Notas iniciais
A noticia chegou em meio ao vento frio do fim de tarde. Os pelos do braço de Quiron se arrepiaram. Seus olhos encararam a escada que levava até o sótão e até o oráculo de Delfos. Seus dedos se fecharam com força enquanto seus lábios pareciam criar vida própria e sussurravam; — Percy.
***
O trovão soou alto e ameaçador. Os raios cruzaram o céu. Caindo nos campos aos arredores do acampamento. Um raio atingiu a barreira mágica, lançando faíscas azuladas para todos os lados. E então, tão rápido quanto eles surgiram, eles desapareceram. A chuva caiu com força. O vento agitou às arvores com violência.
A primeira coisa que fez Nico acordar foi a pequena nuvem de poeira que caiu sobre seu rosto. Ele coçou o nariz, e espirou logo em seguida. O frio do quarto o fez soltar um praguejo para qualquer um.
A forma escura tremulava no canto esquerdo do quarto. Os olhos vermelhos encaravam Nico com certo desgosto.
Hades saiu das sombras e se posicionou aos pés da cama do garoto. Suas roupas, uma calça jeans preta e um pulôver escuro, estavam surrados e cheios de poeira.
— O que o senhor quer aqui? – Perguntou Nico com indiferença.
— O que você acha que esta fazendo? – Hades cruzou os braços. Seus olhos deixaram de ser vermelhos e assumiram um tom acastanhado.
— Em relação a que? – Nico se sentou, deixando o edredom cobrir de sua cintura para baixo.
— Percy Jackson. – disse Hades com nojo. – Aquele filhote de peixe.
— Não faço a menor ideia do que o senhor esta falando. – Nico desviou o olhar, passando a encarar a janela. O mundo lá fora parecia estar acabando em meio à chuva. – E mesmo que fizesse, não seria da sua conta.
— Eu quero que isso pare. – disse Hades irritado.
— Motivo?
— Não precisa existir. Eu só quero que essa palhaçada acabe. Como eu serei visto no olimpo depois que todos souberem que meu filho gosta de chupar caras?
— Olha pai. – Nico o encarou. – Até onde eu saiba o Sr fazia isso, e ainda fazia coisas piores. – Nico riu. – E que eu saiba, os deuses não veem sexo e sim qualquer coisa que os atraia.
— Não me importa! – gritou Hades, o que fez as paredes tremerem e uma nova chuva de poeira cair. – Eu não gosto daquele moleque e não quero que você tenha nenhum tipo de envolvimento com ele. Muito menos que o namore.
— Epa, calma lá – Nico se levantou. – que o senhor não influencia em mais nada na minha vida, então vamos acabar com a palhaçada?
— Palhaçada? – gritou Hades mais alto. – Não será palhaçada se eu acabar com ele.
— A menos que o senhor queira começar uma guerra da qual não venceria, eu acho que não irá fazer muita coisa.
— Eu estou de olho em você, Nico. – Hades deu um passo para trás e sumiu em meio às sombras do quarto.
Nico sentiu o chão tremer, de modo que seus pelos se arrepiaram. O uivo bestial ecoou por todo o acampamento.
***
Percy foi um dos primeiros a chegar até a barreira. Seus dedos se fecharam com força ao redor da caneta. Seu rosto se transformou em uma mascara irritada ao ver as criaturas se chocando contra a barreira. Os dois cães eram feitos de uma névoa escura. O tom arroxeado brilhava em meio aos dois pares de olhos que eles possuíam na testa. Os cães sumiram por uma fração de segundos e reapareceram do lado de dentro.
— Impossível. — disse um filho de Atena ao lado de Percy.
Percy gritou, brandindo a espada. Ele se lançou para frente, atacando o cachorro que avançava em sua direção.
***
Nico correu. Seus pés afundavam em meio ao chão lamacento. Os olhos tentavam encontrar as vozes que gritavam. Ele ouviu um xingamento e reconheceu a voz de Edmundo.
— Isso é coisa do seu pai? Perguntou o garoto lançando-lhe um olhar irritado.
Nico encarou as duas formas caninas ao longe e balançou negativamente a cabeça.
— Os meus são mais bonitos. — brincou. Ele empunhou sua espada e correu em direção aos cães.
***
Percy foi lançado para trás. Seu corpo voou sobre alguns semideuses e caiu pesadamente em cima de um filho de Hermes. Os dois garotos rolaram pelo chão levantando uma nuvem de poeira, até que se chocarem contra o tronco de uma árvore.
Ele se levantou. O gosto azedo do sangue invadiu-lhe a boca. Ele gritou, deixando a raiva transparecer através de sua voz.
— Percy! — a voz de Nico surgiu de algum ponto a sua esquerda. Mas Percy preferiu não dá-lhe atenção e se concentrar apenas na luta.
Contracorrente passou ao redor do corpo esfumaçado do cão, sem fazer nenhum efeito.
— Mas que merda! — Gritou Percy irritado.
— Deixa comigo. — Nico parou ao seu lado. O sorriso medonho preencheu-lhe o rosto.
Nico estendeu a mão. A palma aberta na direção de um dos cachorros. Ele fechou os olhos. Seus lábios se moveram por uma fração de segundos.
Percy sentiu o sangue da face congelar no momento em que Nico abriu os olhos. Estes estavam completamente sem vida. Os lábios de Percy se abriram, mas seu grito foi abafado pelo estrondo que veio a seguir.
Nico gritou. O chão ao seu redor se agitou e tudo em torno dele foi jogado para os lados. Os cães soltaram um uivo de dor e desapareceram em meio a terra.
Nico caiu de joelhos. Seu peito ardia. Ele olhou para Percy e sorriu. E então seu corpo tombou para o lado.
***
A luz do lampião ao lado da cama de Nico incomodou-lhe os olhos. Ele os piscou algumas vezes até se acostumar com a claridade. Percy estava sentado ao lado de sua cama. Ele havia apoiado a cabeça em meio às palmas das duas mãos. Seus cotovelos estavam apoiados em suas coxas. E ele parecia estar lançando alguma prece a algum deus, mas a frustração em seu rosto indicava que não devia estar funcionando muito bem.
— O que aconteceu? Perguntou Nico. A dor em sua cabeça se espalhou por seu rosto.
— Talvez você que deva me explicar. — Percy o encarou. Os olhos verdes transbordavam preocupação. — Você fez aquela parada com as mãos e desmaiou. Como fez aquilo?
— Ah, depois do despertar de Gaia eu venho treinando algumas coisas novas. — Nico forçou um sorriso. Mas a dor em sua cabeça o desmanchou rapidamente.
— E tá tentando se matar ou matar a todo mundo? — Percy arqueou as sobrancelhas.
— Eu nunca tinha testado em algo. — Nico deu de ombro. — Só em alguns esqueletos.
— Você fez o Ed voar por uns duzentos metros. — Percy estava preste a falar quando o som de cascos soou do lado de fora da enfermaria. A cabeça de Quiron surgiu em meio à janela. Seus olhos pareciam preocupados. Ele olhou para Percy e depois para Nico.
— Percy, eu preciso que você venha comigo. — disse ele por fim.
— O que aconteceu? Perguntou Percy retribuindo o olhar.
— Explico no caminho. Ou não. — Quiron piscou atordoado. — Só venha comigo.
Percy se levantou. Lançou um olhar demorado para Nico e seguiu para fora da enfermaria.
Uma fina garoa caia sobre o acampamento naquele momento. As lamparinas lançavam luzes tristes por todo o caminho até a casa grande.
— O que está acontecendo? Perguntou Percy caminhando lentamente ao lado de Quiron. Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça e olhou para os próprios pés.
— Uma profecia. — respondeu Quiron.
— E o que ela diz? — Percy olhou para o centauro que trotava ao seu lado.
— O oráculo se negou a se revelar para mim.
— Como assim? — Percy lançou um olhar confuso para Quiron.
— Eu não entendo, Percy. E suas perguntas apenas resultariam em respostas inúteis.
Percy se calou.
A silhueta da casa grande se formou em meio à escuridão, e os lampiões, cada um em lado da porta e do lado de dentro, lançavam um brilho assustador.
Alguém andou de lado de dentro e Percy reconheceu a silhueta. O sátiro surgiu em meio à porta e cruzou os braços enquanto se encostava-se ao batente.
— Grover! — Gritou Percy correndo em direção ao amigo. Seus braços se abriram e ele o abraçou com força. — Quando foi que você voltou?
— Cheguei há umas duas horas. -Grover retribuiu o abraço.
— A velha equipe reunida de novo. — a voz feminina surgiu em meio à escuridão do lado de dentro. Annabeth passou pela porta. Seu cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo bem apertado. Ela usava a camiseta do acampamento, mas esta estava manchada de sangue e terra.
Percy lançou um olhar de repulsa enquanto soltava Grover.
— Sem enrolas. — disse Quiron atrás deles. Sua voz transmitia um tom de urgência.
Annabeth deu um passo para o lado, dando passagem para que Percy passasse.
Percy sentiu os pelos de seus braços se arrepiarem assim que ele deu o primeiro passo para o lado de dentro. O ar pesado o fez tremer enquanto subia os degraus da escada.
Percy tocou a superfície fria da porta. Esta rangeu conforme era empurrada para dentro. Uma nuvem de poeira caia sobre o recinto.
Rachel estava sentada em uma pequena poltrona de couro preto. Seu cabelo ruivo caia pesadamente por sobre o ombro. Seus olhos encontraram os de Percy e ela sorriu.
— É bom ver que você ainda esta viva. — brincou Percy.
Rachel fechou os olhos. Sua cabeça tombou para trás, enquanto uma névoa esverdeada subia por seus pés. Seus lábios se abriram e sua voz saiu grossa e velha. Como as folhas de algum livro antigo.
— Leste a leste.
Sobre e dentro das montanhas frias.
A escuridão se esconde.
Amor e o ódio serão a chave para a solução.
Apenas as sombras os trarão de volta.
Apenas o inimigo salvará a filha de Atena.
O fim chegara ao último raio do solstício de verão.
Os lábios de Rachel se fecharam e ela soltou um longo suspiro. Seus olhos ainda se mantinham fechados. Suas mãos tateavam cegamente a mesinha ao lado da poltrona.
— Água. — disse ela rouca.
Percy se prontificou, pegando a pequena garrafa de água e entregando para Rachel. Ele olhou através da pequena janela. Algumas perguntas se formando em sua mente.
***
Os passos pesados de Hades ecoaram em meio ao enorme salão vazio. As luzes dos castiçais lançavam sombras pelo chão de mármore.
Alguém estava parado ao fundo do corredor. Seu cabelo ruivo caia em ondas pesadas sobre os ombros. Seus olhos, antes verdes, possuíam um tom de branco leitoso.
— Obrigado, minha querida! — disse Hades com sacarmos. Ele se virou, segurou o enorme tridente em suas mãos e desapareceu em meio a uma intensa fumaça escura.
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