The Kidnap
1 Capítulo 01: Tic tac
Notas iniciais
A escuridão era profunda. Tudo era muito quieto, não havia nem sequer o barulho do silêncio. E assim permaneceu por mais alguns segundos, até alguém ou algo acender uma pequena chama de fogo, mas suficiente para iluminar o ambiente ao redor. Estava numa caverna cujo teto era extremamente alto, porém a largura era relativamente menor. O lugar era tão empoeirado que o mínimo movimento era capaz de levantar uma nuvem de poeira e cheirava fortemente a enxofre, gasolina e vários outros produtos químicos que não consegui identificar.
À luz da labareda, era visível uma grande montanha de terra com uma ampla abertura redonda no topo, semelhante à estrutura de um vulcão. Pouco acima da ranhura pendia uma espécie de jaula de aço, como aquelas onde se prendem animais de grande porte, que era sustentada no ar por um tipo de corrente presa ao telhado. Contudo, o mais bizarro do lugar era, possivelmente, o ser ou “coisa” que segurava o palito de fósforo em chamas. Se realmente existisse no mundo real, provavelmente teria entrado no Livro dos Recordes como maior ser humano vivo na Terra.
Tinha uma pele aparentemente muito grossa e morena, o corpo era cheio de músculos com braços e pernas enormes, seu cabelo era grisalho e curto e a única coisa que vestia era um pano acinzentado amarrado em seu tronco no lugar da cueca. Não foi possível ver seu rosto porque estava de costas para mim, acendendo velas em cima de uma mesa feita do mesmo material da cela proporcional ao seu tamanho. À medida que o local era iluminado, foi possível ver que, além de brandões, havia um laboratório em cima da banca, parecido com aqueles retratados em filmes, cheio de frascos com vários líquidos e substâncias estranhas.
Dentro da cadeia havia uma criatura alada deitada no chão, aparentemente machucada.
— Falta bem pouco. – a voz do gigante ecoou pela toca, fazendo a terra e as paredes tremerem. – Será um prazer matá-los.
— Ele não me buscar.á Ninguém vai. Ele nem sabe quem realmente é. – a pessoa asada falou, pronunciando cada palavra como se seu corpo todo doesse.
O galalão riu e sua risada apagou as tochas, fazendo com que o ambiente e meu coração congelassem.
— Já tomei providências sobre isso...
— O que você fez?! – o indivíduo alado tentou levantar-se um pouco para encarar o homenzarrão, porém seu torso não aguentou e voltou a deitar-se.
— Nada demais... – ele deu uma risadinha forçada. – Só providenciei uma surpresinha para ele.
Abri meus olhos. Olhei para o teto azul por uns instantes até me situar sobre onde estava, quem era e o que estava fazendo.
— Finalmente, Ethan, pensei que não acordaria nunca! – minha mãe disse, à porta, impaciente. – Desperte-se ou vai se atrasar!
— Me atrasar para o que? – perguntei, espreguiçando-me.
— Ué, esqueceu que hoje é sábado e sairá com o David?
David Baker é o meu melhor amigo. Tem cabelo ondulado ruivo, olhos castanhos claros, pele branca e um rosto cheio de sardas na região do nariz e abaixo dos olhos, é alto e extremamente magro. É um grandalhão simpático e que, por causa do seu jeito, muitas pessoas acham que é gay. Estudamos juntos desde o 2° ano. No início, fomos inimigos porque competíamos pelo amor de uma garota, mas depois nos conhecemos melhor e não nos desgrudamos mais.
Houve momentos no colégio que ser seu colega me impediu de realizar várias coisas. Por exemplo, ele ter chamado os valentões de nossa escola no 7° ano para brincar de pique-esconde me fez apanhar muito para defendê-lo. Na época que tentei ser comparsa dos populares e até saía com eles para baladas e festas, David causou minha expulsão do grupo por estar constantemente dizendo que preferia brincar de pega-pega. Ele é um crianção no corpo de um adolescente de 15 anos.
Anda de calças e tênis o tempo todo e não os tira por nada nesse mundo, inclusive recusa-se a fazer exercícios físicos ou brincar de algo que exija pouca roupa. Nunca entendi isso muito bem, mas enfim, ele é quase um irmão para mim. Sentei ao balcão da cozinha e, sobre o prato, ovos mexidos e bacon esperavam para serem devorados.
— É por isso que eu nunca consigo emagrecer! – reclamei.
Mal havia dado a primeira garfada e a campainha tocou. Com certeza David havia chegado. Mamãe abriu a porta e ele apareceu no corredor com um buquê de rosas vermelhas.
— Bom dia, sra. Miller! Como vai o nosso garoto? – perguntou, com um sorriso de orelha a orelha.
— Poxa, cara, para de falar assim. Pega mal. – disse, ironicamente.
— Entra aí porque ele acordou atrasado e mal começou a comer. – minha mãe disse, trancando o portão.
Mal David sentou-se no sofá e a campana tocou novamente. Mamãe, que nem havia sentado, franziu as sobrancelhas e perguntou-nos:
— Estão esperando mais alguém, meninos?
— Não. – respondemos em uníssono.
Ela pregueou ainda mais suas sobrancelhas, abriu a portada novamente e deparou-se com três entregadores de pizza sorridentes, anunciando em conformidade:
— Entrega de pizza na residência dos Miller.
Ela nos olhou e acenamos nossas cabeças negativamente.
— Desculpa, mas vocês devem ter errado o número do apartamento. Nós não pedimos pizza.
— Nós sabemos. – os entregadores disseram.
Logo depois, transformaram-se num monte de cinzas e poeira. Nós três automaticamente arregalamos nossos olhos. Meu melhor amigo levantou-se do sofá e minha mãe deu um passo para trás, hesitante, e eu fiquei sem reação, paralisado. Do acervo de pó, as silhuetas de três cachorrões formaram-se: enormes, com pelagem negra, grandes olhos vermelhos, pequenos buracos ao longo do corpo e dentes realmente afiados. Burro, ergui-me da cadeira num movimento brusco demais, o que atraiu a atenção do cachorro da esquerda. Minha madre, que estava perto da porta, foi atingida no peito pelas patas dianteiras do cachorro do meio quando este pulou em cima dela, caindo no chão e ficando frente a frente com o quadrúpede. Meu camarada correu em direção ao corredor à sua direita e foi seguida pelo cachorro da direita, sumindo.
Então, o cachorro da esquerda avançou lentamente em minha direção rosnando, e eu, em mais um ato de burrice, comecei a andar passo a passo para trás, indo para a varanda, até encostar-me no baixo parapeito, tentando acalmar a fera, sem êxito. Até que, de repente, sem aviso prévio, a cria lançou-se com seus pés em cima do meu tórax. Este foi o momento em que me vi em queda livre.
Já viu algum daqueles filmes em que o personagem diz que, segundos antes de morrer, vê sua vida inteira passar por seus olhos? Pois é, foi mais ou menos isso que aconteceu, mas eu preferi fechar os meus para não presenciar a hora de minha morte horrível. E então caí num sono profundo. Acabou. Morri tão jovem. Não há mais nada a ser feito. Estou esperando o paraíso ou o inferno, felicidade eterna ou sofrimento sem fim, anjos ou demônios.
É impossível eu estar vivo. Caí do 21° andar do meu prédio. Meu corpo deve estar no asfalto, sangrando, inteiramente quebrado, em pedaços. Não há como ainda ser possível abrir os olhos. Mas meu coração ainda bate de alguma maneira. Sinto que ainda não chegou meu instante. Será que consigo abrir os olhos? Ver o mundo novamente? Será que minha mãe e meu amigo ainda estão vivos?
Abro levemente os olhos, mantendo-os entreabertos. Como é possível? Ainda grogue, vejo-me deitado sobre uma cama ortopédica branca com barras retráteis, aquelas que se ajustam à necessidade de sentar e deitar do paciente. Estou coberto por lençóis brancos e visto um roupão de botões verde claro, usando um suporte para gesso e um estabilizador de nuca. Sinto-me um pouco zonzo, mas consigo perceber alguns detalhes do lugar. Aparentemente, é um salão com cortinas da mesma cor da roupa que visto sendo do chão ao teto completamente branco. Do lado direito, uma grande haste de suporte para soro contendo um líquido amarelo enviado diretamente para o meu corpo através de pequenos tubos. Do lado esquerdo, uma pequena mesa de cabeceira com um monitor de frequência cardíaca e, ao lado, um kit de entubação, adrenalina e epinefrina. Virei bem lentamente minha cabeça para trás, sentindo uma grande fisgada, e vi uma tomada de 220 volts, além de saída de oxigênio e gás carbônico.
Só então percebi que, um pouco mais à frente da minha cama, estava ocorrendo uma briga de duas garotas. Ambas eram baixas e extremamente brancas. A primeira, que aparentava ter seus 14 anos, mais ou menos 1, 65m, bem pouco acima do peso, tinha seios fartos, cabelo castanho liso e preso num rabo de cavalo, orelhas pequenas, nariz pequeno e fino, rosto oval e mãos pequenas e delicadas, com unhas bem feitas e extremamente limpas, vestindo uma camisa da mesma cor que a minha com mangas curtas, gola em formato “V”, dois bolsos na parte inferior direita e esquerda e uma calça de algodão da mesma coloração. A segunda, que demonstrava ser apenas um ano mais velha que a primeira e uns cinco centímetros mais alta, era extremamente magra, cabelo loiro liso e grande solto, orelhas um pouco maiores e mais finas, nariz um pouco maior que o da primeira, mas fino, rosto com formato de um losango e vestia uma larga e comprida blusa preta, colete de botões justo, cachecol com tiras brancas e pretas e calça jeans preta.
As duas garotas estavam brigando por uma pequena bolsa de plástico com o mesmo líquido que havia no suporte para soro. Cada uma puxava a substância para si, medindo forças.
— Querida, por acaso foi você que estudou medicina por dois anos?! – a de 14 anos gritou.
— Não, mas ele tem informações preciosas! – a que apresentava ter 15 anos retrucou.
— Garotas, parem... – tentei gritar, mas minha voz saía quase inaudível.
As meninas continuaram se pleiteando.
— Ele precisa estar totalmente curado para que possa enfrentar o que vem pela frente!
— Dispomos de muito pouco tempo para ele ficar dormindo eternamente!
Já que não conseguia ser ouvido, pigarreei alto, ainda dormente. As duas tomaram um grande susto, suficiente para a que parecia ser a médica pegar o fluido, viraram-se para mim e arregalaram seus olhos. A baixinha tinha olhos da mesma cor que seu cabelo e a loira tinha os olhos acinzentados, da cor da tempestade. Porém, a primeira a manifestar-se foi a baixinha.
— Não mexa nem um músculo. – ela ordenou, pronunciando palavra por palavra.
— O que aconteceu comigo? – perguntei, com a voz fraca.
— Você caiu da varanda de seu apartamento e estatelou-se totalmente no chão.
— E por que diabos eu não morri?
— Isto é algo que ainda estamos tentando solucionar...
— Onde estão minha mãe e meu amigo? Quem são vocês?
— Acalme-se, tudo que peço no momento é que você se acalme. – a mais alta pediu, fazendo um movimento com as palmas de suas mãos viradas para baixo.
— Primeiramente, quero me conte exatamente tudo que aconteceu, se for possível. – a doutora pediu.
Fechei os olhos fortemente. Tudo ocorreu muito rápido.
— Lembro que minha mãe atendeu três entregadores de pizza, porém nós não havíamos pedido então os dispensamos então eles viraram pó e depois três cachorros negros enormes. Sei que um saiu correndo atrás do David e outro pulou em cima da minha mãe, e eu corri para a varanda, apesar disso um deles pulou em cima de mim e daí eu caí. – expliquei, fazendo um grande esforço para lembrar.
As duas demonstraram preocupação.
— Eles estão bem?
— Pobre David... – ambas abaixaram a cabeça.
— O que houve?!
— Foi encontrado pela polícia completamente rasgado e ensanguentado no seu quarto. – a magra respondeu, mantendo a carola abaixada.
Meus olhos reviraram e eu desmaiei.
Don't stop, make it pop
Dj, blow my speakers up
Tonight, Imma fight
Till we see the sunlight
Tik-Tok, on the clock
But the party don't stop, no
Woah-oh oh oh
Woah-oh oh oh
Acordei ao som da canção “Tik Tok”, da Ke$ha, ainda deitado naquela maldita cama. A dor em minha coluna vertebral ainda era aguda.
— Quero sair daqui! – gritei, curvando minhas costas, o que acentuou ainda mais meu sofrimento, fazendo-me chorar.
— Você é fraco. – disse uma voz feminina.
Olhei para meu lado direito. Uma mulher branca, cabelo castanho claro partido ao meio, com uma rosa vermelha plantada logo atrás da orelha direita, olhos da mesma cor do cabelo e lábios tão macios e suaves que se eu não estivesse completamente ferrado, levantaria para beijá-la.
— Desculpa? – retruquei.
— Você é debilitado e patético. – ela disse, completamente neutra, soltando uma fumaça resultante do cigarro que estava fumando.
— Pelo que sei, não é permitido fumar em hospitais...
— Foda-se. Sou eu quem manda nesta porra. – ela replicou, com uma serenidade em seu rosto que nunca vi.
A canção, que estava tocando no rádio, havia parado. Ela me observava como se eu fosse o ser humano mais lânguido já visto. Esboçou um sorrisinho no canto da boca como se estivesse rindo de minha visível situação.
— Tudo bem, já chega. Alguém, por favor, pode me explicar o que está acontecendo?
Dj, you build me up
You break me down
My heart, it pounds
Yeah, you got me
With my hands up
You got me now
You got that sound
Yeah, you got me
O rádio voltou a tocar a ode sem ninguém ter apertado qualquer botão.
— Ahn... Eu acho que o aparelho está tocando novamente...
— Nós deveríamos tê-lo deixado morrer.
— Por que você está sendo tão grossa comigo? Por acaso fiz algo que te ofendeu?
Ela riu e não foi pouco.
— Pelo amor de Zeus, você espera que eu te trate bem? Você desmaiou quando descobriu que aquele satirozinho morreu... Não servirá para muito. – ela disse, sarcasticamente, levantando-se da cadeira e pronta para sair dali.
— Então também o conhece?
Ela virou-se tão abruptamente e pronunciou cada palavra que viria depois tão ferozmente que pensei que fosse me esganar.
— É claro que o conhecia, seu idiota, ele era um participante do programa de recrutamento!
— Acalme-se, Afrodite, assim o garoto se assustará... – nunca agradeci tanto a Deus por alguém ter intervindo naquela conjuntura.
—Desculpe-me, estou sem paciência... – ela tentou justificar-se com a doutora que acabara de adentrar o recinto, a mesma que estava ali antes que eu desmaiasse.
Colocou-se à minha frente com sua planilha nas mãos e uma caneta rosa.
— Não ligue muito para ela. Sempre fica assim quando um dos nossos se vai. – ela murmurou, dando uma risadinha no final para descontrair.
Ela olhava para mim e para os objetos ao meu redor e anotava algo nos papéis que segurava.
— Até agora não encontrei fator algum que justifique o fato de você ter acordado antes do tempo previsto. Será que diagnostiquei a quantidade de soro errada? – falou consigo mesma, verificando a bolsa de soro com consistência de água amarela.
— Por que diabos ninguém me explica o que está sucedendo?! – gritei, exigindo uma resposta urgentemente.
— Meu Zeus, pare de fazer a criança birrenta! Não é à toa que a deusa do amor disse tudo aquilo! – ela retorquiu, agressivamente.
— Não tenho ao menos o direito de saber o que está passando? – interroguei, quase implorando por informações.
— Você saberá em breve. Por enquanto, concentre-se em se recuperar. – ela sorriu para mim.
— Posso pelo menos ver minha mãe?
— Claro! – ela tirou do bolso uma foto e entregou em minhas mãos.
Na fotografia, uma mulher mutilada, completamente desmembrada, todos os membros separados. Visualizei aquilo apavorado, assustado, desesperado.
Virei para a médica já em lágrimas.
— Isso não... Isso não pode ser... – tentei dizer algo mas soluçava muito.
No olhar dela, pena. Ela não sabia o que fazer. Tudo que conseguiu enunciar foi:
— Estamos averiguando.
— Os dois estão mortos? – indaguei, mesmo não querendo saber.
Ela abaixou a cabeça. Senti o peso do céu sobre mim. Como podia ter deixado isso acontecer? Deixei as duas pessoas que mais amava nesse mundo perderem a vida. Por que não lutei para defendê-los? Por que não tentei ajudá-los?
— Como sobrevivi?
—Que falou?
—Como sobrevivi ao ataque?
— Nós te salvamos.
— Isso é bem óbvio. Mas como?
— Assim que caiu no chão, um dos seus vizinhos do prédio ligou para a polícia dizendo que algo estranho estava advindo em seu apartamento. A polícia logo chegou ao local das mortes, viu todo aquele cenário de carnificina e isolou seu aposento e a área em que você estava morto e sangrando. Como a mídia é rápida, sem demora soubemos sobre o ocorrido e, como já conhecíamos sua mãe, decidimos tentar trazê-lo de volta, utilizando nossa medicina avançada.
— Assim por que não salvaram minha mãe e meu amigo?
— Nossa tecnologia não nos permite ainda salvar pessoas seccionadas e você estava apenas com a coluna destroçada e uma grande ruptura no crânio. Facilmente consertável.
Fiquei um tempo em silêncio, acordado, refletindo sobre tudo aquilo. Eu não tinha mais ninguém nesse mundo. A família da minha mãe não gostava de nós. Repudiava-nos por não sermos tão interesseiros quanto eles. Não conhecia os parentes de meu pai. Só tinha a mim mesmo.
— Ainda não sei o seu nome. – exprimi, quebrando a ausência de som.
Ela redirecionou-se a mim e deu um pequeno sorriso.
— Jura que isto é importante para você neste momento? – interpelou, ironicamente.
— Seria bom saber o nome da pessoa que está cuidando de mim.
— Janine Grayson.
— Doutora Grayson, quanto tempo ainda ficarei deitado aqui?
— Só depende de você. Neste instante, recomendo que durma. Você teve alguns dias difíceis e precisa ficar forte para enfrentar o que virá.
— O que virá?
— Em breve saberás.
Portanto adormeci. Fui levado ao mesmo ambiente do meu último sonho. Desta vez, não conseguia enxergar nada, apenas ouvia uma respiração pesada, sem reconhecer de onde vinha.
— Quem está aí? – interroguei, inutilmente.
De improviso, o gigante da minha última fantasia apareceu na minha frente. Não sabia como reagir ou o que articular.
— A primeira etapa do trabalho foi concluída com sucesso. Felizmente, o semideus foi salvo por aqueles mortais repugnantes.
Prontamente percebi que ele não conversava comigo e, sim, com o ser enjaulado.
— Isso é injusto! Ele não precisava entrar nesse mundo! Eu posso morrer sozinho! Poupe-o disso!
— Por quê? Para que faria isso se posso matar dois coelhos com uma única cajadada? Mas fique tranquilo... Ainda demorará um pouco para que ele cá.
Pois finalmente consegui enxergar o ser asado naquele breu. Ainda estava machucado, porém já conseguia manter-se de pé. Em sua face, sofrimento, angústia e desânimo.
—Ele está bem? – questionou.
— Ficará. Os animais de estimação de Hades fazem um estrago por onde passam. Apenas o deus consegue domá-los.
O galalau começou a escrever algo em tinta vermelha na parede daquela caverna.
— Partiremos para a segunda fase da missão. Preciso ser mais cauteloso desta vez. Os cachorrinhos chamaram muita atenção. Acredito que, nesta hora, será mais fácil.
Acordei, suado e respirando pesadamente. A garota loira, que estava discutindo com Janine anteriormente, ergueu-se assustada da cadeira em que sentava ao lado esquerdo de meu leito.
— Está tudo bem? – demandou, com cara de preocupada.
— Tive um pesadelo. – respinguei ainda nervoso.
— Que bom! Era isso que queríamos! – expôs, saindo momentaneamente do aposento.
— Como? Não compreendi... – ciciei confuso.
Imediamente, dra. Grayson chegou, abancou-se no encosto antes ocupado pela loira e demandou:
— Precisamos conhecer sobre tudo o que sonhou nas últimas horas.
Comecei a contar sobre a guarida, o vulcão, a prisão daquela espécie de pássaro falante, do titã e do que havia dito.
Janine e a alta trocaram olhares preocupantes ao fim do relato.
— Devemos? – Janine sondou a outra.
— Ele já entrou em nosso mundo mesmo... Mais cedo ou mais tarde saberá de qualquer jeito.
Janine contornou em minha direção e expressou:
— Tenho duas notícias para te dar.
Todos calados. Estava apreensivo.
— Seu pai não está morto como pensas.
Senti aquilo. Ela estava mentindo.
— Não minta pra mim... – pedi.
— Depois de tudo pelo que passou você ainda não acredita em tudo isso?
— Isso tudo é real demais; meu pai já não o é há muito tempo.
— Já ouviu falar sobre mitologia grega?
— Sim, mas qual é a relação?
— E se você soubesse que o mundo grego, cheio de deuses, semideuses e monstros é real?
— Impossível. Isso é pura ficção. – desdenhei.
— Na verdade, me parece bem atual.
— Seria duvidar da existência de Deus.
— Todos os deuses, de todas as crenças e mitologias, governam juntos o universo.
Ninguém tem a menor noção do impacto que este dado causou em mim.
— Seu padre está vivo, mas foi dado como desaparecido há algumas semanas. E, pelos sinais, aparentemente foi sequestrado e está tentando nos mandar sua localização.
— Isto é loucura.
— Não, isto é efetivo. Bem-vindo a seu novo firmamento. Recupere-se já. Precisamos resgatar seu gerador ou ele morrerá. E não queremos isto.
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