The Light of Dawn
9 O Festival
Notas iniciais
A nova perspectiva trazida por Bilbo fê-la sentir náuseas pelas baladas seguintes. O caneco de vinho foi rotacionado inúmeras vezes, os olhos mantiveram-se centrados na bebida e o silêncio foi seu único companheiro enquanto vagava até os jardins de Valfenda. A noite caíra há muito, mas Eärendil iluminava todo o vale até mesmo onde seus olhos eram incapazes de alcançar. Cálë buscou conforto entre os juncos de uma árvore, os dedos agraciaram as raízes e delinearam as deformidades do tronco até que o vinho a conduzisse lentamente ao sono.
Os passos apressados a levaram para longe dali. A grama foi esmagada pelos pés miúdos e o riso ecoou pelos jardins enquanto a pequena Cálë fugia dos braços de sua mãe. Não era diferente do esperado, mas era possível encontrar no olhar de ambas a luz que as unia. A elfa finalmente a apanhou pelas axilas, afundou o nariz entre os cabelos platinados e encurvou os lábios em um sorriso generoso. — Luz de minha vida. A estrela mais magnífica de Valinor! — A pele alva e luminescente de Calad irradiava a luz de Telperion e Laurelin, mas fora o amor de Yavanna que a tornara palpável. A pequena devolveu o sorriso que era destinado à sua mãe, a mão apequenada afagou seu rosto. Aos poucos, a luz pareceu deixar seus dedos conforme os dedos se engrandeciam: já não era a pequena luz de Yavanna. Em verdade, toda a sua luz fora esvaída. O coração foi acelerado, os olhos buscaram compreender a putrefação que iniciara sob seus pés, os joelhos vacilaram e a afastaram de Yavanna.
— Mãe? — Ela chamou.
Uma explosão cortou o céu, um raio provocado por uma das armas negras forjadas no reino de Angmar. A luz foi perdida, mas ainda havia em seu peito o remanescente daquilo que outrora havia sido.
— Perdida nas sombras… — A voz de Yavanna sussurrou em seu ouvido em seu ouvido. Um arrepio percorreu a cervical de Calad, o corpo foi girado sobre a base dos pés e ela continuou a busca em meio a escuridão. Ouviu os choros, os gritos e o inferno trazido por Melkor, mas nada poderia ser feito: estava tudo acabado. — Eu a encontrarei, filha de Yavanna. — A lâmina perfurou suas costelas, atravessou seus ossos e foi dissipada na escuridão no exato instante em que ela gritou.
Os dedos tatearam as próprias costelas e ela ainda gemia a dor sentida quando finalmente constatou a ilusão formada por seus sonhos. A elfa estava acostumada às visões que a acometiam, os pesadelos e sussurros que evidenciaram a ligação formada com o obscuro desde o cárcere em Angmar. Contudo, era a frequência com a qual era tomada pela escuridão que causava-lhe calafrios. Afinal, as trevas estavam retornando e não havia restado uma luz sequer em Arda.
As mãos foram repousadas sobre o rosto, livrando-na do suor que permanecia atrelado às suas bochechas. Fora apenas um sonho, um assombro do passado.
— Outra premonição? — Indagou o elfo, aproximando-se lentamente do leito ocupado por Calad. Em princípio, a penumbra não permitiu que ela identificasse o rosto de Elladan, mas a voz foi imediatamente reconhecida. — São tempos conturbados. Rumores têm se espalhado rapidamente sob montanhas e acima dos vales…
— Sempre serão tempos conturbados, Elladan. — A Calad estava inclinada a ignorar a pergunta do jovem elfo, mas a crescência de seus sonhos fê-la trair o próprio instinto. — Eram sonhos distantes, agora são…
— Fragmentos vívidos de sombras.
— Elrond acredita que algo está por vir. — Uma das sobrancelhas foi arqueada conforme a distância entre eles eram suprimida.
— Trevas. Como nunca antes vistas…
Os olhos de Calë perscrutaram os arredores em busca de suas armas, mas nada encontraram. A afirmação de Elladan servia apenas para muní-la com a convicção de que não havia mais tempo a ser perdido.
— Devo ir. Que a luz de Eärendil brilhe sobre você.
A mão de Elladan cortou o ar, envolveu o pulso da Calad e o puxou em sua direção. Queria mantê-la perto, mas um simples olhar trocado entre eles acusou que não havia nada a ser feito.
Uma vez mais, ela partiria.
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