The Lady In My Life

2 Encontrando Emma Swan antes do café-da-manhã.


Notas iniciais
-Agradecemos a quem favoritou, deixou review e está acompanhando. -Recebemos uma MP que nos deixou muito emocionadas e cientes da responsabilidade que teremos ao conduzir essa história, uma vez que, além de ser um romance SQ, também pretendemos esclarecer as pessoas e dar visibilidade sobre a questão da transexualidade para as leitoras (es) que acompanham a trama. -Portanto, é provável que este seja o último capítulo que postaremos essa semana, já que precisamos estudar sobre o assunto e, na medida do possível, responderemos os comentários e MP's que ainda estão sem resposta. -Os capítulos geralmente serão curtos, já que não temos o hábito de escrever mais de 2 mil palavras em cada um deles e quando isso acontece é atípico. Digamos que essa é uma de nossas características como escritoras. Até porque, temos outras tramas em aberto e fica difícil, muitas vezes, escrever mais de 1500 palavras por dia por causa de nossa rotina diária. Mesmo assim, esperamos que vcs continuem acompanhando a fic. :) -Boa leitura!!!

{Naquela mesma noite...}

[Tinker & Jefferson]

–Simpatizei bastante com a nova namorada do seu irmão!- afirmou a loirinha.

–Eu também! Mas, tive a impressão que ela é boa demais para David!- responde o rapaz.

[T]:- É impressionante como ele é parecido com sua mãe! Tão preconceituoso e arrogante quanto ela!- disse.

[J]:- Por isso mesmo, nunca tive com David a relação que tenho com Emma! Quando éramos pequenos, meu irmão costumava se aproveitar do fato de ser maior do que eu e me batia constantemente e Emma sempre vinha em minha defesa. Até que eu cresci e um dia dei-lhe uma boa surra, então ele parou de bancar o valentão.

[T]:- Nesta época sua irmã ainda era Eric, não é?

[J]:- Sim e não! Mesmo naquela época, lembro-me que Margaret flagrou minha irmã vestindo as roupas dela. Portanto, creio que Emma sempre existiu dentro de Eric. E de mais a mais, estou tão acostumado em vê-la assim, que raramente me lembro como ela nasceu.- esclarece o rapaz, chamando a genitora pelo nome, como desde adolescente se acostumou a fazer, mesmo sob os protestos dela.

[T]:- Recordo da primeira vez que você me trouxe e, mesmo já tendo me alertado sobre ela ser transexual, confesso que me senti um pouco incomodada na sua presença. Achei estranhíssimo o fato de na época Emma namorar Belle. Mas com o tempo, mostrou-se tão agradável, divertida e meiga, aliás, com tantas qualidades, que com frequência me esqueço daquele pequeno detalhe sobre ela.- conclui, sorrindo.

[J]:- Se você está se referindo ao que estou pensando, diria que não é tão pequeno assim.- diz, divertido.

A loirinha se aproxima do marido, abraçando-o pela cintura e fala, maliciosa:- Hum.. É como o seu?- indaga, com o misto de curiosidade e excitação.

O rapaz entra na brincadeira da esposa e responde:- Vou logo avisando que Emma é muito séria e não toparia um ménage, sua sacaninha.- ambos caem na gargalhada e na cama juntos.

[J]:- Mas, agora, falando sério, fico muito triste por minha irmã não namorar ninguém desde que terminou com Belle, há mais de três anos!- fala, melancólico.- Ela é um ser tão especial, porém sempre sofre com o preconceito das pessoas que geralmente confundem identidade de gênero com orientação sexual e não entendem o fato dela, mesmo tendo o órgão masculino, perceber-se como uma mulher e querer namorar outras mulheres.- finaliza.

[T]:- Também me parte o coração vê-la tão solitária e, às vezes, gostaria de poder fazer alguma coisa para ajudá-la!- fala, alisando o rosto do marido.

[J]:- Minha irmã sempre me diz que até encontrou algumas lésbicas e bissexuais, depois que terminou com Belle, que não teriam problema em ter um envolvimento sexual com ela, todavia, Emma não se interessa por esse tipo de relacionamento. Ela quer alguém para namorar sério e quem sabe ter uma família!- explica.

O casal fica refletindo por um momento, até que o rapaz volta a falar:- Eu aprendi a entendê-la melhor quando decidi desenhar e costurar vestidos de noivas e, até lembro, de dondocas que iam ao meu ateliê e quando chegavam viravam a cara e não acreditavam no meu talento para fazer o vestido do casamento de suas filhas por eu não aparentar ser gay.- faz uma pequena pausa.- É uma pena que as pessoas criem tantos estigmas, como, por exemplo, no meu caso, que todo estilista necessariamente precisa ser homossexual.- acrescenta.

[T]:- Apesar de vir de uma família conservadora, depois que vivi e presenciei algumas coisas na vida, passei a ser mais tolerante e me dei conta de como esses rótulos acabam por impedir as pessoas de serem completamente felizes.- fala.

Depois de passar mais alguns minutos conversando sobre assuntos relacionados ao preconceito e intolerância da sociedade com o que é diferente, o jovem casal acaba adormecendo abraçados e ainda vestidos.

***

(No outro dia...)

{Regina}

Acordo e não vendo David na cama, visto-me e desço para procurá-lo no andar de baixo.

Quando estou na escada, ouço uma bela canção, interpretada por uma voz encantadora, que me chega de detrás de uma porta dupla, onde meu namorado, no dia anterior, disse que ficava a biblioteca.

Percebo que a porta está entreaberta e me aproximo do local, ainda mais envolvida pela doce melodia.

Quando entro no ambiente, vejo Emma sentada numa poltrona vitoriana, de olhos fechados, provavelmente viajando na performance da cantora, enquanto dois gatos fofos, um preto e um branco, estão deitados mansamente no seu colo, recebendo cafunés.

Encosto-me no vão da porta, cruzo os braços, e fico observando essa cena meiga, sem conseguir controlar o riso.

Subitamente, como se pressentisse que não está mais sozinha, ela abre os olhos e, ao me ver, fica surpresa e visivelmente encabulada.

–Desculpe-me, não queria interromper esse momento tão terno entre você e os felinos! Estava descendo as escadas e fui atraída por essa belíssima canção.- digo, divertida, tentando descontrair o ambiente.

Ela me olha e sorri:- Eu entendo seu fascínio, porque também sou apaixonada por essa cantora. Apesar de estar cantando em inglês, ela é brasileira e foi casada com João Gilberto, o mentor da Bossa Nova, um dos melhores gêneros musicais do mundo.- explica, apaixonada.

Ela me encanta quando ouço-a falar sobre a cultura brasileira:- E qual o nome da música e da sua intérprete, posso saber?- indago, brincalhona.

–Claro! A música se chama “So Nice” e a cantora é Astrud Gilberto.- esclarece, levantando-se, fazendo com que os gatos pulem do seu colo e vai até a vitrola, que fica numa estante lateral.

Apesar de não querer ser intrometida, fico muito curiosa e não consigo evitar a pergunta:- Por que você se interessa tanto pelo Brasil?- falo de supetão.

Como lhe disse ontem à noite, passei um tempo por lá, e acabei me encantando pelo país e pela sua cultura.- responde, concisa.

Percebo, pela segunda vez, um certo embaraço quando Emma fala desta viagem e devido a sua resposta lacônica, decido ser mais direta, insistindo no tema:- O seu desejo de conhecer o Brasil era apenas fazer turismo, ou algo mais te atraiu até lá?- indago, intrometida.

Sorri, como se tivesse surpresa com a minha falta de discrição, porém, após alguns segundos em silêncio, resolve saciar a minha curiosidade:- Na realidade, há cerca de dois anos, conheci uma brasileira pela internet e ficamos muito próximas, apesar da distância. Então, com o avançar do nosso contato tive a necessidade de conhecê-la pessoalmente e viajei para o seu país.- esclarece.

Pelo tom da sua voz, noto que recordar esse momento lhe traz algum pesar.

Porém, antes que eu possa falar algo, prossegue com o seu relato, depois de ficar taciturna por um tempo:- Apaixonei-me por ela, e acreditei que era correspondida, por isso tomei essa atitude. Mas, ao chegar lá, descobri que eu não era exatamente o que ela esperava!- conclui, desviando o olhar.

Neste instante, percebo que fui longe demais com meu jeito intrometido e, sentindo-me culpada por trazer à tona essa triste recordação da sua vida, decido voltar a falar sobre a cantora brasileira.

–Fiquei enlevada pela voz de Astrud! Conhecia Bossa Nova, mas, basicamente, pela perspectiva dos nossos músicos, como Sinatra e Stan Getz. Também aprecio o trabalho de Sérgio Mendes¹, mas ele já está há tanto tempo por aqui, que o considero americano.- concluo, sorrindo.

Emma demonstra surpresa ao perceber que, mesmo superficialmente, entendo do assunto. E me diz, animada:- Adoro Astrud, porém sou ainda mais fascinada por essa cantora aqui! – fala, trocando os vinis.

De repente, escuto um arranjo suave, seguido por uma voz perfeitamente afinada ressoando por todo o ambiente.

O idioma não é mais o inglês, contudo não tenho dificuldades em identificar a língua portuguesa nesta canção divina.

–De quem é essa voz melíflua*?- questiono, deslumbrada.

­-De uma das melhores intérpretes que o mundo já conheceu!- rebate, entusiasmada.- Infelizmente, essa música** faz parte do seu último trabalho, pois ela morreu há mais de 30 anos, prematuramente. Segundo o que já estudei sobre sua carreira, ela era bastante perfeccionista e procurava se superar a cada álbum.- conclui, deixando-me sem resposta, e percebo que Emma possui uma tendência a fazer mistério, o que a torna uma pessoa ainda mais interessante.

De tão grandiosa, ela é inominável?- inquiro, zombeteira.

–Não! Ela se chama Elis... Regina.- fala, por fim, e me dou conta que é a primeira vez que pronuncia o meu nome.

Entendi porque ela é tão especial, pois esse nome não batiza qualquer pessoa!- afirmo, sorrindo, de forma convencida.

É! Quando fui apresentada a você, fiquei feliz em ter uma segunda Regina na minha vida.- fala e percebo que, rapidamente, arrepende-se do que acabou de dizer, uma vez que suas faces ficam ruborizadas.

A frase de Emma causa em mim uma sensação que não consigo entender muito bem e, para amenizar o desconforto momentâneo que tomou conta do ambiente, decido fazer um gracejo.- Se eu te revelar que sou uma grande fã de Emma Thompson², você também vai saber que não é a primeira Emma na minha vida!- falo, rindo.

Ah! Adorei a performance dela em “Para o Resto de Nossas Vidas”!- diz, entrando na brincadeira.

Conversamos um pouco mais sobre música e filmes, e com o passar do tempo, noto que o gato preto está alisando seu pelo nas minhas pernas.

Sorrio, olhando para baixo, e Emma ralha com ele:- Ravenna, pare de incomodar a visita!- num tom divertido.

Ah, é uma gata?! E você batizou-a com o nome da Rainha Má do conto de Branca de Neve?- pergunto, curiosa.

Sim, e aquela branquinha ali- diz, apontando para a mesa, onde a outra gata dorme preguiçosamente- é Snow White! Já deu para perceber qual era o meu conto de fadas preferido na infância, não é?!- diz, sorrindo.

Snow e Ravenna... suponho que elas não devam se dar muito bem!- falo, arqueando a sobrancelha de forma irônica.

–Pelo contrário, elas são muito amigas, estão sempre juntas ao meu redor, cuidando de mim.- responde, olhando ternamente de uma para a outra.

Continuamos falando um pouco mais sobre os hábitos das bichanas e, de repente, dou-me conta que desci do quarto já há algum tempo, com o intuito de procurar David e, no fim das contas, não fui atrás dele, muito menos tomei o desjejum.

–Você já tomou café-da-manhã?- pergunto.

Não tenho o hábito de fazer a primeira refeição do dia pela manhã, geralmente só como algo a partir das 12 horas.- esclarece.- Mas posso lhe fazer companhia, já que David saiu.- acrescenta.

Ele saiu?- indago, surpresa.

Sim! Quando estava vindo para cá, o vi saindo com roupas esportivas e imagino que tenha ido caminhar.- esclarece.

Fico tentada a aceitar a oferta dela, porque detesto comer sozinha, porém antes tenho um pedido a lhe fazer.:- Você se importaria de me emprestar o vinil da minha xará?- pergunto, sem rodeios.- Pois, realmente, adoraria conhecer mais o trabalho dela.- finalizo.

Emma parece refletir sobre o meu pedido durante alguns segundos:- Não me importo! Mas você tem que me prometer que terá muito cuidado com essa relíquia, já que costumo ser bastante possessiva com aquilo que é meu!– afirma, por fim, e sinto um leve tremor percorrer minha espinha pela forma como ela pronunciou a última palavra.

Depois de garantir que sou uma pessoa muito zelosa, ela me empresta sua “relíquia” e nos dirigimos para a mesa onde um banquete está disposto, aguardando os ocupantes da mansão descerem para saborearem o café-da-manhã.

Não demora muito para que Jefferson e Tinker sentem-se à mesa e a conversa fica mais coletiva. Em seguida, Margaret também junta-se a nós e, por último, David, que chega todo suado, beijando-me novamente quando me vê ao lado de sua irmã, repetindo a cena do dia anterior.

Apesar da insistência de sua mãe para que ele vá tomar um banho, meu namorado decide sentar-se ao meu lado, pedindo licença, de maneira indelicada a Emma, que se levanta e, após se despedir encabulada das pessoas presentes na mesa, diz que precisa voltar para a biblioteca.

Fico, mais uma vez, irritada com a atitude rude dele e decido que quando acabarmos o café, terei uma conversa definitiva com David: ou ele passa a tratar Emma com a dignidade que ela merece ou terminará o final de semana sozinho na casa de sua mãe.

Notas finais
¹ Sérgio Mendes: cantor brasileiro que fez sua carreira nos EUA, a partir da década de 60’ ao lado do grupo Brazil 66, e gravou músicas como “Mas que nada” de Jorge Ben Jor, recentemente incluída na trilha da animação “Rio”. ² Emma Thompson: excelente atriz britânica que já participou de vários filmes, entre eles: Razão e Sensibilidade, Mais Estranho que a Ficção, Muito Barulho por Nada, entre outros. * Melíflua: Agradável, suave, harmoniosa. ** A música de Elis que imaginamos elas ouvindo foi "O Trem Azul": https://www.youtube.com/watch?v=2gu87D1d058 - So Nice: https://www.youtube.com/watch?v=uzdoCzw_y64 -Até o próximo!!! :-)