The Lost Queen
1 Can I Survive Today?
Notas iniciais
Alexia
Mais um dia de aula nesta porcaria de internato. Sim, realmente estar em um orfanato seria bem pior, mas é idiotice achar que este lugar é realmente bom. Nem sonho em falar isso perto da minha mãe. Ela como professora de química é capaz de me jogar do terraço, caso falasse qualquer coisa sobre o Instituto Ignoties. Como era o primeiro dia de aula, ainda tinha esperança de que novatos legais entrassem. Pessoas que não achassem totalmente estranha, a garota de cabelo cacheado (e ainda colorido, diga-se de passagem) que sempre estava envolvida em algo que ninguém sabia explicar da sala 203. Sim, era drama, realmente, mas querer alguns amigos não era querer muito, em minha opinião. Fernanda... ela contava, sim... mas... não sei se era apenas amizade. Se fosse por minha escolha... continuaria em dúvida. Eu tinha feito um pedido para ela no último dia de aula. Não sabia se ela aceitaria.
Meus passos pelo corredor eram leves, como se não quisesse nem pisar no chão quase. Não queria fazer barulho no andar de baixo com meus coturnos que eram tão pesados quanto botas de militares na guerra. Ao parar em meu armário para pegar os livros, que sempre deixava ali por pura preguiça de levar até meu quarto, ouvi uma voz familiar chamando meu nome. Dei um leve sorriso e me virei, para observar os belos olhos verdes emoldurados por sardas perfeitas que já conhecia bem. Fernanda.
— Oi ruiva. — Falei olhando para seus olhos. Ela me encarava e uma corrente elétrica quase passou por meu corpo.
— Tudo bem, Lexi? — Ela em um tom de voz suave. A voz mais bonita que conheço, a voz da cantora da banda A última nota. A minha banda. Ou melhor, a nossa banda. — As férias foram bem chatas sem poder incomodar você com as ideias de letras de música.
Soltei uma risada baixa, e mordi meus lábios. Era meio que um sinal entre a gente. Significava que eu sentia o mesmo. Seus dedos se entrelaçaram aos meus e aquela mesma corrente elétrica pareceu percorrer meu corpo. As batidas de meu coração estavam descompassadas, e tentei levantar minha cabeça aos poucos para ver seu rosto. Ela sorria largamente, o que me deixava quase boba.
— Senti sua falta... — Fernanda concluiu me dando um beijo na bochecha, um pouco demorado.
— Eu também, Fê... — Concordei com um meio sorriso.
— Estou na mesma sala que você este ano! — A ruiva exclamou quase dando um pulinho de felicidade. — Vamos para a aula? Temos aula de legislação agora.
Nós andamos de mãos dadas pelo corredor, como se apenas nós estivéssemos lá. Quase todo mundo sabia que eu e Fernanda tínhamos algo entre a amizade e um romance, e boa parte das pessoas de nosso círculo social aprovavam o relacionamento. Apenas faltava oficializarmos. Até minha mãe apoiava aquilo. Ao parar na frente da sala, Sebs se aproximou de nós duas e bateu palmas.
— Até que em fim vocês duas estão juntas. Apenas aviso que se disso aí sair um casamento, eu sou o padrinho.
Eu olhei para Fernanda antes de dar alguma resposta, como se pedisse a permissão dela. Ela assentiu com a cabeça, como se dissesse "Vá em frente". Dei um largo sorriso e encarei Sebs.
— Duas informações rápidas: 1º Ninguém oficializou nada ainda. 2º Seu caso é algo a ser estudado, Sebastian. — Retruquei.
— Mereço vocês duas enrolando com isso. — O moreno falou revirando os olhos. — No dia em que se resolverem, chove canivete ou o professor Near dá uma aula realmente legal.
— Nós não estamos enrolando. — Disse Fernanda com um bico. — Apenas não surgiu a oportunidade perfeita em um momento que fosse favorável.
— E qual seria um momento favorável? — Provoquei-a com um sorriso nos lábios.
— Agora talvez... — Ao dizer aquilo, ela aproximou seu corpo do meu e enrolou um dos meus cachos na ponta de seu dedo. — Alexia... aceita mudar seu status de relacionamento para "namorando uma ruiva doida"?
— Depende... — Retruquei, quase arrancando uma lágrima dos olhos de Fê. Estava tentando a provocar, admito. — Se essa ruiva fosse uma sardenta chamada Fernanda.
Ela sorriu e quase me beijou em meus lábios. Parou a poucos centímetros, em uma altura em que nossas respirações quase se misturavam. Ela me abraçou, e eu sorri com seus braços me envolvendo. Fernanda era minha. Apenas minha e de mais ninguém. A minha ruiva. A sardenta mais bonita de todo o instituto Ignoties.
— Que linda a demonstração de afeto do casal. — Falou o professor Near ríspido, ao entrar na sala. — Agora em seus lugares, caso gostem de após a aula ficarem em seus dormitórios, sem estar na sala da detenção.
Nos separamos sem enrolar nem qualquer coisa do tipo, já indo para onde tinham algumas cadeiras vazias isoladas do resto da sala. Quase sempre eu, Fê, Sebs e Jessie nos sentávamos em lugares daquele tipo. Por falar na Jessie, não tinha a visto ainda. Estranho, a Jéssica quase nunca faltava durante a primeira semana de aula. Enquanto olhava a sala, para ter uma ideia do que tinha mudado e de quais coisas continuavam as mesmas. Uma garota de cabelos azuis, com a pele muito clara, vestindo um casaco vinho e calça jeans preta, sem detalhes que se destacavam, entrou na sala pedindo desculpas pelo atraso.
— A senhorita como novata faria o favor de se apresentar para a sala? — Disse o professor de forma ríspida. A menina se dirigiu para o meio da sala, parecendo que ia jogar alguma maldição no professor Near.
— Meu nome é Madeleine d'Arc, tenho 16 anos, sou francesa e estou aqui por causa de um tipo estranho de intercâmbio. — Madeleine olhou para o professor — Posso me sentar agora?
— Espero que a senhorita d'Arc aprenda a não chegar atrasada nas aulas. Sente-se por favor. — Ele concluiu ríspido, enquanto daria introdução ao conteúdo.
Não me importava realmente com aquilo, mas a presença de Madeleine me chamou a atenção. Claro, não da mesma forma que Fernanda me chamava a atenção, porém, ela tinha uma espécie de aura que me obrigava a querer entender quem ela era afinal. Ela parecia inquieta, e a cada pouco olhava ao seu redor, como se notasse que estava sendo observada, ou temesse que alguém estivesse a seguindo. A garota de cabelo azul parecia temer algo, ou procurar alguma coisa que tivesse perdido aqui.
Ela não era a única figura nova que parecia não estar na escola com a real finalidade de estudar, ou algo parecido. Três garotas altas, quase uniformizadas, visto que as três vestiam conjuntos de roupas similares, com a mesma tonalidade de verde. Elas tinham longos cabelos, por exceção da única que não estava de salto, que tinha o cabelo na altura dos ombros. A que aparentemente era um tipo de líder do grupinho era loira platinada, enquanto as outras possuíam cabelos negros. Aparentemente, duas delas se chamavam Megan, ou algo parecido, então apelidei-as de Megan 1, Megan 2 e Megan 3.
Ao final da aula de legislação me levantei e dirigi-me junto a Sebastian e Fernanda para a frente da classe. Olhei para cada uma das pessoas que ali estavam presentes, e mordi os meus lábios. Eu ia conseguir falar meia dúzia de frases, para situar os novatos e conseguir ficar bem com minha mãe e o resto dos membros do corpo docente.
— Bom dia, para os que ainda não me conhecem, eu sou Alexia Herzog, e sou monitora da sala 203. O que isso significa? Isso quer dizer que eu sou uma espécie de orientadora dos novatos, além de porta voz das questões dos alunos para a diretoria. — Expliquei, mantendo a postura, enquanto analisava a reação das pessoas ali presentes. — Caso estejam perdidos, tenham alguma dúvida quanto a grade curricular, ou organização do corpo docente do internato, estou a disposição.
Ajeitei meu casaco, deixando meu antebraço exposto, assim como a estranha marca de nascença que tenho na região. Parecia um tipo de tatuagem, mas tinha aquilo desde que me conheço por gente. O símbolo do infinito cortado por duas espadas. Ou um oito, se ver por outro ângulo. Como tínhamos um intervalo de cinco minutos até a próxima aula, que seria literatura, já escrevi no quadro sobre a organização das mesas para a aula. Pequenos grupos de debate com quatro ou cinco pessoas. Dirigi-me até o painel que se encontrava na mesa do professor e liguei os avisos luminosos que indicavam a posição das carteiras. Como era monitora, ainda coloquei música para tocar.
— Alex. — Falou Sebs, me chamando — Já tem alguma ideia de letra de música? Queria ver como ficam suas últimas composições com a bateria e a Fernanda cantando.
Eu iria responder-lhe, porém do nada o tempo parou. Apenas eu, as Megans e Madeleine parecíamos estar nos movimentando. Uma das Megans levantou-se, sibilou alguma coisa e arremessou uma espécie de faca em minha direção. Tentei desviar, mas do nada, Madeleine estalou um dos dedos e parou na minha frente e segurou a faca com maestria.
— Olá, herdeira. — A azulada falou se dirigindo a mim, enquanto desenhava um símbolo no chão. — Desculpe-me por isso, eu já dou conta delas.
A faca que ela segurou virou uma grande lança e ela apontou aquilo para as três. Ela fez movimentos rápidos e desenhou uma lua e uma flor de lis no lugar onde ficaria a estrela, se representasse a quase extinta, religião Islâmica. As três viraram figuras parecidas com as representações de medusas que já vi, com grandes asas de morcego.
— Filha do mar, não nos subestime. — Gritou uma delas com a voz estridente e sibilando como uma cobra. — Eu vou levar a criança da Terra, viva ou morta.
— Ágata, minha velha inimiga, desista. — Retrucou Madeleine.
Ela falou algumas palavras em um idioma incompreensível para mim e correntes amarraram os braços e pernas das três. A garota de cabelo azul jogou um giz de quadro negro para mim, e novamente se voltou para elas. Eu peguei o giz e no chão e algo em mim sussurrou “Faça algo Alexia. Você é a herdeira.” Eu sou herdeira de algo? Isso era quase ridículo. Instintivamente desenhei um círculo ao meu redor, e na borda desse círculo fiz vários pequenos riscos. Raízes e galhos de uma planta surgiram daqueles riscos e preencheram toda a sala. Minha marca de nascença ganhou um brilho azulado e senti meu corpo ser levado por uma brisa suave.
Fechei os olhos enquanto a brisa me envolvia, quando me dei conta, meus pés não estavam tocando o chão. Olhei para mim mesma, e não vestia mais minha meia calça preta, meus coturnos ou meu vestido azul marinho. Olhei para meu braço e minha jaqueta tinha sumido. Meu braço estava descoberto e eu vestia uma espécie de vestido dourado, parecido com as túnicas gregas. Meus pés estavam envoltos por um emaranhado de plantas com algumas pequenas flores. “Vá filha da Terra. Você é capaz de acabar com um grupo de tríades” A mesma voz novamente. Não sabia o que significava, mas andei até onde Madeleine estava.
— Alexia, filha da Terra e descendente de Gaia. — Falou Madeleine se ajoelhando. — Sinto-me honrada em estar ao lado da herdeira da Coorte e do sétimo clã.
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