A primeira manhã completa de Edward em casa começou antes mesmo do sol nascer por completo sobre Forks, porque ele acordou com o silêncio estranho de quem não ouvia sirenes, nem explosões distantes, nem gritos atravessando paredes frágeis de concreto. Durante alguns segundos, ficou imóvel na cama, respirando devagar, sentindo o peso quente do corpo de Bella adormecido ao seu lado, os cabelos espalhados sobre o travesseiro, o cheiro familiar de morango que o havia mantido vivo nos meses em que esteve desacordado e depois distante. Ele virou o rosto lentamente para observá-la, traçando com os olhos as pequenas mudanças que o tempo e o sofrimento haviam desenhado nela, e percebeu que havia ali uma força nova, uma maturidade silenciosa, mas também uma fragilidade que ele queria proteger com o próprio corpo se fosse necessário. Edward inclinou-se e beijou o ombro dela com cuidado para não acordá-la, mas Bella abriu os olhos devagar, como se ainda temesse que ele desaparecesse caso demorasse demais para confirmar que era real, e sorriu de um jeito pequeno e íntimo que fez o peito dele apertar.

— Bom dia, senhora Cullen — ele murmurou, a voz ainda rouca do sono.

— Bom dia, soldado — ela respondeu, passando a mão pelo rosto dele como se estivesse se certificando de que a pele era quente de verdade.

Anthony foi acordado pelo próprio pai naquela manhã, e o momento foi tão simples quanto extraordinário, porque Edward sentou-se na beira da pequena cama do filho e observou o menino dormir por alguns segundos antes de tocar levemente seus cabelos. Anthony abriu os olhos devagar e, quando reconheceu o pai ali, abriu um sorriso tão grande que quase não coube no rosto. Ele sentou-se rapidamente e abraçou Edward pelo pescoço com força, como se ainda temesse que aquilo fosse um sonho que poderia acabar a qualquer instante, e Edward o apertou contra o peito sentindo o peso pequeno e seguro do filho que quase perdeu.

— Papai, eu fiz um pedido — Anthony disse, ainda com a voz sonolenta.

— Fez? — Edward perguntou, curioso.

— Quando eu soprei as velas… eu pedi pra você voltar da viagem longa.

Edward fechou os olhos por um segundo, sentindo o impacto daquela frase como se fosse um golpe suave e doloroso ao mesmo tempo, e depois sorriu enquanto afastava os cabelos da testa do menino.

— Acho que seu pedido foi forte o bastante para atravessar o mundo inteiro — respondeu ele.

Mais tarde, quando segurou Charlotte nos braços pela manhã, a pequena observou o rosto do pai com olhos curiosos e profundos, como se estivesse tentando reconhecer uma presença que conhecia apenas pela voz que murmurava o nome dela durante o coma. Edward encostou a testa na da filha e respirou fundo, sentindo algo dentro dele se reorganizar lentamente, como se cada parte fragmentada estivesse encontrando o próprio lugar novamente. Bella observava da porta, abraçando o próprio corpo com uma mistura de amor e incredulidade, porque ainda parecia impossível que aquela cena fosse real e não uma construção frágil da esperança.

A readaptação à rotina foi lenta e cheia de pequenos gestos cotidianos que ganharam importância quase sagrada, como preparar o café da manhã em família, ajudar Anthony a amarrar os sapatos, trocar a fralda de Charlotte enquanto ela ria com os sons exagerados que ele fazia de propósito. Edward redescobria a simplicidade de lavar louça ao lado de Bella, de caminhar pelo quintal segurando a mão dela, de ouvir o barulho da casa cheia sem sentir o corpo inteiro em estado de alerta. Havia momentos em que ele simplesmente parava no meio da sala e observava tudo ao redor — os brinquedos espalhados, a luz entrando pela janela, a voz de Renée na cozinha — como se precisasse convencer o próprio cérebro de que aquele era o novo cenário da vida.

Foi numa dessas manhãs tranquilas que Edward percebeu algo que o fez arquear a sobrancelha com expressão divertida, porque Bella desceu as escadas usando uma camisola de seda preta que marcava suavemente o contorno do corpo dela, e ele ficou parado no meio da sala apenas observando-a com um sorriso malicioso surgindo lentamente. Ele aproximou-se com passos silenciosos e envolveu a cintura dela por trás, inclinando-se para sussurrar perto do ouvido dela enquanto ria baixo.

— Senhora Cullen… você decidiu abrir uma funerária particular no meu quarto ou é impressão minha?

Bella virou o rosto para encará-lo, fingindo indignação.

— Muito engraçado, Edward.

Ele riu mais alto, segurando-a pela cintura.

— Desde que eu voltei, você só usa preto. Eu estou começando a me sentir responsável por uma revolução gótica.

Ela suspirou, mas havia um brilho nos olhos que denunciava a intimidade entre eles.

— A primeira vez que usei preto, eu disse pra Rosalie que se você me visse assim, ia rir de mim.

— E eu estou rindo — ele respondeu, puxando-a mais para perto. — Mas você fica linda de qualquer jeito.

O sorriso dela vacilou um pouco antes de responder, mais séria:

— Eu dei todas as minhas roupas coloridas para a caridade.

Ele franziu o cenho.

— Por quê?

Bella tocou o peito dele com delicadeza.

— Porque a vida sem você não tinha cor.

O silêncio que veio depois não foi pesado, mas profundo, e Edward segurou o rosto dela com cuidado, beijando-a com suavidade antes de murmurar contra os lábios dela:

— Então vamos pintar essa casa inteira de novo.

Alice, obviamente, já havia aproveitado a situação para renovar completamente o guarda-roupa de Bella, mas naquele momento a única coisa que importava era o jeito como Edward a beijava como se estivesse reaprendendo cada curva, cada respiração, cada detalhe que quase perdeu para sempre.

Naquela noite, quando a casa finalmente silenciou e as crianças estavam dormindo, Edward fechou a porta do quarto e ficou alguns segundos apenas olhando Bella como se estivesse memorizando a presença dela de novo, e o beijo que começou lento logo se transformou em algo mais intenso, carregado de saudade acumulada, de medo superado, de necessidade física e emocional de sentir que estavam vivos e juntos. Ele percorreu o corpo dela com mãos que tremiam não de desejo apenas, mas de alívio, e Bella respondeu com a mesma urgência, puxando-o para perto como se cada toque fosse uma reafirmação de que ele estava ali de verdade. A intimidade deles foi profunda e cheia de significado, não apenas pelo prazer físico, mas pela conversa silenciosa que acontecia entre respirações aceleradas e olhares que diziam tudo o que palavras não conseguiam alcançar.

Depois, deitados lado a lado, o quarto iluminado apenas pela luz suave da lua, Edward falou em voz baixa:

— Eu ainda acordo algumas vezes achando que estou no Vietnã. Sonho com o acidente… com a morte do seu pai… tudo se mistura e o caos piora.

Bella virou-se para ele, passando os dedos pelos cabelos dele com paciência.

— Então eu vou te trazer de volta para casa todas as vezes — respondeu suavemente.

Ele respirou fundo antes de contar em detalhes o que lembrava da explosão, do fogo, de Laurent desaparecendo nas chamas, da sensação de não saber se viveria mais um segundo, e Bella ouviu tudo segurando a mão dele, contando também como foi enterrar um caixão vazio acreditando que ali estava o homem que ela amava, como foi carregar Charlotte no ventre enquanto sentia que o mundo tinha desabado, como foi ensinar Anthony a lidar com a ausência de um pai que ele ainda chamava nos sonhos.

— Eu nunca mais vou deixar você — Edward prometeu, a voz firme.

Alguns dias depois, a família foi até a praia de La Push para assistir ao pôr do sol, e Edward levou o violão. Ele sentou-se na areia com Anthony ao lado e Charlotte no colo de Bella, e começou a tocar All My Loving enquanto o vento trazia o cheiro do mar e as cores do céu se misturavam em tons de laranja e rosa. Anthony tentava acompanhar batendo as mãos no ritmo, Charlotte balançava os pés pequenos, e Bella observava o marido com um sorriso que finalmente começava a recuperar a cor perdida.

Foi então que Emmett, sentado na cadeira de rodas um pouco mais atrás, gritou:

— Rolling Stones é muito melhor que Beatles!

Edward riu alto, olhando para Jasper.

— Ele nunca aprende, Jazz.

O debate adolescente reacendeu ali mesmo, no meio da areia, enquanto o sol desaparecia lentamente no horizonte, e Bella percebeu que, apesar das cicatrizes invisíveis que ainda existiam, apesar dos pesadelos que às vezes o faziam acordar ofegante no meio da noite, Edward estava ali, inteiro o suficiente para reconstruir tudo ao lado dela. E pela primeira vez desde o funeral, Isabella Cullen sentiu que a vida estava, de fato, voltando a ter cor.