Notas iniciais
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Não demorou muito para que levantássemos acampamento. Colocamos tudo na parte de trás da caminhonete. Mamãe, Jack, Jenna, Tom e eu fomos na caminhonete. Cássio e Bianca foram na moto. O plano era seguir até o litoral. Jack estava com um mapa e segundo as suas contas chegaríamos lá em dois dias. A estrada estava tranquila, às vezes víamos um morto sozinho. Cássio estava na frente. Tom calado ao meu lado. Não sei o que sinto e o que ele sente — se é que ele sentia algo —, sempre pensei que qualquer sentimento nesse mundo novo resumia o desespero das pessoas para esquecer o que aconteceu. Mas o amor é algo puro, não é? E eu espero que ele exista.

Minha mãe ficou olhando pela janela por um bom tempo. Jack e Jenna conversavam sobre coisas que não me interessavam. Senti algo tocar minha mão, era Tom. Ele segurava minha mão com delicadeza e olhava para mim com um sorriso no rosto. Soltou minha mão e abriu sua bolsa, me estiquei a curiosidade de ver o que tinha lá dentro. Ele pegou um caderno e um lápis de desenho. Tom abriu o caderno e eu vi os seus desenhos, eram maravilhosos, todos ricos em detalhes, lindos e extremamente precisos. Expressava exatamente o que ele era, uma pessoa maravilhosa. Ele passou algumas páginas rapidamente e parou em uma. Havia o desenho de uma garota. Os cabelos longos e o sorriso eram parecidos com o de Tom.

— Minha irmã. O nome dela era Alexia — ele disse com embargo na voz — Desenhei isso dois dias antes dela morrer — Ele olhava para o desenho com certa saudade nos olhos. Eu admirava o desenho. Era como uma fotografia em preto e branco. Tom era realmente muito talentoso.

— Isso é lindo! — eu disse sorrindo— Será que algum dia eu teria a honra de estar nesses papéis?

— Com todo prazer — ele riu fechando o caderno e guardando na bolsa.

Minha mãe olhava para nós. Não acho que ela se importaria com um namoro, ela sempre foi liberal. Eu entendo a sua preocupação, não dá para confiar em ninguém, principalmente num mundo como esse.

Paramos para movimentar as pernas. A posição do sol indicava que ainda estava de manhã. A estrada parecia parada no tempo, não ventava, não havia barulhos. Todos procuraram um lugar para fazer suas necessidades. Não passamos muito tempo ali, não era seguro, nenhum lugar era seguro. Assim que todos terminaram voltamos para a caminhonete e seguimos em frente. Mais alguns quilômetros até o litoral. Estávamos em uma velocidade média. E a tão temida noite se aproximava, procuramos por um lugar seguro. Paramos no canteiro da estrada, Cássio e Jack entraram na floresta para ver se tinha algum tipo de perigo, não encontram nada. Montamos as barracas e esperamos a noite passar. Minha mãe e Bianca preparavam a refeição — que dessa vez seria um pouco melhor que a última. Eu fiquei com Tom.

—Você tinha algum plano para se salvar? — eu perguntei. Nós estávamos perto da barraca que dormimos na outra noite. – Quer dizer, você e a sua família.

— Depois que a minha família morreu, eu não pensava em muita coisa. Ás vezes agia por impulso, mas quase me deixei ser devorado. Pensei em ir pra alguma cidade, mas depois do que vi em Belo Horizonte e no Rio mudei de ideia.

Eu sei muito bem o que ele viu. Há três semanas eu estava em Belo Horizonte — foi lá que encontramos Bianca escondida dentro de uma loja de departamentos. Se algum dia houve um campo de refugiados, não havia mais, só havia mortos pelas ruas. O único som que ouvíamos era os gemidos que saiam daqueles corpos e o cheiro insuportável. Tivemos sorte por não encontrar hordas de zumbis.

—Ouvimos no rádio que existia centro de refugiados nas capitais — ele continuou — Eu e minha irmã pegamos o carro e saímos para um desses lugares. Não encontramos nada no Rio, então viemos para BH. Fomos atacados e ela não conseguiu correr.

— Sinto muito. – As palavras estavam estaladas na minha garganta. Não sabia o que dizer. — Eu peguei o carro e fui parar nessa cidadezinha...

Fomos interrompidos por minha mãe. O jantar estava pronto. Nos sentamos ao redor da fogueira, a comida estava bem mais agradável — macarrão com sardinha — comemos em silêncio. O grupo nunca foi de conversar, cada um tentava se conformar com o que aconteceu da sua maneira. Todos ali sabiam que se nos aproximássemos e depois alguém fosse morto, a dor iria ser pior, então tentávamos nos manter afastados. Menos a minha mãe. Ela quebrou o silêncio.

— Sophia, porque não canta para nós? — minha mãe perguntou para mim. Quase engasguei com um pedaço de sardinha, nunca fui boa para apresentações em público, e ela sabia muito bem disso.

—Você canta? — perguntou Tom admirado. Acho que ele tem uma grande queda pela arte— Isso é muito legal.

— Não muito bem — respondi envergonhada. Olhei para minha mãe e ela tentava me incentivar, talvez incentivava mais a interação do grupo — Tudo bem.

Escolhi uma música que eu amo. Let the flames begin, Paramore.

What a shame we all became

Such fragile broken things

A memory remains

Just a tiny spark

I give it all my oxygen

To let the flames begin

So let the flames begin

Oh, glory, oh, glory

(Que vergonha o que nós todos nos tornamos

Tais coisas frágeis e quebradas

Uma memória permanece

Apenas uma pequena faísca

Eu dou todo o meu oxigênio

Para deixar as chamas começarem

Então deixe as chamas começarem

Oh, glória, oh, glória)

Cantei com todo o meu coração. E eles me olharam. Não consegui decifrar o que pensavam. Fazia muito tempo que eu não ouvia música, afinal não tinha ninguém para controlar as rádios. Fiquei emocionada, essa era a música preferida do meu pai. Ele sempre me acompanhava com o violão. Minha mãe tentava esconder a emoção. Assim que terminei de cartar todos aplaudiram baixo, para não fazer muito barulho.

— Porque não disse que sabia cantar? — Bianca perguntou.

— Estava com vergonha — eu disse rapidamente. Na verdade, a música sempre foi uma parte muito íntima minha, uma parte que eu queria só pra mim. Eu cantava com meu pai na maioria das vezes. E quando ele se foi eu enterrei esse talento dentro de mim. Fomos dormir. Cássio e Tom ficaram de vigia enquanto os outros descansavam. Demorei um tempo para dormir. Fiquei imaginado como estaria o resto do mundo. Imaginando se algum cientista conseguiu criar uma cura para isso, se os outros países passam por isso também. E se passam, qual seria a situação deles? Talvez estivessem melhores do que nós, mas se estivessem, porque não nos ajudariam? Eles podiam estar pior. Ou pior, podiam ter sido aniquilados. Pensei nos meus colegas de classe e nos meus artistas preferidos. Será que todos se transformaram nesses monstros que querem devorar o mundo? A incerteza tomou conta de mim. Não sei o que fazer da minha vida.

O dia chegou e com ele o mesmo alívio de sempre. Saímos das barracas e colocamos tudo na caminhonete. Partimos mais rápido do que normalmente faríamos, o que deixou todo mundo alarmado. Nem Jack nem os outros davam uma palavra, mas podíamos ver o desespero na cara de alguns membros do grupo. Jack estava correndo mais que o normal. Mas havia algo errado, Cássio parara e Jack freara bruscamente.

Notas finais
Gostaram da música, link: http://www.youtube.com/watch?v=vkWw9RXFL4w&hd=1 COMENTEM, COMENTEM, COMENTEM!