Notas iniciais
HONEY, I'M HOOME!! XD

A manhã o acordou com a luz do sol batendo nos olhos de Jack. Eles não repararam que horas haviam apagado. Apenas acabaram cedendo ao sono, juntos, no piso frio de madeira. Jack acordou primeiro, assustado com a proximidade em que seus corpos estavam. Hiccup estava de costas para Jack, e com uma das mãos para trás. Devemos ter dormido de mãos dadas, pensou Jack. Constrangido, porém com uma doce sensação.

O rosto de Hiccup parecia ser mais jovem, mais relaxado quando dormia. Realmente, estava muito bonito. Mas os saqueadores haviam ido embora, e estava de dia. Não que os mortos-vivos não saíssem de dia, mas ainda era cedo. Dirigiriam melhor a essa hora, chegariam até a cidade na qual encontraram Hiccup ainda naquela tarde.

Jack penou para acordar Hiccup, mas assim o fez, fazendo com que os olhos do moreno se abrissem. Duas esmeraldas sorriam para Jack. Em seguida se assustaram ao ver que já era de manhã.

– Por que não me acordou mais cedo? — Reclamou Hiccup. Para isso, Jack apenas sorriu.

– Só acordei agora. E por sinal, você fala enquanto dorme. — Brincou Jack, não que isso fosse verdade, mas deixou as bochechas de Hiccup vermelhas.

– Os saqueadores? — Perguntou o moreno.

– Foram embora. Podemos ir. — Disse Jack. — Não achou nada na dispensa ontem, né?

– Nope, mas ainda temos enlatados pra duas semanas.

– Eu pensei que havia dito que uma já era o bastante. — Jack olhou as mochilas escoradas em uma parede.

– Não reclame, e afinal, você disse que estamos de carro. — Hiccup se levantou, esticando os braços para se despreguiçar. — Vamos, tem até ameixas secas!

E de fato, as ameixas eram incrivelmente suculentas. Não era muito diferente da gororoba que serviam na Arca. E ainda não havia restrição por peso. Os dois saíram depois de uns cinco minutos, não queriam desperdiçar o tempo. Encontraram um dos mortos-vivos perambulando pelo estacionamento.

A bala de Hiccup o acertou em cheio na testa, jorrando sangue pelo buraco de saída.

Jack o observou por um tempo enquanto ele recolocava a arma no cinto.

– Até que você é bem letal para uma pessoa tão pequena.

– Só tenho dezesseis anos! — Disse Hiccup.

Jack riu da expressão de censura do outro.

Foi nesse momento em que uma das grades do estacionamento tombou. O silêncio deu lugar ao tormento quando uma fileira de vampiros atravessou a entrada, uns trinta metros da caminhonete.

– Corra! — Gritou Jack, sentindo as pontadas no ombro pela ferida ainda em cicatrização.

Hiccup chegou a caminhonete vermelha primeiro, atirando-se no banco do motorista. Jack o estranhou por um momento. Mas se atirou para o lado quando Hiccup jogou o veículo para trás, atropelando um grupo separado de mortos-vivos. Em seguida, pulou para o banco do passageiro. Jack demorou um segundo antes de saltar para dentro.

Com um tranco, aceleraram para frente, derrubando a cancela de madeira na entrada do estacionamento. Na rua, filas de vampiros rastejavam em um único rumo, em direção ao centro da cidade. Saíam do estado de torpor quando viam a caminhonete cruzando a rua, e eram então esmagados quando Jack jogava o veículo em cima deles.

Não conseguiriam evitar os mortos-vivos por muito mais tempo, então saíram das ruas, indo até a avenida principal, direcionados para o norte.

– Nunca mais faça isso! — Exclamou Jack, acertando um tapa no braço de Hiccup

– Fazer o quê? — Disse Hiccup, a pistola bem segura em suas mãos, apontando para a janela da caminhonete.

– Você quase me atropelou! — Exclamou Jack.

– Nós fugimos, não foi? — Defendeu-se Hiccup. — Admite que deu certo.

Jack se manteve em silêncio.

– Funcionou. — Disse por fim.

Estavam em uma estrada interestadual quando ouviram o assobio do míssil.

Cruzando o céu ainda meio rosado, o míssil desenhou um perfeito arco vindo do Leste, sobrevoando a estrada onde os dois estavam.

– O que diabos é isso? — Disse Jack, observando o míssil pela janela. — Está indo na direção de Delta...

Demorou alguns instantes antes até que Hiccup entendesse o que era.

– Se abaixe! — Gritou, puxando a cabeça de Jack para baixo.

Um flash de luz foi percebido até mesmo pelos olhos fechados dos garotos, seguido por um alto estrondo. Mais alguns segundos até que a terra foi sacudida por uma nuvem de poeira, que empurrou a caminhonete alguns metros para o lado.

Quando se levantaram, viram a nuvem em forma de cogumelo a apenas uns vinte quilômetros de onde estavam.

+++

De onde o míssil tinha vindo, Jack não sabia. Só tinha certeza de que não era da Arca. Norte não possuía armamentos de larga escala como bombas atômicas. A nuvem de cogumelo permaneceu estampada no céu durante horas. Era meio-dia quando eles decidiram parar em uma pequena cidadezinha à beira da estrada. E a nuvem ainda era facilmente visível sobre as árvores.

– Por que será que eles dispararam? — Perguntava Hiccup enquanto arrancava a tampa de uma lata de pêssegos frios.

– Talvez para eliminar uma população de mortos-vivos. — Dizia Jack, mas nem ele acreditava na própria teoria. — Talvez para eliminar os saqueadores. Poderiam ter detectado a presença deles.

– O único que detectaria qualquer coisa no país seria... — E então a voz de Hiccup foi morrendo enquanto percebia a veracidade das próprias palavras. — ...o Governo.

Ambos se silenciaram.

– É melhor corrermos — Dizia Jack, observando a nuvem da bomba. — Talvez ainda cheguemos em Frisco essa tarde.

– Frisco? — Perguntou Hiccup.

– Foi onde te encontramos. Seguimos a sua transmissão até cairmos lá.

– Não, eu sei, mas é que é muito perto de Denver. — Explicou Hiccup, ainda sem se fazer entender.

– E daí? — Disse Jack, indiferente.

– Os vampiros se concentram nas capitais. É muito mais fácil para eles chegarem até lá em grande número.

– Daremos um jeito quando chegarmos lá. — Respondeu Jack, talvez exageradamente otimista. — Aliás, eu nunca perguntei, o que faziam em Frisco?

– Eu não sabia onde estava. Eu e minha mãe chegamos lá depois de seguirmos a interestadual. Tínhamos sido encurralados por um grupo de vampiros. Fugimos por uma escada de incêndio que nos levou para dentro de um prédio abandonado.

– Foi quando se separaram? — Perguntou Jack, receoso.

Hiccup apenas assentiu. Jack não iria força-lo a responder mais nada.

Saíram alguns momentos depois, seguindo a estrada a nordeste. Não sabiam exatamente como chegar até Frisco, mas seguiriam as placas de sinalização. A caminhonete possuía um mapa, porém não especificava as cidades menores. Seguiram em direção a Denver. O sol já estava alguns graus mais baixo do que antes. Deveriam ser umas duas horas. Hiccup e Jack conversavam sobre assuntos aleatórios. Hiccup falava sobre a vida antes da pandemia, e Jack dizia o que se recordava sobre a Arca, como foi construída, a história de como Norte a encontrou.

Pareciam amigos de longa data enquanto tagarelavam sem parar sobre coisas cada vez mais pessoais. Iam de modos de matar um morto-vivo para de onde vieram, amigos, locais que já visitaram, as buscas de Jack, e relacionamentos que nenhum dos dois jamais tiveram.

– Nunca tive uma namorada — disse Hiccup, refletindo. — Ainda tinha só dez anos quando essa merda toda começou.

– Eu também nunca tive ninguém nem mesmo na arca. — Disse Jack. — E também não me lembro de nada antes de um ano atrás.

– Eu só havia encontrado um outro Evoluído antes de vocês me resgatarem.

– O que aconteceu com ele? — Perguntou Jack. Hiccup ponderou um tempo antes de responder.

– Foi morto no começo do ano. Estávamos em Chicago, em uma das áreas seguras, quando destruíram as muralhas de contenção. Não tivemos tempo de separar nenhuma bagagem antes de fugirmos.

– Zonas seguras? — Indagou Jack — Pensei que as capitais haviam sido derrubadas.

– E foram quase todas, mas ainda há uma em Chicago e outra em Detroit. Talvez tenha uma em Nashville também, mas não tenho certeza.

Jack ficou em silêncio por um tempo.

– E como são? — Perguntou por fim.

– As Zonas Seguras? As que ainda funcionam são operadas pelo governo. Mas há outras operadas por civis, mas nenhuma como a Arca. Nunca vi nenhuma dessas, porém. Geralmente cidades pequenas de beira de estrada que tiveram a sorte de não serem afetadas. Os moradores construíram muros ao redor das cidades e vivem em uma eterna guerra para impedir os vampiros de entrarem. A maioria dos sobreviventes estão perdidos por aí, apenas sobrevivendo. Eu me lembro que a capital de Minessota, Mineápolis, foi a primeira a ser desativada.

– Desativada?

– Sim, simplesmente saiu do mapa. Aparentemente os danos lá se tornaram irreparáveis, rebaixaram a cidade com explosões atômicas.

Se mantiveram quietos em seguida. Foi quando ouviram leves estalos vindo do banco de trás. Hiccup se virou de imediato, agarrando uma pequena bolsa preta. Abriu o zíper, vasculhando o interior. Recolheu uma caixa escura com uma antena. Um rádio.

Transmissão... emergência... na-cional... – A estática impedia as ondas de rádio.

Jack encostou o veículo. Hiccup abaixou a janela, estendendo o rádio para fora. Girou os botões algumas vezes até que o sinal se estabilizasse.

Ouviram um apito grave e horripilante, seguido por uma calma e neutra voz masculina:

Isso não é um teste. Isso é uma Transmissão de Emergência Nacional. Repetindo, isso não é um teste. – As palavras causaram arrepios em ambos. Mais três apitos soaram do rádio. — Essa mensagem é destinada a todos os sobreviventes próximos de cidades capitais. Uma ordem de evacuação obrigatória foi mandada diretamente pelo gabinete da presidente Hale. Mísseis nucleares foram detectados nos radares aéreos. Todos os sobreviventes próximos as capitais devem procurar abrigo imediatamente. — Hiccup e Jack se encararam, e então procuraram pela nuvem que ainda pairava sobre Delta. Houve mais três apitos, e a transmissão se silenciou.

– Estamos muito perto de Denver! — Disse Hiccup. — Se minha mãe ainda estiver em Frisco...

Jack o acalmou colocando uma mão em seu ombro.

– Hey, se acalme, eles não especificaram as capitais. Estamos perto, olhe! — E apontou para uma placa que indicava Frisco: 13 quilômetros.– Vai dar certo.

+++

Já eram por volta de três da tarde quando chegaram em Frisco. Nenhum míssil havia sido lançado, nenhuma agitação foi percebida. A avenida principal estava do mesmo jeito de quando eles estiveram lá pela última vez. Vazia. Jack viu a sombra de um dos vampiros se esconder por uma janela estilhaçada.

Saíram da caminhonete. Ainda estava claro, o que era uma vantagem. Ainda haviam poças de água da chuva de dois dias atrás.

– Certo, faremos exatamente como da última vez. — Disse Jack, mas se esquecendo que estava com Hiccup, e não com Sandy. Teria que explicar o que fariam. — Subiremos por uma escada de emergência, os telhados são mais seguros a esse horário. Voltaremos assim que o sol baixar, o que nos dá mais ou menos umas três horas.

Hiccup assentiu. Sabia onde estava. Se recordava da avenida principal, dos prédios baixos e das ruelas estreitas por onde passara.

– Por aqui! — Disse o moreno.

Seguiram até a fachada de um edifício de três andares, Hiccup escalou na frente. Do alto, podiam ver até onde o limite da cidade se estendia. A maioria dos prédios eram bem baixos. Havia apenas um hospital ligeiramente mais alto, talvez com quatro andares.

– E agora? — Disse Hiccup.

– Os mortos não conseguem escalar até aqui, estamos seguros por enquanto. Agora me diga onde a viu pela última vez.

Atravessar os telhados era relativamente fácil. Haviam tábuas de madeira para se apoiarem, ou escadas móveis de escalada. Porém era uma cidade pequena, e a área comercial, onde os prédios eram próximos, não lhes davam muita liberdade. Entretanto, Hiccup não havia ido longe, logo estavam no lugar que procuravam.

– Ela foi por ali — apontou para o prédio que cercava a viela. — Ela atraia os mortos-vivos enquanto eu procurava pelo rádio pra iniciar a transmissão.

Entraram no prédio pela janela, pendurando-se pelos parapeitos. Mobílias de madeira estavam jogadas para os lados, diversos cacos de vidro espalhados no chão. E nenhum sinal de vida.

+++

Já haviam se passado três horas, e o sol estava se pondo no horizonte, tal como Jack havia falado. Mas não encontraram Valka. Encontraram alguns mortos-vivos pelas ruas, mas que não repararam na presença dos garotos. Muito menos da van estacionada algumas quadras dali.

Por fim, Hiccup estava se entregando ao desespero. Apertava a cabeça com as mãos, como se quisesse esmagar o próprio crânio. Essa imagem causava desespero também em Jack. O que raios poderia fazer?

Estavam exaustos, imundos, e agora também estavam a apenas um fio de entrar em pânico.

– Hey, Hiccup! — Mas Hiccup não o ouvia. Se apertava com cada vez mais força. — Hiccup! — Jack podia jurar que logo sairia sangue pela cabeça do garoto. — Ethan!

O nome pareceu despertar o garoto. Encarou Jack com suas írises verdes claras. Jack puxou Hiccup para um abraço, mas Hiccup não o retribuía. Não expressava reação nenhuma.

Apenas o apito no rádio chamou a atenção de Hiccup.

Outra transmissão de emergência.

Isso não é um teste. – Jack estava a ponto de jogar o rádio para o lado quando as palavras tomaram um rumo totalmente novo. — Todos os sobreviventes que se encontrarem nas cidades de Los Angeles, Saint Louis, Oklahoma, Amarillo e Denver dever procurar abrigo imediatamente. Repetindo, quem se encontrar nestas cidades ou em cidades próximas, devem procurar abrigo imediato.

A transmissão se encerrou do mesmo jeito que começou.

Não havia local mais seguro do que nos subterrâneos. E com certeza havia refúgio no estacionamento do Hospital. Não tinham como se preocupar com os mortos-vivos. Apenas corriam pela rua, estavam a apenas uma quadra de distância. Os vampiros os reparavam aos poucos, se aglomerando em uma horda atrás deles. O Hospital ainda estava livre.

Foi quando o assobio do míssil foi ouvido pela segunda vez naquele dia. Estavam quase no Hospital. O prédio branco parecia crescer conforme eles se aproximavam. O peso das mochilas causava pontadas de dor no ombro de Jack.

Hiccup olhou para cima a tempo de ver que o míssil de repente se desmontara, dando lugar a dezenas de mísseis menores.

Tinham acabado de alcançar a porta do Hospital quando ouviram as explosões.

Em questões de segundos, os dois se jogaram em escadas de emergências que os levariam até o subsolo. E então a cidade foi coberta pela nuvem de calor.

Notas finais
Crii crii crii...