The Last Rogue
1 Prólogo - A Última Batalha
Eu já tinha decidido. Aquela seria minha última luta.
— Hein? Uma pessoa só? Estão de brincadeira, só pode. – Aquilo era realmente um saco. Eu estava mais chocado do que aquelas pessoas do outro lado da arena, minha equipe havia me abandonado. Eu olhei várias vezes para trás e para os lados, mas eu era o único presente ali da guilda Luna.
— Então isso aconteceu mesmo. – Eu respirei com certo alivio, era o fim. Depois de tudo que havia acontecido era normal que as coisas terminassem dessa maneira, meus sete únicos companheiros que restaram desde 'aquilo' tinham saído da guilda, confirmei isso ao acessar o menu de membros, aparecia apenas o nome LastRogue, o meu Nick.
— Ei, parece que toda guilda dele se desfez, que loucura. – Um dos membros do Abismo Infinito começou a rir enquanto outros pareciam recuar. Aquela era uma batalha importante, definiria a melhor guilda do servidor, um x1 definitivo, o mundo todo estava assistindo, eu nem sabia o que dizer, mas o cronômetro já estava correndo.
— Você só precisa se render cara, tem uma vaga na nossa guilda pra você, mesmo você sendo o líder de um dos suicidas. – A pessoa que disse isso sorriu ironicamente, aquele bando de sádicos egoístas. A maioria dos jogadores brasileiros de ToS eram desse tipo, pessoas que não se importavam com os outros, jogavam apenas por fama ou para trollar, mesmo os jogadores semi profissionais ou os level 100, ele era um tank de level 105, estava acima dos parâmetros da maioria dos tanks do servidor, mas depois daquela declaração eu não podia ignorar mais as coisas.
— Você pode falar o que quiser de mim. – Usando minha habilidade "Runner", cheguei ao lado do garoto em menos de 3 segundos, antes dele poder se mover, eu mudei das adagas grossas e pesadas para a adaga mística dourada, um dos 30 únicos equipamentos raros de Tales of Slyvia, e com um só golpe, dei um hit kill decepando a cabeça do rapaz que rolou para alguns metros dali entre os membros que estavam reunidos. – Mas não ousem falar dos meus companheiros, principalmente dos que não estão mais aqui. – Eu olhei para os outros que estavam ali perto, uma druida level 97 rangeu os dentes, o mago de fogo que era um dos oficiais recuou assustado, agora que eu havia feito o primeiro movimento não tinha como sair mais daquilo. Eu estava sozinho contra 7 jogadores profissionais.
— Tu é doente mano? – O primeiro a tomar a iniciativa foi um anão da classe atirador, era algo bem peculiar, mas era realmente bom, o Fenda_Negra, conhecido por ser esquentado e xingar todo mundo, já houve várias brigas em torno desse rapaz, ele era famoso por dar ataques pesados e não se segurar.
— Doente são vocês que estão jogando essa merda ainda. – Ele se aproximou de mim para começar a atirar, esperava me pegar no corpo a corpo e dar um dano maior, atrás de mim estava um guerreiro com seu escudo preparado para não me deixar recuar, eu podia me mover pra trás, o anão sacou as duas pistolas giratórias e começou a disparar enquanto dava lock on em mim, usei as adagas rápidas e comecei a desviar as balas com facilidade, usando o Agiliplus, uma habilidade que fazia eu prever as ações de qualquer oponente 2 segundos antes de tudo acontecer, aquilo não era nada, havia conseguido essa habilidade única depois de ficar 3 dias farmando na ilha do Canário Roxo no evento especial de boost há 3 anos, poucas pessoas conseguiram.
— Ele ta usando algum hack? – Uma healer do grupo conhecida como Madame Impiedosa começou a disparar raios de plasma em minha direção, o guerreiro atrás de mim começou a dar socos no chão para me desequilibrar, eu não podia negar que aquele era um grupo problemático, se eu perdesse o foco por um segundo iria morrer.
— Hack? Estão jogando isso há 10 anos e não sabem que é impossível isso? – Primeiro deveria lidar com as ameaças DPS, o guerreiro e o anão não eram o problema, mas o bruxo de dano que estava canalizando magia há alguns metros dali estava com sangue nos olhos. Ao todo aquela guilda era formada por um atirador, uma healer, um guerreiro, um bruxo, o tank que matei, um mago, uma arqueira e uma druida, eu devia prestar atenção no bruxo e na arqueira, eles além de serem os level mais alto também são os que estavam ali para realmente ganhar, já conhecia todos os membros daquela equipe, antes de qualquer confronto nossa guilda analisava todas as outras minuciosamente, apesar de dessa vez ter sido um pouco diferente. Depois de tudo que aconteceu todos ficaram em choque, não me espantou eles terem saído, mesmo sem me avisar... Na verdade, eu estava puto pra cacete. Sei que tivemos uma conversa anteontem, mas a ficha ainda não tinha caído. Minha raiva me fez entrar no meu modo destruidor, apesar de não ter mais motivos para vencer, eu faria daquela minha última luta e a mais épica que eu poderia criar dentro de ToS.
— Muito bem seu puto, não vai fugir de mim. — O anão começou a rir como louco, na verdade, esse cara era insano, ele mudava suas armas a cada segundo, revezava de metralhadoras para bazucas e armas de laser, eu comecei a correr usando a furtividade para me esquivar, vi que o bruxo estava canalizando uma bola negra repleta de raios, o seu MP parecia infinito, o guerreiro corria atrás de mim enquanto eu recebia uma chuva de flechas da arqueira que ficou parada em cima de uma roxa íngreme. O cenário era de uma arena com várias rochas e crateras, era muito difícil se mover, por sorte, minha classe era especializada em movimento, mas quando a helaer começou a me dar debuff e eu fiquei mais lento, o guerreiro se aproximou com um machado pegando fogo, ele começou a me golpear, eu desviava dando passos para a direita e esquerda, estava encurralado diante de uma rocha enorme, não tinha para onde correr, eu virei de costas pro mesmo e fui em direção a rocha, usei uma skill que diminuía a gravidade do meu corpo e saltei para cima indo até metade da rocha, ao dar um chute nela, fui parar atrás do guerreiro, ele tentou se mover para se virar mas eu era mais rápido, ativei a skill Iron Rain que lançou 10 lâminas em seu corpo, devido a armadura do mesmo não deu muito dano, mas ele ficou paralisado, enquanto isso atrás de mim veio o bruxo usando teleporte e me jogou a bola negra, eu desviei mas não completamente, parte daquela magia pegou em meu braço e tirou quase metade do meu HP, certamente o DemonUK era o membro mais forte daquela equipe.
— "Não posso apenas correr feito louco, eles trabalham bem em conjunto. Eu to meio abalado ainda, isso ta afetando minha concentração, preciso não pensar em nada, apenas agir livremente, como sempre faço." – Respirei fundo tentando esquecer tudo que aconteceu, mas como isso era possível? Não, não era. Foi pensando assim que avancei até o bruxo, eu precisava eliminá-lo para ganhar uma boa vantagem. Como ele era um char com pouca mobilidade, a arqueira deu cobertura para o mesmo atirando várias flechas que pegavam fogo quando chegavam ao chão, uma delas passou raspando por minha bochecha, por trás de mim o mago começava a lançar lanças de gelo, eu desviava porque estava usando o Hawkeye, uma habilidade que me possibilitava enxergar por trás dos oponentes.
— Esse cara é durão, não dava pra esperar menos do líder dos Luna. – O mago era o famoso Inglês John Stummy, um dos jogadores mais antigos de ToS, ele era uma pessoa calma e calculista, sabia que atacá-lo agora era um erro pois ele já devia saber meus movimentos.
— Não vai sair da minha vista seu bruxo feio. – Eu saltei para cima usando o "Bomb Yum", uma habilidade que fazia uma camada de fumaça ao meu redor, a arqueira disparou 5 flechas lá, obviamente isso era uma armadilha, mas ela não podia evitar de atirar, eu usei o 'Reflexo' enquanto estava no meio da fumaça e direcionei às flechas para o bruxo, uma delas atingiu sua perna, ele ficou ainda mais lento, quando fiquei visível a healer me deu um debuff pesado que me deixou fatigado, enquanto isso a Druida fez uma raiz de planta imortal agarrar minha perna esquerda, usei o incendiar na hora para queimá-la, mas uma lança de gelo atingiu meu braço, aquilo tirou uma bela quantia de HP.
— "Preciso começar a correr como antes, é minha única vantagem, mas essas pedras..." – O terreno era propício para o outro time, eles tinham escolhido esse local justamente por me conhecerem, além de estar sozinho, eu estava em um terreno que foi escolhido especificamente pra me derrotar.
— Não tem pra onde correr seu merda! – A Druida era a Diana Formosa, uma jogadora brasileira que era conhecida por dar em cima de vários jogadores, sua fama não era das melhores, mas ela tinha essa classe desde o começo do jogo. Ela criou uma Flor Maldita no meio do terreno que começou a sugar meu MP, aquela era uma habilidade apelona demais, eu caí no chão e comecei a disparar magias nas pedras que estavam no terreno, era a única maneira de correr, mas enquanto eu fazia isso o guerreiro caía em cima de mim com seu machado dourado.
— Não vai fugir. – Eu usei o 'Block' para segurar o ataque, mas atrás de mim a healer afundou a terra com seu poder de controlar elementos e eu escorreguei, o machado do guerreiro estava pressionado contra meu braço, usei a adaga invisível para golpear a perna do guerreiro que se afastou, o bruxo começou a disparar raios vermelhos que me deixavam cego por 3 segundos, usei a habilidade 'Night Vision' para enxergar, a arqueira já mandava uma flecha do cosmos na minha direção, se aquilo me pegasse já era. Pense. Pense. Não tive escolha se não usar minha ultimate, era um golpe que me fazia chegar em qualquer alvo que estava a mais de 20 metros apenas, a única era a arqueira, eu sabia onde ela estava, dei lock on nela e fui em sua direção, passei raspando em sua flecha e cheguei até a rocha onde ela se mantinha ajoelhada, usei as duas adagas da ultimate e cortei o seu pescoço. Menos um.
— Gastou sua ultimate com ela? Seu machista escroto! – A Druida parece ter ficado mesmo brava por isso, ela também usou sua ultimate, uma habilidade que me deixava preso em uma redoma de espinhos de uns 10 metros, enquanto isso eu não via o que estava acontecendo lá fora, aquilo era ótimo, aproveitei para me curar, mas me esqueci de uma habilidade da healer, a Druida desfez a ult antes do tempo acabar, em cima de mim já estava a healer disparando a sua ultimate que era um clarão de luz que se me acertasse, iria me paralisar por 10 segundos, aquilo seria o meu fim, não tinha como eu sair pelos espinhos que iam se desfazendo tendo em vista que o bruxo havia colocado veneno neles. O meu plano havia dado certo. Usei um clone e em seguida usei o "Salt" para pular para cima, a magia da healer havia afetado o clone, eu dei um giro para trás e acabei pegando em alguns espinhos, não tinha como evitar, eu fui envenenado e meu HP seria drenado até o final em 10 minutos. Era o tempo que tinha para matar todos eles.
— O maldito conseguiu fugir da ult da Mari? Mas como... – Era a primeira vez que eu via a expressão do bruxo ficar tão diferente, eu havia conseguido sair da vista de todos ali, usei o 'Speed Maximum' para acelerar, comecei a dar voltas em círculos naquele terreno e usava uma adaga longa para levantar terra e cobrir a visão de todos ali, o mago usou o Light para enxergar tudo na área, ele disparava bolas de fogo em minha direção mas não conseguia acompanhar minha velocidade, eu joguei a adaga longa e coloquei um efeito nela para que ela fizesse duas voltas nos círculos que eu estava percorrendo, assim todos pensariam que eu ainda estava fazendo as voltas, aproveitei e fui para atrás de uma rocha, vi o bruxo a poucos metros dali, ele se preparava para usar sua ultimate também, os filhos da mãe estavam desesperados, eu teria que usar o poder máximo das minhas adagas místicas.
— Um único movimento. – Fechei os olhos e respirei fundo, fiz um impulso com meu pé esquerdo e com um só golpe dei um hit kill no bruxo cortando-o ao meio, vários flashs de luzes se espalharam pelo local com meu golpe, peguei a adaga que estava correndo circularmente e a arremessei contra o guerreiro que vinha em minha direção, ele rebateu com seu machado mas em seguida eu parti pra cima do mesmo e dei dois golpes com a adaga da minha mão direita, o desgraçado tinha muito HP, ele caiu no chão mas não morreu ainda. A healer o curou imediatamente enquanto isso o mago fazia um tornado que me puxava com todas as forças.
— Nada foge das forças da natureza. – Eu não tinha como escapar mesmo, me deixei levar pelo tornado e ao entrar no mesmo a healer usou uma magia elétrica para me eletrocutar, meu HP estava chegando ao fim. Caí no chão e vi que o mago já estava criando uma barreira para me prender, ele usou o 'barrier' e criou um quadrado branco onde estava eu e o guerreiro, ele pretendia sacrificar um dos seus para acabar comigo, o guerreiro estava coberto com uma aura vermelha, aquele era o seu ult, que dava 10x mais de poder para ele em um minuto, algo que só no rank dele era capaz de acontecer.
— Eu vou, mas você vai junto. – Ele gritou e foi pra cima de mim com seu machado, eu não conseguiria quebrar aquela barreira nem com meu golpe mais forte, qualquer toque do guerreiro me mataria, e mesmo se eu o golpeasse, com esse efeito, ele não iria morrer. Comecei a me lembrar dos meus companheiros. O que diabos tinha acontecido? Como fomos parar naquela situação. Estávamos juntos até pouco tempo, então... por quê? Era culpa minha? Não, eu não podia me culpar, tudo que aconteceu não tem explicação, era até melhor isso, eu tinha já declarado que iria me retirar do cenário, desde o começo pretendia fazer daquela minha última luta, mas não esperava que fosse desse jeito. Esperava lutar com todos mais uma vez.
— Não vai acabar assim, meu fim vai ser diferente! – Eu encarei o guerreiro de frente, aquele norte americano bruto não me pararia, não hoje, não agora. – Usei as adagas que só eu tinha em ToS e usei um atributo que nunca haviam visto antes, pretendia usar isso algum dia contra o Rei Demônio, mas como eu iria me retirar dali, não fazia mais diferença. – Desculpe por você ser a pessoa que vai receber esse golpe doloroso. – Aquele era meu segundo ultimate, movimentei meus braços 20 vezes em 2 segundos fazendo mais de 30 cortes no ar, o guerreiro foi lançado para trás, eu só conseguia fazer isso uma vez, mas sabia que pelo efeito do guerreiro não o mataria, então eu faria mais uma, mesmo sabendo que aquilo acabaria com meu MP. – De novo! — Movi meus braços rapidamente e comecei a golpeá-lo contra a parede criada pelo mago, à força foi tanta que a parede se quebrou, pela primeira vez.
— O que? Ele quebrou a barreira? – Aproveitei aquela saída repentina onde o mago estava atrás de mim e cortei a sua cabeça. Meu MP chegou ao fim e meu HP, com mais um golpe, me levaria pra vala. Só sobrou a Druida e a Healer, mas eu estava no meu limite, ambas pareciam com MP e HP suficiente para me matarem.
— E-eu... – A healer se aproximou de mim mas ficou com medo do meu último golpe, ela estava distraída, usei apenas ataques físicos indo em direção a ela, mas a druida se jogou na frente e começou a defender com seus braços em volta de madeira que ela criou.
— Vai lutar comigo seu merda. – A druida desferia socos em minha direção, eu desviei todos no reflexo, ela era muito mais lenta, fui indo para trás, sabia que tinha um buraco a uns metros, eu dei um passo paro o lado e a fiz tropeçar, foi o bastante para acertar a adaga no peito dela, ela ainda conseguiu me segurar pelo braço, mas gritei na hora e isso a assustou, afundei mais a adaga em seu peito. Ela havia morrido.
— Só sobrou você. – Estava ofegante, minhas mãos tremiam, não sabia se iria conseguir lutar, meus dedos estavam duros, a testa suando, o suor caía em meu teclado, eu não conseguia mais ver a healer em lugar algum, ela estava escondida e pretendia me dar o golpe final.
— Tudo que passei até agora... Nada foi em vão. Naqueles segundos em que fechei meus olhos eu vi todo o tempo que passei em ToS. Lembrei do primeiro dia no jogo, das emoções que senti, da raiva, do medo, da frustração, da alegria, dos meus parceiros, da Clara, do Téo e do... Rodrigo. – Desculpa pessoal, eu não consegui ir além. – Usei meu instinto e saltei para cima no meio da arena, a healer disparou um raio de plasma em minha direção, no ar eu não conseguiria desviar, mas eu só podia fazer uma coisa. – Dedico isso a todos vocês, se estiverem me assistindo. – Vi onde a healer estava e arremessei uma das duas adagas místicas nela que a atingiu na hora e a derrubou, mas o golpe dela também me atingiu, usei a outra adaga para golpear o raio, mas parte dele me atingiu também, eu caí no chão e vi no meu status... eu tinha 2 de HP. Olhei para a healer e ela estava viva ainda, mas ao tentar se levantar ela acabou caindo e morreu. Eu tinha vencido. Depois de 1 minuto eu iria morrer em conseqüência do veneno dos espinhos, mas havia cumprido minha missão. Minha última missão.
— Hahaha... não achei que eu fosse ter sorte alguma vez. – Sorte? Do que eu estava falando? Eu havia perdido tudo. Ganhar aquela partida era minha derrota definitiva, o meu fim de uma jornada de 12 anos. Depois daquele dia, eu nunca mais jogaria Tales of Slyvia. Tirei meus fones de ouvido e os coloquei sobre teclado, eu não queria parecer fraco mas deixei uma lágrima escorrer pelo meu rosto.
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