The Magic In me
26 Passado Presente
Passado:
Não tinha a certeza de há quanto tempo estava a andar, mas sabia que as suas pernas, costas assim como a maioria dos músculos do seu corpo, latejam e doíam de uma forma que ela nunca sentira antes.
Kaya seguia á sua frente, não tinha tentado conversar com ela desde que lhe dera aquela resposta rígida de quem não tem paciência. Não a culpava por isso, não verdade preferia até continuar a caminhar em silencio, apenas iluminada pelo luar e a luz que provinha da tocha que mantinha bem segura na mão.
Andaram durante mais um pouco, até que por fim chegaram a uma enorme ponte feita de blocos de pedra, Sam observou a mesma, insegura, havia algo que lhe dizia para não ousar por um pé sequer na estrutura.
Reparando na sua hesitação, Kaya puxou-a pelo braço, e de facto a sua relutância tinha razão de ser. Assim que tocou ao de leve na pedra uma dor tomou conta do seu corpo, os olhos abriram-se de espanto sentido que a sua pele estava a ser inundada por mil choques eléctricos provenientes ela não sabia bem de onde.
A dor tornou-se demais para que conseguisse aguentar e caiu de joelhos no chão, a tocha tombou embatendo na pedra e ressaltando um pouco sem se apagar, Sam arfou contendo um grito de dor na garganta, Kaya aproximou-se, de costas arqueadas, mostrando dificuldade em andar mas ainda assim recusando-se a desistir
:- Vamos. Não temos tempo a perder!
:- Não consigo! Doi demais! – choramingou, sentindo que os choques até a língua lhe atingiram
:- Tudo pelo que lutamos neste mundo vem acompanhado de dor, de uma maneira ou de outra, isso não significa que devemos desistir! Na verdade, devemos é continuar a lutar com mais força ainda e não nos deixar dominar pelo sofrimento.
Olhou-a e estendeu-lhe a mão para a ajudar a levantar, Sam pode ver na sua expressão (ou talvez fosse pelo facto de serem unidas pela mesma magia) que se não a tomasse, Kaya limitar-se-ia a ir embora e deixa-la ali a agonizar, sabia também que a única razão pela qual a deixava que a acompanhasse numa missão tão perigosa era mera cortesia. Ainda estava longe de atingir o domínio dos seus poderes, ao contrário da mais velha que era a mais poderosa feiticeira daquele tempo e também a única capaz de ferir Deliah ao ponto de a fazer fugir em retirada.
Reconfortava-se no entanto por ter Kaya do seu lado, sabia que sozinha, ou até mesmo que os seus amigos estivessem ali, não ia conseguir enfrentar e vencer a bruxa.
Tomou então a mão da outra que a ajudou a levantar-se e começou a puxa-la dali para fora, nem sequer lhe dando tempo para apanhar a tocha que agora formava pequenas faíscas mas cujo fogo se recusava a apagar.
Percorreu o caminho todo da ponte, com aquela dor por todo o corpo, sentindo que era cada vez mais e mais difícil andar, tentou com todo o seu ser não deixar, tal como Kaya lhe tinha dito, o sofrimento domina-la, mas sentia a cada passo que já não conseguia mais, ainda assim, sabe Deus como conseguiu chegar ao fim do caminho de pedra, caindo sob a erva macia e húmida, de quatro arfou e tossiu violentamente, quando por fim se vira livre daquele tormento.
:- O que foi…? – Foi a única coisa que conseguiu dizer antes de despejar involuntariamente o conteúdo do seu estômago mesmo ali, naquela erva verde e fofa.
:- Deliah deve ter armadilhado a ponte. Para garantir que ninguém chegava ao castelo – Kaya pousara uma mão na cintura e curvara-se para a frente tentando recuperar o fôlego
Sam não foi capaz de lhe responder, sentia ainda aquele formigueiro terrível por todo o corpo. Tinha no entanto parado de vomitar.
:- Anda daí, portaste-te bem mas ainda não chegamos ao nosso destino! – Puxou-a pelo braço fazendo com que se levanta-se.
Sam não protestou, não tinha mais forças para isso. Todo o seu corpo, embora agora livre dos pequenos mas doloroso choques eléctricos estava ainda rígido e dolorido. Limitou-se a deixar que a outra a guiasse de novo por entre as gigantes árvores em direcção ao destino final.
Presente:
Não podia deixar que ele fizesse aquilo! Não podia deixar que matasse a única pessoa que ela alguma vez tinha amado, a única pessoa que tinha cuidado dela, lhe tinha mostrado o que é a compaixão, o seu único amigo! Tinha de fazer algo, o cérebro de Sloan tentou pensar numa solução enquanto via o professor perfurar cada vez mais o peito de Zeke com os dedos, sabia o que ele tinha dito sobre não mudar nada pois Sam podia remediar o que quer que tinha feito, o que levou o professor a ficar… doido? Possuído? Não lhe interessava! Quando a escolha era entre Zeke e outro alguém não havia sequer que pensar, ela sabia muito bem quem iria salvar! Que se lixasse o professor! Já estava perdido fosse como fosse! E ninguém, ninguém tinha o direito de tirar o seu único amigo dela, ninguém tinha o direito de o magoar de forma tão fria e nojenta!
Retirou a sua fiel pistola da parte de trás da cintura das calças e sem pensar duas vezes atingiu Julian, uma bala no ombro e outra na perna, isto fez com que ele recuasse confuso e irritado, olhou-a com uma expressão de fúria que era quase capaz de fazer a cabeça dela explodir só mesmo com esse olhar. O sangue escorria dos seus dedos e agora também do ombro, a bala que se cravava na perna fez com que ele quase perdesse o equilíbrio, mas conseguiu por alguma razão, talvez a força malévola que o guiava manter se de pé.
Já Zeke, agora por fim libertado, não só das mãos do outro como da hipnose paralisante, caiu de quatro arfando ruidosamente, tossiu e cuspiu sangue no chão.
Julian começou a coxear ameaçadoramente na direcção dela, então Zeke levantou um pouco a cabeça, abriu a boca e soltou um grito estridente que cortou o ar, era um grito que não parecia ser possível sair da garganta de alguém, poderoso, forte, os vidros que ainda restavam na sala estilhaçaram-se ruidosamente, e ele continuou a gritar, a emitir aquele som que era capaz de furar os tímpanos a qualquer um.
Julian caiu de joelhos tampando os ouvidos que agora escorriam sangue com as mãos, Sloan deitara-se no chão em posição fetal protegendo a cabeça, mesmo que ficasse de facto surda, sabia que os seus ouvidos iam regenerar, o efeito secundário do seu dom das visões.
Por fim e embora ainda com as pernas a tremer ele pôs-se de pé, o “rio” de sangue escorria-lhe sensualmente pela barriga abaixo, Zeke tinha um ego gigante, e odiava que o fizessem sentir impotente, fraco, ele era um dos feiticeiros mais forte ainda vivos e não ia deixar que aquele homenzinho nojento fizesse dele uma marioneta indefesa!
Parou de gritar, deu um passo em frente, fazia um grande esforço para se manter de pé mas recusava-se a desistir! Recusava-se a cair, a morrer. Não, aquela não era a hora, não era o dia dele. Não ia morrer.
Parou em frente aquele demónio imundo agarrou-o pela garganta elevando-o no ar, sentiu as forças a abandona-lo então teve de largar aquele peso, fazendo o professor cair de rabo no chão, depois, deferiu-lhe um pontapé na cara, o som do osso do nariz a partir ecoou no ar, Julian caiu de costas fitando o tecto, sentindo o sangue escorrer-lhe dos ouvidos, ombro, perna, e agora também do nariz, o rasgo no peito do primeiro ataque de Zeke ainda estava lá, embora luz esverdeada fosse desvanecendo aos poucos.
Pousou o pé no peito dele e curvou-se na sua direcção, os cabelos loiros pendiam revoltos para a frente
:- Era uma camisa nova e paguei os olhos da cara por ela – Disse aquilo como se razão de toda a sua raiva fosse uma peça de roupa e não o seu ego ferido, Julian tentou levantar o braço que estava ainda intacto, provavelmente para o atacar, mas rapidamente o pé de Zeke passou de cima do seu peito para cima da sua mão, pisando-a com força, o outro rugiu de dor e frustração.
Então o feiticeiro fez uma coisa que não sabia se teria coragem de fazer, teve misericórdia… fechou o punho e aproximou-se da cara dele, depois abriu a mão e soprou para palma, dela saiu um pó cinzento, brilhante, atingiu-o seu inimigo bem no centro da face, este fechou os olhos e ficou ali assim inanimado…
Por fim, afastando-se um pouco, permitiu o seu corpo perder as forças, caiu para trás exausto e com o peito ainda a doer.
:- Zeke! – Sloan correu para ele ajoelhando-se ao seu lado, sangue escorria também dos seus ouvidos mas ela parecia nem se importa, lágrimas de preocupação lavavam o seu rosto, ele pousou-lhe a mão na face e sorriu
:- Está tudo bem, docinho, eu vou ficar bem… — levantou um pouco a cabeça observando as feridas dos dedos no peito – só preciso que me ajudes a sair daqui antes que o nosso querido amigo acorde.
:- Devias ter acabado com a raça dele!
Zeke abanou a cabeça
:- Não enquanto não soubermos o que Sam fez para ele ficar assim – Sentou-se e então deixou que ela a ajudasse a pôr-se de pé.
Passado:
Tinha já amanhecido quando por fim as duas se aproximaram do pequeno castelo, parecia tudo sossegado, abandonado, Sam rezou para que as suas doze horas não estivessem perto do fim, não antes de chegarem ao seu objectivo.
Alguns corpos jaziam no jardim de entrada, corpos decapitados e desmembrados, fez uma careta e o flashback do ataque no aniversário de Camille assombrou-lhe mente.
:- Restos, — Kaya disse olhando os corpos ao longo do caminho – Ousaram a desafiar Deliah e foi isto que lhes fez, alguns talvez até estivessem do nosso lado, o lado do bem mas tiveram o azar de encontrar o seu esconderijo com ela no auge do poder… — Deu um pontapé no braço de um dos mortos de modo a tira-lo do seu caminho – e depois deixou-os aqui a apodrecer para que todos pudessem ver o que acontece com quem se ousa a desafia-la!
Sam tremeu, não estavam elas a fazer isso mesmo? Desafia-la?
Chegaram por fim a porta da entrada, Sam não podia deixar de pensar como iriam encontrar uma única pessoa num sitio tão grande como aquele?!
Kaya pousou a mão sobre a pesada porta de madeira e esta abriu-se de um estrondo
:- Ela está fraca. Não consegue mais manter qualquer tipo de protecção a volta da sua fortaleza
:- Sorte nossa…- Mas dita sorte não durou muito, de trás da duas proveio o rugir, viraram-se lentamente para ver dois lobos salivarem enquanto as fitavam, Kaya suspirou irritada
:- Lobisomens! Não sabem que a vossa aliança está do lado errado da força?
Nenhum dele pareceu preocupar-se com isso, atiram-se em direcção as duas rugindo furiosos, de pelo eriçado
Sam caiu para trás quando um dele aterrou em cima dela, o focinho a centímetros da sua cara, Kaya conseguira atingir o que a atacara com um raio , ele aterrou um pouco mais atrás , depois pontapeou o que estava em cima de Sam, tentando livra-la dele, este não se deixou domar, cravou os dentes na perna dela, fazendo-a gritar de dor, Sam levantou-se de um pulo formando com a mão um raio que atingiu o lobo e o atirou para longe, não demorou até ambos se votassem a por de pé, correndo na direcção das duas.
Kaya pareceu nem ligar a perna que agora escorria sangue, ergueu ambos os braços e formou um escudo protector a volta dela e de sam, os lobos bateram na barreira invisível e caíram para trás inanimados.
:- Vamos! – Puxou Sam rapidamente, passando pela porta de madeira e empurrando a mesma atrás de si.
O interior do castelo era escuro, húmido e frio, Sam seguiu Kaya pelos corredores infindáveis, até ali sem sinal de Deliah ou qualquer um dos seus seguidores. Andaram pelo que pareceu a Sam mais de dez minutos, até que por fim a frecha de uma porta deixou sair um pouco de luz, anunciando que alguém estaria ali, Kaya fez sinal a Sam para se manter calada e abriu a porta devagar…
Deliah estava sentada de pernas cruzadas com o livro de capa castanha pousado no colo, estava rodeada de velas, dentro de um círculo pintado de giz a sua volta. Parecia calma e serena, Abriu os olhos e reparou nas duas mas pareceu nem se importar, levantou-se vagarosamente, segurando o livro nas mãos
:- É tarde demais – Sorriu
:- Nunca é tarde demais! – Kaya ia lançar-se sobre ela mas com um movimento rápido uma parede de chamas formou-se no seu caminho separando as duas
:-Podia matar-te!
:- Estás demasiado fraca para isso!
:- Não ficarei por muito mais tempo – deixou que um sorriso lhe aparecesse no canto dos lábios enquanto Kaya fazia a parede de chamas desaparecer, enraivecida, a feiticeira de luz fez o chão começar a tremer, Sam teve de apoiar na parede para não cair desamparada o mesmo não se pode dizer de Deliah que foi apanhada de supressa indo mesmo parar ao chão e o livro voou-lhe das mãos, uma fenda abriu-se no chão e Sam teve de ainda apoiada na parede dar um passo atrás para não cair dentro dela.
A terra parou por fim de tremer e Kaya lançou-se sobre o livro, Deliah levanta-se agora, a testa que tinha batido na aresta de uma mesa escorria sangue, ergueu a mão em direção a Kaya e fe-la voar pela sala fora só parando quando embateu na fria parede atrás de si, a bruxa lançou-se então para o livro , mas logo Sam acordava e começa a agir, lançou-lhe um raio que a atingiu no estomago e embora não a tenha detido , fe-la dar um passo atrás, a jovem mergulhou então para o livro agarrando-o com as duas mãos.
Deliah riu, achando interessante a maneira como aquela feiticeira de trazer por casa a desafiara, abriu a mão e fez o livro voar das de Sam até ela.
:- Achavas mesmo que era assim tão fácil? Quem és tu, mesmo? Uma seguidora idiota da Kaya?
Não teve tempo de dizer mais nada, já Kaya voltava ao ataque, braços aberto ao longo do corpo, ela elevou os pés no ar, e como que levada pelo vento deslizou até a sua inimiga parando bem na sua frente
:- Acabou, Deliah, perdes-te!
:- Não, não perdi, não ainda!
:- Estás a morrer! Posso senti-lo
:- Porque achas que preciso do livro, sua idiota desprezível!? Não posso simplesmente morrer! Vou erguer-me de novo! Demore o tempo que demorar, vou renascer das cinzas qual Fénix e por fim ter um mundo nas minhas mão!
:- A tua loucura tem limites que eu achava impossíveis!
:- Impossível é tu pensares que me podes parar com a ajuda de um simples lacaia! – elevou a mão fazendo um enorme espinho de aço surgir do chão bem na frente se Sam, a ultima só teve tempo de pular para trás indo estatelar-se no chão, Deliah ria, um gargalhada fria, calculista , uma gargalhada louca.
Kaya olhou por cima do ombro para certificar-se que Sam estava bem e foi essa distracção que a bruxa usou como vantagem, uma corda mística de tom esverdeado começou a rodear Kaya, envolvendo-lhe o torço os braços e fazendo-a a cair de joelhos, Sam saiu a correr de trás do espinho de metal mas não teve tempo de agir, Deliah lançou um raio na sua direcção que abriu a fenda criada por Kaya ainda mais, abriu-a tanto que agora parecia que a mais jovem das mulheres se encontrava numa sala diferente
:- Kaya! – chamou tentando correr para saltar por cima daquela fenda que agora parecia mais um abismo, mas assim que começou a tentar ganhar velocidade, chamas brotaram no buraco do chão impedindo-lhe a passagem, olhou a volta procurando uma porta, uma janela, algum modo de fugir dali! Mas agora entendia que toda aquela magia tinha moldado a realidade, o espaço em que se entravam, a sala tinha alargado consideravelmente por causa daquela fenda, a única saída ficava do lado em que Bruxa e feiticeira se encontravam, só lhe estava usar os seus poderes para dissipar a parede de chamas… não fazia ideia de como atingir tal feito.
Kaya arfou e tossiu quando a corda mística a apertou ainda mais, os braços estavam presos ao lado do corpo forçando as mãos a encostar-se as coxas com as palmas viradas para dentro
:- Demasiado tarde – a Bruxa afirmou com o livro aberto nas mãos – estás a fazer-me desperdiçar demasiada energia! Dá por feliz, caso contrário matar-te-ia agora…
:- Pena que… — mexeu-se tentando se libertar mas de nada lhe serviu – Vás morrer antes de mim!
:- Tens razão… todos aqueles golpes que sofri durante a guerra acabaram comigo , cada um deles retirou um pouco de mim, fazendo-me murchar e ficar cada vez mais fraca, por isso tenho de agir depressa e poupar energias – sorriu-lhe
Rasgou então com a unha o ar, e uma fenda surgiu no local do aranhão, uma luz roxa emergia da mesma, sorridente, ela puxou um das bordas abrindo mais a passagem e depois entrou nela
:- Até sempre, Kaya – disse antes da passagem se fechar levando-a consigo.
As cordas desapareceram no ar como uma bola de sabão que rebenta depois de soprada, Kaya pôs-se de pé, andou até a parede de chamas, extingui-as, depois olhou o chão e bateu o pé perto da fenda, isto fez com que ela se fechasse e tal escada rolante, o chão moveu-se devolvendo a sala as proporções adequadas
:- Onde está ela?!
:- Foi-se
:- Para onde?!, temos de segui-a! – Kaya abanou a cabeça
:- Não vale de nada, sabe Deus para onde ela foi!
:- Temos de encontra-la! Não pode estar longe!
:- Abriu uma fenda no espaço, pode estar em qualquer parte do mundo, Lamento, não há nada que possa fazer!
:- Tem de haver! Não posso voltar de mãos a abanar, não posso voltar depois dos danos que já fizemos ao futuro!
Não teve tempo de ouvir resposta de Kaya, sentiu que uma mão a puxara para fora dali, depois foi cair de novo no laboratório de Julian…
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