The Loyal Husband
8 O encontro do Rei, e um conto do passado
Notas iniciais
Estavam no café da manhã, as moças conversavam animadamente, sobre um dos festivais que aconteceria em breve, discutiam sobre as cores e tecidos dos vestidos que pretendiam usar. A Rainha comia silenciosamente, enquanto o Rei conversava com o seu conselheiro, que sentado ao seu lado, também participava do café da manhã. Tinha sido chamado na noite passada, como um convidado, para acompanhar o Rei na reunião do Conselho.
O povo todo sabia da reunião do rei, o Conselho não era convocado há anos, e a última reunião tinha acabado com uma guerra que durou mais de cinco meses. Esta seria a segunda vez que Jun teria que chamar o Conselho, e ele não podia estar mais nervoso. A situação atual parecia piorar a cada dia, e ao mesmo tempo que ele tinha que preparar o Reino para um possível ataque, ele não queria alarmar as pessoas, e criar o caos. Especialmente com o festival da Lua Azul se aproximando.
O conselheiro Mun-Hee tentava acalmar o Rei, o assegurando de que o Conselho iria tomar a decisão certa naquele momento difícil.
Jun estava ficando cansado de todas as pessoas ao seu redor dizerem a mesma coisa; de que o Conselho tomaria a decisão certa.
Ele tinha se encontrado com os Cinco Reis apenas uma vez e aquela reunião foi o suficiente para ele saber que as personalidades diferentes dos líderes atrapalhavam todas as decisões tomadas pelo Conselho. Eles eram problemáticos e as vezes até infantis. Todos eles tinham prioridades diferentes, e as reuniões sempre causavam discussões.
Bon-Hwa também participava da conversa, tinha ouvido do pai sobre a reunião do Conselho, e como futuro Rei, ele devia observar e aprender o máximo que podia. Não participaria da reunião, mas tentava acalmar o pai, e ao mesmo tempo, pensava em alguma estratégia que poderia ajudá-los, caso a decisão do Conselho fosse atacar a Bruxa e o Alquimista com seu exército de enfeitiçados e Golems.
Enquanto isso, Seung comia suas frutas com mel tranquilamente, pensando nas aulas que teria a seguir. Tinha lido boa parte do livro com Yuga na noite passada e tinha os pensamentos tomados pela lembrança do beijo de Bon-Hwa, das informações que aprendeu no livro, na expectativa de beijar o príncipe de novo, nas aulas que teria a seguir e... nos lábios de Bon-Hwa.
Não conseguia parar de pensar no príncipe...
Estava feliz por ter resolvido a situação com seu esposo, que, finalmente, havia aceitado o fato de que se casaria com um homem. Seu coração saltitava de alegria, e se assustou com a voz da Rainha, dizendo:
— Hoje, quero que Seung acompanhe Bon-Hwa em seu treino matinal.
Seung quase engasgou, e seu olhar cruzou com o de Bon-Hwa.
— Ah, sim, claro, seria uma honra. — Seung disse, limpando a boca com o guardanapo, sem entender o motivo da Rainha cancelar sua aula para assistir Bon-Hwa treinando. Se bem que tinha dito que queria participar dos treinos...
— Ótimo.
Sun-Hee disse por fim, se sentindo orgulhosa. Sabia que os dois estavam se dando bem, mas sentia que ambos precisavam de um... empurrãozinho para se relacionarem melhor. Ambos estavam muito tímidos e o casamento iria acontecer em quatro meses.
O tempo estava passando rápido, e ela queria ambos se movendo mais rápido ainda.
Saíram do palácio pelos fundos, passando pelo pequeno pomar, onde as saborosas frutas eram colhidas, logo ao lado ficava a horta, e a estufa. Passaram por trabalhadores apressados em preparar tudo para a reunião do Conselho, e parecia que o nervosismo do Rei se espalhava para todos do palácio.
Seung como sempre, estava nervoso, vestido em sua túnica amarela rendada em azul, os cabelos presos em um rabo de cavalo, seguia o príncipe que parecia mais belo a cada dia, os cabelos longos presos em uma trança, as vestes de um verde escuro que parecia realçar seus olhos claros. Seung observava seu rosto, seus traços únicos, e percebeu que o príncipe estava deixando a barba crescer. Se perguntou se deveria fazer o mesmo, e se lembrou da época em que deixou os pelos do rosto crescerem livremente; No final, ficou parecendo um macaco das montanhas, e toda vez que Yuga olhava para ele, ele tinha que aguentar uma crise de risos seguida de choro e zombaria.
Sacudiu a cabeça, tentando se esquecer daqueles momentos tenebrosos de sua adolescência.
Bon-Hwa andava lentamente, como se quisesse prolongar aquela caminhada, ou tentava evitar o treinamento, Seung não entendeu o motivo dos passos extremamente lentos do príncipe, e quando foi perguntar, ouviu os gritos de uma mulher, logo atrás deles.
— Esperem!
Seung se virou, e viu Kyung-Soon correndo em sua direção. Bon-Hwa se virou, e sorriu em ver a moça, os cabelos avermelhados voando, enquanto ela corria o mais rápido que seu vestido azul apertado permitia.
Se aproximou dos dois, ofegante, e se apoiou em Seung, enquanto tentava descansar.
— Obrigada... tive... que... tive que falar para o professor que estou doente, com cólicas, para que ele me liberasse.
Kyung-Soon sorria, se sentindo orgulhosa da mentira. Bon-Hwa riu, e Seung não entendia nada do que estava acontecendo. Achou que aquela manhã estava reservada somente á ele, e que teria a oportunidade de passar a manhã inteira com o príncipe, á sós.
— Er... o que.. o que você está fazendo aqui?
Seung tentou ser educado, mas estava começando a se irritar com a intrusão de Kyung.
— Oras, eu vou com vocês!
Seung olhou para Bon-Hwa, que sorria, concordando com Kyung-Soon.
Chegaram à clareira onde Bon-Hwa treinava, em um dos lados havia uma mesa repleta de armas, logo ao lado, uma prateleira com escudos de diferentes formas, cores e tamanhos. Alguns bonecos de madeira, arranhados, sem braços, alguns até sem a cabeça, estavam logo à frente, onde Bon-Hwa costumava praticar quando não estava com o seu professor.
— O meu professor não vai poder vir hoje, então estava pensando em praticar com... — Seung esperava ele dizer "bonecos' mas quase engasgou com o que Bon-Hwa disse — Kyung-Soon.
A moça sorriu, enquanto amarrava seus cabelos pouco ondulados em um rabo de cavalo, os enrolando e colocando o capacete. Bon-Hwa vestia uma das armaduras que estavam na outra mesa, e Kyung fez o mesmo, parecia bem familiar com todo aquele cenário, e Seung esperava ver Bon-Hwa massacrando ela. Teve pena.
— O que vai ser hoje, alteza?
Kyung disse, debochada, enquanto pegava um escudo médio prateado, e uma espada longa negra.
— Como hoje temos audiência, acho melhor lutarmos de uma maneira mais calma... senhorita.
Kyung-Soon pareceu se irritar com o adjetivo, e se colocou em posição de batalha.
Bon-Hwa acoplou um dos escudos longos, que também cobria boa parte de suas pernas e pegou uma espada média, dourada, com duas pontas afiadas perto do punhal. Parecia traiçoeira, e Seung podia ver Kyung-Soon se machucando muito com aquelas pontas, posicionadas de uma forma que se o inimigo não tomasse muito cuidado, perderia vários dedos.
Seung se afastou um pouco, temendo pelo pior. O que o príncipe está pensando em lutar com Kyung?! Se aquilo fosse uma brincadeira, estava indo longe demais.
Bon-Hwa atacou Kyung com a espada, o escudo pronto para empurrá-la, a moça se esquivou para a esquerda, tentando acertar a nuca de Bon-Hwa com a espada, que bateu com o escudo do príncipe, a fazendo recuar. Bon-Hwa sorriu, cuspiu no chão e fez um movimento com os dedos, chamando Kyung. A moça sorriu debochadamente, e foi com tudo na direção do príncipe, sua espada perfurando seu escudo, ambos muito próximos. Bon-Hwa passou a espada por cima do escudo, mirando em Kyung, que empurrava o príncipe para trás, com o peso de seu corpo. O príncipe tinha o escudo preso ao braço esquerdo, e Kyung, prevendo seu movimento, usou o escudo no braço esquerdo, bloqueando o ataque do príncipe com o seu escudo prateado. Os dois sorriram quando perceberam o impasse, e Kyung recuou, puxando a espada negra, deixando um furo de três centímetros no escudo de Bon-Hwa.
Seung não via como aquilo era uma "luta calma", e ele sentia que a qualquer momento, alguém acertaria a espada no outro, e os três iriam para a enfermaria, e seriam banidos do palácio para sempre...
A luta continuou por vários minutos, ambos possuíam habilidades extraordinárias. Bon-Hwa conseguia prever os movimentos de Kyung com pouca dificuldade. A moça se movia rapidamente, e era incrível a força que ela demonstrava, em conter os ataques do príncipe com o escudo. A habilidade de ambos era magnífica, e eles ainda não pareciam cansados, mesmo que suassem bastante.
A luta acabou quando a ama de Kyung se aproximou dos três, dizendo:
— Senhora... está na hora de sua segunda aula e o professor insiste que você participe.
Ambos pararam de lutar, ofegantes, e Kyung jogou a espada no chão, irritada.
— Pelos Espíritos das trevas que homem irritante!
Tirou o capacete e o jogou de mal jeito na mesa, o rosto suado, os cabelos caindo pelo ombro. Bon-Hwa tirava a armadura, e sorriu na direção de Seung.
— E então, o que achou?
Seung estava abismado com a técnica de ambos, e sem dúvida queria participar dos treinos mais vezes, especialmente depois de ver a conexão que Bon-Hwa tinha com Kyung-Soon...
Tinha que manter sua posição de esposo real em destaque.
— Eu achei incrível! Se não se importar, eu gostaria de treinar também.
— Isso seria ótimo!
Bon-Hwa disse, tirando o capacete, os cabelos caindo pelas costas, a túnica suada... os músculos a mostra... Seung tentou tirar aquela imagem da cabeça, antes que começasse a babar ou... bem, que seu corpo mostrasse seus pensamentos...
Caminhava com Kyung-Soon, que ainda se recuperava do exercício com o príncipe, parecia bem animada, e irritada com a interrupção. Ambos não conversavam, mas sentiam uma certa tensão no ar. Seung se assustou quando Kyung parou de repente, segurando seu braço com força.
— Você deve estar se perguntando por que eu sei lutar tão bem...
Ela disse, timidamente.
Seung estava curioso sobre aquilo, mas não se sentia no direito de perguntar.
Kyung-Soon foi até um banco próximo, se sentando, e Seung fez o mesmo, pronto para ouvir.
— Bem... no geral, eu aprendi a lutar desde pequena... Tive uma infância bem difícil e aprendi que ou eu me defendia, ou seria vítima de bandidos, estupradores, ou donos de escravos.
"Meu pai era um treinador, ensinava rapazes a lutar com a espada, ele era muito bom nisso, minha mãe morreu assim que eu nasci, e meu pai me ensinou a lutar desde que eu era pequena. Confesso que aprendi a usar a katana antes mesmo de aprender a somar." Ambos sorriram, e Kyung continuou.
"Eu vivia me metendo em confusões, roubando frutas, vivia em gangues de meninos arruaceiros, e um dia, quando eu tinha quatorze anos, eu me apaixonei por uma garota..." Kyung sorriu, se lembrando de seu primeiro amor "Nós namoramos escondidos por três anos, até que meu pai descobriu tudo da pior forma... ele me espancou, e eu fugi de casa. Não queria viver em uma casa com pessoas que não me aceitavam, meu pai era toda a família que eu tinha, e ele não me amava. Eu pude ver o ódio no olhar dele quando ele me viu deitada com minha namorada... seu nome era Chun, e até hoje eu me lembro de seus olhos castanhos, a pele cheia de sardas, e do dia que eu quebrei o nariz de um dos meninos que viviam pegando no pé dela, pelo rosto pintado que tinha, ha ha! Você tinha que ver! Mas... depois que eu fugi, eu percebi que eu não tinha nada, e tive que viver como uma ladra. Eu era muito boa no que fazia, e me tornei conhecida por aquelas bandas, e tive que me mudar de província várias vezes. Não que eu tivesse uma casa mas... nunca parava em uma província por mais de um mês. Acabei matando três homens que me atacaram uma noite, uma gangue de estupro. Eu só queria me defender mas... foi aí que tudo se complicou, e os guardas queriam a minha cabeça. Como provar que os homens me atacaram primeiro?"
"O destino acabou me trazendo para essa província, onde fiquei por cinco dias até o festival acontecer, quando o Grande Ser escolheria uma concubina, e eu só estava lá no meio das pessoas para roubar delas. Quando ouvi meu nome, eu me assustei de uma forma sobrenatural. Ha ha ha! Achei que tinham me achado, e me preparei para correr, mas quando o Grande Ser gritou que eu seria uma das concubinas reais, eu soube, naquele mesmo instante, que essa era a minha oportunidade para me redimir, e mudar minha vida para melhor. Não só financeiramente, claro, mas a minha personalidade, o meu jeito, e as minhas ações. E hoje eu estou aqui, uma concubina real, uma dama, mas ainda amo espadas e lutas."
Seung não sabia o que dizer, sentia o peso das palavras de Kyung passando pela sua mente, e apertou a mão da moça com carinho, sorrindo.
— Obrigado. Por me contar tudo isso, fico feliz que sua vida tenha mudado.
Kyung-Soon sorriu, apertando a mão de Seung.
— Eu também.
Seung foi até a biblioteca sozinho, Kyung estava suada e queria trocar de vestido antes de entrar na sala. A aula seria de leitura, e apenas Joo participava dela com Seung.
— Oi! Como foi com o príncipe?
Joo perguntou, parecia entediada, enquanto tentava ler os hiraganas de seu livro.
— Er... foi muito interessante.
Seung não sabia se deveria falar da participação de Kyung, e apenas se sentou, pegando o livro escolhido pelo professor, que esperava por Kyung-Soon impacientemente.
— Yuga me disse que quer mudar o corte de cabelo dela... o que você acha?
Seung não prestava atenção em Joo, que nos últimos dias só sabia falar de Yuga, artes e comida.
— Ela fica bonita de qualquer jeito...
Seung disse, tentando se concentrar nos símbolos que tentava decorar a dias.
— Foi o que eu disse!
Joo não se interessava em ler, seus pensamentos iam de Yuga para os desenhos que ela queria mostrar para Yuga. Não sabia explicar, mas sentia uma conexão interessante com a moça.
A aula de Seung correu normalmente, dividida em leitura, etiqueta e apresentação, ele apenas reviu o que vinha aprendendo durante a semana, e seu professor viu seu desempenho melhorar mais do que o esperado. Graças ao estudo noturno de Seung, no quarto de Yuga...
Mas enquanto Seung aprendia a cumprimentar, falar, caminhar e comer corretamente, o Rei percorria o longo corredor até a sala real de reuniões, onde os Cinco Reis o esperavam, ansiosos, para planejar o ataque que daria início a maior guerra que aquela geração já vira.
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