The Kostroma Dynasty
37 Consequências
Notas iniciais
Well, can you see me?
I cannot see you
Everything I thought I knew has fallen out of view
In this blindness that I'm condemned to
Cassandra — Florence + The Machine
Desde os quinze anos, Aleksei tinha cabelos brancos. Konstantin, seu cabeleireiro desde que ele tinha precisado do primeiro corte para tirar a franja dos olhos, não fazia cerimônia em comentar o tamanho do mistério que o fato era quando passavam pelo processo de esconder os fios esbranquiçados. Seus pais, com uma genética estelar nesse sentido, estavam próximos aos seus cinquenta anos com só um punhado de fios grisalhos em suas cabeças. Catherina estava longe de ter o mesmo problema que ele. Assim, fazia muito sentido que Konstantin lhe chamasse a atenção toda vez, pedindo que arrumasse um jeito de se desestressar antes que ficasse totalmente grisalho aos 30 anos – e isso iria requerer muito mais tinta para esconder aqueles sinais de envelhecimento precoce do que ele precisava atualmente.
O czareviche sempre soube de onde aquilo vinha, claro. Nenhum estresse relacionado ao governo era tão potente quanto o de reprimir e esconder sua magia, e ele se lembrava disso toda vez em que, diante de mais um puxão de orelha de Konstantin, abria um sorriso e fazia alguma piada sobre começar a meditar ou fazer yoga.
Por mais óbvias que fossem as consequências físicas da magia reprimida, nos cabelos brancos, no cansaço diário, na insônia, no perigo iminente de descontrole ao ter qualquer emoção forte demais, até com o desconforto mais profundo é possível se acostumar. E, com quase vinte anos de prática naquele jogo, Aleksei tinha encontrado um jeito de se acomodar entre aquelas dores. Se moldara em função dos limites impostos pelas correntes que tinha colocado sobre si, tanto que mal se lembrava de como era ser e agir sem eles. Só os momentos de crise reavivavam a noção de que ele nunca estava em paz de verdade – e, mesmo assim, em algum ponto das últimas décadas, nem isso era capaz de fazê-lo sentir-se tão mal a ponto de não querer voltar à rotina incômoda de sempre.
Assim, ao acordar livre, pela primeira vez desde que era criança, de qualquer resquício daquela dor, Aleksei não conseguia compreender a sensação. Sua visão estava embaçada e as memórias da noite anterior ainda não tinham lhe alcançado, deixando-o suspenso no tempo, de certa forma.
Era como se sentisse o próprio corpo de verdade pela primeira vez, mas era tão pouco familiar que parecia de outra pessoa. Suas mãos eram as de sempre, constatou, levantando-as na altura dos olhos e mexendo os dedos, procurando pelas pequenas manchas e cicatrizes com que convivia todos os dias. O mundo também era o mesmo; havia fachos de luz entrando por entre as cortinas, havia passos eventuais do lado de fora da porta de gente atarefada, havia os lençois da cama dele, enrolados ao seu redor com o mesmo cheiro limpo de todos os dias. Tudo estava no lugar, menos uma coisa. A coisa.
Num estalo de pânico, Aleksei estava sentado, uma das mãos no meio do peito, como se pudesse sentir o que estava buscando por cima da pele. Procurou pelo peso no meio das suas costelas, pela vibração da energia que se debatia e rugia contra ele todos os dias, e não o encontrou.
Por um segundo estúpido e esperançoso, ele se perguntou se tinha se livrado daquilo, enfim. Pela primeira vez em muito tempo, também, ele esticou o braço e pediu que a magia que ele rezava para não ser mais dele se agitasse.
E, num contraste absoluto com o puro desgosto que lhe apossou diante da cena, o czareviche sentiu seu corpo inteiro tomado por uma onda de energia, em júbilo. As sombras no tapete dançaram em espirais, juntando-se em um único círculo escuro que se desfez assim que Aleksei o quis.
Não só ainda estava acorrentado àquela magia odiosa, agora ela estava espalhada por seu corpo inteiro. Prestando atenção, podia senti-la debaixo da pele, correndo entre suas veias. Tinha sido fácil demais dominá-la, vibrava dentro dele pedindo para ser direcionada. Como podia ter melhor controle sobre aquilo quando não estava tentando segurá-lo?
As memórias já tinham voltado com força total à essa altura, sufocando Aleksei com emoções demais. Inquieto, levantou-se da cama para andar, precisando fazer alguma coisa para se acalmar antes que começasse a gritar e alarmasse o palácio inteiro.
A pior parte é que nem conseguia se convencer a tentar trancafiar a magia no lugar a que pertencia. A ausência repentina da pressão a que tinha se acostumado era a lembrança mais potente do quanto doía. Xingou-se de covarde, egoísta e relembrou-se da traição que estava cometendo, mas nada adiantou. Nunca esteve tão ciente da gaiola que construiu para si mesmo e do quanto a odiava. E, claro, do quanto se desprezava por odiá-la.
Das coisas conflitantes e difíceis de admitir que estavam enchendo sua cabeça e tomando de avalanche seus pulmões – meu Deus, como se respirava mesmo? – a que doía menos e parecia que não ia fazer Aleksei se afogar sozinho era uma raiva monstruosa. Dele mesmo, que era fraco e ainda ousava sentir algo que não fosse asco por sua magia, daquela coisa agora livre, de Elizaveta por ter começado todo aquele caos em primeiro lugar, de Aberash por ter lhe contado mais segredos do que ela fizera em todo o tempo que se conheciam e mesmo assim o largado no escuro.
Aberash. Ele tinha passado os últimos anos ciente dos segredos que ela carregava, mas nunca perguntou por ter ciência de que ela também sabia que ele não estava lhe contando toda a verdade e mesmo assim ficava ao seu lado. Pelo menos achava que era assim, até a noite anterior estilhaçar todas as suas certezas, entre elas as que tinha sobre sua melhor amiga, se é que conseguiria chamá-la assim depois da conversa que ela lhe prometera.
Estava pronto para sair porta afora à procura dela do jeito que tinha caído da cama até ver um vislumbre de si mesmo no espelho, descabelado, os olhos cobertos de maquiagem borrada e os restos das lágrimas pretas que ele tinha chorado – se precisava de uma prova do absurdo pelo qual tinha passado, ali estava. Não podia sair daquele jeito e, com sinceridade, queria lavar o que conseguia da noite anterior. Se não podia se livrar dos acontecimentos e das memórias deles, limparia seus rastros, ao menos.
*
Na quarta vez em que Aleksei bateu na porta do quarto de Aberash – sem a tentativa de polidez das primeiras vezes – ela finalmente foi aberta por uma das criadas destinadas à cantora. Ela tinha a expressão irritada de quem estava pronta para dar uma bronca no bruto que estava tentando derrubar a porta à base de pancadas. Ao reconhecer o czareviche, o semblante se reconfigurou rapidamente em algo bem mais neutro e profissional. Atrás dela, era possível ver mais duas mulheres limpando o cômodo.
— Bom dia, sra. Zaytsev. — Levando em conta o estado precário de sua paciência, Aleksei contaria a capacidade de uma saudação, ainda que um tanto engessada, como uma vitória. — Preciso falar com a Aberash.
Irina Zaytsev, em seus 43 anos de idade e 20 anos trabalhando naquele palácio, tinha visto aquela cena várias vezes: Aleksei à procura de Aberash, fosse para devolver um livro, convidar para jogarem alguma coisa ou para ter companhia quando o mundo parecia que ia desabar sobre a cabeça dele. Independente da ocasião, nunca vira o czareviche ser nada além de educado – encantador nos dias mais felizes. Nunca daquele jeito, inquieto, fervendo numa frustração que ele mal conseguia esconder.
— Saiu para os jardins há alguns minutos, vossa alteza — respondeu, direta como lhe era característico. E, num momento nada típico, quis dizer algo mais, perguntar qual era o problema, tentar apaziguar aquela energia raivosa que seria direcionada a Aberash de um jeito ou de outro, ela pressentia. Talvez porque Aberash e sua amabilidade infinita tinham conquistado a amizade de Irina. Talvez porque a cantora e o czareviche tinham uma relação que lhe lembrava de sua irmã, Cassandra. Talvez…
Em sua hesitação, porém, Aleksei já tinha ido, vencendo o corredor a passos largos e rápidos. E Irina, tentando não se importar mais do que deveria, voltou às suas funções, prometendo ligar para Cassie quando chegasse em casa.
*
Do lado de fora, nem sinal dela. Voltar para os corredores do palácio e procurá-la demoraria tanto que o melhor seria desistir, mas ele estava tão inquieto que estava inclinado a tentar mesmo assim. Antes, contudo, ele teve uma ideia, uma intuição, de onde procurar. Se já iria gastar sua manhã naquilo, não havia mal em tentar.
Assim, ele se dirigiu para a floresta, pelo mesmo caminho que fizera na noite anterior, movido por vozes sem corpo.
No escuro e praticamente destituído de seus sentidos por conta da gritaria dos espíritos – se é que eram isso mesmo –, Aleksei pouco vira do trajeto. Ainda assim, conseguia saber exatamente para onde estava indo. Em certo ponto da caminhada, as marcas do que a noite tinha escondido começaram a aparecer: vegetação pisoteada, galhos quebrados e, quanto mais perto do olho do furacão, pior a destruição. Mesmo em sua raiva constante, Aleksei não pôde conter o arrepio que desceu por suas costas diante da clareira que havia nascido ao redor do ponto que Elizaveta tinha ocupado, a grama e arbustos arrancados deixando à mostra uma terra revolta, as árvores inclinadas em ângulos não naturais, com metade das raízes saindo da terra. Formavam um círculo irregular com uns bons cinco metros de diâmetro, tombadas como se tivessem tentado fugir da bruxa e congelado no meio do processo.
No meio disso tudo, estava Aberash.
Ela tinha as sobrancelhas franzidas, os olhos carregados de uma preocupação que raramente demonstrava. Ao ver Aleksei aquela inquietação evaporou, substituída por surpresa e alguma alegria em encontrá-lo. Quando ele chegou mais perto, evitando troncos caídos e buracos, a seriedade voltou, contudo. Devia ser muito fácil para ela, de todas as pessoas, perceber o humor amargo do czareviche.
— Bom dia, Alek. — Ela abriu um sorriso suave, do tipo que costumava tranquilizá-lo. Dessa vez, só estava piorando a raiva. — Como me achou? Pensei que tinha sido discreta.
— Sorte ou alguma outra coisa pior — respondeu, seco. — Não te seguiram, se essa é sua preocupação.
Ela o encarou por alguns segundos, tentando entender como prosseguir ali.
— Como você está se sentindo? — disse ela, por fim, lançando um olhar para as mãos de Aleksei, enfiadas em seus bolsos do casaco para evitar que ele ficasse mexendo-as nos movimentos de impaciência de que tinham se ocupado pela manhã toda. — Eu entendo se for muita energia para lidar, posso ajudar nisso.
— Não. Vamos direto ao ponto. — Apesar da pressa em solucionar as questões que vinham lhe assolando desde que abrira os olhos, Aleksei não conseguia deixar a estranheza do local em que estavam passar sem qualquer explicação. — E o que você está fazendo justamente aqui?
Aberash levantou as sobrancelhas diante da belicosidade na voz de Aleksei, mas não teceu comentários sobre.
— Vim ver o tamanho do estrago e pensar em como consertá-lo antes que alguém veja. — Ele anuiu, se dando por satisfeito, por hora. Ela deixou um momento de silêncio recair sobre eles, como se soubesse que dali em diante entrariam em um terreno tortuoso e quisesse evitá-lo por um segundo a mais, que fosse. — Enfim. O que você quer saber?
— Você sabia sobre Elizaveta? — Ele tinha um milhão de perguntas, mas essa vinha incomodando-o desde cedo. Era coincidência demais que ela tivesse o encontrado, assim como era coincidência demais descobrir uma bruxa na Seleção quando Aberash se revelava como uma.
— Sabia. — Ela respirou fundo, aparentando incerteza pela primeira vez. — Alek, eu queria te dizer isso em um momento melhor, mas agora que as coisas entraram em movimento, não tem mais o que eu possa fazer. Mais do que isso, eu vou precisar da sua ajuda daqui para frente. Tente digerir o que eu vou te dizer antes de tomar qualquer atitude, por favor.
— Fale de uma vez.
— Todas as selecionadas são bruxas. Cinco de cada dominação e escolhidas pelos covens do país.
A garganta de Aleksei pareceu fechar, tentando conter o encontro doloroso que a mistura de emoções diante da revelação lhe causou. Se forçou a engolir um rugido de raiva que com certeza se derreteria em choro se ele o expressasse.
A lembrança de cada uma das selecionadas lhe veio à mente, o quanto ele tinha se disposto a ser diferente por respeito a elas. Ele tinha concordado entrar naquele jogo ciente de que nem ele nem elas tinham comprado o discurso de “encontrar um grande amor”, sabia que todas deviam ter seus próprios motivos. Ainda assim, saber que o ponto da competição era seu poder, o que ele mais abominava em si mesmo… Aleksei sentia-se do tamanho de um grão de poeira. Que diferença fazia que ele se propusesse a estar desconfortável, vulnerável, para ter alguma chance de conhecê-las? Meu Deus. Ele sequer podia dizer que as conhecia? Mesmo a mísera intimidade de saber nomes, um pouco da personalidade e as histórias que tinham conseguido trocar até ali, tudo se revelava frágil ou mentiroso diante da realidade de que aquelas eram bruxas, seguindo ordens de seus covens e com preocupações muito maiores do que os estúpidos sentimentos do czareviche.
— E você ajudou.
— Sim. A ideia foi minha. — O czareviche não precisou dizer nada para que ela percebesse o tamanho da mágoa que cada palavra estava causando. — Aleksei, tem um propósito para tudo isso, eu…
A represa fina que estava segurando o ódio do czareviche no lugar arrebentou.
— Propósito? Qualquer justificativa que você acha que tem não vai ser suficiente. Você cometeu sabe-se lá quantos crimes, mentiu para mim por meses… — Assim que ele começou a frase, outra pergunta apareceu em sua cabeça e ele quase estremeceu em expectativa da devastação que a resposta iria causar. — Há quanto tempo você sabe sobre mim?
Uma melancolia visível se apossou da expressão dela, que entendeu exatamente a conclusão que ele tiraria dependendo da resposta.
— Desde os meus quinze anos.
Doeu tanto que aquele ódio quase deu espaço para o sentimento de perda lentamente se enroscando entre as costelas dele. Aleksei riu para se livrar daquilo, o som tendo um gosto ácido até para ele mesmo. Ela sabia desde o começo.
— Você veio por causa disso. Dez anos atrás, você veio para Aldan pelo meu poder, não veio?
— Eu vim para te conhecer. O que aconteceu depois não foi parte de um plano, viramos amigos e eu fiquei porque me parecia certo. — Tinha algo vulnerável no tom de Aberash, algo que ele teria percebido em um segundo se a raiva não estivesse bloqueando todos os seus sentidos. — Eu fiquei porque eu queria muito, porque…
— Porque meu poder seria útil e eu precisava ser moldado em algo obediente o suficiente para isso.
— Não. Você não está me escutando-
— Sim. Estou te escutando perfeitamente, talvez pela primeira vez. Você me conheceu no meu momento mais frágil e, de algum jeito, conseguiu se aproximar apesar de todos os meus esforços. — À essa altura, ele estava gritando. — Eu não falava com a minha mãe do jeito que eu falava com você-
— E eu fico feliz. — Aberash cortou-o, perdendo a calma que carregava sempre consigo. No caso dela, porém, a emoção tomando-a era desespero. — Pode gritar comigo o quanto você quiser, você sabe que não conseguiria suportar mais dez anos da vida que tinha escolhido para si quando nos conhecemos. Eu… — Outro silêncio carregado de uma vulnerabilidade que ela pouco tinha mostrado e, de novo, ele não conseguiu, não quis, vê-la. — Eu também não conseguiria sobreviver a mais dez anos do jeito que eu estava vivendo.
— Talvez eu não aguentasse, talvez eu implodisse debaixo do peso das minhas escolhas e isso seria a melhor saída. Talvez este país estivesse mais em paz. — Se pela violência na voz dele ou pela confissão de uma gravidade que ele não percebia ainda, Aberash só pôde encará-lo em um silêncio forçado pelo choque. — A decisão devia ter sido minha.
Aleksei olhava Aberash e não conseguia reconhecê-la. Como podia ter passado dez anos ao lado daquela mulher e não questionado seus segredos, entregado a ela seus momentos mais difíceis? Não conseguia encontrar o que dizer, incapaz de entender como tinha confiado nela quando não conseguia confiar nem em si mesmo… O pensamento lhe veio à mente como mais uma pontada espinhosa do tamanho da traição que estava se revelando à sua frente.
— Você fez alguma coisa comigo?
— O quê?
— Você me colocou sob alguma feitiçaria, mexeu com a minha cabeça para ultrapassar minhas reservas? Foi muito fácil nossa primeira aproximação, fácil demais.
Pela primeira vez naquela conversa ela estava ofendida, uma raiva tão potente quanto a de Aleksei começando a se agitar em seus olhos.
— Nunca. Nem com você nem com ninguém. Eu entendo que você está irritado comigo, mas foram dez anos. Pare de fingir que você não conhece meu caráter. Não me insulte.
— Seu caráter? — Ele teve que rir de novo, dessa vez para tentar se apaziguar um pouco que fosse. Não funcionou. — Tudo o que eu sei sobre você pode ser mentira. O único fato aqui é que você manchou esse lugar com bruxaria, o que podemos ver que está sendo maravilhoso. — Ele gesticulou para o terreno desolado ao redor deles. — Viktor quase morreu por culpa sua e você quer falar de caráter? Você-
— Não se atreva — ela sibilou, seu tom aumentando a cada palavra. — Viktor é… Viktor é uma conversa completamente diferente, mas não ouse implicar que eu não me importo com ele. Você quer fingir que é justo e nobre deixar que matassem a outros como nós? Que eu devia ter aceitado e deixado que continuassem até nos extinguirem?
— Como nós? — O tom de zombaria fez Aleksei se sentir como o pai e não pelas qualidades boas. — Você não pode brincar comigo por anos e depois tentar me jogar em alguma posição política. Não existe “nós” para mim. Ou tem algum coven de bruxos de sombras que eu desconheço?
— Não existe. Também não há nenhum de luz, mas eu sei a responsabilidade que eu tenho. Nós dois não estamos separados deles, Aleksei, não existe nenhum “eles”. O outro, o intruso nesse país, é você, eu e outros como nós. É hora de você aceitar isso. — Aleksei nunca tinha visto Aberash tão irritada. Mesmo que jamais admitisse naquele momento, tinha se acostumado à honestidade gentil da cantora. Não fosse o estado de ira em que se encontrava, teria ficado intimidado com uma verdade tão crua. — Escolha um lado.
— Você quer que eu declare guerra contra minha própria família.
— Não. A guerra foi inventada pela sua linhagem e nunca foi a única opção, nem a melhor.
Aleksei já tinha pensado coisas parecidas e piores sobre si, sobre o que ele representava com as escolhas que fazia todos os dias e continuaria a fazer quando colocassem o título de Czar à frente de seu nome. Em sua cabeça, porém, por mais espinhosas que fossem, as palavras ganharam um tom rotineiro e familiar. Vindas de Aberash, ganhavam nova agudeza, afiadas e inegáveis o suficiente para forçarem um momento de silêncio no czareviche; um corte abrupto à ira fervente que ele continuava alimentando na esperança de que o fogo e a fumaça escondessem os sentimentos melancólicos que ameaçavam o paralizar. A cantora não tinha sido cruel ou mesmo apontado algo novo, mas era ela. A pessoa mais cuidadosa que ele conhecia compreendia o peso das escolhas dele tão bem quanto ele mesmo. E discordava delas com uma veemência cristalina. Era como olhar em um espelho que ele tinha evitado a vida inteira.
Assim, enquanto as brasas da raiva do czareviche tentavam voltar a queimar, o que arrancou uma resposta dele foi medo – como esperar outro resultado que não uma resposta covarde?
— Não vou trair minha família.
A raiva emanando dela se apagou com a mesma rapidez com que tinha surgido. Ela respirou fundo, cruzou os braços e olhou para o czareviche com uma decepção que parecia que ia cavar um buraco no peito dele.
— Certo. Melhor você começar a se mexer, então. Não precisa viver um segundo a mais nesse palácio repleto de traidoras.
— Está me ameaçando?
— Me parece que é você quem está.
Ele entendeu, finalmente, o que tinha dito e o que ela estava implicando.
— Eu não… Eu não poderia… — balbuciou, sem saber nem o que queria dizer.
— Claro que pode. Você pode chamar a líder dos Caçadores em pessoa e ter todas nós jogadas em uma cela até o fim da manhã. Quem duvidaria do czareviche? — Não tinha ironia ou crueldade na voz dela, mas o tom realista ardia mais. — Mas se eu fiz tudo o que eu fiz, foi por acreditar que você não ia querer isso.
Aleksei estava a cada segundo mais consciente do abismo que estava se abrindo na frente de seus pés, uma mistura cinza de coisas que ele tinha evitado a vida inteira e percepções novas e terríveis. A queda era inevitável, mas ele se recusava a fazê-lo na presença de Aberash – não quando metade daqueles sentimentos conflitantes eram culpa dela. Ainda assim, ele não podia deixar aquela discussão continuar para o destino que estava seguindo.
— Não quero. Contra todo o bom discernimento que eu deveria ter, eu não quero. — Ele respirou fundo, tentando se controlar, se afastar da necessidade gritante de continuar brigando com Aberash até sua energia se esvair por completo, até se sentir capaz de compreendê-la. — Mas não quero ouvir explicação nenhuma também.
— Alek…
— Não vou deixar você me convencer dessa vez, Aberash. Quaisquer que sejam as grandes conspirações que envolvem você e eu, não quero ouvir. Talvez nunca queira e as justificativas vão calar com você. Tudo o que eu posso te dar é a promessa de silêncio e espero o mesmo de volta.
Ela assentiu, séria, cansada. Infelizmente, ele ainda não podia ir embora – afinal, pior do que continuar naquela conversa seria ter que recontá-la:
— Deixe as selecionadas a par do que eu sei e reúna-as para uma conversa. Hoje.
— Mando alguém avisar quando estiver tudo pronto — respondeu ela, seus olhos fixados na floresta atrás dos dois, bem longe de encontrar os de Aleksei.
Ele virou as costas e foi embora, mais agitado do que antes.
*
Num movimento cíclico carregado de ironia, Aleksei se via diante de todas as selecionadas – ainda que isso agora significasse dezoito delas, não vinte –, ciente da expectativa emanando delas, medindo com o que estavam lidando. E, no ponto mais miserável daquele paralelo, ele devia realmente estar sendo apresentado a elas pela primeira vez, vendo-as com mais claridade do que em qualquer momento nos últimos dois meses. A onda de reconhecimento se agitando dentro dele já não era incitação para nervosismo nascido da estranheza da situação. Agora que o czareviche sabia, a magia delas era óbvia, ocupando o espaço em volta delas, estalando no ar num prenúncio de tempestade invisível.
À essa altura, já tinha retomado as rédeas daquela raiva que o tinha levado até Aberash. Para elas, mesmo sua irritação tinha que se conter – talvez fosse esse o lado ruim da familiaridade, possibilitar desinibição até para os piores impulsos. Ainda assim, ele estava longe de estar no controle, incapaz de lhes apresentar uma calma artificial. Sentia os olhos pesados, carregados de um ressentimento que devia estar montando uma expressão ruim, fechada. O tipo de expressão que justificava a reação das mulheres à sua frente.
Elas estavam inquietas. Algumas o traduziam em curiosidade ou cautela, encarando-o quase em desafio. Em outras havia medo. Apesar de estar em seu momento menos generoso, Aleksei não queria estender aquela situação. Era desagradável ser fonte de agonia, mesmo quando mal suportava olhar para elas. Queria começar logo, dizer o que estava perfeitamente formulado em sua cabeça, mas, como da primeira vez, foi pego por um instante de distração. Tinha escolhido reuní-las no salão das selecionadas pela praticidade e agora estava se recriminando pela decisão.
Ele não tinha visitado aquela sala desde que fora designada como salão comum para as selecionadas e, agora, havia marcas da convivência delas por todos os cantos: quebra-cabeças pela metade em uma mesa, jogos de baralho e cadernetas cheias de marcações de pontos, livros com marca páginas espalhados pelos sofás, almofadas no chão formando rodas. Havia flores dos jardins enchendo vasos que sempre tinham estado vazios, uma mesa ocupada somente de materiais de desenho. Ele conseguia ver sua mãe como o motivador de cada espaço ocupado, incentivando-as a desafiar a organização fria do palácio para criarem seu próprio conforto, mas, mais importante, via o que devia ser o dia a dia delas ali – a normalidade de suas distrações. A percepção, empática demais, estava se chocando com a confiança esmigalhada de Aleksei e criando uma coisa perigosa, inflamável. Inferno. Se ele não falasse logo, iria dizer tudo o que não queria. Cruzou os braços, esperando que a postura defensiva o ajudasse a manter qualquer vulnerabilidade longe de seus movimentos e mente, e se obrigou a começar:
— Eu imagino que vocês tenham maneiras de impedir que suas conversas incriminatórias sejam ouvidas — disse, decidindo ir direto ao ponto. Algumas delas assentiram. — Ótimo. Façam.
Depois de um momento de imobilidade, Theresa murmurou palavras desconhecidas para Aleksei. Ao redor deles, o ar se alterou – parecia mais pesado e o czareviche sentia uma pressão leve nos ouvidos. Difícil não se distrair diante de magia acontecendo bem à sua frente, mas Aleksei se forçou a manter o foco. Tinha noção de que o tempo de sustentar aquela indignação embotando todo o resto que ele deveria estar sentindo estava acabando.
— É um feitiço de silenciamento, vai restringir o som dentro da sala. — Theresa explicou, o tom inflexível revelando costume com o que tinha feito e nada mais. — Não vai perder a força, mas depois de quinze minutos é melhor que seja refeito.
Aleksei assentiu, ciente de que não tinha a menor intenção de se estender mais do que isso.
— Acredito que todas vocês já saibam o que se passou ontem e hoje de manhã. — Mais sinais silenciosos de concordância. — Srta. Elizaveta, minha promessa para você se mantém. Na realidade, estou estendendo a possibilidade de sair daqui para todas.
A quietude delas, já tensa, pareceu piorar – tudo o que não estava sendo proferido em voz alta sendo traduzido nas posturas, nas trocas de olhares. Lara foi quem quebrou o silêncio e nos maneirismos dela havia toda a cautela de quem lida com um bicho desconhecido:
— A Seleção está sendo encerrada, vossa alteza?
— Não. Não sei que rumos essa Seleção terá daqui para frente, mas encerrá-la não é um movimento político que posso fazer. — Seria mentira dizer que ele não tinha considerado. Se perguntara, não sem um pouco de humor ácido, que tipo de reputação a atitude lhe renderia, ainda mais se somada ao fim abrupto do noivado com Leonor. No fim, não estava ligando tanto assim para sua imagem ou mesmo para repercussões políticas, ainda que a gravidade delas fosse inescapável. O descarte da ideia tinha muito mais a ver com o que restava da confiança que tinha em Aberash e suas decisões e com o que tinha visto das mulheres à sua frente nas últimas semanas. Era pouco, mas, pelo jeito, ainda era suficiente para influenciá-lo, ainda que não sem agitar ondas de ressentimento nele. — Apesar de todas as justificativas românticas, essa Seleção tem objetivos muito mais reais e políticos e vocês estão cientes disso, em maneiras que eu jamais consideraria sem os ocorridos da última noite. Preciso de tempo para entender como conciliar o que eu esperava dessa Seleção e o que vocês vieram buscar.
— Não viemos com intenções de guerra, vossa alteza — Leena interrompeu, parecendo surpreender até a si mesma, com uma leitura muito acurada do tipo de conspiração rodando na cabeça do czareviche, as desconfianças que ele não queria ter que expor naquela conversa. — Nós…
— A intenção pouco interessa — cortou ele, mantendo o tom de voz tão neutro que ficava evidente o quanto estava reprimindo. O que quer que Leena queria dizer, se parecia demais com o que Aberash tinha tentado lhe comunicar mais cedo, e ele se recusava a cair na mesma armadilha duas vezes. — Coroar uma de vocês como Czarina seria o posicionamento político mais disruptivo, caótico, dos últimos séculos, isso sem levar em conta as divisões e disputas internas entre bruxos, sem que vocês tivessem que fazer sequer uma mudança de lei, um discurso ou mesmo usar um símbolo de seus covens. E, me parece, tudo isso aconteceria sem que eu soubesse.
Aleksei tinha tantas perguntas na cabeça que quase desejava ter escutado Aberash. Era esperado que ele soubesse que as selecionadas eram bruxas? Quando ele teria a dádiva de saber? No dia do casamento? Na coroação? No dia em que a guerra civil estourasse? Só a possibilidade de ser deixado no escuro por uma semana a mais que fosse já acendia todos os seus sentimentos mais hostis. Ele se obrigou a respirar fundo e continuar antes que o silêncio virasse convite para que uma delas tentasse explicar algo que o czareviche não tinha condições de ouvir.
— De qualquer maneira, o que aconteceu muda as coisas. E, se não for do interesse de alguma de vocês ficar para descobrir como, estou dando a opção de voltarem para casa. — A conversa com Aberash podia ter sido um desastre, mas uma parte ele tinha compreendido e queria evitar repetir: tudo ao redor daquelas mulheres era uma ameaça em potencial e, se ele se deixasse ser vago demais, beligerante demais, a opção mais lógica seria entender que ele também era. — Independente do que escolherem, a informação de que são bruxas não vai ser repassada a ninguém. Dou minha palavra de que manterei segredo.
A afirmação suscitou pouco alívio, mas ele não esperava que fosse essa a única preocupação delas ou que sequer acreditassem nele, de qualquer forma. O czareviche esperou, em silêncio, que elas considerassem a proposta e, se fosse o caso, se manifestassem. Como nada foi dito, Aleksei decidiu que já tinha direito de encerrar aquilo:
— A oferta fica em aberto indefinitivamente, falem comigo ou com Aberash e tomarei as atitudes necessárias. Senhoritas Elizaveta e Katherine, seus transportes estarão aqui em meia hora. Acredito que queiram se despedir. — Meros dias antes, ele tinha pensado em enviar Katherine para casa com cordialidade e desejos sinceros de que ela encontrasse a realização que procurava. Agora, tudo o que ele podia oferecer era aquele adeus distante que se daria a um estranho, sem conseguir se forçar a levantar nem o sorriso falso que tinha tanta prática em usar. — Boa viagem às duas.
Deixou a sala antes que conseguisse registrar as reações nos rostos delas – alguma parte sua lhe alertando que seria impossível escapar da mágoa o cercando aos poucos se o fizesse.
No corredor, agora rodeado dos sons que o feitiço tinha começado a abafar, Aleksei, pela primeira vez no dia, parou de se empurrar adiante e se permitiu um segundo de imobilidade. Um segundo em que ele caiu em seu próprio corpo, encontrado-o pesado, sem vontade de dar mais um passo sequer. O peso sobre seus olhos, agora que ele estava só, transfigurou-se de raiva a choro reprimido. O czareviche esfregou o rosto, com os movimentos irritados e bruscos de quem se recusava a deixar uma lágrima sequer vir à tona. Já sentia-se humilhado o suficiente.
O sol do fim da tarde anunciava que o mundo não tinha parado por ele e por suas certezas destruídas. O certo seria fazer alguma coisa, qualquer coisa que fizesse aquele dia parecer um pouco normal, que fosse. Ele devia se arrastar até o escritório e tentar se ocupar com os problemas do país ao invés dos seus, mas só considerar essa opção já estava lhe dando vontade de se encolher em um canto. Encontrar qualquer pessoa naquele estado patético seria um destino terrível. Decidiu, então, se afundar naquela solidão que tinha cavado para si, voltando ao seu quarto, trancando as portas e fechando as cortinas antes de deitar na cama e sumir debaixo dos cobertores.
Por algum milagre, o sono o alcançou antes de todo o resto.
*
Quando chegara ao palácio, Katherine tinha sido recebida por caminhos cobertos de neve, os azuis e cinzas das pedras e janelas do palácio brilhando sob o sol de inverno na beleza imponente das coisas que a humanidade construíra e elegera proteger contra o toque do tempo, que tudo transforma e devora.
Agora, a minutos de partir, os caminhos que Katherine percorria ainda eram brancos, cobertos pelas flores das cerejeiras plantadas no corredor da entrada principal do palácio até o primeiro portão de saída. O cheiro das flores preenchia cada brisa, carregando um aroma doce o suficiente para encher o peito da bruxa de alguma calmaria, uma benção por si só depois dos acontecimentos recentes.
*
Depois de chegarem a Aberash, as notícias tinham corrido com a rapidez de um incêndio em meses de seca. Se havia alguém as vigiando naquele momento, certamente percebera os grupos formados com rapidez, tentando esconder sussurros das perguntas que não podiam fazer, as expressões variando de ira a pavor, as tentativas das mais capazes de frieza e distanciamento de acalmá-las antes que piorassem a situação alarmando os convidados que de nada sabiam.
As que tinham condições ficaram pelo salão, segurando as pontas para outras que não tinham como permanecer mais um segundo que fosse fingindo que não estavam sob a ameaça de exposição mais iminente desde que tinham pisado naquele palácio.
Katherine era uma das que se viu obrigada a se retirar antes das outras. Tinha conseguido segurar o desastre tomando forma debaixo de sua pele por mais tempo do que esperava de si mesma, quase correndo com as pernas trêmulas até o próprio quarto e desabar. Os sintomas, familiares, ainda levavam seus pensamentos a lugares circulares e horríveis, uma repetição de pavores que substituiam o ar que deveria ocupar os pulmões da garota e forçavam seu coração a um ritmo errático que certamente o faria explodir.
O cheiro de queimado obrigou aquele emaranhado de temores a se mexer mais devagar. Não sem dificuldade, Katherine forçou-se de volta ao próprio corpo, descobrindo a fumaça saindo de seu vestido, as chamas consumindo devagar o tecido comprimido com força entre os punhos da bruxa. Não controlar os próprios poderes era um risco para qualquer dominador, mas as consequências para o fogo sempre pareciam ser mais velozes e visíveis do que qualquer outro elemento.
Diferente das outras vezes, em que estivera tão apavorada que até sua magia fugia de seu controle, Katherine encarou as brasas consumindo a saia azul e delicada entre seus dedos e se lembrou de que eram suas.
O curto treinamento com Aberash ressoava na sua cabeça em fragmentos, os encorajamentos para não se separar mais dos próprios poderes quando eles não pareciam lhe pertencer se misturando com seus pensamentos repetitivos e assustados.
Respirar ainda era uma tortura, mas as chamas agora contidas nas mãos abertas de Katherine eram suas.
Seu coração ocupava todo o seu corpo, abafando sua audição e seu senso de espaço, mas agora tudo o que restara de seu fogo eram cinzas e o cheiro de queimado pairando no quarto.
E, quando enfim as ondas de pavor foram se aquietando, Katherine tinha um vestido chamuscado e esburacado, exaustão lhe pesando o corpo e, mais importante de tudo, o feito de ter evitado uma segunda ocorrência de bruxaria naquela noite.
Talvez por conta dessa vitória, conseguiu se levantar, abrir uma janela para arejar o quarto e sair para procurar Elizaveta, de quem não tivera condições de lembrar até passar por sua própria tempestade.
Do salão comum, localizado ao fim do corredor dos quartos alocados para elas, dava para ouvir um burburinho de conversa, calmo demais para que Elizaveta estivesse entre elas. Katherine estava tentando não pensar na violência da discussão que teriam quando estivessem todas no mesmo cômodo.
Foi procurar Elizaveta em seu quarto, encontrando, além da porta trancada por algum feitiço de proteção elaborado, Alexandra e Nastya se revezando entre chamar Eliza e tentar contra-feitiços na fechadura, impaciência irradiando delas com mais e mais veemência a cada tentativa.
Se por um lado entendia e compartilhava da frustração delas, por outro se preocupava demais com Eliza para deixar que ela fosse arrastada para um interrogatório depois que abrissem a porta de seu quarto à força. Assim, chegou perto das duas e, tentando não soar tão trêmula quanto se sentia, disse:
— Me deixem tentar falar com ela.
As duas, provavelmente cansadas demais para discutir, se afastaram da porta.
— Estamos todas no salão comum. Se você não conseguir convencer ela a ir até lá, nos chame; a gente faz um buraco nessa porta se for preciso! — disse Alexandra, a última parte quase gritando, certificando-se de que Elizaveta ouviria. Depois foram embora, desejando boa sorte a Katherine.
Kat, apesar de ter se disposto a aquilo, não fazia a menor ideia de como convencer Eliza. Quem se submeteria, voluntariamente, à reprimenda que esperava por ela? O fato era que o silêncio de Elizaveta estava mais preocupando Katherine do que irritando-a, as piores opções para aquele comportamento enchendo sua cabeça com um pavor que ameaçava jogá-la em outra crise. Incapaz de maquinar qualquer coisa, a bruxa decidiu ser sincera:
— Eliza, só me dá um sinal de que você está aí. Eu… Eu não quero te convencer de nada, não vou te arrastar até o salão se você não quiser.
A falta de resposta se estendeu tanto que Katherine começou a considerar queimar, ela mesma, o buraco na porta, seus piores medos sobre aquele isolamento ficando mais palpáveis a cada segundo.
Com um ‘clic’ suave, a fechadura foi destrancada.
A única iluminação do quarto vinha dos abajures nas mesas de cabeceira, a luz morna mal alcançando Elizaveta, sentada no chão embaixo da janela. Se não soubesse do que tinha acontecido há pouco, a cena pareceria até pacífica.
Tudo o que Katherine queria dizer sumiu diante do silêncio taciturno se acumulando ao redor de Eliza. Não havia nada na expressão dela, livre de lágrimas, raiva, arrependimento, culpa, medo, alegria fingida, qualquer coisa.
Chegando mais perto, porém, o vazio em Eliza era falso. Havia terra em seu vestido, havia folhas nos cachos soltos de um penteado arruinado, havia vermelhidão de choro em seus olhos. Katherine entendeu aquela quietude de tudo como a última tentativa da outra de se manter no lugar, de não desabar mais uma vez. E, apesar dessa compreensão, não sabia o que dizer. Não sabia como equilibrar a preocupação quase debilitante com o ultraje justificado pelo risco a que tinham sido expostas, a culpa por não ter enxergado o que ia acontecer se debatendo contra a revolta de ter tentado tanto ajudar e ter sido afastada todas as vezes.
Assim, decidiu por se juntar a Elizaveta naquele silêncio carregado enquanto descobria o que queria dizer. Sentou-se ao lado dela, debaixo da luz ironicamente cálida iluminando as manchas de grama nos sapatos de Eliza e o tecido queimado de seu vestido, marcas de desastres ou feitos prodigiosos – só o tempo lhes apontaria qual das duas opções era mais verdadeira. E esperou.
Seria mentira dizer que foi confortável ficar ali, suas ansiedades se avolumando naquele silêncio tão propenso a piorá-las. Ainda assim, no passar arrastado dos minutos, ela via Elizaveta baixar a guarda devagar, se tornando uma presença mais suave ao lado de Katherine, mais familiar. E, quando Eliza se levantou, resoluta, Kat teve esperanças de que aquilo poderia terminar sem mais explosões:
— Vamos. Não posso deixá-las esperando para sempre.
Quando entraram no salão, Katherine percebeu que aquela continuaria sendo uma das noites mais caóticas da sua vida.
Demorou vários minutos para que a cacofonia de perguntas e acusações se aquietassem, Yanna e Kira, em pontas opostas da sala, procuravam controlar a situação. Katherine continuou ao lado de Eliza o tempo inteiro, tentando dar algum tipo de conforto à outra diante daquela indignação coletiva – justificada, mas assustadora de qualquer maneira. Mais assustador para Katherine, porém era a falta de reação de Elizaveta, numa placidez completamente fora de lugar.
Demorou um bocado mas, com alguma ordem estabelecida, Eliza lhes deu as respostas necessárias, relatando o que tinha acontecido mais cedo, recontando quando aquilo tudo tinha começado, repetindo a promessa que Aleksei tinha lhe feito – a parte mais inacreditável daquilo tudo.
Os ânimos tinham se assentado, mas estavam longe de estar em paz. Em uma repetição do que tinha acontecido com Virginia, ainda estavam agitadas com a adrenalina de tudo o que se passara, ninguém sentindo o tipo de fechamento que as levaria a encerrar a noite e ir dormir, simplesmente. A atitude de Elizaveta, beirando o desinteresse, não estava ajudando em nada. Katherine percebia nas outras a expectativa de alguma reação por parte de Eliza, algo que as ajudasse a ter um pouco mais de empatia por ela depois do risco a que tinham sido expostas. Virginia, em toda sua bravata, tinha ao menos lhes oferecido uma indignação que tornava sua atitude mais compreensível. Kat entendia um pouco do que se passava com Eliza por terem passado tanto tempo juntas, mas não podia julgar as outras pelo estranhamento, ela mesma querendo arrancar da amiga algum sentimento, qualquer coisa que não fosse aquela máscara de tranquilidade tão inumana.
Nenhuma delas tinha humor para tentar dispersar a energia raivosa praticamente trepidando no ar, mas, ao menos, não foi uma incitação de briga que cortou o silêncio:
— Elizaveta, alguém te examinou desde que você voltou? — A pergunta veio de Abby e Katherine, entendendo num instante o que a outra estava considerando, se recriminou por não ter pensado naquilo antes.
— Não. Mas não sei porque isso seria necessário, Viktor não chegou a sequer encostar em mim — respondeu ela e, em sua defesa, parecia sincera o suficiente.
Abby e Theresa trocaram um olhar, carregado de tudo o que as outras deviam estar pensando também. Virginia se pronunciou antes que uma delas pudesse, contudo:
— O que ela quer dizer é que uma explicação para o que diabos está acontecendo com você no momento é um estado de choque, e é um ótimo palpite. — Ela se levantou, parando diante da poltrona em que Elizaveta estava sentada. — Tenho treinamento como curandeira. Posso?
Elizaveta a encarou como se a sugestão fosse absurda. Uma sombra de desconfiança passou por seu rosto e ela pareceu querer dizer e descartar dezenas de coisas. Quando falou, enfim, tinha chegado àquela expressão tranquila que Katherine reconhecia como uma máscara.
— Vá em frente.
Com uma delicadeza que, com toda sinceridade, Katherine não esperava de Virginia, a bruxa fez exames básicos em Eliza, medindo sua pulsação, testando seus reflexos, verificando o estado de sua magia. Foi quase com desapontamento que Virginia, por fim, se pronunciou:
— Está tudo em perfeito estado.
O alívio puro que tomou Katherine não alcançou todas elas. Na realidade, foi a faísca para a indignação de antes voltar a queimar com força total.
— Se não tem nada de errado com você, podia pelo menos fingir estar sentindo algum remorso — disse Rafaela, seus olhos escuros cheios de nada além de ressentimento.
Elizaveta a encarou com algo que não chegava a ser desprezo, mas devia estar quase lá.
— Você não mataria os caçadores que acabaram com sua vida, se tivesse a chance?
Rafaela não hesitou nem um segundo para responder:
— Se cada caçador do país morresse agora, eu estaria mais feliz. Só que não foi isso o que aconteceu, foi? Quem esteve muito mais perto de morrer hoje fomos nós. — De todas elas, Rafaela era quem tendia mais ao alarmismo, a aumentar cada risco a um nível de ameaça letal, tanto que não foram poucas as vezes que tiveram que fazer um esforço coletivo em acalmá-la. Dessa vez, porém, ela não estava aumentando nada.
Mais cedo, as repercussões do que tinha acontecido se manifestaram em polvorosa, em falação confusa e energia demais para conseguirem ficar sentadas, o salão comum ocupado por andares ansiosos e gestos largos. Agora, talvez porque a gravidade de tudo (das atitudes de Eliza às suas razões) estava se assentando de um jeito bem mais racional, mais realista, toda aquela energia se acumulava entre elas como nuvens carregadas anunciando um segundo temporal, mais silencioso e mais pesado.
— Mas não aconteceu — sibilou Elizaveta, mal contendo a raiva por debaixo de cada palavra, uma rachadura a mais naquela pantomima de equilíbrio emocional. — Assim que o Sol nascer eu vou embora e vocês podem me esquecer e me xingar pelo resto da Seleção. Meu remorso ajudaria vocês em que?
— Elizaveta, a partir do momento em que você atraiu Viktor para aquela floresta, seus assuntos viraram nosso problema — disse Lara, soando mais cansada do que qualquer outra coisa. Tinha sido uma das que ficara até o final do baile e Katherine nem conseguia imaginar como era ter controle o suficiente para isso, ou quanto deveria drená-la. — E, mesmo assim, estamos tentando entender o que caralhos se passa com você. Seu remorso não ajuda em nada, mas seria muito bom saber que você criou, no mínimo, respeito o suficiente por nós para parar com esse teatrinho de não ligar para nada.
Elizaveta estava a uma palavra de se fechar completamente, Katherine tinha visto o mesmo ciclo se repetindo diante dela nas últimas semanas. Ela precisava falar alguma coisa, qualquer coisa que a impulsionasse a continuar ali, a ter uma conversa honesta com elas, mesmo que fosse a última. Era a única ajuda que podia oferecer à amiga mais querida que tinha feito ali dentro. Assim, quando Elizaveta começou a falar, ela não se deixou pensar demais antes de interrompê-la:
— Eu n-
— Elizaveta, você não olha para minha cara desde o baile. — A frase lhe soou toda errada, pessoal demais naquela discussão coletiva, mas era o melhor que conseguia. Teria que bastar. — Eu não entendo um terço do que deve estar acontecendo na sua cabeça, mas me parece que depois de tanto tempo sem respostas você encontrou bem mais do que esperava e não foi tão capaz de fingir que não era nada demais quanto achava que era. E agora parece que você acha que fugir e ignorar o que aconteceu vai, de algum jeito, te colocar no lugar em que você estava antes.
Toda a tentativa de calma de Eliza se desmanchou em uma expressão ferida, beirando a traição, e se levantou, afastando-se para a direção da porta. O estômago de Katherine revirou diante da reação, odiando cada segundo daquela discussão, querendo voltar atrás e oferecer só o apoio dócil que Eliza conseguia suportar naquele momento. Mas ela não podia. Deuses, não queria. Se tivessem tido aquela conversa antes, talvez a noite tivesse passado sem nenhum desastre.
No meio do caminho, Eliza se virou de volta para elas, o olhar carregado focando diretamente em Katherine.
— A última coisa que eu precisava de você era tanta insistência. — Tinha tanta decepção na voz dela que Katherine quase começou a chorar ali mesmo, segurando as lágrimas por algum milagre. Eliza voltou o olhar para as outras. — Eu respondi tudo o que vocês queriam, podem sobreviver sem meus sentimentos.
Ninguém mais falava, difícil saber se era a briga entre as duas ou o fato de ser Katherine, de todas as pessoas, naquele conflito. No silêncio tenso, porém, ela se via com um tipo de coragem que só resolvia agraciá-la no último segundo possível, quando não havia outra opção:
— Isso aqui está sendo uma surpresa para mim também, mas você não vai me convencer que é ruim eu me preocupar com você. — Katherine se levantou, as lágrimas começando a cair assim que ela abriu a boca. Mesmo se sentindo patética, incapaz de encarar conflito sem esmorecer, ela se forçou a continuar falando. Não havia tempo para esperar, não teriam mais dias de convivência naquele palácio, horas a fio oferecendo abertura para que conversassem quando estivessem mais estáveis. — Eu duvido que sua família e seus amigos em casa vão conseguir arrancar qualquer coisa de você e vai ter que viver com esses sentimentos todos te corroendo por dentro. Se você quer ter alguma chance de conseguir voltar para sua vida em paz, para de fingir que não está triste.
— Triste? Triste? — A máscara se estilhaçou, os olhos cheios de lágrimas que ela mal conseguia segurar, na voz o mais profundo desespero. — Katherine, eu estou destruída. Se eu- Se eu não encontrar um jeito de fingir normalidade, eu não sei como posso encarar minha família em algumas horas, como lidar comigo mesma e esses… Esses pensamentos, essas memórias infernais que estão me levando a ser uma pessoa que eu não reconheço e ninguém parece suportar.
Katherine se forçou a respirar fundo, a mágoa de Elizaveta engolfando-a com uma força que ameaçava sufocá-la. De algum jeito ela precisava continuar. Precisava enfrentar a tempestade que ela tinha incitado por acreditar que levaria a algo menos turbulento no final, mesmo que fosse assustador. Mas, pelos deuses, ela também estava exausta, os nervos no limite. Estava tentando reconquistar algum controle sobre o tremor e o choro impedindo-a até de falar quando Nastya tomou a frente:
— Eliza, você tem todas as justificativas do mundo para estar fora de si. Você acha mesmo que nenhuma de nós entende a necessidade de vingança contra um caçador? Que não vivemos sob o terror da Caçada e sabemos exatamente o que eles podem fazer?
— Esse não é o problema. Eu sei o perigo que eu criei, só não consigo me importar com ele. As coisas não tem importância nenhuma, das reações de vocês aos ideais que eu tinha antes, nada parece meu mais, eu… — Ela parou, tentando reconquistar algum controle sobre si mesma. Se funcionou, não ficou aparente. — Eu nem sei decidir o que quase matar um caçador fez comigo.
— Você disse que não estava arrependida — apontou Evelina, mas não havia acusação em seu tom.
— Não estou. Mas isso não quer dizer que eu esteja satisfeita. Não estou orgulhosa nem envergonhada do que eu fiz. Só… Aconteceu. — Katherine duvidava que qualquer uma delas sabia o que estava fazendo, mas, ao menos, Elizaveta tinha voltado, aos poucos, para perto delas, naquele círculo improvisado em que estavam. Ainda assim, estava sentada na ponta da poltrona, pronta para sair dali assim que fizessem o questionamento errado.
— Você… Você acha que precisa matá-lo? — A pergunta veio de Victoria e havia um nervosismo nela que parecia ter pouco a ver com Elizaveta. Talvez aquilo fosse mais para ela mesma do que para Eliza.
— Não. — A resposta saiu dela num fio de voz e, ainda assim, honesta demais. Tinha alguma percepção caindo sobre ela aos poucos. E parecia uma percepção horrível. — Mas também não quero perdoá-lo. Não faço ideia do que eu precisaria agora.
— Você sabe sim, Eliza. O que é? — Theresa disse, com uma certeza que, apesar de Katherine não entender de onde vinha, parecia certeira para ela também. — O que você quer?
Elizaveta ficou muito tempo em silêncio, encarando Tessa, maquinando um jeito de evitar responder. Mas ela também devia estar cansada, a mais exausta entre todas elas. As lágrimas começaram a descer por seu rosto antes mesmo de ela responder, a voz embargada pouco soando como a adulta que tinha quase cometido homicídio há poucas horas. Ela soava como a criança abandonada que fora tantos anos antes:
— Eu quero meus pais de volta. Eu quero meus brinquedos, as roupas que eu ia herdar da minha mãe, as histórias que meu pai ia me contar. Eu quero lembrar de como era a voz dele e qual era o cheiro da minha mãe. Mas o que… O que eu faço com esses desejos impossíveis? Querer essas coisas vai me deixar tão vazia quanto não querer nada. — No fim, mal dava para entender o que ela estava dizendo, a voz pontuada por soluços. Ela afundou o rosto nas mãos, rendendo-se ao pranto por completo.
A chama de raiva tinha se apagado assim que a primeira lágrima caiu dos olhos de Elizaveta, o fogo enfurecido de antes dissolvido em água salgada. Agora estavam todas largadas no escuro e no frio cruel das lembranças que cada palavra dela estava suscitando.
Afinal, Nastya estava certa. Todas entendiam, do terror de tentar viver uma rotina sob a mão de ferro da Caçada ao sangue de gente amada espalhado ao redor delas, agarrado à pele há tanto tempo que parecia uma marca de nascença. E ouvir Elizaveta em seu próprio luto terrível estava abrindo cada ferida antiga mal cicatrizada. À essa altura, Eliza não era a única chorando.
Muito devagar, Katherine chegou perto de Eliza, abraçando-a em movimentos mais lentos ainda. Elizaveta não resistiu, apoiando-se no ombro dela, o que cortou o coração da bruxa mais um pouco. Suas lágrimas estavam caindo no cabelo de Eliza, mas era o melhor que conseguia fazer naquele estado, certificar-se que a amiga soubesse que ela estava ali, ao lado dela, mesmo que não soubesse como ajudá-la. Se tudo que podia fazer era estar, então o faria com toda a sua dedicação.
Movimentos parecidos aconteciam pelo salão, com até a mais reservada delas encontrando conforto em um abraço, mãos dadas ou só ficar lado a lado com quem deixasse.
E, por mais que fosse devastador ter que dividir aquela tristeza dilaceradora, elas nunca tinham estado em um entendimento tão profundo. Tinham se esquecido do que as unia naqueles meses iniciais, presas a medos e preocupações individuais, mas agora a lembrança estava à vista de todas. E precisariam decidir como lidar com isso.
— Isso não pode continuar se repetindo — murmurou Leena, quebrando o silêncio com a voz tão chorosa quanto a de todas elas, mas firme, ainda assim. — Eu não… Eu não faço ideia de como evitamos explosões violentas e essas reuniões tão violentas quanto, mas tem que ter um jeito de a gente se ajudar a manter a sanidade dentro do palácio. Se não conseguirmos nos proteger, que chance temos aqui dentro?
A constatação se assentou entre elas como um peso a mais naquele ambiente carregado, ninguém conseguindo discordar.
Talvez por isso, foi uma onda de alívio muito particular ver Aberash entrar no cômodo. Algo nos seus maneirismos – o cansaço, a compreensão da melancolia inundando a sala, uma respiração trêmula antes de falar – fez Katherine se lembrar que ela era tão jovem quanto as mulheres naquele salão.
— Eu sei que a noite foi longa — disse, sentando-se entre elas sem cerimônia e, por isso, encaixando-se melhor ali —, mas vamos conversar e terminá-la, finalmente.
*
E assim fizeram.
A noite foi embora e com a manhã vieram as consequências da madrugada, mais gritantes pelo fato de que nenhuma delas tinha dormido direito.
Elizaveta e Katherine acabaram ficando no palácio até o fim da tarde, a partida agendada para a manhã sendo atrasada pelo que precisava ser finalizado.
Se, por um lado, a conversa no final da madrugada com Aberash tinha ajudado, dando a elas algumas certeza, algumas esperanças e alguns metros de chão firme sobre o qual pisar, ouvir Aleksei tinha sido o exato oposto. Como confiar na promessa do czareviche quando elas nunca tinham o visto tão austero? Com que coragem ficar, mas como ser covarde o suficiente para partirem? Não havia resposta fácil naquela confusão e, ainda que com um pouco de culpa, Katherine estava feliz por já estar indo embora e não ter que decidir.
As horas não tinham passado só em coisas ruins, porém.
Katherine tinha suposto que era ruim com despedidas – em grande parte por ter tido tão poucas. Até então sua vida tinha se resumido aos mesmos colegas de escola com quem estudara desde o maternal, às mesmas faces conhecidas no coven que frequentava, aos mesmos familiares que visitavam nos finais de ano. Em mais uma surpresa, contudo, estava indo embora daquele palácio sentindo que tinha fechado aquele ciclo direito, tendo dito seus adeus às outras selecionadas com mais desenvoltura e afeto que esperava de si mesma. Se entendiam melhor agora e, ao invés de lhe parecer triste conseguirem isso só quando ela ia embora, estava tomando aquilo como uma conquista e um incentivo a continuar na busca por expandir seus horizontes a que tinha se proposto.
Apesar dos quase desastres e da noite em claro, o mundo não parecia horrível. Havia a primavera e o cheiro dos jardins em florada. E havia Elizaveta seguindo ao seu lado, com olheiras fundas e olhos vermelhos, resquícios do choro da noite anterior, mas ali e parecendo um pouco mais inteira do que antes.
— Kat, sem querer ser insistente — começou ela, enquanto observavam o carro que as levaria ao aeroporto subindo o caminho até as duas —, mas você tem certeza de que não quer ver seu pai logo?
Em algum ponto depois do almoço, Katherine sugeriu acompanhar Eliza à sua cidade natal. Elizaveta, apesar de ter negado de primeira, admitiu que gostaria de uma presença que sabia da história toda na hora de voltar para casa e encarar todos aqueles sentimentos mais uma vez. Katherine também estava usando aquela oportunidade para se forçar um pouco mais além de sua zona de conforto – claro que estava morrendo de medo de ter que conhecer uma cidade e pessoas novas, mas tinha que começar uma hora ou outra.
Katherine negou, balançando a cabeça com veemência.
— Meu pai é um homem paciente. Você, por outro lado, pode sumir se eu me distrair demais. — Sentia tanta saudade de seu pai que mal conseguira sustentar sua resolução quando contara o que queria fazer, mas ele a compreendeu e incentivou, lhe dando novas forças. Além de, claro, exigir que ela levasse Elizaveta até lá para retribuir a hospitalidade.
Elizaveta piscou, digerindo a resposta antes de dar uma risada curta, a primeira desde o baile.
— De todas as coisas, foi a teimosia que você aprendeu de mim?
Katherine abriu um sorriso satisfeito, se permitindo assimilar o palácio e suas flores pela última vez antes de entrar no carro depois de Eliza e fechar a porta.
— Eu acho que você só me ajudou a descobrir ela, na verdade.
*
Há anos Yeva não descia para a capital sem uma comissão de segurança em seu encalço e um evento planejado e bastante público lhe esperando. Assim, a cidade que se apresentava para ela nas primeiras horas da manhã era muito diferente da com que ela tinha se acostumado, mais silenciosa e verdadeira, rotineira.
Não fosse a razão de estar ali, Yeva estaria estática por ter um vislumbre de uma vida sem relação com a realeza, uma vida que tinha sido sua há centenas de anos, parecia. O cheiro de gordura esquentando se misturava com o dos legumes frescos e os incensos povoando as tendas vendendo artigos religiosos (a maioria transbordando de crucifixos como se para não deixar dúvidas que não tinham relação alguma com bruxaria). Havia burburinho de conversas entre vendedores, gente barganhando com inteligência e rapidez como se não fossem cinco da manhã, canções passando pelo ar, fosse de músicos de rua ou feirantes entoando chamamentos sobre seus preços e produtos. Se pudesse, Yeva se perderia naquela cacofonia, lembrando dos finais de semana passados em lugares como aquele com seus pais.
Tinham concordado em se encontrar na feira em Matrona Nikonova, um dos bairros mais antigos da capital. Apesar de estar tão cedo que o Sol mal alcançava o asfalto com seus raios pálidos, havia gente o suficiente na rua para que Yeva não se destacasse, o lenço e o cachecol cobrindo sua boca chamando quase nenhuma atenção, uma vez que metade das mulheres ali vestia aparatos muito parecidos para enfrentar o sereno e o vento frio do começo do dia. A névoa espiralando entre as barracas ajudava a diminuir a visibilidade, facilitando ainda mais que aquela ideia ruim funcionasse. Todas as coincidências e detalhes favorecendo aquela situação tinham jeito de mau presságio para a Czarina.
Não bastasse o motivo de estar ali para fazê-la se sentir irresponsável e desesperada, ter se esgueirado para fora do palácio quando ainda estava escuro em uma das motocicletas dos caçadores só piorava sua situação. Podia não ser uma estrategista tão boa quanto Catherina, mas continuava sendo sua mãe: tinham o porte físico parecido o suficiente para enganar os guardas da entrada com um capacete na cabeça – não esperava que sua carteira de motorista voltasse a ter utilidade quase 30 anos depois de a ter tirado.
Não descartava a possibilidade de estar se dando crédito demais e descobrir que sua escapada fora evidente para todo mundo quando voltasse ao palácio, mas pensaria em um jeito de contornar isso quando estivesse no caminho de volta. Talvez levar algo da feira ajudasse com um álibi minimamente crível, pensou, passando a correr os olhos pela mercadoria nas tendas com mais atenção, procurando algo de que seus filhos ou Damian pudessem gostar.
Damian. Andava sendo difícil estar com ele; sua presença era o maior conforto que ela tinha – o tipo de amor que ela mal conseguia suportar receber quando sentia-se menos digna dele que uma ratazana. Sabia que tinha tempo contado para dar um jeito naquela culpa velha e voltar a tratá-lo como ele merecia. Assim que os últimos problemas da Ouvidoria acabassem e Damian conseguisse dormir mais do que quatro horas por dia, ele teria foco o suficiente para ver todas as suas ausências e questioná-las.
Não era mais fácil estar com seus filhos, também, que entendiam menos ainda aquela atitude anormal de Yeva. Achava que estava fazendo um trabalho decente em estar mais presente para eles desde a Ouvidoria, e, de fato, era um pouco mais fácil a cada dia. Isso até uma semana antes, quando o baile de aniversário de Aleksei acabou com todas as suas esperanças de poder ignorar o aviso (a ameaça?) que Luka tinha lhe dado.
Foram três segundos, apenas. Três segundos nos quais, procurando por Aleksei depois de seu sumiço repentino, o encontrou. Três segundos nos quais viu seu menino cambaleando pelo corredor vazio, um líquido preto escorrendo de seu nariz e manchando seus dedos, como se tivesse limpado aquilo diversas vezes. Três segundos nos quais teve a presença de espírito de se esconder enquanto ele passava, seguindo em passos trôpegos até seu quarto e trancando-se ali com uma batida forte de porta.
As horas seguintes passaram em um borrão no qual ela não se lembrava de ter respirado o suficiente. Tinha percorrido os corredores próximos procurando por qualquer testemunha do que tinha acontecido e, depois de não encontrar nada, se ocupou de que ninguém, nem um guarda sequer, chegasse perto daquela área, arrumando ordens para mantê-los longe dali.
As palavras de Luka martelavam em sua cabeça, a promessa de destruição a rodeando e impedindo-a de pensar direito. Talvez aquele palácio fosse abaixo no próximo segundo e ela não teria feito nada além de saber. Devia mobilizar Catherina, fazê-la incapacitar os poderes de Aleksei como era treinada para fazer. Mas, Deus, como podia pedir isso dela depois de jogar o segredo mais destruidor possível em seu colo? Como podia fazer Aleksei passar por aquilo? Não estava pronta para perder seus dois filhos de uma vez.
Naquela agonia, as horas passaram e a destruição não veio.
Duas horas depois, com o baile finalizado há muito tempo e com o palácio todo dormindo, ela finalmente juntou coragem o suficiente para voltar ao quarto de Aleksei e se forçar a abrir a porta, encontrando-o em um sono tão plácido que quase considerou ter alucinado a coisa toda. Chegando mais perto, porém, os rastros escuros no rosto de seu filho eram reais demais para que pudesse inventar qualquer mentira para si mesma. Precisou de muito esforço para não começar a chorar ou hiperventilar ali, empurrando-se para o corredor com o resto de bom senso que lhe restava.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!A noite em claro trouxe diversas ideias, mas havia só uma com qualquer chance de funcionar: Luka. A odiava e se odiava por ter que recorrer a isso, mas que outra opção ela tinha?
Era óbvio que fazer Aleksei reprimir sua magia estava machucando-o, muito mais do que ela se atrevera a imaginar. Como dar outra alternativa para ele, porém? Contatar qualquer coven seria a exposição mais arriscada de toda a história, tinha mais chances de acabarem com um escândalo capaz de erradicar a família real do que com um professor para o czareviche.
Luka era a pior opção do mundo, mas também era a única. Tão arriscado quanto os outros, ele ao menos parecia dar mais valor a ensinar Aleksei do que a expô-los. Mais do que isso, ele já sabia sobre o passado de Yeva – se quisesse que essa informação circulasse, o teria feito há muito tempo. Yeva sabia que os interesses dele eram traiçoeiros. O que quer que ensinasse ao seu filho seria manipulativo e deixá-lo dentro do palácio era conviver com a possibilidade de acabar morta ou alguma coisa pior na vingança que ele, com toda certeza, planejava. Mas a outra opção era deixar Aleksei sofrer até perder o controle e causar uma devastação que ela nem conseguia mensurar.
Assim, estava ali para vender sua alma ao diabo. Bastava descobrir se terem sido uma família um dia o faria baixar o preço ou triplicá-lo.
— Quem não conhece até acha que você é só uma pessoa normal. — A voz de Luka, carregada do sarcasmo que parecia emanar de tudo que ele dizia, soou atrás de Yeva. Ela, ao menos, conseguiu não fazer nenhum movimento que indicasse o susto que tomou, virando-se para ele com a calma que não estava sentindo.
— Eu fui uma, um dia — respondeu, dando de ombros e passando a andar lado a lado com ele, em um passo despreocupado que não combinava com a tensão vibrando entre os dois.
Vê-lo ainda era irreal e, se pensasse demais, começava a ter tonturas. Mal conseguia conciliar a memória de seu irmão, a criança amável que ela tinha conseguido estragar, com aquele adulto exalando poder e rancor. Ironicamente, isso ajudava um pouco. Separá-los limpava sua cabeça da culpa por tempo o suficiente para que pudesse ser racional.
— Está muito enganada se acha que está em posição de negociar — começou ele, a voz num tom baixo que só chegava até Yeva, ainda mais na barulheira ao redor deles. Apesar do sorriso cínico em sua cara, era evidente a raiva em cada palavra. Era fácil perceber o quanto aquela discussão lhe parecia ofensiva, repetindo o tom irredutível que tinha apresentado na ligação que tinha os trazido ali, quatro dias antes. Yeva não esperava coisa diferente.
— Sou uma diplomata, Luka — respondeu, preparada para a ofensiva. — Minha profissão é negociar. Você pode achar que estar desesperada vai me fazer aceitar qualquer coisa, mas é exatamente o contrário. Consigo os melhores acordos das situações mais precárias. Afinal, que chance você tem de pisar no palácio sem a minha intervenção?
Impaciência queimava nos olhos dele, evidência de um gênio mal domado sob aquela fachada de controle e letalidade. Ela mesma estava longe de estar tão no controle quanto estava dando a entender, mas nenhum dos dois tinha qualquer pretensão de serem sinceros naquela conversa. O que funcionasse, valeria.
Ele pareceu querer rebater e Yeva se preparou para mais uma afirmação que iria cutucar todas as suas feridas. De repente, porém, ele ficou pálido, sua caminhada perdendo o ritmo por meio segundo. A Czarina não conseguiu traduzir o que foi aquilo que passou na sua expressão, mas pareceu com dor. E sumiu tão depressa quanto apareceu.
— Ok. O que você quer? — disse ele, por fim, retomando o ritmo tranquilo de seus passos. A palidez ia sumindo aos poucos, mas era impossível esconder que alguma coisa tinha acontecido ali, algo que tinha poupado Yeva de minutos de bate e boca até conseguirem concordar que precisavam de um plano e condições.
E, por mais que desgostasse de ter que lidar com mais um fator desconhecido naquela relação, estava grata o suficiente com o ganho de tempo para ignorar o incômodo e seguir em frente.
Precisaram de uma caminhada muito longa para chegarem a um entendimento mínimo, tendo a discussão mais importante de suas vidas em uma meia voz forçada enquanto entremeavam ruas vazias depois de já terem percorrido toda a extensão da feira duas vezes.
E, contrariando as boas histórias de terror, foi sobre o Sol já quente da manhã, rodeados por árvores em florada e no bairro mais pacato da cidade, que Yeva selou o contrato que a condenaria. Se havia alguma satisfação naquilo, era o fato de Luka parecer tão desgostoso quanto ela sobre os termos a que tinham chegado.
Se estava fadada a ser arrastada ao inferno, ao menos se certificaria de levar Luka consigo e ninguém mais.
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