Era uma tarde cinzenta, quase como se a combinar com o ambiente que se sentia, o funeral não fora nada de pomposo, elegante, ou até digno de uma heroína porque no fundo era isso que ela tinha sido. Não, fora uma cerimónia pequena, apenas com Zeke, Sam, Jesse, Julian Luka e alguns membros da sua alcateia.

Agora, depois de terem deixado Sloan no seu descanso eterno, Sam observa Zeke que se mantinha imóvel na ombreira da porta da casa de Luka.

:- Coitadinho – Comentou – Não consigo imaginar pelo que está a passar…

:- Na verdade, eu penso que consegues – Julian respondeu parando ao lado dela

:- O que quer dizer?

:- Sam, também perdes-te alguém nesta guerra…

:- Mila…

:- E não só – a jovem olhou-o confusa

:- Quando Luka morreu na realidade alternativa, como te sentiste?

:-Acho… que da mesma maneira que ele se está a sentir agora, mas não é a mesma coisa, eles tinham um laço, Sloan estava com ele há tanto…

:- Talvez, mas não precisamos de muito tempo para nos apegar ás pessoas, quando é certo, simplesmente o é – Julian sorriu docilmente – Zeke perdeu uma parte dele, é certo. Eu sei bem como isso é, sei bem como nos faz sentir e também sei que no fundo tu também tens esse conhecimento. Sloan pediu que olhasses por ele, não é verdade?

:- Sim…

:- Então talvez sejas a pessoa indicada para o fazer…. Vai falar com ele.

:- Nada do que eu possa dizer o vai fazer parar de sofrer

:- Não. Tens razão, não vai, mas vai ajudar saber que ainda tem por perto amigos que lhe querem bem, e de facto, neste momento é isso que ele mais precisa.

:- Mas não há nada que eu possa fazer, se ao menos pudesse tirar a dor dele…

Julian posou a mão no ombro dela

:- Apenas o tempo vai tirar a dor dele, Sam, mas isso não significa que ele não precise de um ombro amigo para chorar

Ela acenou, Sorriu levemente a Julian e dirigiu-se a Zeke, ainda fitava o nada, vendo o cinzento daquele dia que anunciava chuva.

:- Não tens de dizer, amor – O loiro começou sem se virar para ela – Sei que lamentas… Parece que vai chover…

:- Zeke… — Sam puxou-lhe o braço fazendo com que a olhasse – Queres falar?

:- Não. Obrigado… Ela foi-se e nada vai mudar isso… Eu tenho apenas de seguir em frente porque eu sei que era isso que ela queria…

:- Ela pediu-me que tomasse conta de ti

Ele riu

:- Típico, coração, parece-te que eu precise de uma babysitter?

:- Não mas…

:- Ficarei bem, Sam, eu prometo! – Posou ambas as mãos nos ombros dela – Vou voltar para L.A, voltar para aquilo que fazia antes de conhecer a Sloan

:- Que era?

:- Eu tinha uma vida, sabias? – pareceu meio ofendido – Viaja por mundos que tu nunca viste, testando os limites do meu poder, estive em dimensões diferentes, literalmente, viagens por portais e esse tipo de coisas, vi lugares onde aprendi muito, lugares onde a tecnologia te faria “explodir a cabeça”, outros onde nem sequer existia carros… alguns nem conheciam musica e eu encenei-lhes, cantei para eles e ficaram rendidos, modéstia a parte. Como ves, vivi uma vida cheia e ainda há muito mais que possa fazer. Tenho o meu bar, a minha casa.

:- Tens um bar?

:- Sim, embora a maioria das vezes seja o meu sócio que o gere – encolheu os ombros – Na alturas em que Sloan não tinha pessoas para salvar, eu fazia o meu próprio show lá, todos querem ser uma estrela em L.A, eu apenas quero cantar para os meus amigos e clientes habituais. Não vai ser o mesmo sem ela, mas a vida continua, gatinha. E eu farei os possíveis para fazer algo da minha.

:- Uau – Sam riu um pouco – E aqui estava eu preocupada que fosse afundar num mar de perda

:- Isso foi meio poético. Vou sentir a falta dela, vou sentir dor, perda e tudo aquilo que devo sentir mas depois ficarei bem, tudo a seu tempo. Agora tu…

:- Eu?

:- Sei que perdes-te os teus poderes.

:- Como?

:- Tenho de explicar de novo aquilo de ler auras?

:- Não, desculpa, — abanou a cabeça – É verdade, quando senti… foi uma dor estranha e de alguma maneira eu soube que era normal de novo…

:- Ser normal não é assim tão mau

:- Verdade…Só não entendo, porque os perdi? A Kaya achou que eu não merecia mais continuar o seu legado?

:- Tens de deixar de levar tudo para o lado pessoal, miúda. Kaya deixou os poderes para que pudesse lutar e travar a Deliah, foi isso mesmo que tu fizeste, acho que ela pensou que depois que ameaça tivesse travada não havia utilidade para todo aquele poder.

:- Mas tu tens esse tipo de poder…

:- Sim, mas eu nasci com ele, não foi algo que me emprestaram

:- Acho que tens razão, além do mais… quero voltar para vida normal, vou focar-me nos estudos… ter uma vida social, acho que ficar bem longe de magia por uns tempos… sem ofensa

:- Eu compreendo. E os teus amigos?

:- Jesse vai regressar com Cheif e juntar-se ao seu clã de caçadores. Declan vai de novo para L.A para continuar o seu “treino de vampiro com alma” . Julian vai ficar por aqui enquanto tenta descobrir quem é suposto ajudar e Luka voltar ao que fazia antes, coisas de lobisomens e dormir com uma miúda nova cada dia – Riu

:- Então, vão separar-se assim?

:-Vamos manter o contacto, quer dizer depois de tudo o que passamos juntos…

:- Seria uma pena se sumissem assim da vida um dos outros – Zeke sorriu, um sorriso misterioso como se soubesse algo mais, algo que estava a esconder e esperava que ela mais tarde descobrisse por ela mesma – Mas deixa-me que te diga, Sammy, quando a vida nos une desta maneira, é muito difícil que depois nos volte a separar, de uma forma ou de outra, os nosso caminhos acabam sempre por se cruzar.

:- Talvez…

Sam disse, olhando os seus amigos, Jesse e Luka discutiam sobre algo que de certo não era nada importante, Julian conversava alegremente com Marcus, Declan mantinha-se no canto da sala, sozinho, Izzie parecia olha-lo com curiosidade, Sam podia entender que a outra o achava atraente, pensou como Luka ia imediatamente impedir uma relação entre os dois. Rodney e os caçadores sobreviventes tinham já regressado á sua enorme mansão no topo da colina, Aura tinha ido com eles, era melhor assim, Luka era agora uma pessoa completamente diferente. Uma relação com ele nunca iria funcionar…

:- Então… acho que nos vemos em breve? – Jesse perguntou andando até ao seu carro, levava consigo o seu fiel saco de caçador, todos os seus outros pertences estavam já dentro da viatura

:- Espero que não… — Luka comentou e Sam rolou os olhos

:- Podes parar com isso de uma vez por todas? Sabemos que gostas dele – Abraçou o caçador com força – Vou sentir a tua falta!

:- E eu a tua – Jesse sorriu um pouco afastando-se do abraço – Sam, é a tua oportunidade de voltar a uma vida normal, tal como sempre quiseste. Não a desperdices.

:- Normal não é assim tão mau….

:- Foi um prazer lutar a teu lado – Julian sorriu apertando a mão do outro – mantém-te em contacto, estarei aqui para o que for preciso.

:- Assim farei, obrigado.

Zeke apenas lhe acenou, e Sam empurrou Luka para ao pé do outro

:- Não és assim tão mau… não te tornes um estranho – Sorriu-lhe um pouco e Jesse estendeu-lhe a mão para que a apertasse, o lobisomem olhou-a durante uns segundos, depois puxou-o para um breve abraço — Oh, anda lá, não tenhas medo de mostrar um pouco de amor.

:- Talvez sinta saudades tuas... – Jesse respondeu com um sorriso no canto dos lábios e entrou no seu carro, já não havia lugar para ele ali, aquela batalha tinha terminado e embora ele nunca se tivesse sentido tão no lugar certo como ali, do lado Sam , Julian e até Luka, sabia que era hora de seguir em frente, partir para outra batalha. Ajudar quem não se podia proteger, e iria faze-lo ao lado daqueles que partilhavam o seu lema.

:- Já que estamos numa despedidas, chegou a minha hora, crianças – Zeke falou por fim, vendo Jesse afastar-se no seu carro, depois voltou-se para os outros e sorriu – Sam, lembra-te do que te disse… Destino. Quando nos junta, é difícil separar-nos – Piscou-lhe o olho e depois começou a afastar-se – Até mais ver.

Agora, Sam dirigia-se para a universidade sendo acompanhada por Luka, Tinha chegado ao fim, a luta, a magia , tudo tinha acabado, aquele mundo tão fascinante que ela apenas tinha tido oportunidade de conhecer a supreficie, tinha-se fechado para ela. É certo que queria voltar á vida que tinha antes de tudo aquilo, mas a curiosidade e vontade de continuar a descobrir todos aqueles seres, todos aqueles mundos que nunca sequer tinha sonhado tomavam conta dela.

:- Então... aqui estamos — Luka disse quando chegaram ao seu destino

:- Aqui estamos...

:- Sam, tens a certeza que é isto que queres? Podes sempre ficar connosco, continuar a lutar, embora Deliah tenha morrido há sempre seres por ai que querem magoar os inocentes

:- Perdi os meus poderes, Luka...

:- Certo, mas comigo, Julian do teu lado...

:- Julian?

:- Achas que ia deixa-lo, coração? sou basicamente o seu único amigo

:- Eu sou amiga dele!

:- Mas vais seguir outro caminho

:- E tu não vais? pensei que disseste que ias voltar á tua vida anterior...

:- Vou, mas o professor precisa de ajuda para encontrar o seu destino, o porque de ter sido colocado aqui de novo. Planeio ajuda-lo.

:- Achas que fazes muito bem mas... preciso de tempo Luka, perdi duas amigas... Não, perdi tres! Preciso de digerir isto tudo, preciso de normal por um tempo. Compreendes?

Ele aproximou-se

:- Compreendo. Vou sentir a tua falta

:- E eu a tua, mas isto não é uma despedida! Voltaremos a ver-nos!

Ele sorriu, colocou ambas as mãos na cara dela e beijou-lhe delicadamente a testa

:- Até breve, Sam.

Duas Semanas Depois…

Estava esforçar-se por recuperar todo o tempo perdido de estudos, mas não era fácil, dizer que estava atrasada era ser demasiado simpático.

Sam suspirou atirando o livro para longe, queria uma vida normal e naquelas duas semanas era o que estava a ter, nada de magia, de bruxas loucas… Tudo muito normal, normal demais

:- Ugh!

Disse para consigo mesma e sentou-se na beira da cama, não fácil recomeçar como se nada daquilo que tinha passado tivesse acontecido, especialmente sem Mila do seu lado… Sentia-se sozinha, perdida, que era suposto fazer? Depois de tudo aquilo que tinha visto, simplesmente poderia cruzar os braços e fingir que os monstros não existem? Fingir que a sua amiga nunca tinha sido possuída por uma bruxa má e se tinha sacrificado para salvar a humanidade? Fingir que a sua melhor amiga não tinha sido feita em pó depois de se transforma em vampira bem na sua frente? Simplesmente voltar a ser normal… normal… o que quer que isso significasse…

Estava perdida em pensamentos quando aconteceu, uma dor tomou conta da sua cabeça, era como se esta tivesse sido aberta ao meio e alguém despejasse agua a ferver no seu cérebro, Sam gritou de dor e caiu no chão…

Ele estava sozinho, sentado num sofá negro de cabedal, na mão agitava uma bebida, whiskey talvez, Sam pode sentir a dor, a perda, o aperto no coração que ele também sentia, pode sentir que o seu lugar era do seu lado, que agora era ela que seria a sua companheira de aventuras. Ele pousou o copo e começou a andar para uma porta, era uma porta escura e não muito grande, saiu e sorriu a algumas pessoas que se encontravam por ali.

Levantou-se de um pulo, o coração ainda batia a mil á hora, a cabeça ainda doía, não tanto como anteriormente mas ainda assim a fazia sentir-se enjoada

:- Tenho de ir para L.A! – Pegou rapidamente a mala que continha a sua carteira e os seus documentos sem pensar duas vezes.

****FIM****

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