Já era quase final da tarde, quando Francis foi para rua principal junto de sua sobrinha Helene.
Embora a rua esteja cheia, eles sabiam que no dia seguinte, por causa do desfile, seria muito mais cheio, e consequentemente mais complicado de andar.
Tanto Francis quanto Helene não gostavam de locais muito cheios, do contrário, eles detestavam, mas havia algumas coisas que Francis precisava para o trabalho e necessitava comprar.
— Helene, precisa de alguma coisa? — perguntou Francis enquanto guardava o saquinho de moedas no bolso da calça.
— Tio, no máximo preciso de algumas ervas e possivelmente algumas coisinhas, porque estava fazendo um negócio para a Linara – disse a garota coçando a cabeça enquanto pensava no assunto.
— Aconteceu algo com ela? — perguntou Francis enquanto via umas listas.
— Então, ela estava se relacionando com um rapaz e ele terminou com ela não tem muito tempo...
— Hm.
— De uns dias para cá ela desconfia que está grávida...
Francia parou de ler a lista e olhou desconfiado para a sobrinha.
— E o que você pretende fazer? – suspirou já tendo ideia de que ela queria testar algo que havia lido em um dos livros da sala deles.
— Fazer aquele negócio que li em um livro seu que identifica se está ou não... Tipo um teste...
Sabia, pensou o homem já conformado.
— E por que não vê a alteração de mana dela? Dá para saber por que a mana muda.
— Porque tio, ela precisa de uma prova. E a prova para ela mostrar para o rapaz e a família dele.
— Não acho que você deva se meter nesse assunto, Helene. Magia com ervas são mais complexas do que aparenta no livro. Você ainda é iniciante, não conseguiu dominar sua própria mana.
— Queria tentar pelo menos, para ajudar. Pelo menos se eu errar, não vai prejudicar tanto ela.
O homem não disse mais nada sobre o assunto, já vi que se envolveu com algum nobre e pode ter certeza de que vai arrumar dor de cabeça, pensou enquanto pegava umas 7 moedas e entregou para Helene.
— Avisa o Rubens que quero o de sempre. O dinheiro tem o suficiente para comprar minhas coisas e as suas.
Helene acenou com a cabeça e então foi saindo.
— Helene! — disse Francis de repente.
— Oi tio.
— Toma cuidado.
— Vou tomar sim — Helene deu um sorriso e então sumiu de vista.
Cada dia mais parecida a mãe, pensou em um suspiro triste.
Francis era conhecido por muitos no reino. Todo mundo que precisava de algum conselho ou de algum favor o procuravam. Ele sabia qualquer tipo de magia e qualquer tipo de conselhos para situações mais inusitadas.
Algumas pessoas consideravam Francis o mago mais poderoso de todo mundo. E por causa disso, o maior questionamento era o fato dele não ter nenhum título de nobreza.
Mas o que deixavam as pessoas confusas eram os olhos de Francis, azuis como safiras. Pois de início achavam que ele mexia apenas com magia de água, até descobrirem que ele mexia com qualquer elemento.
Helene, por sua vez, era a única sobrinha de Francis, filha da única irmã dele. Após um pequeno acidente, Helene acabou ficando órfã, e consequentemente Francis acabou tomando conta. Embora ele trate a sobrinha como uma filha, Francis acabava tendo um comportamento semelhante ao que tinha com a irmã, protegê-la a todo custo. Graça aos comerciantes locais, que o conheciam muito bem, ele estava podando essa mania de impedir Helene de crescer.
Francia entrou na loja de Meyers, um comerciante muito conhecido pelas suas poções e ingredientes exóticos, como anfíbios ou insetos.
— Boa tarde, senhor Meyers — disse Francis ao entrar no estabelecimento.
Uma coisa que Francis também gerava conversa era a postura. Ele agia como um nobre, se vestia como nobre, usando uma calça social azul marinho e uma camisa social branca, até os cabelos castanhos claros eram curtos como a alta classe usava.
Mas o que diferenciava dele dos nobres era o uso de broche. Apenas os nobres possuíam um broche que quanto mais rebuscado, maior o título.
Francis não possuía aquele broche.
— Olá Francis, e Helene? — respondeu o vendedor.
— Está vendo uma lista dela — disse mostrando a lista.
— Finalmente está deixando a garota crescer, Francis.
O homem apenas riu.
— Essa menina está ficando igual a mãe. Desde o comportamento, até a beleza.
— Pois é... — respondeu um pouco ríspido.
Meyers olhou a lista com calma.
— Cuidado com os nobres, são tudo como gavião – disse num tom provocativo.
— Esse é o meu maior medo.
A porta se abri e um homem entra de forma sutil Francis não precisou se virar para saber do que se tratava.
— Se veio pessoalmente é porque está desesperado por ajuda.
— Preciso falar com você. Quando posso ir à sua casa?
— Amanhã estarei o dia todo lá.
O homem se virou.
— A propósito, ele está aqui, toma cuidado – disse o homem ao Francis.
***
Helene analisava com calma as listas do que ela precisava pegar.
Bom, primeiro vou pegar os vidros, depois algumas comidinhas, pensou. Por fim as ervas.
No primeiro estabelecimento, onde vendia frascos de vidro, ela estava animada.
— Boa tarde lady Kelly!
— Helene! Seu tio deixou vir só? Nunca imaginaria isso! — respondeu Kelly surpresa.
— Ele está aqui, é que vim adiantar umas coisas.
— Mesmo assim, se dependesse dele, nunca que iria sair da asa dele.
A menina riu e entregou uma pequena lista de coisas que precisava.
— Certo, me acompanha que está tudo aqui na loja.
Helene seguiu a mulher quieta. Enquanto elas andavam, a mulher logo começou a falar.
— Sabe Helene, você está parecida sua mãe.
— Você acha?
— Sim, eu particularmente não falo na frente do seu tio, porque ele não gosta.
— Você sabe o porquê?
— Olha — disse enquanto colocava os frascos em uma cesta — isso é algo que seu tio deve falar com você.
Helene ficou pensativa com aquela frase. Os comerciantes eram os que mais conheciam Francis e ela, possivelmente toda a família dela. E eles sabiam do que tinha acontecido.
— Você sabe que te considero uma filha não é Helene? — disse Kelly já embalando as mercadorias — você pode contar comigo para qualquer coisa.
— Obrigada Kelly.
— Mas dá um tempo para seu tio, na hora certa ele vai contar toda história.
Helene pagou Kelly tudo que precisava e saiu para um outro estabelecimento comprar petiscos para comer enquanto estudava no quarto.
Após pegar tudo que precisava, Helene finalmente entrou na casa de ervas. O lugar que ela mais gostava.
— Olá Helene, quanto tempo! — uma voz disse assim que ela entrou.
— Oi Rubens! Como vai?
— Na medida do possível estou indo.
— Está triste Rubens, aconteceu alguma coisa? – ela olhava o rosto do rapaz que estava um tanto quanto com um semblante preocupado.
— Problemas com a loja minha jovem. E não sou só eu com esse problema.
Helene chegou perto do balcão e entregou uma lista.
— O tio disse que vai querer o de sempre.
— Certo. Fique à vontade, caso queira algo daqui só colocar no balcão.
— Tudo bem! Obrigada.
Rubens foi dentro da loja pegar o que a lista pedia.
Enquanto a menina passeava pela loja, o único barulho que ela escutou foi o sino tocando, quando a porta se abria. Porém nem aquilo a tirou da distração.
Ela olhava as múltiplas ervas e as múltiplas variedades, quando ela encontrou a erva que estava procurando para a amiga dela. No momento que ela coloca a mão, uma pessoa também coloca.
Era um homem.
Um homem muito diferente do que ela estava acostumada a ver. E também bem arrumado.
— Me desculpa — disse ambos.
Uma pequena risada surgiu por parte de ambos. E ela olhou para ele com curiosidade.
— Você é... — disse a menina tentando puxar assunto.
— Lethoudus Lancaster Fraser, prazer em conhecê-la — disse o rapaz encantado.
Helene ficou surpresa, é o príncipe das nuvens, o que eu faço? pensou a menina ansiosa.
— V-vossa alteza! — respondeu Helene fazendo uma reverência sem graça.
— Por favor. Não há necessidade de fazer isso, eu particularmente não gosto.
— Me desculpa... Prazer, Helene — disse a menina — Sou Helene Llwyd.
Espera, Llwyd? pensou o príncipe, ainda existe essa família?
— Você é filha de Francis Llwyd?
Aquilo foi uma surpresa para ela, nunca que saberia que a família real poderia conhecer o tio dela, na verdade nenhum nobre do reino.
— Oh! Não! Francis é meu tio por parte de mãe.
Lethoudus ficou surpreso com aquilo. Ele acreditava que a família Llwyd tinha sido aniquilada pelo pai, numa briga muito antiga, antes mesmo de ser traído pelo próprio filho.
Aquilo foi uma surpresa para ele. Onde que eles se escondem? pensou.
— Você conhece meu tio? De onde? — perguntou a menina curiosa.
— Bom — Lancaster começou a andar disfarçadamente — pelas pessoas da região. Todo mundo fala do poderoso mago que anda pelas ruas das nuvens. Achava que ele era um homem solitário. Mas ele tem uma família.
Pelo jeito inocente da menina, Lethoudus acreditou que ela não sabia de nada. *Vai ser melhor ela não saber por mim o ocorrido*
— É, mais ou menos — Helene o seguiu — só eu que moro com ele.
— Você é a família dele!
Aquilo fazia sentido para Helene. Então ela começou a divagar.
Lethoudus ficou admirando a beleza dela. Ela era diferente, ele não sabia como dizer. Os cabelos castanhos ondulados, tinha uma harmonia com o fino rosto, e o corpo miúdo, como se ela fosse frágil.
Os olhos fez Lethoudus mergulhar de vez na análise. Era um roxo lembrava ametista, mas eram escuros. Era uma cor que se ele ficasse muito tempo encarando podia mergulhar em algum universo sem fim.
— Helene?
Rubens chamava Helene, que imediatamente andou até o balcão da loja. Lethoudus ficou parado hipnotizado com a situação.
— Infelizmente não vou poder ter todas as coisas da lista — disse o vendedor.
— Tudo bem, vou avisar o meu tio...
— Algum problema Rubens — perguntou Lethoudus.
— Vossa Alteza — disse fazendo um gesto semelhante a uma reverência, porém mais discreta — digamos que o mesmo de sempre.
— Você disse que não há todas as ervas da lista, por quê?
— Bom, as ervas que não têm são as que preciso comprar na Terra. Não sei se sabe, mas o porto está fechado.
— Estou sabendo disso agora.
— A passagem do porto quebrou, devido o tornado. Não temos mais como fazer as importações e nem exportações. Estamos também tendo prejuízo quanto os recursos.
Lethoudus observou Helene, que estava fazendo algumas anotações.
— Helene, não há necessidade de pagar por agora — disse Rubens — vou anotar na ata aqui, porque preciso falar com seu tio.
— Tudo bem, disse a menina se retirando.
— Você que ajuda? — perguntou Lethoudus.
Helene olhou assustada, o príncipe me ajudar?
— N-não precisa alteza, eu me viro.
— Não precisa ficar envergonhada, eu ajudo.
Lethoudus quando se aproximou de Helene, imediatamente escutou uma voz.
— Não se aproxime dela.
O príncipe olhou para frente. Helene se virou.
— Tio! — disse Helene.
— Pegou todas as coisas?
— Sim.
Francis pegou algumas coisas que estavam com Helene.
— Helene vai em frente, vou acertar com o Rubens.
— Certo.
Francis não olhou para a menina saindo, ele ouviu o sino da porta bater.
— Quanto tempo Lethoudus — disse Francis — não sabia que gostava de ervas.
— Sabe como é senhor Llwyd. É um antídoto que precisava fazer.
— Cantar uma jovem inocente também está na lista?
— Eu não estava cantando sua sobrinha. Estou mais ocupado com meus assuntos. Que a propósito preciso tirar uma dúvida com você.
— Não quero nem você, nem ninguém perto de Helene. Pode ser o rei, eu não vou permitir.
Lethoudus percebeu que não iriam sair do lugar, principalmente porque sabia que Francis era cabeça dura.
— Quero saber do tornado.
— Você sabe que Sebastian não vai gostar disso, não é?
— Eu sei, mas tenho desconfiança sobre esse tornado.
Francis não respondeu.
— É importante, há pessoas morrendo.
— O que eu sei é que esse negócio foi feito por alguém. Não é natural. E não sei como desfaz — disse de repente — deve ter anotado. Mas uma coisa é fato, quem fez sabe desfazer.
Lethoudus ficou quieto, Sebastian colocou uma moeda de prata e uma de ouro. Olhou para Lethoudus, fez uma reverência.
— Espero nunca mais olhar para a cara da família real novamente — disse e então se retirou.
Lethoudus olhou sem graça para Rubens.
— Esse tornado está nos dando muito prejuízo, vossa alteza.
— Quanto que vocês já perderam com ele?
— Eu contabilizo meus lucros quando fecho as portas, o problema agora que está tendo saque de mercadorias da Terra.
— Saques?
— Sim. Roubam para revender. Três comerciantes que foram roubados. Amanhã teremos que ver por causa do feriado.
— Vou tentar resolver isso. O problema que Sebastian dificulta as coisas.
— Não se preocupe vossa Alteza, após a festa iremos pessoalmente no castelo pedir ajuda.
— Vocês tem meu apoio.
Lethoudus se despediu de Rubens e saiu. Nesse meio tempo ele pensou que talvez haveria alguém, diferente de Francis que saberia melhor sobre essa questão do tornado.
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