The Light of Dawn
4 O cachimbo do ladrão
Notas iniciais
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O esplendor do amanhecer afirmou que o dia era perfeito para o início de uma aventura. Calad despertou no instante em que a primeira luz de Laurelin tocou o horizonte, a brisa veranil entrou pela janela do quarto que ocupava na estalagem de Beirágua e a envolveu em um enlace sútil. O toque do vento lembrou-lhe da benção de Ilúvatar, de Valinor e das canções que havia cantado em um tempo cuja existência perdera-se em sua memória.
A mochila foi ajeitada nas costas e o desjejum seria deixado para quando os anões acordassem, pois havia outros assuntos que requeriam sua atenção. A Valar apanhou seu cajado e tomou o caminho que levava para o morro mais alto do Condado, onde parou para observar o lugar.
Havia certa beleza na vida pacata dos hobbits, pois suas maiores preocupações eram destinadas aos dias de colheita ou a falta de rabanetes para a sopa. Definitiamente, aquele fora um lugar esquecido pelo mundo, pela guerra e até mesmo pela escuridão. Ela riu sozinha quando seus pensamentos foram voltados para o Sr. Bolseiro e sua preocupação com a louça de sua falecida mãe. — Sujeitinho peculiar!
— Eu imagino que você esteja referindo-se a Bilbo. — A voz do mago ecoou de um lugar mais abaixo e atraiu a atenção de Calad. Ele deveria estar indo para algum lugar ou simplesmente procurando-a. A elfa cerrou os lábios, firmando o cachimbo antes de erguer-se, colocando Gandalf no centro de sua visão. — Na verdade, também estava pensando nele! A essa altura ele já deveria estar na estalagem junto aos outros.
O semblante de Calad demonstrou indiferença, pois seus pensamentos acerca do hobbit eram divergentes e ainda que soubesse de sua coragem, não o queria por perto. O cachimbo foi tragado e da fumaça exalada surgiu um dragão que voou em direção ao mago e desapareceu pouco antes de alcançá-lo. — Acredito que seja melhor assim.
A resposta da mulher pareceu irritar Gandalf. Seus trejeitos se tornaram rijos a medida em que as lufadas de ar aumentavam. A fumaça clara que saia do cachimbo aos poucos se tornou escura e, devido ao aumento do fluxo de ar, toda a Erva-de-fumo combustou e enegreceu o nariz de Calad com a fuligem liberada. — Não, você não acredita e ambos sabemos disso. O Sr. Bolseiro tem um papel fundamental nessa jornada, assim como você.
A elfa pôs-se de pé em um salto e escorregou a lateral mais íngrime do morro, parando ao lado do mago. Ela escondeu o cachimbo entre as vestes e usou a manga para esfregar o próprio nariz. — E o que exatamente você espera que eu faça? Arraste-o até a Montanha Solitária?
— Se for preciso. — Gandalf já não olhava mais em sua direção, parecia estar centrado em algo no horizonte, cuja compreensão estava longe de seu alcance. Alguns minutos se passaram em sua contemplação até que o mago desse as costas para ela e inicasse seu trajeto de volta para a estalagem Beirágua. — Ah, estava quase esquecendo! Faça com que Bilbo assine isso. — O pergaminho foi lançado para a elfa e antes mesmo que ela pudesse pensar em algo para dizer, Gandalf desaparecido pela estrada.
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Ao acordar, Bilbo se deparou com uma Toca suja, mas vazia. O hobbit andou por cada um dos cômodos, analisou os estragos e procurou pelos anões que haviam estado ali na noite anterior. Talvez tivesse sido apenas um sonho ruim e ele não tivesse mais que se preocupar com dragões, magos e louças. — Anões, elfos e magos! Onde eu estava com a cabeça? — Ele riu sozinho, ajeitando a erva no cachimbo antes de se acomodar no banco de seu jardim. Os olhos foram fechados e ele desfrutou da tranquilidade de Bolsão por longos instantes.
— Você está atrasado. — Disse Calad, despertando sua atenção. O Bolseiro olhou de um lado para o outro, buscando outro que pudesse ser o alvo daquela acusação.
— Atrasado para quê? — Perguntou o hobbit enquanto afastava o cachimbo da boca.
— Isso vai depender de sua vontade. — A elfa apoiou ambas as mãos sobre a cerca que os separava e o observou atentamente até constatar que ele poderia não durar a primeira semana de viagem.
— Vontade de quê? — Perguntou de novo.
— De viver ou passar o resto de seus dias comendo, bebendo e fumando. — Calad ergueu os olhos para o céu e constatou que faltava pouco para a metade do dia.
O hobbit tragou o cachimbo mais uma vez. Os trejeitos foram contraídos em um semblante pensativo e ele voltou a olhar para a mulher. — O que há de errado em comer, beber e fumar?
— Ora, absolutamente nada. — Ela sorriu para Bilbo antes de voltar sua atenção para a estrada. — Eu apenas imaginei que sua vida deve ser bem pacata.
— Como a vida de todos os hobbits do Condado. — O Bolseiro se apressou em acrescentar. No fundo, havia uma inquietação que o fazia sentir a necessidade de convencer a sí mesmo de que sua vida era satisfatória.
— Bem, isso quer dizer que você seria o primeiro hobbit em anos a sair em uma aventura… — A elfa sabia que ele não cederia diante de uma investida direta. Tinha de usar a curiosidade de Bilbo para convencê-lo a partir.
— Em séculos! — Eetrucou. O dedo indicador foi erguido ao ar e ele piscou algumas vezes ao constatar que o rumo da conversa o desagradava.
— Pressuponho que essa jornada trará fama, fortuna e uma história que poucos em Arda serão capazes de contar! Sr. Bolseiro, o que mais seria necessário para fazê-lo assinar esse contrato? — O pergaminho foi empurrado para as mãos do hobbit. Ele precisou de algum tempo para assimilar a situação e quando o fez, respondeu-a um tanto exasperado.
— Uma pena, Sra. Calad. Eu preciso de uma pena!
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Eles conseguiram chegar à estalagem no exato instante em que o relógio solar indicou onze horas. O hobbit pareceu não aguentar a correria e precisou de algum tempo até que as primeiras palavras pudessem ser arrancadas de sua boca. — Aqui está o contrato. — O pergaminho foi entregue a Balin que o conferiu rapidamente antes de guardá-lo em sua mochila.
— Sr. Bolseiro, seja bem-vindo à comitiva de Thorin Escudo de Carvalho. — Balin apertou rapidamente sua mão antes de montar no pônei mais próximo. — Montem depressa! Os outros nos aguardam logo depois da curva.
Bilbo pareceu desgostar da idéia e sugeriu até mesmo acompanhá-los à pé, mas Calad o colocou sobre o pônei e o incitou a trotar até o fim do caminho. Logo em seguida, ela própria montou em seu cavalo e o seguiu até encontrar os outros.
— Eu disse-lhes que Sra. Calad era persuasiva. — Disse Gandalf.
— Também teria mostrado resistência se soubesse que seria ela a me convencer. — Kili admitiu e logo teve as costelas atingidas por uma cotovelada do irmão.
— Só se você quisesse receber um barbeado, anão. — Calad retrucou antes de indicar a adaga embainhada. Alguns risos ecoaram pela estrada antes que Thorin acabasse com o confronto.
— Vamos indo. Já estamos atrasados. — Resmungou o anão. Ele tomou a dianteira da comitiva e liderou o caminho durante todo o percurso através do Condado.
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