The Last Walk
7 Chance de recomeçar.
Notas iniciais
Vai lembrando que a vida resolveu te dar uma chance para recomeçar, sabendo que esse tempo ruim vai passar e nada será como antes. Amanhã é outro dia, amanhã é sempre outra história. Agradeça e sorria.
Chimarruts.
Fevereiro de 2010
Isabella nunca tinha estado no Tribunal Superior de Justiça. Obviamente, já tinha passado em frente a sua fachada algumas vezes – principalmente quando ia ao shopping –, mas nunca tinha visto mais do que a frontaria imponente, rodeada de estátuas pitorescas, com uma grande escadaria de gesso antecedendo um vistoso edifício com janelas de vidro.
Nunca tinha adentrado ao local para vislumbrar aquele piso de mármore super lustroso ou aquelas escrivaninhas feitas da madeira mais nobre. E nunca imaginara que, no dia em que entraria ali, estaria com inúmeros repórteres em seu encalço, fazendo perguntas invasivas e embaraçosas, além de, claro, estar sendo alvo do ódio de metade do país.
Como havia prometido desde o começo, não abandonara Edward e Mallory Cullen. Todos a julgavam insana e injusta, por estar ajudando aquele vil assassino, inclusive seu próprio pai, que permaneceu inflexível durante todo processo e nunca perdeu a oportunidade de chateá-la e de discutir com ela, até que Bella aprendeu que o melhor era simplesmente ignorar. A todos. Desde seu pai até os jornalistas e a população que teimavam em julgá-la. Até as manchetes dos jornais, no qual aparecia sempre acompanhada de uma entrevista de Hope ou de Jamie Delacroix, onde eles diziam como a verdade seria revelada e como iriam gostar de ver a cara de otária que Bella ostentaria nesse momento.
Preferiu deixar tudo de negativo de lado e apenas se concentrar nas pessoas que a apoiavam, como sua mãe e Leah Clearwater. Resolveu se concentrar em Mallory e em como os olhinhos verdes dela brilhavam toda vez que via o pai. E resolveu se concentrar em Edward Cullen e no esplendoroso sorriso de contentamento que ele ostentava quando via que sair daquela terrível situação já era uma certeza. Que voltar para sua filhinha já era uma certeza.
Isso lhe deu forças para continuar a lutar naquela causa mais do que justa. E nada mais a abalou.
No entanto, ela ainda tinha apenas dezessete anos e o fardo que estava carregando naqueles meses era maior do que uma menina na sua idade poderia suportar, então, estava nitidamente mais magra e seu semblante nunca abandonava a faceta preocupada. Mas estava firme e, interiormente, bem sabia que tinha a força para enfrentar uma manada de bois, caso isso se fizesse necessário para proteger Mallory. Ou para proteger Edward.
O julgamento de Edward tinha o início previsto para as duas da tarde e o relógio dizia faltar quinze minutos. Bella estava isolada numa saleta particular, anexada ao a sala principal do Tribunal, que havia sido destinada as pessoas que assistiram ao julgamento.
Edward estava em outra sala, com Leah, longe do promotor de justiça, das testemunhas de acusação e das testemunhas de defesa. Mallory, obviamente, estava no orfanato, totalmente alheia ao dia decisivo que aquela terça feira era para seu papai.
Com os olhos marejados e um sorriso pesaroso, Bella encarava Hope e Jamie Delacroix, ambos sentados nas cadeiras acolchoadas a sua frente, fitando-a com um desprezo nítido que quase transbordava. Hope estava pálida e seus olhos pareciam constantemente lacrimosos; Jamie estava muito mais magro, com os ossos da maçã do rosto terrivelmente proeminentes. Se pedissem para Bella descrever o sofrimento, ela com certeza mencionaria aqueles dois.
Achou estranho o fato de Margot Peters não estar presente, mas logo agradeceu mentalmente a ausência dela. Não suportaria mais olhares depreciativos, como se a criminosa de toda aquela história fosse ela.
Em absoluto, jamais desejou ser a causadora de mais sofrimento àquelas famílias. Entendia que eles a viam como uma espécie de cúmplice, como um pilar da injustiça que estava tentando pagar assassinatos hediondos, soltando o causador deles. Mas ela era exatamente o contrário: Bella era uma espécie de justiceira que aparecera exatamente para fazer valer a verdade. E ela queria que todos tomassem ciência disso logo.
O único barulho naquela saleta de espera era o tique irritante de um relógio ébano que pendia na parede. O ambiente estava quase claustrofóbico e a tensão era palpável; Bella não parava de desejar fervorosamente que aqueles quinze minutos passassem logo para que ela pudesse sair dali o mais rápido que pudesse.
Finalmente, depois do que pareceram ser horas, um Oficial de Justiça adentrou a saleta, anunciando o começo do julgamento e dando permissão para que eles fossem ao Tribunal Principal, para então assistirem a tudo.
Bella e o casal Delacroix seguiram o Oficial de Justiça por um imenso corredor, que ornamentava pinturas renascentistas em ambos os lados, até chegarem a uma porta de madeira, a qual o Oficial abriu com um estrondo, revelando o Tribunal. A juíza não deveria ter mais do que trinta anos, sentada na plataforma mais alta do lugar, com suas unhas grandes e bem feitas e seus cabelos loiros platinados, brilhantes como o sol.
Ao lado da juíza, a cadeira onde as pessoas iriam depor estava fixada num pequeno palanque, sendo guardada por outro Oficial de Justiça dentro de um uniforme engomado. Bella logo pode distinguir o banco dos réus vazio, com Leah ao seu lado, de cabelos presos num coque, salto alto e a postura de quem pode vencer o mundo. Vendo-a tão confiante, Isabella logo tratou de ajeitar sua postura, empinando o nariz e passando fidúcia, mostrando o como estava certa do que estava fazendo.
O promotor de justiça estava do lado oposto ao de Leah, também trajado numa capa negra, com seus cabelos castanhos bem penteados e os olhos analíticos. Bella só ouvira falar dele algumas vezes e se lembrava de tê-lo comparado a um lobo predador em todas essas ocasiões.
Quando o relógio bateu duas horas em ponto, a grande porta pela qual Bella entrou abriu-se novamente e um Oficial de Justiça apareceu, conduzindo Edward Cullen até o banco dos réus. Todos os presentes – repórteres, alguns cidadãos comuns, Bella e o casal Delacroix – viraram-se imediatamente na direção dele, a maioria ostentando caretas de pura repulsa, como se algum animal doente tivesse ali presente.
Entretanto, Bella, ao mirar aqueles dois olhos verdes tão inocentes, não pode fazer outra coisa senão sorrir. Eu estou com você, tudo vai acabar bem.
Edward retribuiu o sorriso, mas Bella viu como ele ainda estava com medo de tudo dar errado e de ser condenado, ao fim das contas, por um crime que não cometeu e de continuar sendo alvo de tanto desprezo e ódio. Ele caminhou encurvado, acuado, certamente sentindo-se como um animal que está prestes a ser abatido.
Hope ficou muito mais pálida, chegando até a parecer translúcida, quando viu Edward passar ao seu lado; ela apoiou-se em Jamie e sussurrou, tão baixo que Bella quase não teve certeza de ter escutado:
“Matem-no duas vezes, eu imploro...” Palavras afiadas, carregadas de odiosidade, que fizeram até Bella encolher-se.
Ela entendia o que aquele casal estava sentindo, mas bem sabia que guardar tanto rancor não faria nenhum bem à eles. Perdoar, com toda a certeza, era uma palavra impensável para os Delacroix e Bella compreendia isso. Mas será que desejar tampar um erro com outro é o certo? Será que desejar a morte de outra pessoa é o melhor jeito de amenizar o sofrimento? Será que eles realmente se sentiriam bem com a morte de Edward, sabendo o quão desamparada Mallory ficaria? Será que isso não fez mossa à eles em nenhum momento?
Vingança era a única palavra que vinha à cabeça de Bella para descrever aquela situação. Não justiça.
Mas quem era ela para julgar, afinal? Ela estava do lado de Edward porque sabia da inquestionável inocência dele, mas e se ele fosse o culpado mesmo? Ela seria tão fervorosamente contra a pena de morte? Conseguiria enxergar o que enxergava naquele momento? Nada garantia que sim.
Por fim, com todos devidamente acomodados, a juíza deu início a sessão.
As testemunhas de defesas foram as primeiras a entrarem no Tribunal para depor.
Um vizinho de Edward que disse ter escutado a voz dele gritando com as vítimas naquela noite. Um médico legista que constatou que as lesões no corpo de Rebecca eram compatíveis com o tamanho de Edward. Um policial rechonchudo que estava presente quando Edward, supostamente, confessou todo o crime.
Todos conduzidos magistralmente pela voz baixa e incrivelmente manipuladora de Robert Hastings, o competente promotor de justiça, que prometera a todos os repórteres que Edward estaria a sete palmos da terra antes que qualquer um pudesse dar-se conta.
Cada um desses depoimentos, conduzidos tanto por Robert quanto por Leah, devem ter durado umas duas horas, até que, enfim, chegou a vez de Edward depor, conduzido por Robert.
Claramente trêmulo, o homem sentou-se na cadeira dos depoimentos, de frente para todo o Tribunal. Bella estava sentada em uma das últimas cadeiras, na última fileira, mas não pode deixar de vislumbrar o receio e o nervosismo que emanavam de Edward; ao fazer o juramento de praxe – prometendo solenemente ‘falar somente a verdade, nada mais do que a verdade’ – os olhos verdes encontraram-se com os castanhos e instantaneamente ficaram mais relaxados, como se uma injeção de ânimo lhe tivesse sido dada.
Bella sorriu, encorajando-o e dizendo, com o olhar, que tudo acabaria bem. Edward retribuiu, confiando plenamente na adolescente, exatamente como havia feito desde o início.
Robert rodeou Edward em silêncio, apenas analisando-o, como se estivesse estudando qual seria o melhor ângulo para atacá-lo. O Tribunal estava em completo silêncio e Edward estava quase afundando na cadeira, procurando o máximo desviar o olhar do promotor. Bella sabia que aquela reação era só o reflexo do quão perdido e amedrontado ele estava se sentindo, mas não podia deixar isso acontecer uma vez que a população poderia interpretar mal, por isso, assim que seus olhares se encontraram novamente, ela fez um gesto para que ele endireitasse a postura e levantasse o queixo. Meio confuso, Edward o fez, recebendo um sorriso de aprovação de Bella.
“O que o senhor tem a dizer sobre os assassinatos aqui julgados, senhor Cullen?” Robert finalmente disse, sua voz soando baixa e calma. Robert fugia a todas imagens de promotores que Bella já havia visto em filmes ou imaginado; ele não era teatral, exagerado ou desesperado para provar suas teses. Era extraordinariamente calmo, e conduzia os depoimentos de forma tão manipuladora que fazia com que as próprias testemunhas caíssem em contradição e dissessem o que ele queria que elas dissessem.
Era muito esperto. Mas Bella não tinha preocupações quanto a isso, porque Leah tinha o dobro de esperteza.
“Digo apenas que sou inocente.” Edward disse, e um bufo coletivo pode ser ouvido entre os espectadores. Hope estava a ponto de avançar em Edward, não fosse Jamie segurando-a pelos braços.
“De inocentes o inferno está cheio, senhor Cullen.” Robert sorriu torto, provocativo. “O que tem a me dizer sobre as provas que o incriminam?”
“Bem,” Edward começou, passando a língua pelos lábios e levantando os olhos, encarando Robert tão profundamente quanto lhe fosse possível. Não havia nenhum traço de incerteza em sua voz quando ele começou a falar, o que poderia levar a juíza a acreditar que ele era um excelente mentiroso ou estava falando a mais simples verdade: “Eu tenho que dizer que nenhuma espingarda jamais foi achada em meus pertences. E que nenhuma roupa minha foi manchada com o sangue das vítimas. E que, no horário do crime, eu estava dormindo com minha filha.”
“Ora, mas isso é fácil de explicar... Diga-me, meritíssima, esse senhor aqui presente não poderia ter lavado suas roupas e escondido a espingarda?”
“E o que eu fiz com o carro que levou o corpo de David até onde ele foi enterrado? Acabei com ele a marteladas?” Edward interrompeu o que quer a juíza pudesse responder a Robert, com sua voz soando cortante e inquisitiva.
“Senhor Cullen, não vou tolerar esse tipo de comportamento em meu Tribunal.” A juíza disse friamente e Edward voltou a sem encolher na cadeira, murmurando um envergonhado ‘perdão.’ “Continue, senhor Hastings.”
“Como eu ia dizendo,” Hastings retomou, dessa vez encarando a plateia, sua voz fluía com uma naturalidade impressionante e Bella teve que admitir que, apesar de tudo, Hastings nascera para aquilo. “Cullen diz que nenhum rastro de sangue foi encontrado em suas vestes e isso é verdade, mas nada o impede de ter lavado suas roupas antes da perícia chegar e também de ter escondido a arma do crime. Isso é uma coisa fácil de tapear. O que não pode ser tapeado, senhoras e senhores, é o fato do médico legista ter comprovado a compatibilidade das lesões no corpo de Rebecca com o tamanho de Edward Cullen e o fato dele ter confessado o crime até um tempo atrás, mas, de repente, ter resolvido voltar atrás e alegar inocência novamente” Robert virou-se na direção de Edward novamente, a sobrancelha arqueada em sarcasmo. “Aliás, isso é uma coisa que eu gostaria de perguntar. Por que é que o senhor confessou o crime, mas está voltando atrás agora? Ficou com medo de ter que acertar as contas no plano celestial? De ter que encarar Rebecca Delacroix e David Peters depois do que o senhor fez a eles? Foi por medo, não é senhor Cullen? Foi por pura covardia que o senhor voltou atrás na confissão e também foi por pura covardia que o senhor matou aquelas duas crianças...”
As palavras soavam extremamente afiadas e Edward recebia cada uma delas como um soco na cara, engolindo em seco repetidas vezes, a fim de não deixar que as lágrimas de raiva e temor lhe rolasse pelos olhos verdes. Bella, vendo o estado dele, estava quase levantando-se de sua cadeira e calando Hastings com sua própria mão, mas Leah logo interveio a seu favor:
“Protesto, Meritíssima.” Ela levantou-se de sua cadeira, imponente e confiante. “Ele está acuando meu cliente.”
“Protesto aceito. Recomponha-se, Hastings.”
Hastings assentiu e ajeitou o terno, retomando a postura. “Enfim, senhor Cullen, o senhor pode me dizer uma coisa? Como quer que acreditemos em sua inocência, diante de tantas provas irrefutáveis de sua culpa?”
Edward procurou os olhos de Bella e, depois de fitá-la por algum tempo, a procura de um ponto no qual se apoiar, voltou a encarar Hastings intensamente. “Eu sou contra assassinatos.” Disse firmemente, sem nenhuma evidência de insegurança. “Sejam eles cometidos por mim, por você, ou pelo Estado que, supostamente, deveria defender a vida acima de qualquer coisa.”
O Tribunal inteiro caiu num silêncio sepulcral. Chocados com a resposta dele e, obviamente, raivosos com tanta petulância vinda de um assassino tão frio e cruel. Mas Bella quis aplaudi-lo, pois sabia que ele não estava querendo soar atrevido ou cutucar o governo, estava querendo apenas fazê-los sentir-se responsáveis pela injustiça que estavam cometendo. Pelo menos por um pouco.
“Estou satisfeito. A senhorita Clearwater pode assumir.” Robert voltou a sentar-se.
Leah levantou-se e caminhou até perto de Edward, seus saltos mortíferos ecoando pelo assoalho. Sorriu para ele.
“Olá, senhor Cullen.” Disse, polidamente, e Edward apenas acenou de volta, ainda assustado. “Por que o senhor confessou um crime que não cometeu?” Leah sempre tão direta...
Edward engoliu em seco e se empertigou. “Me obrigaram. Me usaram como bote expiatório, porque sabiam que não iriam conseguir achar o culpado e que a população estava clamando por uma resolução rápida desse caso...” Edward calou-se por um momento e depois migrou suas mãos calejadas até a barra de sua camisa branca, erguendo-a até a altura do cotovelo e revelando inúmeras cicatrizes circulares, de procedência inimaginável. “Me obrigaram...” Sussurrou, fazendo com que todos entendessem.
Bella fechou os olhos fortemente, não querendo imaginar o quão horrível foi para Edward a contração daquelas marcas, e só voltou a abri-los quando ouviu a voz de Leah, alta e fluente.
“Bom, senhoras e senhores” começou, virando-se para a plateia e começando a andar de um lado para o outro “creio que já tenha ficado claro o que ocorreu nesse caso. Edward Cullen foi obrigado a confessar um crime que não cometeu, porque autoridades incompetentes não conseguiram uma investigação satisfatória e resolveram que seria infinitamente mais cômodo acusar o dono da propriedade na qual os corpos foram achados, mesmo sabendo que eles estavam colocando um inocente atrás das grades. Edward Cullen não possui carro e não poderia esconder uma espingarda pro resto da vida, embora seja nisso que os acusadores acreditam. Meu colega Robert Hastings acredita que Edward pudesse ter lavado suas vestes antes da perícia ter chegado e eu tenho que admitir que essa é uma hipótese razoável, porém estúpida, uma vez que não haveria tempo hábil para Edward poder livrar-se de uma quantidade tão grande de sangue. E sangue mancha qualquer tecido, ainda mais quando é tanto sangue. Mas aonde estão estes trajes machados? Edward Cullen é apenas um pai de família que, de repente, foi condenado a um crime hediondo injustamente.”
Bella sorriu enormemente ao fim do discurso de Leah, vendo como as palavras que saíram da boca da advogada não soavam como lorota ou como uma história mal inventada. Mas sim como a mais pura verdade.
A vez dos depoimentos das testemunhas de defesa finalmente chegou e, a cada um, Bella foi vendo como o semblante da juíza ia se alterando e suavizando, como ela também estava sendo convencida da incontestável inocência de Edward.
Um outro médico legista depôs a favor de Edward, desmentindo o anterior, dizendo que o sêmen encontrado no corpo de Rebecca não era pertencente a ele. Um policial também disse que vasculhou toda a casa de Edward, e também as redondezas, e não encontrou nenhum vestígio de espingarda. Um perito explicou como Edward jamais seria capaz de eliminar todos os vestígios de sangue de suas roupas em tão pouco tempo. E, então, as luzes do tribunal foram apagadas e um retro projetor passou a projetar a imagem de Mallory Cullen na parede. Leah havia gravado um vídeo com a filhinha de Edward, fazendo-a testemunhar a favor do pai.
Todos os presentes ficaram em silêncio e, de onde estava, Bella pode ver lágrimas marcando o rosto de Edward, como se a saudade que sentia de Mallory já fosse grande demais para ele poder suportar e tivesse que, de alguma forma, transbordar.
Leah havia posicionado a câmera de um jeito que só enquadrasse Mallory, com seus cabelos loiros presos numa Maria Chiquinha e seus olhos verdes muito curiosos. Brinquedos estavam espalhados por um tapete felpudo vermelho e, vez ou outra, Mallory se distraia com eles enquanto Leah lhe fazia perguntas.
A advogada perguntou à criança se ela se lembrava do que ela e seu papai haviam feito naquela noite específica e Mallory disse, sem nem pestanejar, que eles haviam brincado no parquinho e depois foram dormir, como sempre faziam aos sábados.
“Eu sempre ouço ele roncando e se mexendo muito” Mallory acrescentou, quando Leah lhe indagou se Edward poderia ter saído de casa naquela noite. “Daí, de manhã, uns homens feios bateram na nossa porta falando umas coisas estranhas que eu não lembro... Mas foi depois disso que eu fui pra casa das freiras e meu papai saiu de perto de mim.” A voz infantil abaixou um pouco, ficando tristonha.
“Mas me diz, Mallory, seu papai é um homem nervoso?”
Mallory inclinou a cabeça, confusa com a pergunta.
“Claro que não. Ele tem bastante paciência. Nunca briga comigo, nem quando eu faço xixi na cama. Quando isso acontece, ele só troca minhas roupas e me leva pra dormir junto com ele, me conta uma história e fica mexendo no meu cabelo até eu dormir de novo. Ele nunca arruma brigas.”
“E você acha que ele tem tudo que é necessário pra poder te criar?”
Bella quase pode ver as engrenagens do cérebro de Mallory trabalhando na busca do entendimento daquela pergunta. Por fim, ela responde com sua voz infantilmente angelical soando óbvia:
“Tem, ué... Tudo que a gente precisa é amor e isso ele tem de montão.”
E a gravação acaba.
Quando as luzes se acenderam, Bella viu que a juíza está com os olhos marejados. Ela tira os óculos e limpa as lágrimas dos cantos dos olhos, antes de dizer:
“Tudo bem, senhorita Clearwater, acho que já foi o suficiente.”
“Permita-me chamar minha última testemunha, meritíssima.”
Bella ficou confusa, porque Leah só havia comentando sobre aquelas testemunhas que já haviam feitos seus depoimentos até ali, não falara nada sobre a presença de mais uma.
“Senhora Peters, pode entrar”
Peters.
O tribunal inteiro cai em um burburinho de puro choque quando Margot Peters, mãe de uma das vítimas, entra pela grande porta, caminhando até a cadeira de testemunhas, de cabeça erguida.
Todos estão confusos e murmuram entre si, perguntando-se o porquê da mãe de David ter aparecido para testemunhar a favor de Edward e o que ela pretendia com isso, afinal.
As lágrimas de Hope Delacroix tornaram-se ainda mais abundantes, como se não tivessem mais fim, e a única coisa que ela conseguia fazer era murmurar incoerências calcadas em puro assombro. Bella olhou para Edward e o viu totalmente embasbacado, embora ostentasse um brilho a mais no olhar, contente por ter conseguido a crença de mais uma pessoa.
“Olá, senhora Peters,” Leah se pronunciou, depois da ordem ter sido restabelecida e de Margot ter feito o juramente habitual. “Parece que David fez uma ligação importante para a senhora antes de tudo acontecer.”
Margot assentiu e remexeu no cachecol de estampa de onça que usava. Olhou para Edward e passou a falar mirando-o diretamente nos olhos, como se ela devesse aquela confissão à ele.
“As nove da noite daquele sábado, David me ligou desesperado, dizendo que um homem havia forçado Rebecca a entrar no seu carro. Eles estavam comprando comida numa loja de conveniência quando esse homem entrou nessa loja e levou Rebecca. David me ligou quando estava seguindo esse homem, na tentativa de salvar Rebecca. Então, o homem parou o carro atrás da propriedade do senhor Cullen e David desligou o telefone, e o resto... Todos sabem.” Sua voz ficou baixa, trêmula por conta do choro.
“E esse homem era Edward Cullen?”
“Tenho certeza absoluta que não. David me disse que se tratava de um homem de cabelos pretos, alto e muito forte, com uma tatuagem no braço esquerdo.”
“E o que a senhora fez depois dessa ligação?”
“Liguei para a polícia, mas, quando chegamos lá... Já era tarde.”
Bella estava com a boca aberta em choque. A história de Margot mudava muita coisa. Mudava tudo. Era a prova cabal que faltava. Afinal, quais motivos Margot teria para mentir a favor do condenado?
“Eu precisava falar isso, senão me sufocaria a qualquer momento.” Margot voltou a falar olhando para a juíza, seus olhos castanhos derramavam angústia e estavam suplicantes. “Edward Cullen não matou ninguém. Não foi ele... Não o condenem... Não deixem Mallory passar pelo mesmo sofrimento injusto pelo qual estou passando...” As lágrimas logo tornaram-se torrenciais.
“Senhoras e senhores, tudo ficou claro para mim neste momento. Um homem desconhecido sequestrou Rebecca Delacroix e David Peters o seguiu com seu próprio carro até a propriedade de Edward Cullen, onde o homem matou-os. Edward esteve com Mallory todo esse tempo, preparando-a para dormir, como já foi alegado. Esse homem é desconhecido e provavelmente inalcançável... Seria isso motivo suficiente para condenar um inocente por algo que ele não fez?” Leah indagou a plateia e depois virou-se na direção da juíza: “Seria, meritíssima?” Arqueou uma sobrancelha, petulante.
A juíza loira estava completamente atordoada pela reviravolta do julgamento e todos os repórteres também estavam. Mas Bella estava mais do que satisfeita. Olhou para Edward, que estava com o rosto marcado por lágrimas de pura comoção e felicidade, e sorriu-lhe. Finalmente conseguira provar para todos como ele era um homem incomparável.
“Declaro encerrada essa sessão. Recesso de duas horas e voltaremos com o veredicto” A juíza finalmente disse, batendo seu martelo. Um burburinho geral tomou conta do Tribunal e Hope precisou ser levada as pressas para a enfermaria, com a pressão baixíssima. Hastings foi cumprimentar Leah e, de onde estava, Bella pode ouvi-lo dizendo algo como ‘eu sempre soube que você ganharia. A sua causa é indiscutível’.
Edward ainda estava em pé ao lado do banco dos réus, com a cabeça baixa, murmurando algumas palavras, certamente eram preces, mas Bella sabia que ele não precisava pedir por mais nada, que o resultado seria favorável a ele. A adolescente, então, sem ligar para protocolos, levantou-se e foi em sua direção. Surpreendeu-o com um abraço sufocante, envolvendo-o o mais fortemente que lhe fosse possível; Edward retribuiu de imediato, quase levantando-a do chão. O riso alegre dele tilintava nos ouvidos dela, fazendo com que desejasse ouvir aquele som pro resto de sua vida.
“Vou poder voltar para Mallory, Bella!” Ele comemorou, quase abobalhado.
Ela se afastou um pouco, apenas para poder olhá-lo nos olhos e ver como eles estavam cheios de felicidade. Brilhantes como duas esmeraldas.
“Vai sim, Edward! É claro que vai!”
“Obrigado, Bella... Obrigado por me salvar... Obrigado...” Quase que impulsivamente, o homem passou a distribuir beijos por toda a extensão da face dela, beijos demorados, ternos, amorosos... Que significavam muito mais do que agradecimento... Eu preciso de você... Não me abandone jamais...
Bella sorriu diante dos beijos e o estreitou ainda mais em seus pequenos braços, ficando completamente alheia a o quer que estivesse acontecendo ao redor. Era somente os dois naquele momento. Finalmente, sem prisões, sem acusações injustas, sem separação... Somente suas respectivas inocências e todo o futuro que poderiam ter pela frente. Juntos. Como deveria ser.
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