The Lovers
2 ── Colega de Apartamento
Notas iniciais
França, milhares de anos depois.
Era curioso observar a passagem do tempo. Estava em pé na cozinha, mexendo distraidamente a panela enquanto deixava meus pensamentos vagarem. A cidade lá fora era tão diferente do que tinha sido quando pisei aqui pela primeira vez. Paris, a Cidade Luz, mudava ao longo dos séculos, mas hoje... hoje, ela era quase irreconhecível.
Olhava pela janela do apartamento, meus olhos se fixando na Torre Eiffel ao longe. Lembrava-me de quando aquele pedaço de metal era algo novo, uma maravilha da engenharia, diziam eles. Naquela época, Paris estava em plena transformação, crescendo cada vez mais. Agora, a torre era apenas um símbolo, um ponto turístico cercado por lojas e restaurantes caros que, não vou mentir, de fato eram muito bons. Mas ninguém podia negar que a glória original de Paris tinha sido diluída pela modernidade.
Não era que eu não gostasse da modernidade, longe disso. Eu reconhecia suas vantagens, é claro. O avanço da medicina salvava incontáveis vidas, e os transportes rápidos encurtavam distâncias que antes pareciam impossíveis. Mas, ainda assim, eu tinha uma queda por coisas vintage, sabe? Gostava da sensação de tocar um livro antigo, do som suave de um vinil girando na vitrola, ou até mesmo de caminhar por ruas pavimentadas com pedras desgastadas pelo tempo. Essas coisas me faziam sentir, bom, mais... viva.
Meus pensamentos foram interrompidos pelo som da porta se abrindo. Minha amiga de apartamento entrou, parecia cansada, mas com aquele sorriso que sempre me fazia sentir um pouco mais ancorada na realidade. Ela jogou a bolsa em um canto e esticou os braços acima da cabeça, soltando um suspiro de alívio.
— O dia foi longo, mas finalmente acabou! — Ela disse.
— Estava tentando algo novo hoje — Respondi apontando com o queixo para a panela à minha frente.
— O que temos dessa vez? — Ela levantou, e com um ar curioso se aproximou de mim. — Bom, nem quero saber, só sei que isso tá com um cheiro ótimo.
Sorri satisfeita, era recompensador quando ela gostava dos meus pratos.
— Como foi no trabalho hoje? — Perguntei, na esperança de que a comida ficasse pronta o mais rápido possível.
— Recebemos uma nova funcionária, ela parece ser boa pessoa — A mulher bocejou — Mas acho que preciso de alguns dias de folga, esses eventos estão me matando.
— Ora, quem diria, Brune Núñes, precisando de folga. Achei que gostasse muito de trabalhar — Cutuquei, finalmente desligando o fogo. A comida estava pronta.
— E gosto. Mas as vezes também queria ter mais tempo pros meus hobbies — Brune olhou para a sua câmera fotográfica em cima da prateleira da sala.
Brune e eu nos conhecemos há três anos, em um evento de artes que eu tinha decidido visitar por curiosidade. Havia um workshop sobre fotografia na prática e, como sempre tive interesse em arte, resolvi conferir. Brune estava lá. Eu me ofereci como cobaia para a fotografia artística, sem saber muito bem no que estava me metendo.
Para nossa surpresa, ganhamos o prêmio de Melhor Fotografia Amadora do evento. Desde então, somos amigas e dividimos um apartamento no centro de Paris, uma vez que dividir sozinha se torna muito caro. Mas enquanto Brune havia entrado para uma empresa de eventos, a Devenementiel, eu seguia vendendo minhas artes em telas e trabalhos artesanais nos eventos locais.
— Andei fotografando algumas coisas — Comentei enquanto colocava os pratos na mesa. — Gosto de fotografar paisagens.
— Eu acho que você tem um grande potencial — Brune logo se serviu, e entre uma garfada e outra da massa com molho esverdeado, ela comentou — Estamos quase fechando um novo contrato, mas a Goldreamz também tá metida nesse processo.
— Aquela empresa “rival” — Fiz aspas com os dedos.
— Essa mesma — Comentou ela pouco antes de começar a mastigar.
— O CEO dessa empresa pode ser um pilantra, mas precisa confessar que ele é bem bonito — Sorri ao lembrar da foto que vi outro dia no instagram, do tal homem chamado Jason.
— Eloise! — Repreendeu-me Brune, ainda de boca cheia. Mas logo deu uma risada. — Se o pessoal da empresa te escuta, você vai ser jogada no rio Sena com as mãos e pés amarrados.
Ergui minhas mãos, me rendendo.
— Não está mais aqui quem falou!
Era incrível como Brune sempre parecia trazer uma leveza que eu não sabia que precisava. Em meio a tantos séculos de solidão e conflitos, estar com ela era um alívio.
Havia poucas pessoas que conseguiram me proporcionar esse tipo de alívio. Um deles foi Armand, um artista francês do século XVIII que, em uma breve amizade, me mostrou o prazer genuíno na criação e no simples ato de viver. Outra foi Layla, uma curandeira do Oriente Médio que conheci durante o período medieval, cujas palavras doces e sábias foram um abraço caloroso para a minha alma atormentada.
Quando finalmente terminamos de comer, Brune e eu nos sentamos no sofá, para tomar uma taça de vinho. Costumávamos fazer isso quase todas as noites, era como um ritual para que conseguíssemos terminar bem o dia. Mas naquela noite em particular, Brune parecia estar bebendo um pouco mais de vinho do que deveria.
— Sabe — Ela começou a dizer — Tem uma coisa que tá me incomodando há um tempo.
— E o que seria? — Encorajei.
— Ah, esquece — Brune dispensou com a mão, dando mais um gole da taça.
— Se começou, agora precisa terminar — Me aproximei mais dela no sofá, atenta.
Brune me encarou por alguns instantes, e quase pude ver a batalha interna que parecia estar sendo travada na sua mente, decidindo entre continuar ou não.
— Bom — Começou ela, finalmente. — Lembra que te falei sobre um cara que eu tava meio que… saindo com ele?
Assenti.
— Então, as coisas estão um pouco esquisitas — Brune fez uma careta, olhando para a taça de vidro em suas mãos.
— Esquisitas como? Ele te fez alguma coisa?
— Não… nada disso. Na verdade, não acontece nada — Seus olhos rolaram para a janela — Saímos juntos, assistimos coisas juntos, compartilhamos alguns momentos, mas… é só isso.
— Você não gostou do beijo dele? — Perguntei, realmente curiosa.
— A gente nunca se beijou — Ela riu — Nunca senti vontade, na verdade.
— Ele se sente da mesma forma?
— O pior de tudo é que eu não sei — Admitiu. — Tenho medo de tá criando muitas expectativas e ele acabar se decepcionando.
— Brune, acho que vocês deveriam conversar sobre isso — Minha voz saiu calma e tranquilizadora. — A vida é curta demais pra ficar se sentindo mal por essas coisas. —
Aquele conselho soava como uma piada para mim, afinal, eu era a imortal com um sofrimento eterno pela frente, mas de qualquer forma, Brune não precisava passar por isso na curta vida dela.
— Vou fazer isso… sim… vou fazer —Repetiu ela, encostando-se o sofá lentamente. — Vamos sair amanhã com o pessoal da empresa, vou tentar chegar mais cedo e resolver isso…
— Vai pra cama, você vai cair do sofá, isso sim — Eu disse, cutucando ela.
— Vou só tirar um cochilo, e já vou pra cama — Prometeu, mas eu sabia que ela amanheceria no sofá.
༄
Na manhã seguinte, acordei com o sol batendo diretamente nos meus olhos. Droga, havia esquecido de fechar as persianas. Levantei e decidi que aproveitaria aquele dia mais cedo, embora eu tenha percebido logo em seguida que já não era tão cedo quanto eu imaginava.
Brune já havia saído, e em cima do balcão da cozinha tinha um misto quente e uma garrafa térmica com café. A temperatura da comida indicava que Brune havia saído há pouco tempo. Peguei meu roupão e sentei em uma das cadeiras altas da bancada, mas pouco antes de dar a primeira mordida, a campainha tocou ecoando por todo o apartamento.
Imediatamente pensei que Brune havia esquecido algo, como costumava fazer de vez em quando. Com um sorriso brincalhão no rosto, já me preparei para provocar um pouco a minha amiga. Abri a porta com um ar divertido, apenas para ficar paralisada diante da visão à minha frente.
Do outro lado estava um homem alto e bonito, com cabelo preto liso que caía até o meio das costas. Seus olhos castanho escuro eram intensos e penetrantes, e sua pele parda brilhava sob a luz da manhã. Ele estava vestido com uma blusa branca de gola alta e uma jaqueta verde com detalhes em preto, complementada por calças jeans rasgadas e tênis esportivos.
— Bom dia — ele disse, com um sorriso amigável. — Desculpe incomodar, mas eu tô procurando por Brune. Ela tá aqui?
Fiquei paralisada por um momento, meus pensamentos se embaralhando. Enquanto isso, o homem ficou me encarando, esperando por uma resposta que eu não conseguia dar.
— Eu to… atrapalhando algo? — Perguntou ele, seu semblante de repente mudando de amigável para preocupação. — Posso mandar uma mensagem pra ela depois. Desculpe mais uma vez se te incomodei…
Ele se desculpou e fez menção de ir embora quando eu, sem pensar, estendi a mão e segurei o braço dele. Foi um gesto automático, mas no instante em que toquei seu braço, senti como se uma descarga elétrica tivesse percorrido meu corpo, fazendo-me soltá-lo rapidamente.
— Brune não está em casa — Murmurei, desviando os olhos para absolutamente nada atrás dele — Posso avisar que você passou aqui. Você é…
— Roy — Respondeu dele, entendendo minha pergunta sem nem eu mesmo terminá-la.
— Roy — Repeti, reforçando a ideia de que eu iria lembrar.
Ficamos em silêncio por poucos segundos que pareceram horas. Até que Roy hesitou por um instante, parecia querer dizer algo, mas estava um tanto inquieto.
— Como se chama? — Aparentemente um lado da sua batalha interna havia vencido.
— Eloise.
— Já nos encontramos antes, Eloise? — Ele franziu as sobrancelhas e meneou a cabeça suavemente.
— Acredito que não — Naquele momento, eu cometi o erro de erguer os olhos e olhar nos olhos dele. Um ardor familiar inundou a minha garganta e me vi diante de algo que eu não esperava. — Eu preciso ir, vou avisar à Brune sobre você assim que ela chegar.
— Não precis-
Não esperei que Roy terminasse de falar, fechei a porta e caminhei apressadamente para o banheiro. Precisava lavar o rosto com água gelada. Mas não consegui caminhar rápido o suficiente para alcançar o cômodo, minhas pernas cederam, trêmulas, e eu caí sentada no corredor entre a sala e o banheiro.
Meu coração batia tão forte que minhas costelas vibravam em resposta à pulsação agressiva. Aquele som preenchia meus ouvidos, e cada batida era um lembrete da dor que eu sabia que estava por vir, da maldição que eu carregava. Tentei me lembrar de como respirar, de como pensar, mas tudo parecia impossível.
Eu não conseguia parar de tremer. Minhas mãos estavam frias e dormentes, e tudo que eu queria era fugir, mas eu não tinha forças nem para me mover. Estava presa, perdida no medo do que estava por vir.
Cada memória, cada dor que tentei enterrar veio à tona como uma onda avassaladora, me puxando para um abismo de desespero. Todas as formas assumidas, todas as épocas vividas, todas as mortes presenciadas. Tudo me fazia cair em um furacão de sentimentos.
O rosto de Roy agora estava gravado na minha mente, como se uma imagem estivesse sendo projetada na tela da minha alma. Eu me sentia desmoronando sob o peso da realidade, o terror de reconhecer o mesmo olhar que já havia visto tantas vezes antes, em um amor que nunca teve um final feliz. As lágrimas escorriam sem controle, misturadas com a sensação esmagadora de impotência.
E aqueles olhos… Aqueles olhos eram familiares demais.
Os olhos de Roy eram os mesmos olhos de Alphonse.
Fale com o autor