The Killers II- Interativa
8 07- Happy Day- Free Time Events
Notas iniciais
Sentou-se na rica poltrona enquanto assistia atentamente as dezesseis telas a sua frente. Todos os seus coelhos estavam ali, prontos para serem devorados pelo lobo. Um lobo grande e amedrontador chamado de desespero. Ele sabia que nenhum deles poderia escapar disso, pois mesmo os mais esperançosos uma hora seriam infectados. Os seres humanos eram tão tolos e tão manipuláveis. Pegou uma xícara de porcelana bebericando o café quente que havia nela, olhou para o retrato que havia na bancada, de uma bailarina loira sorridente. Ela chegou perto, bem perto, mas ainda assim não conseguira cumprir o seu objetivo como desespero.
“Pobre Clarabell”, pensou, mas não podia prender-se a morte dela, tinha de ter foco e manter o seu jogo o máximo que pudesse, precisava eliminar quaisquer resquícios de esperança que haviam naqueles pobres e jovens corações. Sorria só de pensar em vê-los morrendo, um a um, seria maravilhoso, desesperadamente maravilhoso. Porque de certa forma, todos eles eram culpados de algo, todos tinham seus segredos e mentiras, e ele os conhecia bem, foram meses de monitoração antes de conseguir sequestra-los para aquele jogo.
E os seus colegas haviam aprontado muito nesse meio tempo. Haviam se tornado assassinos, ladrões de identidade, sádicos, pessoas violentas, apenas um ou dois mantiveram suas personalidades originais- mas não sem demonstrar sequelas e cicatrizes do que aconteceu na infame escola que frequentavam- e ver como seus coelhos estavam agora, inocentes e livres de toda culpa por não se lembrarem de nada, era realmente irônico.
Talvez aquilo fosse mais divertido do que imaginara, o papel de “manda-chuva” lhe caía bem, com certeza seria bom que o mundo visse o quanto ele era perigoso. Acariciou o seu dedo anelar, o dedo que não lhe pertencia, mas sim a sua mestra. Era tudo o que havia conseguido dela depois de sua morte- os mais próximos haviam pego partes mais importantes- aquele dedo não lhe servia para nada além de lembrança, ele ainda mantinha a unha vermelha em sua ponta, como uma forma de lembrar-se da sua “deusa do desespero”.
Sorriu bebendo mais um pouco de café, estava na hora do lobo entrar em ação, e devorar de uma vez todos os coelhos antes que estes fugissem da toca. Abriu uma das gavetas, onde se encontravam as pastas dos estudantes, estava pronto para transmitir os vídeos que levariam os estudantes ao desespero completo. Um deles iria se render, ele tinha certeza disso, um deles sempre se rendia. Acariciou a cabeça do urso robótico ao seu lado, os estudantes tinham ido dormir, amanhã seria o início de tudo, o início de mais um ciclo de desespero.
“Upupu, venham ver meus amigos desesperados, venham ver mais um belo show”
° ° °
Free Time Events
Yuuka Misaki
O dia seguinte foi realmente cheio de coisas estranhas, eu não havia conseguido dormir direito devido ao vídeo do Monokuma, todas as vezes que eu tentava fechar os olhos eu via a imagem do meu pai amarrado enquanto alguém fazia atrocidades com ele. Eu só queria poder sai dali o mais rápido possível, sumir e conseguir salvá-lo, mas eu sabia que eu sozinha não poderia fazer nada contra o Monokuma.
O restaurante estava vazio, os outros deviam estar esticando as pernas por aí, e eu não os culpava, com toda essa história de assassinato e desespero, ficar sozinho deve ser mesmo uma coisa boa, pelo menos até tudo isso passar e podermos arranjar uma solução para tudo isso. Beberiquei o suco de morango que havia feito, encarando os bolinhos de creme a minha frente por longos minutos, não estava com a mínima fome.
Duas pessoas entraram no refeitório chamando a minha atenção. Eram Kazuyo e Watashima, as duas conversavam animadamente sobre alguma coisa que eu não estava escutando direito. Elas me viram e acenaram para mim, e andaram rapidamente sentando-se ao meu lado:
– Sobre o que vocês conversavam tão animadas? – Perguntei dando mais alguns goles do suco.
– Eu estava tentando convencer a Watashima-san a fazer um cosplay comigo, tem algumas fantasias no mercado que a gente poderia usar.
– E eu estava tentando explicar a ela que eu não me dou bem com isso, deixa para a próxima- Watashima disse com um sorriso, enquanto pegava um dos bolinhos- não levo jeito para a coisa.
– Será que eu vou ser obrigada a fazer isso sozinha? — a garota de cabelos azuis retrucou- já convidei todas as pessoas sociáveis que havia por aqui, e nenhuma aceitou.
– O que quer dizer com “pessoas sociáveis”? – Perguntei em tom de curiosidade.
– Ora Yuuka, não se faça de boba, metade das pessoas desse lugar são realmente estranhas. Muito sérias e caladas, outros arrogantes demais e não gosto desse tipo- ele falou com desdém- queria não ter que estar aqui, eu ia ter um concurso muito importante daqui a uma semana.
Encarei-a por alguns segundos me perguntando o que ela teria visto no seu vídeo, com certeza não era nada da família ou de amigos, afinal se fosse ela não estaria tão preocupada com um mero concurso, ou talvez ela apenas esteja tentando disfarçar sua raiva e tristeza fazendo o que gosta, eu admiro isso nas pessoas, superar as coisas do melhor jeito possível.
– Então vocês vêm comigo ou não? – Ambas acenamos negativamente com a cabeça- vocês são umas estraga prazeres, vou indo então.
– Espere Kazuyo-san eu vou com você, preciso falar com o Albert- disse me levantando rapidamente, encarando um olhar furtivo de ambas as meninas que estavam no local- algum problema?
– Não, nada. Vamos logo.
Saímos do restaurante e descemos as escadas, não havia ninguém no hall. Acho que todos resolveram se trancar nos seus quartos e esperar que o dia terminasse logo. Bom cada um reage de um jeito diferente aos problemas, olhei Kazuyo mais uma vez. Ela fora a primeira pessoa que eu encontrei aqui dentro, e mesmo assim eu sei muito pouco sobre ela. Sei apenas que ela é tímida, mas muito simpática e que ama suas fantasias como uma mãe ama seus filhos, no entanto eu não sei nada sobre a vida dela ou sobre o que ela passou. Talvez essa seja minha oportunidade.
– Sabe Kazuyo-san, eu estive pensando, apesar de estarmos convivendo a um tempo, eu ainda não sei nada sobre você.
– Bom, digamos que minha vida pessoal não seja muito exposta sabe- ela falou com um sorriso forçado- a maioria das pessoas não se importa em saber quem eu sou de verdade, desde que eu arrase nas minhas fantasias.
– Entendo, sei como é ter de lidar com a fama repentina.
– Tudo tem um lado bom e um lado ruim não é mesmo? – ela falou calmamente enquanto descia as escadas ao meu lado- mas se quer mesmo saber, eu posso te contar um pouco do meu passado.
– Ficaria muito grata.
Nos sentamos nas poltronas do hall, Kazuyo me encarava um tanto desconcertada, mexendo os dedos freneticamente, me arrependi um pouco de fazê-la contar do seu passado, talvez houvesse algo que ela não quisesse lembrar. Mas fiquei calada esperando que ela me contasse, eu iria ajudar no que fosse preciso.
– Bom eu fui criada por uma família tradicional entende, boa conduta, bons costumes, situação financeira confortável, nós nunca tivemos nenhum problema. Nem eu e nem meus pais. Meu avô paterno também morava com a gente desde que minha avó tinha falecido, ele era muito legal comigo, sempre inventando brincadeiras e tudo o mais- ela deu um pequeno sorriso- mas a dois anos atrás ele... ele foi assassinado.
– Eu sinto muito- era tudo o que conseguia dizer, eu sabia como era a dor de perder alguém querido.
– Tudo bem, é só que, até hoje ninguém nunca soube quem fez ou porque fez, a polícia disse que foi roubo, mas eu não acredito muito nisso. Sabe, meu avô poderia ser legal em casa, mas talvez ele tivesse tido inimigos, e os meus pais fizeram o que podiam e o que não podiam para tentar chegar a um culpado e foi inútil.
Mordi o lábio inferior um tanto temerosa, vi que Kazuyo enxugava uma lágrima furtiva que descia pelo seu olho, mas depois de alguns segundos ela apenas levantou-se sorrindo escancaradamente.
– Não vamos ficar pensando nas coisas tristes, o cosplay mudou minha vida sabe? Faço isso desde os oito anos, você bem que podia vir comigo Yuuka-san! Já imagino qual personagem combinaria melhor com você.
– Vai ficar para outro dia- eu respondi meigamente- prometo.
– Tudo bem então, olha o Albert chegou, eu vou indo então. Até mais.
Ela saiu apressada, eu acenei em adeus enquanto observava Albert adentrar o hall com um olhar curioso. Ele olhou para mim com um sorriso e sentou-se na poltrona ao meu lado, pelo seu olhar cansado eu poderia presumir que ele não havia dormido bem- mas quem havia? — ele estendeu para mim uma barra de chocolate, fiz um sinal em negativo enquanto pegava uma das revistas que estava jogada no sofá.
– Ela está mais animada que o de costume, acaso ela viu um passarinho verde? – Ele me perguntou risonho apontando para a porta por onde a cosplayer tinha saído.
– Talvez ela esteja tentando se distrair com alguma coisa, é normal depois de tudo que estamos passando.
– Sei como é passar por coisas complicadas, sabe em toda minha carreira de jornalista eu já vi muitas coisas, coisas realmente grotescas e inumanas, mas nada se compara ao que estou passando agora.
– Coisas complicadas as vezes são boas- o olhei curiosa, ele apenas sorriu timidamente e disse- servem como inspiração para minhas poesias, as pessoas curtem coisas macabras.
– Eu não consigo entender esse tipo de gosto- bufei- todas as vezes que uma tragédia acontece, as pessoas sempre param para olhar e não para ajudar. É como se gostassem de apreciar o sofrimento dos outros.
– Ora Yuuka-san, nunca percebeu?
– Percebeu o que?
– A sensação de adrenalina que percorre em seu corpo quando você vê a dor de outra pessoa? A humanidade adora ver outras pessoas sofrendo e sendo levadas ao limite, elas ama a sensação de verem seres humanos lutando por suas vidas e quer uma prova disso?
– Quero sim- falei com um entusiasmo acima do comum.
– Ninguém sai da frente da televisão quando existem pessoas matando umas as outras nela não é mesmo?- silenciei, o que ele falava era verdade, as pessoas adoravam ver mortes na televisão- talvez seja por esse motivo que o Monokuma nos prendeu aqui.
– É cruel demais.
O silêncio pairou no ar, Albert apenas me encarava com um sorriso disfarçado como se seus olhos me estudassem pouco a pouco com uma curiosidade anormal. Era um tanto desconfortável. Desviei o olhar dele encarando a cerâmica do chão, não havia chegado mais nenhum dos outros estudantes e fico me perguntando como eles estavam. Éramos dezesseis, mas eu não conhecia nenhum deles bem o suficiente para saber se alguém se renderia a proposta do Monokuma, o desespero era uma semente que germinava bem depressa. Preferia acreditar que em breve tudo se acalmaria e nós poderíamos voltar a nos reunir e juntarmos nossas ideias e achar uma maneira de sair daqui.
Mas como Kazuyo disse, nem todos aqui eram sociáveis. Eu não conseguia me imaginar fazendo um grupo com Annie ou Nathan, são pessoas realmente difíceis de comunicar. Suspirei, não devia ficar pensando nisso, é melhor eu me concentrar eu coisas boas.
– Está com fome? – Albert me perguntou com um sorriso- poderia fazer um sanduíche, se quiser é claro.
– Adoraria.
° ° °
Os dois se beijaram por um longo tempo, escondidos entre as plantas do jardim, não havia mais nenhum outro estudante por perto a não serem eles. O beijo era intenso e cheio de paixão, fazia um bom tempo que queriam aquele momento íntimo, mas as circunstâncias os impediam sequer de conversarem direito. Eles se conheciam antes mesmo de tudo aquilo acontecer. O mais novo afastou o mais velho aos poucos e o moreno protestou:
– Aconteceu alguma coisa Cody?- ele disse acariciando a face do skatista com o polegar.
– Não é que... Os outros não sabem que nós somos um casal e tenho medo que eles não nos aceitem ou nos hostilizem.
– Não precisa ficar com medo disso Cody, tenho certeza que todos eles tem a mente madura o suficiente para entender que nós dois nos amamos e vão nos aceitar, pode confiar em mim.
– Mas não é só isso- o loiro protestou- se souberem que nós nos conhecêssemos desde antes, vão suspeitar que nós somos os causadores de tudo isso e...
– E mais nada- o moreno silenciou o mais novo com o dedo indicador, tinha um sorriso tenro na face – nenhum deles precisa saber que nós nos conhecíamos antes, vamos dizer que nos apaixonamos aqui mesmo e começamos a namorar, tudo bem?
– T-tudo.
Ambos ouviram um estranho barulho e um vulto prateado passou veloz saindo do jardim, os dois engoliram em seco. Alguém havia escutado tudo e sabia do segredo de ambos, poderia ser o manda-chuva, mas e se fosse um dos estudantes? Eles estavam mesmo numa situação complicada:
– Será que escutou alguma coisa? – Cody perguntou.
– Acho que sim, mas não se preocupe, eu te protegi naquele dia e vou te proteger a todo custo.
E os dois se beijaram novamente, um iria proteger o outro para sempre. Era um amor repleto de desespero.
° ° °

Quem será o Manda-Chuva?
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