The Key
22 Capítulo 22
Todos me encaravam com cara de espanto e talvez até mesmo pena. Eu estava com pena de mim naquele momento. Como uma pessoa pode ser tão azarada?! Não era possível que tudo de ruim sempre acontecia comigo! Eu poderia ser morta por uma coisa que eu não tinha culpa!
-Eu não quero morrer. – consegui sussurrar. Minha voz estava falha e meus olhos queimando, podia sentir meu nariz ficando quente e uma lágrima descer pelo meu rosto.
-E não vai. – falou Jessie se levantando e me abraçando.
O abraço dela me deu conforto por alguns segundos, mas logo me senti sozinha de novo, como sempre fui.
-Como não? – eu não conseguia nem expressar indignação em minha voz, somente tristeza. Eu estava cansada de tentar, parecia que todos os meus objetivos não faziam mais sentido, parecia que o único jeito de viver em paz era ser morta.
-Só quem sabe disso somos nós. – ouvi a voz grossa e pesada de Cristoff, então o olhei, mas eu não o via muito bem, pois as lágrimas atrapalhavam a minha vista.
-E somos seus amigos. Não contaremos a ninguém! – ouvi a voz de Ketlyn, mas eu me lembrei de tudo que já havia acontecido comigo.
Desde a morte de meus pais, passando pela ida até a casa de minha avó, de quando encontrei o bracelete, fui amiga de Petrick, encontrei Matthew, descobri que eu era uma Nirhaquiana, vi minha avó morrer, vi minha irmã que antes eu odiava morrer em meus braços, vi Hélio morrer e por último descobrir que Matthew e Peter, os únicos que pensei serem confiáveis eram os traidores.
-Não... – falei baixinho, olhando para baixo e enxugando minhas lágrimas. – Ninguém é meu amigo. – levantei o rosto e os olhei com um sorriso forçado.
-Nós somos Mel. – ouvi a voz de Jessie.
Encarei Zack e Cristoff que permaneciam com os olhos em mim, sem dar uma só palavra.
-Não são! – falei, rindo e me levantando, sentindo meus olhos queimarem em lágrimas novamente. – Só falam que são, porque precisam da minha ajuda para matar Charlie. Eu não tenho amigos! Eu sou sozinha nesse mundo de merda! – eu não agüentava mais tentar me enganar e também não agüentava os outros sorrindo e se fazendo passar por meus amigos.
-Claro que não! – ouvi a voz de Ketlyn protestando, enquanto eu me levantava.
Eu sorria, mas era de nervosismo e sentia as lágrimas descendo pelo meu rosto.
Senti as mãos de Jessie e Ketlyn me segurando, mas consegui chegar a porta, a abri com facilidade e corri.
Eu não sabia para onde estava indo, eu simplesmente corria.
Estava chovendo. Parecia que o céu sentia as batidas lentas de meu coração. Eu havia me tornado um robô, meus sentimentos me atormentavam!
Sentia um aperto no coração, um nó na garganta, uma exaustão, um medo. Era terrível saber e admitir para si próprio que está sozinho e que ninguém pode te ajudar.
Podia sentir a lama do gramado verde do jardim batendo contra minha perna e sujando meu vestido. Minha roupa e meu cabelo já se encontravam ensopados.
Minha respiração estava começando a ficar cansada e por mais que eu não agüentasse mais correr, eu queria continuar e continuar, até não conseguir mais ficar de pé.
“Sozinha, sozinha, sozinha, sozinha, sozinha...” — a palavra ecoava no fundo de minha mente e em meu coração.
-Melany! – ouvi um grito masculino, mas não quis olhar para trás e ver quem era, apenas fechei os olhos e continuei correndo. –Melany! Por favor! Pare! – a voz se aproximava de mim, mas mesmo assim eu continuava a correr de olhos fechados.
Eu estava atrás da casa, e atrás dela havia uma floresta, senti meus pés pisarem em galhos e notei que eu estava entrando na floresta.
Abri os olhos e olhei para trás rapidamente, ninguém estava me seguindo, então finalmente parei aos poucos e respirei fundo.
Desabei no chão que estava molhado, fazendo respingar terra para todos os lados. Pus as mãos no rosto e chorei até não conseguir mais. Meu desejo naquele momento era morrer.
-Mel... – ouvi o sussurro de alguém, então olhei para cima.
-O que faz aqui?! – falei com a voz rouca e cansada, enquanto eu deixava algumas lágrimas escaparem de meus olhos.
-Vim ver como está. – falou Zack com os cabelos molhados e abaixando ao meu lado, se sentando na lama junto a mim. Não parecia ter nojo de mim ou de onde estávamos, nem parecia ter pena de mim. Seu olhar era amigável e adorável.
-O que acha? – falei, respirando fundo e não o encarando nos olhos.
-Acho que não está nada bem. – riu ele, como se aquilo fosse engraçado.
-Acertou! – minha voz saiu mais estridente do que eu pretendia.
-Posso ajudar em alguma coisa? – a voz dele saiu solidária, então o olhei nos olhos e vi que estava falando a verdade. Ele realmente queria me ajudar.
-Pode.
-No que? – seu olhar era tão caloroso, tão íntimo, tão... Familiar.
-Eu te conheço? – falei, mas pareceu por um instante que eu não lembrava mais dele. Mas, era que eu sentia que eu já havia conhecido ele antes.
-Acha que me conhece? – ele deu um leve sorriso, mas vendo meu rosto ainda de dúvida, desfez o sorriso e continuou a me olhar.
-Sim. – falei desviando o olhar por alguns segundos.
-Que bom. – sua voz pareceu normal, mas eu sentia um sorriso nos lábios dele, eu não o via, mas sentia que estava sorrindo.
-Nos conhecemos mesmo? – perguntei olhando-o nos olhos, mas agora ele quem desviou.
-Sim. – falou ele, parecendo um pouco envergonhado, o que não fazia o estilo dele.
-Da onde? – falei, agora não mais chorando. – Sinto que te conheço, mas não me lembro de você. – não fazia sentido o que eu havia dito, mas ele conseguiu entender.
-Eu e Cristoff já vivemos na Terra. Por um tempo. – falou ele, endireitando a coluna. Parecia que ia contar uma história longa, então respirei fundo. – Nós estudávamos na sua escola, mas éramos mais velhos. – disse ele com um sorriso nos lábios. – Eu nunca falei com você, afinal, era bem mais velho, mas sempre te admirei muito. Te achava a menina mais linda da escola, mesmo eu estando no segundo ano do ensino médio e você no oitavo ano do fundamental. – ele parecia cada vez mais envergonhado a cada palavra. – Mas, o Cristoff começou a gostar de você também, e nós somos irmãos, mas felizmente nossos pais voltaram para Alídea e viemos juntos e desde então nunca mais a vimos. Mas, então, você reapareceu e tudo voltou. – disse ele com a voz tristonha.
-O que voltou? – eu não conseguia acreditar que Zack e Cristoff estudaram na minha escola e que eles gostavam de mim e eram irmãos!
-Acho que notou que eu e Cristoff não nos damos muito bem, não é? – falou ele, com a voz rouca e agora me olhando nos olhos. Fitando-me com aqueles olhos sedutores e superiores.
-Aham... – falei.
-É por sua causa. – falou ele por fim.
Olhei para o lado tentando digerir tudo aquilo. Por um lado eu me sentia feliz, pois eu gostava dos dois e os dois gostavam de mim, mas por outro me sentia culpada por eles não se falarem mais.
-Como? – foi a única coisa que consegui cuspir.
-Cristoff esses dias veio falar comigo que se ele tiver oportunidade, ele me mataria pra ficar ao seu lado e eu o mataria para ficar ao seu lado também Melany. – foi a coisa mais estranha e fofa que eu já ouvi, mas de qualquer forma, aquilo estava errado!
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