The Killer Society
4 Primeiro Tempo
Notas iniciais
Felipe saiu do cômodo em que seus amigos estavam conversando para atender seu telefone. Era sua mãe que provavelmente queria ajuda com o notebook.
Ao atender percebeu que era exatamente aquilo. Sua mãe clicara em um link de propaganda e aquela ação fez com que várias janelas abrissem na tela do computador, sem parar. Nada realmente preocupante e difícil, tanto que a ligação durou apenas alguns minutos.
Logo após desligar o telefone, Felipe ouviu uma discussão onde seus amigos estavam, mas não deu atenção, já que eles sempre discutiam.
Boom!
Aquele barulho merecia a atenção dele. De início já sabia que aquele som não era de uma porta batendo ou um objeto pesado caindo no chão. Ele sabia identificar o som de um tiro.
Sua reação foi guardar o celular no bolso e correr para onde seus amigos estavam. Ao entrar no cômodo ficou sem reação. Pedaços de carne estavam espalhados no chão, nadando em uma enorme poça de sangue que aumentava a cada segundo. Notou, finalmente, que os pedaços de carne eram, na verdade, partes de um cérebro.
Foi necessário aproximar-se da cena para ver quem era a pessoa caída no chão, para ver quem era o dono daqueles restos.
Aquela situação fazia seus nervosos gritarem. Sua mão fechada em formato de punho, com os dedos apertando forte a palma da mão, quase atravessando a pele. Ele nunca sentira aquilo antes.
“QUANTO SANGUE!” sua voz gritando em seus pensamentos.
Finalmente conseguiu identificar a pessoa. Lá estava um dos integrantes do grupo caído sobre a poça de sangue. E na mão de Rafael, pendia uma arma.
–
Três dias antes
Manhã de 10 de janeiro.
Felipe acordava todo dia naquele mesmo horário. Seis da manhã. Não importava que ele não precisasse acordar tão cedo (pois entrava na escola apenas as sete e meia) ou que era final de semana. Ele acordava às seis da manhã. O motivo era apenas um. Correr. Sua atividade diária, seu hobby.
Levantou da cama e calçou seus tênis. Não perdeu tempo colocando a roupa de corrida, pois para facilitar já dormia com essa roupa.
Aquele horário nenhum dos membros da sua família estava acordado. Sua irmã, estudante de psicologia, entrava no estágio apenas as 11 da manhã e estudava a noite, sendo assim, podia acordar facilmente as 9 da manhã nos dias normais, hoje que era sábado ela provavelmente acordaria após o almoço. Seus pais nos dias da semana acordavam as sete, pois eram donos de uma clínica e não precisavam chegar tão cedo, uma das vantagens de serem seus próprios chefes. Felipe não ligava, andar pelos cômodos da casa em silêncio era algo relaxante para ele.
Dirigiu-se até a cozinha e abriu a geladeira, para pegar um lanche. Antes de sair pela porta da sala para pegar o elevador o lanche já desaparecera.
“Deveria ter pegado mais um”, pensou. Ainda tinha a jornada dos vinte e três andares para chegar ao térreo e começar a correr, ele poderia comer facilmente mais um lanche naquele tempo.
Chegando ao térreo Felipe saiu do elevador trotando e dirigiu-se à portaria. O condomínio contava com uma pistava para andar ou correr, porém ele preferia correr pelo bairro. Na pista a velocidade máxima era de dez quilômetros e ele gostava de correr rápido, muito rápido.
O porteiro o cumprimentou de maneira simpática. Aquele era Jorge, e a simpatia apenas refletia a forma como Felipe o tratava. Ele sempre que podia parava na portaria e conversava com os funcionários do hotel. Os tratava como amigos.
– Até já Jorge. – Felipe disse, acenando para Jorge, enquanto começava a correr.
E ele correu, ao som do barulho da cidade.
–§-
Correu por quase uma hora. Chegou ao seu apartamento com a camiseta azul escura pingando e foi direto para o chuveiro. Já passavam das sete horas e logo iria encontrar seus amigos para conversarem sobre segunda-feira. O dia que eles iriam aplicar suas ideias.
Ultimamente o grupo reunira-se todos os dias para realizar os preparativos. Ele percebeu que era necessário aplicar muito tempo e ter muita paciência para que tudo ocorresse sem maios problemas, o que graças as férias escolares possuíam de sobra.
“Mais de duas semanas e agora finalmente irá acontecer”, pensou animado com a ideia.
–§-
Oito e vinte cinco. Felipe esperava seu pai dentro do Hyundai i30 da família.
Poucos minutos depois Carlos, seu pai, chegara. Ele estava vestindo uma calça de sarja bege e uma camisa branca. Dessa forma Carlos conseguia rejuvenescer anos. Quem visse não acreditaria que já passara dos cinquenta.
Ele compartilhava características de seu pai. Desde a altura mediana, 1,72m, até o cabelo castanho claro encaracolado. Já os olhos, herdará de sua mãe Raquel, grandes olhos cor de mel. Seu pai tinha olhos azuis como os de sua irmã Julia. No entanto, a diferença parava por ai. Os dois tinham o nariz fino e pontudo, bochechas magras e rosto quadrado.
– Então filho, onde preciso te deixar hoje? – perguntou Carlos, enquanto sorria. Felipe achava seu pai incrível nesse aspecto, sempre sorridente. Não conseguia lembrar a última vez que vira seu pai sem aquele grande sorriso no rosto.
– O pessoal vai se reunir na casa da Alice. – respondeu, olhando para o pai. – Então casa da Alice. O senhor sabe onde fica.
–§-
Felipe foi o primeiro a chegar, as 08h45min. A reunião estava marcada para as nove horas.
– Bom dia Fê! – disse Alice com empolgação, enquanto abria o portão da casa para Felipe. – Bom dia Sr. Carlos.
– Bom dia. – respondeu o pai. – Até mais tarde, filho. – disse, antes de acelerar o carro e ir embora.
– Entra logo, pivete. – provocou Alice, enquanto o puxava para dentro da sua casa. Seu tom mudara, mas Felipe esperava por isso, após anos de convivência entendera que aquela garota importava-se drasticamente com a visão dos outros e por esse motivo tinha duas facetas. Uma para seus amigos, a Alice Verdadeira e outra para os demais, a Alice Educada.
“Louca...” pensou.
– Cadê todo mundo? – perguntou irritada. – Não acredito que vou precisar ficar de baba. – bufou.
– Baba? Nós temos quase a mesma idade. Dois anos de diferença não é nada. – argumentou Felipe. – Ano que vem eu já começo a faculdade.
– Continuará sendo uma criança. – retrucou.
– Você é adorável Alice. – provocou Felipe.
– Adorável? Quer me ver ser adorável? – disse enquanto andava na direção do Felipe com os punhos fechados.
– Vai ser dessa vez que ganharei meu beijo e a oportunidade de usufruir desse belo corpo? – brincou Felipe, ele não tinha medo de Alice, não mais.
“E que belo corpo!” pensou.
– Seu pervertido! – deu um tapa fraco na cabeça do amigo. – E eu achando que você era imune a isso. – disse, enquanto apalpava seus grandes seios.
Era até injusta a sorte de Alice. Ela era magra, mas não esquelética. Tinhas seios fartos, mas nada exagerado e coxas grossas. Além disso, era linda. Possuía um rosto fino, pele branca e bochechas rosadas, que ressaltavam seus olhos extremamente verdes. E se não fosse suficiente, ainda contava com um cabelo negro cheio de ondas que terminava apenas no meio de suas costas.
Alice sabia dos seus dotes e não se continha em usá-los.
– Relaxa Felipe. – disse de maneira sedutora. – Seu segredo está seguro comigo.
– Segredo? – perguntou enquanto tentava articular uma resposta para sua amiga. – Imune não sou, mas ser imune a alguém sem graça como você é fácil. – mentiu.
Aquelas palavras fizeram o sorriso de Alice sumir por alguns instantes. Estava estampado em sua face a dúvida se acreditava nas palavras de Felipe ou não. Ela escolheu que não.
– Não força Felipe. Você não resistiria a mim caso eu tentasse algo. – disse, encerrando aquele assunto.
–§-
O restante do grupo chegou praticamente junto. Rafael primeiro, logo depois Sophia e Pedro, e, por último, Davi. Cada um se acomodando no salão de jogos da casa de Alice, seu quarto estava extremamente bagunçado, segundo ela, e não poderiam ficar lá.
– Agora é a hora de decidir qual túmulo desenterraremos. – disse Pedro. – Podem mostrar suas pesquisas.
Cada um dos amigos depositou na mesa de bilhar as informações recolhidas nos dias anteriores. Pedro pegou cada informação e distribuiu pela mesa. Ao final, a mesa de bilhar estava branca de papéis.
– Então temos diversas opções. – concluiu Rafael.
– Precisamos filtrar nossa escolha. – disse Sophia, enquanto olhava para cada papel.
– Eu gostaria de acrescentar um porém. – disse Felipe após levantar a mão. – Precisamos escolher no mínimo quatro, sendo dois homens e duas mulheres.
– Não sei se perdi algo, mas por que exatamente? – perguntou Davi.
– Não sabemos qual será o sexo da pessoa que você irá matar, ou seja, no mínimo precisaríamos de um de cada sexo, os outros dois seria uma garantia em casa de erros ou problemas com o plano inicial. – respondeu Felipe.
– Ah. Um plano “b”. – observou Davi.
– Correto. – disse Rafael. – Mais atenção, garçom.
– Continuando. – interviu Alice. – Acho que todos os casos na mesa se adaptam ao que queremos. Todas as pessoas aqui morreram há mais de quatro anos, o que garante que encontraremos os corpos em decomposição bem avançada, facilitando, assim, o transporte para o outro cemitério.
“Outro aspecto dos casos escolhidos por nós é a não existência de uma família os visitando recentemente, que mostra negligência e falta de interesse com aquele túmulo. Garantindo assim que ninguém irá requerer uma exumação ou algo parecido. Então entendo que podemos escolher qualquer caso da mesa.”
– É uma ideia prática. Porém praticidade pode destruir nosso plano. – observou Pedro.
– Pedro. – disse Alice, calmamente. – Os requisitos são os que eu disse. Se pegarmos quatro casos e os quatro tiverem esses requisitos ficamos com eles, não tem motivo pra ficar procurando mais.
Pedro não disse nada, apenas assentiu e observou sua amiga com um ar sério.
– Acho que faz sentido. – disse Felipe.
– Então, vamos escolher. – Alice falou, enquanto selecionava quatro papeis da mesa de bilhar. Enquanto isso, Rafael pegava cuidadosamente os outros e guardava em uma pasta preta.
– Sr. Otawa Chang, morreu solteiro com 79 anos de câncer no estomago, não possuía familiares. – leu Alice, enquanto entregava os outros três papeis para Felipe, Sophia e Davi.
– Uma pessoa com um belo nome, Sra. Uta Li Pan. – disse Felipe, rindo de sua própria piada. – morreu com 63 anos, era viúva, teve dois filhos, mas aqui tem um comentário informando que um dos vigilantes informou que não há visitas nos últimos anos. Causa da morte foi pneumonia.
– Sr. Adriano Davi Oliveira, morreu viúvo com 87 anos, não tinha nenhum família ou parentes próximos. – disse Alice, enquanto passava seus olhos pela folha.
– E finalmente. – disse Davi. – Sra. Eduarda Oliveira, morreu viúva com 94 anos, única informação é de que morreu por falha nos órgão, acredito que seja a morte por idade.
– Precisamos pesquisar mais informações sobre eles. – interrompeu Rafael. – Pelo que percebi todos nós colhemos informações de boca a boca.
– Correto! – disse Pedro, com um sorriso de lado a lado. – E ai que o senhor entra Rafael. Precisamos acessar o arquivo do cemitério para descobrir mais informações sobre esses quatro casos e assim poderemos finalmente decidir se eles realmente são ideais para o “projeto”. Além disso, quando você conseguir acesso ao servidor deles, recolha todas as informações sobre rotina do local. Principalmente a rotina dos cadáveres. Preciso ter certeza quanto tempo os corpos ficam nos túmulos antes de irem para a gaveta.
– Filhos da mãe! – exclamou Rafael. – Jogaram essa história dos papeis para que eu sugerisse essa pesquisa. Filhos da mãe.
– E acabamos a reunião. – disse Pedro ignorando a reação de Rafael.
Já era meio dia. Felipe não percebera como a hora havia passado tão rápido. Não parecia.
– Nos vemos hoje à noite, oito horas, na entrada de baixo do parque que fica ao lado do cemitério, tudo bem? – perguntou Pedro ao grupo. – Tudo bem, amigão? – desta vez direcionando-se a Rafael.
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