Notas iniciais
Olá galera! Esse demorou um pouco mais pra sair, mas em compensação veio maior! Espero que gostem! Muito obrigada a todos pelos comentários e feedback, ajuda muito :D

Apesar das cinzas voando a nossa volta junto com a brisa da noite de verão e dos restos do incêndio por todos os lados, o chão estava tão frio quanto os corpos inertes sobre ele. É estranho escrever isso com todas essas palavras, mas foi exatamente isso o que pensei naquele dia.

Já haviam se passado sete anos desde minha entrada na Federação. Em algum momento nesse período, a guerra – que por um momento parecia finalmente estar prestes a acabar – se intensificou ainda mais e acabou alcançando parte de Strot. Chegou a quase alcançar a cidade onde fica a sede da Federação.

Naquela noite tínhamos saído para uma ronda numa cidade onde bombas caíram. Estávamos lá para resgatar qualquer sobrevivente e levá-lo para a sede, onde seria tratado receber todos os cuidados necessários até estar apto para decidir se ficaria conosco ou em uma casa nova.

Fomos num grupo de dez, o padrão para essas situações em que havia possibilidade de haver muitos feridos ou muitos mortos. Dara, Bennet e Samuel estavam lá também. Nós nos separamos para que cada um pudesse procurar em um canto e, assim, sermos mais rápidos.

Lembro-me de que as cinzas irritavam meu nariz e meus olhos. Eu queria sair logo dali. Por mais que me preocupasse com a vida das pessoas, o estado da cidade me lembrava o que tinha acontecido com a minha. A diferença era que aquela tinha sido atingida por mais bombas – agora mais evoluídas – e o estrago acabou sendo bem maior.

Demorei algum tempo para avistar uma mão perdida de fora de escombros que horas antes deviam formar uma casa. Meu coração começou a bater descompassadamente com a possibilidade de haver algum sobrevivente ali. Tirei os pedaços de madeira o mais rápido que pude.

Vi, então, que eram duas pessoas. Uma mãe em cima do filho, abraçando-o e protegendo-o com seu próprio corpo. Senti um certo mal estar ao pensar que minha mãe teria feito a mesma coisa se precisasse, e com os dois filhos.

Tirei a mulher delicadamente de cima da criança. Foi difícil; suas costas tinham muito sangue. Depois de sete anos na Federação e dois fazendo missões de resgate, ainda não tinha me acostumado a ver pessoas sangrando tanto. Nunca me acostumei.

A mãe estava claramente morta. Mas seu filho, quando o examinei, ainda tinha fracos batimentos cardíacos. Ele estava inconsciente e tinha muitos ferimentos. Precisava ser levado logo para a sede.

– Encontrei mais uma falecida – disse para o comunicador preso em meu ouvido. – E também uma criança ainda viva, mas inconsciente e ferida. Tem que ser tratada imediatamente.

A voz já grave e sempre familiar de Samuel respondeu:

– Captei. – Ele era o único que falava “captei” ao invés de “compreendido”. – Está na área D, certo?

No caminho para o local atingido, sempre usávamos o seu mapa para dividi-lo em áreas e designar cada um em uma delas. A quantidade de áreas e seus tamanhos variavam de acordo com o número de pessoas selecionadas para a missão. No caso, ia de A até J, e não eram muito grandes.

– Certo.

– Sorte a sua que estou na C. Chego em breve.

Samuel continuava sendo meu melhor amigo. Passamos pelo teste de admissão para o grupo de resgate da Federação aos nossos quinze anos e desde então sempre estivemos juntos em cada missão que fizemos. Dara e Bennet sempre estavam conosco quando podiam, só que, como passaram no teste antes de nós, tinham seus próprios parceiros, e não era toda a vez que nossas missões coincidiam.

Meu amigo logo chegou com uma caminhonete branca com o símbolo de nossa organização estampado na lateral: uma ave azul dentro de um círculo preto, no qual havia um pedaço faltando. Michel me contou que aquele buraco no círculo era a única saída para a ave, mas eu ainda não compreendia muito bem.

A parte de trás do veículo estava cheia de sacos pretos, metade deles já com corpos dentro. Só tínhamos cinco caminhonetes, então formamos duplas para dividi-las: o responsável da área A dividia com o da área B, e assim por diante. Porém tenho certeza de que a maior parte dos mortos foram encontrados por Samuel.

Ele desceu da caminhonete para cobrir a mulher com outro saco enquanto eu acomodava a criança no banco de trás. Peguei um pano no porta-luvas para limpar o sangue de seus ferimentos. Presumi que o garoto tivesse uns oito anos pelo tamanho, entretanto, não dava para ter certeza. A intensificação da guerra tinha acabado com várias áreas de colheita e florestas, o que diminuiu a quantidade de alimento em alguns lugares e causou falta de nutrição para muitas pessoas. Não era raro ver uma criança de onze anos com tamanho de seis por não ter os nutrientes necessários para crescer normalmente.

– Ele vai ficar bem – Samuel disse ao voltar para seu posto de motorista.

Sentei-me no banco de carona e coloquei o cinto.

– Eu espero que sim. Sua mãe deu a vida por isso.

Samuel não fez nada além de me dar tapinhas no ombro e ligar o carro. Não havia muito o que fazer. Ambos de nós já tínhamos visto situações difíceis como aquela e sabíamos muito bem que um “sinto muito” não apaga as lembranças.

A caminho da saída da cidade, uma voz me chamou pelo comunicador:

– Ariel? Está na escuta?

Era Dara. Apertei o botão do comunicador e respondi:

– Estou. O que foi?

– Como estão as coisas?

– Bem. Eu e Samuel já terminamos e estamos voltando agora. Onde você e Bennet estão?

– Estamos voltando também. — Ela fez uma pausa. Ao voltar, sua voz estava mais suave e com uma pontada de preocupação. – Você está bem?

Dara me fazia essa pergunta ao final de cada missão desde que eu entrei na equipe de resgate. Sempre valorizei sua preocupação e seu esforço para preencher o vazio que nossos pais deixaram, e por isso nunca consegui lhe dizer que ela não conseguia – e nem devia – ser irmã e mãe ao mesmo tempo. Gostava dela sendo apenas minha irmã mais velha que me dava puxões de orelha de vez em quando.

– Estou sim. E você?

– Também estou. Só me dói que tenham tantos mortos e poucos sobreviventes. Sobrou algum vivo na sua área?

— Sim. Um garotinho. A mãe se sacrificou para protegê-lo.

Um silêncio extremamente desconfortável e melancólico se instalou entre nós. Deve ter levado um minuto para Dara conseguir dizer algo.

– Ele está...

— Inconsciente. Nós estamos indo o mais rápido possível para a sede – disse olhando para Samuel.

Ele acenou com a cabeça, indicando que captou o recado, e acelerou um pouco mais. Não havia ninguém ali para nos parar caso acelerássemos muito, mas estava de noite, só tínhamos as luzes do carro e estávamos cansados. Ir muito rápido seria uma demonstração de idiotice e tentativa de suicídio.

– Se apressem — ela disse antes de desligar.

. . .

Quando chegamos na sede e nos perguntaram como havia sido a missão, a primeira coisa que disse foi que precisava de assistência médica urgentemente.

O menino foi levado depressa em uma maca para a ala hospitalar. Vê-lo lá me deixou mais tranquilo. Não queria que ele morresse de jeito nenhum, não depois de ver como sua mãe queria que ele vivesse.

Os outros foram chegando pouco tempo depois. Eu estava sentado em frente à ala hospitalar quando Dara apareceu.

– Como ele está?

Dentro dos sete anos que se passaram desde que entramos na Federação, Dara se tornou uma mulher linda. Ficou mais alta, o cabelo castanho cresceu e vivia preso, os olhos escuros ganharam um brilho de sabedoria. É assim que me lembro dela agora. Naquela época, porém, só conseguia pensar no quanto ela tinha ficado linda.

– Está se recuperando. O doutor disse que vai me dar mais informações assim que puder.

– Que bom. Então venha comigo. Preciso te mostrar uma coisa.

Não queria sair de perto da criança, mas era uma ordem de Dara Fidellis, uma das pessoas mais respeitadas entre os jovens da Federação, a pessoal cujo potencial era comentado pelos mais velhos desde o nosso primeiro ano lá. Mais do que isso, era a minha irmã.

Me levantei para acompanhá-la pelo corredor ao lado. As paredes deste eram enfeitadas por quadros contendo frases motivadoras e otimistas de grandes líderes de nossa organização, pinturas que só mostravam ambientes e situações pacíficas e felizes, e em alguns, murais com alguns avisos e um mapa sempre necessário do grande prédio.

Continuamos andando em linha reta até descermos uma escada. Chegamos em uma sala espaçosa e redonda cheia de papéis contendo mapas de cada país e do mundo todo, notícias, e vários outros documentos – a sala dos arquivos. E debruçado sobre a mesa central estava Bennet.

Ele se tornou um homem forte e ainda mais carismático do que já era. Seu braço direito musculoso de alguma forma tirava um pouco da atenção que seu cotoco chamava. Este sempre ficava a mostra porque a camisa branca de Bennet era – por sua própria escolha – sem mangas, mas ao menos ficava sempre enfaixado. Seu cabelo loiro estava bem curto e sua barba recomeçava a crescer, dando-lhe um aspecto militar e mais duro do que ele era de verdade.

– Ariel! – Bennet me cumprimentou com um sorriso quando me viu indo até a mesa. – Como você está?

Mesmo depois de todos aqueles anos e de todas as pessoas que conheci na Federação, Bennet continuava sendo meu ídolo. Ele só perdia para Michel – e por pouco – na minha “lista de admiração”.

– Estou bem. O que vocês querem me mostrar?

Ele ergueu as sobrancelhas e soltou uma breve risada.

– É, estou bem também. Venha aqui.

Me aproximei da mesa, com o rosto vermelho de vergonha. Sempre me esquecia de perguntar como a outra pessoa estava. Era a ansiedade. Vinha tentando melhorar isso já tinha algum tempo.

Havia três mapas na mesa circular: um de Strot, um de Alastron e um de Silc. Todos estavam marcados pela caneta vermelha que Bennet tinha na mão.

– Veja só. Os círculos indicam as áreas com risco de serem atingidas. As que já foram destruída estão com um X. Dê uma olhada em Alastron.

Eu já sabia o que iria ver: quase todas as cidades do litoral de nosso país de origem tinham um X em cima, e as que não foram destruídas estavam circuladas. Algumas das maiores cidades também tinham caído. Muitas do interior foram arrasadas.

Nossa cidade natal era uma das destruídas entre as cidades do litoral. Mas isso eu já sabia há muito tempo. Isso não seria tão abalador se não fosse pelo fato de o prefeito ter ficado lá.

Durante a nossa primeira refeição na Federação, um de meus conterrâneos sentiu a falta do prefeito Chester. Um conselheiro dele contou que seu chefe tinha escolhido ficar na cidade no final das contas. Parece que ele não queria deixar sua terra abandonada, e já estava assombrado demais pelas perdas da noite anterior. Todos ficaram arrasados. Para falar a verdade, eu fiquei um pouco desapontado.

– Agora – Bennet tirou o mapa da minha frente e colocou outro em seu lugar –, veja o de Silc.

Silc também tinha alguns litorais destruídos, embora não fosse tanto quanto Alastron. Suas maiores cidades estavam todas em risco, e as menores, destruídas. Mas a superioridade territorial e urbana de Silc sobre Alastron ajudava a deixar claro quem estava ganhando aquela guerra. Eu só achei uma coisa estranha ali.

– Não é pouca destruição para sete anos de guerra? – Perguntei.

– Foi o que pensamos também – Dara disse. – Mas então nós vimos os dados de Strot.

Bennet colocou o terceiro mapa diante de mim. E aí eu entendi.

Havia mais áreas atingidas em nosso país atual do que pensávamos. A maioria das áreas eram pequenas e nem eu conhecia. Algumas cidades grandes estavam em risco. Aquela da qual tínhamos acabado de voltar já estava com um X. E o porto mais perto da sede estavam no alvo também.

Mas o mais chamava atenção era o grande X no sul do país.

– Parece que eles moveram as batalhas para cá – minha irmã comentou.

– Isso não é justo – falei. – Strot não está na guerra.

Bennet fez uma careta.

– Tecnicamente não. Mas acreditamos que o governo esteja apoiando Alastron de alguma forma.

– Faria mais sentido se estivessem apoiando o lado com mais vitórias.

– O armamento de Silc por si só é perfeitamente capaz de fazer todo esse estrago. Já Alastron não teria ido tão longe sozinho.

Uma das primeiras coisas que aprendemos na Federação foi que devemos ser otimistas e sempre enxergar a bondade inata de todas as pessoas. Nossos líderes diziam que, se os governantes de Alastron e Silc tivessem feito isso, a guerra nunca teria começado. Mas ainda era difícil para mim. E é por isso que eu não conseguia achar possível que o presidente de Strot fosse realmente tão bom a ponto de se envolver na guerra ajudando um país quase destruído.

Não queria admitir isso na frente de Dara e Bennet. Então só mudei de assunto:

– Onde vocês conseguiram esses dados?

Minha irmã e meu amigo trocaram olhares cúmplices. O último fechou os mapas e abriu um sorriso fácil, quase como se não fosse forçado.

– Não seja chato, Ariel. Isso realmente importa?

– Nós encontramos essas informações e achamos que você precisava saber. Pode contar a Samuel também. Mas é importante que só nós quatro saibamos disso aqui – Dara me encarou com uma sobrancelha erguida. – Entendeu?

– Por que eu precisava saber?

Dara inclinou um pouco a cabeça para o lado e suavizou a expressão.

– Você não percebeu?

– O quê?

– Nosso país está prestes a cair.

É claro que eu tinha percebido. A questão era que Dara ainda era muito mais ligada ao nosso país de origem. Eu fiz muito esforço para esquecer o que tínhamos vivido lá, enquanto ela continuou ligada ao passado. Eu entendia que minha irmã tinha vivido mais lá e tinha tido mais experiências do que eu. Só que não conseguia concordar com todo aquele apego.

– Talvez seja uma chance de finalmente o deixarmos para trás.

Só depois de dizer isso me dei conta de que não tinha considerado o sentimento de Bennet em relação ao assunto. Ele pareceu chocado com o que disse. Dara me olhou como se eu tivesse dito a maior estupidez do mundo.

Talvez tenha dito mesmo.

– Ariel! – Era Samuel. Ele me chamou do alto da escada. – Michel está te chamando na sala dele!

Fiquei aliviado por meu amigo ter chegado no exato momento em que eu precisava fugir dali. Mas Samuel deve ter sentido o clima pesado, pois sua expressão, sempre serena e contrastando com sua voz firme, se contraiu em preocupação.

– O que está acontecendo aqui embaixo?

– Nada – eu disse, já subindo as escadas. – Bennet e Dara têm algo para te contar.

Samuel deu de ombros e foi em direção aos dois.

– Desde que não seja uma nova piada de Bennet...

Ri sem querer. As piadas dele eram mesmo ruins.

. . .

Michel me encontrou no caminho para a sala dele. Deu dois tapinhas com sua mão ainda pesada em meu ombro e me guiou para outra corredor, um que ia para a enfermaria.

– Como vai, garoto? Se saiu bem na missão de resgate?

Michel tinha se tornado o meu tutor. Era ele quem me dava dicas para missões e treinamentos e as orientações do que deveria ser feito. E ainda me dava conselhos sobre a vida pessoal. Michel foi a pessoa que assumiu o lugar que meu pai deixou.

– Acho que tudo saiu como planejado. Resgatamos os vivos e retiramos os mortos.

– Correto. Então por que você diz que “acha”?

Ele também tinha a ideia de que dizer “acho” demonstrava insegurança sobre o que estava dizendo, e que uma afirmação que começasse com “acho” não era uma afirmação. Ri sem graça e olhei para o piso marrom que imitava madeira.

– Desculpe. Eu tenho certeza de que tudo saiu como planejado.

– Agora sim – Michel alargou o sorriso. Seu sorriso continuava brilhante e energético como na primeira vez que o vi. – Vi que você resgatou um garotinho em sua área.

– Sim.

– Precisamos conversar sobre ele.

Fiquei com medo. Já comecei a imaginar que o garoto não tinha conseguido sobreviver aos ferimentos, que seus batimentos cardíacos tinham parado ou que ele tinha entrado em um coma profundo.

– O... O que aconteceu com ele? – Perguntei. Minha voz saiu trêmula.

– Ah, ele está vivo! – A voz vibrante de Michel espantou meu medo em um segundo. – O médico fico surpreso; tudo indicava que ele não teria muitas chances. Os ferimentos foram feios. Contudo, continua desacordado. Parece que quebrou algumas partes complicadas. – Ele fez uma careta e balançou a cabeça. – Vai precisar de força, o menino.

– Mas ele vai ficar bem, certo?

Chegamos à ala hospitalar. Paramos em frente ao vidro pelo qual podíamos ver o garoto lá dentro: inconsciente, ferido e rodeado de aparelhos, porém, vivo. Era só isso o que importava.

Eu ainda estava surpreso comigo mesmo por estar tão ligado à criança. Vai ver ele me lembrava a mim mesmo, de alguma forma.

– Se vai ficar bem ou não, depende exclusivamente dele. Mas você também pode ajudar.

– Como?

– Diga: você quer que ele fique bem?

– Mais do que tudo!

Respondi sem pensar duas vezes. E nem tinha me dado conta do quanto queria isso.

– Então, feche os olhos e siga minha orientações.

Fechei os olhos imediatamente. Escutava apenas levemente o bipe dos aparelhos. Não sei quando nem como, mas esse som quase inaudível começou a ficar mais alto e diferente. De repente era o som de explosões, abafado pela porta de ferro de nosso brigo.

Comecei a abrir os olhos.

– Não – Michel me repreendeu logo. – Mantenha-os fechados. Está tudo bem.

Fiz o que ele mandou. Tentei forçar meu cérebro a se lembrar de que aqueles bipes eram apenas bipes.

– Imagine o garoto da forma como ele tem que ficar: curado, acordado, sorridente. Visualize claramente a cena dele se levantando e acredite nisso com toda a sua força.

Me esforcei para substituir a imagem dos ossos de meus pais perdidos na rua pela do menino abrindo os olhos, se sentando na cama e olhando ao redor, sem saber o que aconteceu ou como foi parar ali. Imaginei o médico entrando para retirar seus curativos e dizer que ele já estava bem. Imaginei o menino sorrindo, olhando para mim e dizendo “muito obrigado”.

Quando dei por mim, já estava abrindo os olhos. Ele continuava deitado e desacordado.

– Eu disse para não abrir os olhos – Michel falou.

– Desculpe. É que pareceu tão...

– Real?

— De um jeito assustador.

– Muito bem! – Michel deu um tapa em minhas costas que quase me fez bater a cara no vidro. – É assim que deve ser!

Continuava não fazendo sentido para mim.

– Mas... No que isso ajuda?

– Você só tem que acreditar, jovem – meu tutor disse como se fosse a coisa mais simples do mundo. E, pensando agora, até que era. – Acredite que ele vai se curar, e assim será. Tenho certeza de que ele quer o mesmo. – Michel reabriu aquele sorriso. – Olha só! Acabou de aprender mais uma lição!

Michel adorava me ensinar coisas assim. Ele dava as lições na teoria quando eu era menor, e depois de eu crescer, passou a ensinar tudo aquilo na prática. Eu gostava daquele método. O problema era que me deixava confuso às vezes.

Outro princípio básico da Federação é o positivismo: crer que tudo vai acabar bem. E outro mais importante ainda é que todos temos capacidade de criar algo através de nossa mente. Aos dezessete anos, eu ainda achava esse último loucura. Michel, não. Ele dizia: “É perfeitamente normal! Mas e daí se for loucura? As pessoas mais fortes do mundo são as loucas!”

E, mesmo hoje, ele é o cara mais louco que conheço.

– Continue mentalizando essa cena – aconselhou-me. – Quando menos esperar, o moleque ali vai estar brincando lá fora. – Meu tutor piscou para mim. – Está dispensado por hoje.

Michel deu meio volta e voltou para o corredor. Eu ainda estava parado ali, olhando para o garoto e esperando que ele reagisse de alguma forma, quando os sinos começaram a tocar.

Os sinos eram uma forma de avisar que havia perigo chegando perto de nós. Estavam espalhados por toda a base e eram ativados pelos responsáveis pela monitoração, que trabalhavam numa sala localizada no topo do prédio.

Quando os sinos tocavam, as crianças e idosos tinham que se refugiar em um dos vários abrigos no subterrâneo, a equipe de resgate se preparava para socorrer qualquer ferido e os mestres – membros superiores e mais sábios e experientes – iam para o lado de fora.

Corri para o corredor e subi as escadas de dois em dois degraus, seguindo e sendo seguido por outros membros de minha equipe. Todos nós seguimos para a sacada que envolvia todo o perímetro da sede. Eu me inclinei sobre o muro que a cercava e vi que a maioria dos mestres já tinham saído. Michel também estava lá. Parecia terrivelmente calmo. Quase como se já soubesse que isso iria acontecer.

– Ariel! – Dara me chamou.

Me juntei a ela, Bennet e Samuel. Nenhum deles parecia muito tranquilo com a situação.

– O que será que aconteceu? – Samuel indagou.

– Pode apostar que não é nada bom – disse Bennet. – Eu só espero que os mestres estejam preparados para o que estar por vir.

– É claro que eles estão preparados! – Dara garantiu, e isso fez eu me sentir mais tranquilo. – Positivismo, certo? Vamos pôr isso em prática agora mesmo.

Ela segurou minha mão e fechou os olhos. Dara nunca me contou no que estava pensando naquela hora, mas acho que estava fazendo o possível para visualizar os mestres dizendo que estava tudo bem e que já podíamos ir jantar. Pelo menos era isso o que eu estava tentando visualizar. E tentei mesmo.

Mas parei assim que vi o horizonte estrelado sendo encoberto por uma explosão.

Notas finais
Deixem seus comentários com críticas construtivas, elogios, correções, um oi, qualquer coisa! Vejo vocês no próximo :)