava quase dormindo de novo, quando Itachi voltou ao quarto.

— Terminou?

— Sim, e estava deliciosa — respondeu, com um sorriso. Ele nem percebeu o gesto dela. Com admirável eficiência,

Itachi já havia apanhado a bandeja e a camiseta molhada, e deixava o quarto.

— Espere — Sakura pediu.
Ele se virou.

— Será que tem uma caixa de papelão ou algo assim que eu possa usar como berço? Tenho medo de rolar sobre Seiji durante o sono.

Itachi hesitou, então fez um gesto afirmativo com a ca­beça e saiu.

Ela pensou sobre aquela hesitação. Um músculo saltara em seu maxilar, antes que ele concordasse com um movi­mento de cabeça. E, em seus olhos... Sakura devia estar ima­ginando a estranha sensação de vazio, dor e desespero. Sim, eram seus hormônios agindo. Era ela a vítima dos altos e baixos emocionais, não Itachi. Esperou ansiosamente, até que ouviu os passos dele na escada.

Ele entrou e pôs um berço de madeira ao lado da cama.

— Acha que isto servirá?
Sakura olhou o berço, encantada.

— Ela esticou o braço e correu os dedos sobre a madeira acetinada. — É lindo! Foi feito à mão?

— Deve ser uma antiguidade.

— É uma réplica — ele afirmou, saindo rapidamente, como se tivesse um assunto muito importante a ser resolvido e ela o estivesse retardando.

Voltando o olhar para o lado oposto, Sakura pegou o bebê adormecido, com imensa ternura.

Minutos depois, itachi retornou, enchendo o cômodo com sua masculinidade. Forrou o berço com uma toalha limpa e o colocou ao alcance das mãos de Sakura.

Ela acomodou o pequeno seiji e, então, examinou a peça. As laterais eram feitas de hastes, porém, tanto a cabeceira quanto os pés haviam sido manufaturados em madeira só­lida. Uma cena intrincada com árvores, gramados, riachos, rochas e flores selvagens fora entalhada em cada extremo do berço.

Por que um solteirão convicto teria um berço de madeira feito à mão em seu refúgio nas montanhas? ela imaginou.

Olhando para a expressão carrancuda no rosto de Itachi, Sakura teve receio de perguntar.

Notas finais
espero q tenha gostado ^^