The Journey: Into the Darkside
32 Cap. XXXII - "Julgamento"
Toronto, Ontário. St. Lawrence Community Kitchen. 2 de novembro, 11h30min da manhã. O apitar de uma panela de pressão age com o mesmo simbolismo de uma gota, em meio a uma série de goteiras, caindo sobre um pobre balde prestes a transbordar. Júlia Bolagnare, dedicada em terminar de gerenciar as duas enormes frigideiras que estavam fritando incontáveis cortes de frango, envoltos em ovo e farinha de rosca, pede ajuda. Mesmo não estando muito distante do outro fogão, em uma cozinha impressionantemente bem equipada para preparar quantidades suficientemente grandes de comida de uma só vez, precisava que um de seus ajudantes abrisse aquela panela na pia e esmagasse suas batatas para poder fazer um purê. Henry Lombard prontamente cumpre o dever, e Rodney Accotach aparece revelando que o molho já estava pronto e se já deveria o misturar ao macarrão. Júlia, gozando de uma autoridade de cheff, diz que sim.
No lado de fora, no refeitório, moradores de rua e pessoas financeiramente menos abastadas já formam uma fila perto de um enorme balcão aonde o supervisor, Roy Gouthier, abastecia com pratos e talheres de alumínio, esperando para fazerem uma refeição decente. Basicamente, aquele era um programa, uma iniciativa, da prefeitura do município para garantir que essa população em específico não passe fome. De repente, por detrás das portas que abrem esse estabelecimento, um murmúrio de muitas pessoas bem atípico começa a chamar a atenção de todos. Como um trovão, uma comitiva de homens muito bem vestidos “invade” o ambiente com um deles, segurando seu celular em live, apresentando o ambiente. Era um membro do parlamento Olivier Richard, político conhecido e influente por toda a Ontário, que havia dedicado um espaço de tempo em sua agência para denunciar o que chamava de violação grave dos direitos humanos.
Seu estilo de comunicação era alarmista, sensacionalista, o tempo todo enfatizando que algo de muito errado acontecia ali e chamando a atenção de todos os consumidores daquela instituição. Roy, o responsável por lá, pergunta se poderia ajudar em algo. Olivier se apresenta como o tal e solicita, em nome do povo canadense, se podem ver a cozinha. Ele concorda, afim de evitar maiores confusões. Enquanto vão até lá, o político anuncia que essa é a pior atrocidade que seu adversário, o vereador Antonie Blanc, poderia fazer em seu cargo público, não acreditando que ele teve coragem disso. Só chegarem, Olivier grita de uma forma que assusta a todos: “este é o flagra! Pegamos a verdade acontecendo no exato momento em que acontece”. Todos o olham confusos, mas seus companheiros parecem impressionados ao constatar que seu associado realmente estava certo. Lombard pergunta se havia algum problema, e enfim o membro da Casa dos Comuns aponta para Rodney.
Ele diz que agora já sabem de tudo o que Antonie procurou esconder. O responsável por este programa de assistência aos necessitados, aliás. Rodney, um mutante recém assumido, usava daquela cozinha para fazer algo profundamente macabro. Júlia, que coordena tudo lá, olha para ele estranhado e pergunta o que era. Olivier aponta que desde o começo da última gestão da Olívia Chow, a prefeita de Toronto, o número de pessoas em situação de rua caiu drasticamente. A explicação era que Antonie contratou Rodney para os matar e os servir em uma fachada de restaurante comunitário. Henry alega que isso é um absurdo, até Olivier apontar notícias de anos de que uma criatura marinha assassinas aparentemente aleatoriamente, em Ontário, pessoas próximas aos lagos. Criatura que já foi fotografada e é idêntica a que “ajudou” vítimas da enchente em Manila, Filipinas.
Rodney se defende, dizendo que isso era uma besteira e que nunca fez isso. Até que Júlia decide pesquisar e descobre uma série de notícias realmente envolvendo Rodney e o associando a imagem de um serial killer. Seu olhar de estranhamento e confusão é evidente, apontando que realmente a internet está dizendo isso dele. Roy diz que não podem acreditar em toda fake news que aparece por aí, mas ele insiste que essa é a verdade e mostra toda a comida sobre os fogões querendo ver a geladeira. Rodney, completamente sem reação, sem saber o que fazer decide tomar uma atitude e se posiciona apontando tudo isso como falsidade, um truque de publicidade. Mas, Olivier o encara apontando sua câmara e diz que sabe a verdade. Por detrás de sua aparência de um jovem simples e praiano existia um monstro sedento de sangue que ele duvidava que ele podia controlar, que no fundo esse era o seu verdadeiro eu, não importava o que a “ideologia pró-mutante” tentava vender.
Ouvir aquilo, de uma maneira tão fria, enfurece profundamente o rapaz que luta para controlar suas emoções. Seu corpo apresenta algumas mudanças. Primeiro, ficando corado, com depois escamas surgindo e a sua coloração da pele ficando mais acinzentada. Músculos se contraindo. Olivier percebe isso e se sente ameaçado, gritando que agora que foi exposto o monstro vai matá-lo. Júlia segura o braço de Rodney, o fazendo voltar ao normal. Roy diz que é melhor que ele fosse embora, algo que ele faz relutante. Olivier esbanja que luta pelo povo canadense e não deixaria nenhuma injustiça acontecer. Já Júlia fica com pena do amigo, o olhando com pesar por ele ter passado por isso.
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Melbourne, Victória. 2 de novembro, meio-dia. “Oi, você aí. Tudo bem com você? Você já deve me conhecer de alguma das suas séries de TV, por favor, favoritas ou algum filme que você viu e curtiu no cinema. Eu sou Elizabeth Basherville, famosa atriz australiana. Mas, não estamos aqui para falar sobre mim. Tem uma coisa que está me incomodando e que precisa ser discutida. Nem todo mundo tem o direito de, como eu e você, viver sem se preocupar se um dia uma pessoa desconhecida, que já te vigiava há algum tempo, surge, te leva para algum lugar e você não sabe se um dia poderá sair de lá com vida. Desde todas as catástrofes que aconteceram há dois anos atrás, um número muito desanimador de famílias andam sendo obrigadas a conviver não só com o luto, a perda de entes querido. Mas, também, com o sequestro de parentes para alimentar uma rede de tráfico humano voltada a exploração e controle dos mutantes.
Um mutante não é algo de outro mundo com você pensa. Nada mais é do que um ser humano comum com uma alteraçãozinha no DNA que o permite fazer coisas diferentes, talvez sobrenaturais. E isso é muito legal. Infelizmente, algumas pessoas resolveram se aprontar disso e como estimativas apontam, 85% dos mutantes tem menos de 30 anos, e graças a isso o número de sequestros envolvendo jovens pelo mundo aumentou 510%. Alguns países já estão criando políticas de combate a esse tipo de crime, iniciativas como o nosso canal de denúncias existem para esse propósito, mas precisamos de mais! Pressionem os governos e autoridades locais para fazerem alguma coisa! Faça parte de movimentos que os acolha e os proteja! Eles são como nós, estão assustados e mal sabem usar seus poderes ainda. Seu(ua) vizinho(a) pode ser um(a) mutante, seu(ua) colega de trabalho pode ser um(a) mutante, seu(ua) irmã(o) pode ser um(a) mutante. Eles estão entre nós, são parte de nós e vão fazer falta se partirem.
Nós da Tomorrow Foundation nos importamos com nossa população mutante e esperamos que, um dia, o mundo seja mais seguro para todos”. O comercial acaba. Docklands Studios Melbourne, o nome do lugar onde ele estava sendo gravado. Sua estrela, Elizabeth, recebe uma garrafa de água de um de seus assistentes e o questiona se ele fez questão de trazer o frango grelhado para o almoço que ela pediu. Ele confirma, também avisando que seu convidado aceitou a oferta e está a esperando em seu camarim. Este era ninguém menos do que Karslie Imota, que estava mandando mensagens para sua namorada, Alecsandra, enquanto aguardava. Ele queria saber como ela estava, o que ela fazia depois de ter jantado, já que o fuso-horário dali fazia com que ainda fosse o começo da noite anterior nos Estados Unidos. Imediatamente, a atriz aparece pela porta impressionando-o logo de entrada. Elizabeth é uma mulher muito bonita, não atoa também uma modelo, com cabelos ondulados bem pretos, olhos verdes vibrantes e um sorriso provocador.
A forma como sua presença deixava o jovem nervoso era nítida, algo que a faz rir. Karslie pede desculpas, mas não era todo o dia que estava frente-a-frente com a estrela do filme “Living in a fuck Mad Life” (2019), sentindo um misto de lisonjeio e nervosismo. Elizabeth diz para ele não se sentir assim, pois apesar de famosa ela é tão humana como ele, pedindo para lhe chamar como seus amigos te chamam: “Lizzie”. Na verdade, ela quem estava muito entusiasmada em o conhecer, afinal, ele ficou com uma ótima impressão após sua entrevista no The American Thinker. Karslie agradece. Lizzie diz que a Hope Squad era exatamente o que o mundo estava precisando e como embaixadora do Tomorrow Foundation não poderia deixar passar uma parceria entre os dois. Afinal, possuíam interesses em comum. O rapaz disse que quando soube da proposta não acreditou, pois era um financiamento que os ajudariam muito a poder desempenhar o papel social que ambicionam.
Elizabeth se diz comovida com as inúmeras histórias de desaparecimento que ocorrem pelo mundo e quer, pessoalmente, colaborar para que o Hope Squad possa fazer algo a respeito. Especialmente porque a Tomorrow não tem vínculos tão estreitos com todos os governos do mundo para poder agir mais ativamente, já eles gozam de um teletransportador. Se algo estiver acontecendo, é só ir lá e resolver. Karslie parabeniza Isabelle Reebirck pelo instrumento facilitador. Lizzie pergunta sobre os poderes dela, com ele a explicando sobre sua compreensão intuitiva sobre toda a tecnologia. Neste momento, ela diz que precisa urgentemente almoçar porque tem um vôo para Los Angeles para filmar os últimos episódios da série “Selling Innocence”, perguntando se ele assistia. “Minha namorada com certeza assiste”, ele responde. Lizzie ri, convidando ele e ela para irem na festa do seu aniversário, dia 4, em seu apartamento no Eureka Tower. Para se conhecerem melhor, já que no meio da rotina isso era difícil.
Karslie agradece o convite e os confirma. Assim sendo, ela pede para ele se retirar, pois realmente estava com pressa. Antes, lhe entrega um pequeno rasgo de papel. O jovem, então, saí do camarim e percebe o que estava escrito né. Sorrindo de uma forma até um tanto galanteadora. Era o número do telefone pessoal dela.
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Ilhas Kayman. 2 de novembro, 15h30min. Em uma das colinas mais afastadas da zona habitada e urbanizada, com uma superfície tomada por uma vegetação densa e intrépida, havia sido construída no subsolo uma instalação secreta para servir de base para a divisão do Twelve referenciada para aquele ponto do globo. Um ambiente fascinante, pois mesclava o aspecto íngreme, quase cavernoso, das paredes e teto com a mais alta tecnologia que estava operacional em quase todos os cantos e corredores. Em um pátio usado como hangar para embarcações marinhas e aeronaves, a única saída externa para as águas, Alecsandra Petrovich e Karslie Imota estavam conversando com uma velha amiga: a gestora de RH do complexo, agente treinada e psicóloga formada de origem irlandesa Beatrice Oliveira.
Em uma conversa onde obviamente as garotas estavam mais proeminentes, estava sendo falado quanto que em pouquíssimos dias a Hope Squad estava ganhando popularidade, sendo bastante discutida e acompanhada nas redes sociais. Alex faz questão de mencionar a noite de sono bagunçada que o seu namorado teve para poder ir a Austrália, do outro lado do mundo, garantir parceria com a Tomorrow Foundation. Direto com a embaixadora e atriz Elizabeth Basherville, quem Beatrice reconhece de um filme de terror que ela já havia assistido há um pouco tempo, onde interpretou uma das personagens que foi assassinada. Karslie, claro, brincou que mesmo uma modelo como ela não pôde resistir ao seu encanto e, se continuarem assim, a ideia da Alecsandra vai acabar sendo um sucesso. A expressão de Beatrice muda, como se estivesse dizendo que eles estão esquecendo de algo e inclina com a cabeça para uma das portas.
Um silêncio constrangedor toma conta daquele espaço. A agente experiente de já 55 anos, então, resolve perguntar se eles sabem porque foram demitidos dos Twelve. Karslie diz que achavam que foi como uma espécie de punição, pois Connor, o chefe da agência, não gostava de suas missões extraoficiais. Beatrice ri comentando que estavam fazendo, de toda a forma, exatamente o que deveria ser mandado para fazerem. Então, ela confessa que as coisas não são as mesmas desde que o fundador dos Twelve, Patrick, “passou o bastão” devido a problemas de saúde. Alex admite que ser supervisionada pelo Connor fez eles verem o Antônio Gutierrez, responsável pela base do Kayman, como um “anjo”. Beatrice diz que eles começaram carreira nos Twelve ali, fazem parte da “família” deles, até mesmo o agente Diodomoons hoje em dia torce por eles, por mais que não admita. Só que os alerta. Como Connor implicou com eles, sua divisão não pode fazer muita coisa para os ajudar com o Hope Squad, senão podem acabar sofrendo punições severas. Eles dizem que já sabem.
Alex, então, muda o assunto para querer saber do noivado dela com o citado diretor Gutierrez, com ela dizendo que apesar da diferença óbvia de personalidade deles, “ele era um gato”. Em uma outra sala, outro assunto de natureza ainda mais importante estava sendo discutido. Rodney Accotach estava sentado em uma cadeira frente uma mesa e o agente Charles Hans Schwoppen. No monitor de um computador, imagens da câmara de segurança da Millhaven Institution, uma penitenciária canadense, projetadas para a cela do criminoso Jason Tremblay. Ele estava sentado em sua cama lendo um livro. Rodney afirma que não conseguia acreditar nisso. Charles afirma que analisou as gravações da cela de Jason do período de um mês, entrou em contato com agentes de segurança de lá... Ele não tem acesso a dispositivos eletrônicos, celulares, nem recebeu visitas. Estava completamente alheio aos acontecimentos recentes na vida de Rodney. “E os seus homens?”, ele pergunta. “Por mais que seja um trabalho cansativo, eu fiz e ninguém de lá é o responsável por isso”.
“Então, por que isso aconteceu!?”, exclama Rodney já irritado. Charles parecia um pouco desconfortável com o quanto estava sendo pressionado pelo seu ex-pupilo, então resolve o questionar sobre o período em que viveu em Smallocean, uma pequena cidade a noroeste de Ontário. Mais especificamente, o como viveu este período em que sabidamente estava envolvido em uma guerra contra a Cockroach Blood Gang. Segundo sua pesquisa, a trend de acusar Rodney a imagem de um assassino frio e selvagem por causa de seus poderes de transformação em uma criatura híbrida anfíbia não foi algo atoa. Desde muitos anos, na região do distrito de Thunder Bay, Rodney foi o que muitas notícias locais descrevia como “a besta dos mares”. A internet apenas desenterrou isso quando perceberam que era ele pelo avistamento em Manila.
Rodney culpa Jason, então prefeito de Smallocean, por ter feito o povo acreditar que ele era perigoso enquanto sabia que só estava lutando contra seus homens. “O problema é que se você ver um monstro com a boca deformada, muito maior que um ser humano qualquer, devorando pescoços com sangue na boca você não vai ficar com medo?”, Charles o confronta. A verdade faz o rapaz expressar em seu rosto angústia e se calar. O agente sabia que o passado de Rodney era um tema doloroso para ele, mas agora ele é uma figura pública e precisa confrontar seus atos. Infelizmente, Rodney foi um assassino... De criminosos, mas um assassino. Em um lugar onde ninguém sabia que os criminosos eram criminosos. Judicialmente, os Twelve resolveram essa questão. Ele próprio atestou, pois como advogado participou das ações que o desviou de qualquer investigação. Mas, agora, ele precisa dar um parecer e dar uma voz a “besta dos mares” que durante tanto tempo fomentou o medo no leste canadense.
Obviamente, isso deixa o rapaz devastado. Ele sai da sala e encontra os amigos o esperando. Alecsandra, em seu ar sempre doce, pergunta como foi. Se resolveram. Uma fúria primal irrompe sobre ele, questionando porquê lhe deu ouvidos quando ela lhe sugeriu participar do Hope Squad. Em um tom de voz cada vez mais exaltado, diz que graças a isso cometeu o maior erro da sua vida. Claro, presenciar essa cena e notar a agressividade crescente acaba mexendo com a jovem, que fica atônita. Karslie engrossa sua voz para a defender, dizendo que Alex estava ali, com ele, procurando uma maneira de lidarem com essa situação, e que não merecia ser tratada desse jeito. Rodney reconhece estar errado, mas que também precisava de um tempo. Assim, se afasta de todos para ir embora, sozinho. A atenção, claro, estava toda sobre ele. Alecsandra se perguntava, em seu íntimo, se tinha culpa por ele estar passando por isso.
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Brownsville, Texas. 2 de novembro, 22h da noite. Um clarão de luz ciano, quase esverdeada, irrompe sobre um canto em uma praça, escondido por uma enorme árvore Texas Ebony. Karslie, já bem cansado com expressivas olheiras destacadas pelos seus grandes olhos azuis, havia chegado em sua casa. Caminhando pelo seu bairro, um ambiente familiar, repleto de palmeiras uma atrás da outra todas plantadas em um canteiro no meio da avenida, que divide as ruas, e muitas casas com uma arquitetura única em estilo latino, antigas. Ao chegar na sua rua, algo estava diferente. Os vizinhos pareciam, de alguma forma, o espiando chegar escondidos dentro de suas casas, pela janela. O rapaz só conseguia os perceber graças aos seus sexto sentido proporcionado pelos seus poderes, que entregava suas localizações geográficas só por pisar no chão.
Assim que chega em seu jardim, ele entende o porquê. Todas as suas roupas, bolsa, pertences, até os seus retratos com a família e a Alex, todos jogados entre a grama. Algo estava acontecendo em sua casa, algo que ele já estava familiarizado. Ao abrir a porta de madeira maciça ele é notado pelo seu pai, Francisco “Frank” Imota, que estava sentado em sua poltrona virado para a televisão com uma garrafa de vodka tomada, pela metade, na mão. Em seu colo, uma intimidante escopeta com o cano adaptado. “Dê o fora daqui”, ele diz com uma voz grave e embarcada. Karslie o enfrenta, perguntando também por sua mãe. Frank se levanta e engatilha sua arma o mandando ir embora. “O quê você fez com ela?”, ele exclama. “Nada da sua ousada”, ele diz em um tom orgulhoso e cínico. Os dois começam a se encarar, até que Frank faz um deboche. “Vai me ameaçar de alguma coisa? Você não teve culhão de fazer algo contra mim desde quando estava trabalhando com os Twelve. Agora você não está mais...”.
Karslie avança, sugerindo que iria usar seus poderes para uma briga. Frank não se intimida, questionando se ele iria “fazer um exposed” sobre como o seu pai é mal nas redes sociais, usando a influência do Hope Squad para o ajudar. O jovem diz que era uma excelente ideia. Frank então se vira para a televisão e começa a gargalhar freneticamente, sentando de volta na poltrona. “Sua mãe está bem, só cortou um pouco o braço por causa da estante”. Karslie se irrita mais ainda, mostrando isso com o quanto a terra ao redor da casa começa a tremer. “Você ama sua mãe? Então vai lá, me denuncia por violência doméstica. Só que antes eu quero te lembrar que o governo só te deixa quieto porque pensam que você é cidadão americano. Nós somos a porra de imigrantes ilegais nesse país de merda. Quando me prenderem, Trump na hora vai mandar o ICE aqui... Vão atrás da sua irmã, da sua mãe, até de você. Vão nos enxotar de volta pra Kiev, você pode ficar sob custódia, sua conta bancária congelada sob investigação. Não temos mais parentes na Ucrânia, então vão morrer de fome”, provoca Frank.
“É isso mesmo que você quer?”, ele insiste. Karslie se vê sem opções, e pergunta o que ele queria. “Dê o fora daqui e nunca mais volte”, ele responde mirando a arma no filho. Karslie pergunta o porquê dele ter essa atitude do nada. “De quem foi a ideia imbecil de vir com esse Hope Squad?”. Frank pergunta se o filho e Arthur Luczien andavam conversando antes de sua morte. Ele admite que não tanto quanto deveriam. O pai então explica que após o sequestro e a morte da surfista Bridgette Torres, namorada do Arthur, pelos Hidden Face, organização criminosa para a qual ele trabalha, aconteceu um imprevisto. Arthur queria vingança e foi até o escritório do Enoque, senhor do crime, líder dos Hidden, em Forth Worth quebrar. Foi a primeira coisa que ele foi fazer. Um incêndio destruiu tudo. Mercadorias, armas, drogas. Feriu muitos homens. Aí, Karslie resolveu ser o “sucessor espiritual” do Arthur. Era óbvio que Enoque não iria gostar disso.
Ele espalhou entre os colegas que ia o colocar pra fora para evitar serem alvos da vingança de seu chefe, então de certa forma era uma maneira de proteger a si mesmo e sua esposa. Karslie entende, perplexo. Frank, mais calmo, diz que “ser herói é a pior ideia que alguém poderia ter em sua vida”. Ele esperava ser um quando trabalhava na KGB durante o tempo da União Soviética, trazendo riquezas para seu povo na luta contra a espionagem norte-americana. O governo se dissolveu, a Ucrânia entrou em guerra civil e ele perdeu tudo. Salvou a si e a sua família “mamando na teta do tio Sam”, e se tem uma coisa quê ele aprendeu nisso tudo é que não existe altruísmo. As pessoas são movidas pelos próprios interesses, dinheiro, e só. Egoísmo é sobrevivência e, por não entenderem isso, ele e a Courtney, sua irmã mais velha, “eram uma decepção”. Karslie diz que ele estava errado, mas assente em ir. Dizendo que, se souber que sua mãe estava sofrendo, iria voltar. Frank engatilha a arma e diz estar esperando.
O rapaz de 29 anos saí pela porta da frente e senta no gramado, completamente perdido e chorando pelo o que acabou de passar, embora tentasse engolir isso. Ele apenas deita e pega seu celular, pensando em apenas uma pessoa com quem conversar.
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Toronto, Ontário. 3 de novembro, 20h04min. Um céu estrelado sem nenhuma nuvem para obstruir o horizonte, o impedir de ostentar o brilho das muitas constelações e de uma tímida Lua minguante. Uma vista privilegiada para o lago Ontário, obtida a partir do ponto mais alto dos Scarborough Bluffs. Um clima ameno, toda aquela água fornecendo uma umidade acolhedora, aconchegante, que deslumbra aquele momento como algo muito especial. Rodney estava lá sozinho há horas, e não é a primeira vez isso. Aquele é o seu lugar preferido dentre toda a cidade, uma ironia, já que para alguém que vive em uma metrópole moderna e extravagante o seu coração estava sobre a natureza. Apenas um casaco moletom cinza e jeans básicos, como alguém que parecia querer se esconder. Rodney, na verdade, é um homem bem bonito para sua idade. Atlético, músculos, principalmente os das pernas, bem desenvolvidos. Olhos negros profundos, um rosto saudável, caucasiano com cabelos pretos.
Sua diferença não era a aparência, mas sim que ele possuía dois corpos em que habitava a mesma mente. Um que poderia ser facilmente aceito, passaria indiferenciado em qualquer lugar que fosse, mas o outro... Uma monstruosidade. Um peixe bípede de 2,20m de altura, escamas grossas e músculos muito bem desenvolvidos. Pele molhada e acinzentada. O seu rosto, só que deformado. Agora, pela primeira vez na sua vida, os dois corpos eram um só. As pessoas sabiam quem ele era, e o que já tinha feito. As reflexões de sua mente iam longe, mas o olhar sempre fixo para o lago. De repente, seu telefone toca e ele percebe que era sua amiga Júlia Bolagnare, quem ele estava envergonhado demais para atender. Era sua sétima tentativa. Sua curiosidade o faz abrir suas mensagens e escutar seu áudio de que ela iria até sua casa, que estava preocupada com ele. Ressentido com seus próprios sentimentos, ele avisa que não estava em casa e estaria indo. Júlia só visualiza e confirma.
Alguns minutos de caminhada, ainda na zona urbana da própria Scarborough, um subúrbio de Toronto, ele chega até sua residência e vê Júlia parada em frente seu carro, lhe olhando com um olhar de quem parecia que tinha ficado muito tempo pensando nele e esperando o pior. Rodney pergunta a Júlia porque ela se importa tanto com ele. Ignorando isso, ela avisa que ela leu as notícias que apontavam a presença de uma “besta dos mares” no Canadá matando pessoas na região do distrito de Thunder Bay, e queria saber se era ele. Se ele realmente era um assassino. Um silêncio irrompe, Rodney não sabia o que falar, abaixa a cabeça e admite. O olhar de Júlia muda. Ela, sempre compreensiva, bondosa e humilde, começa a sentir medo de ter sido iludida por um psicopata. “Então tudo é verdade, você só está procurando novas vítimas para poder matar, comer, e eu sou a próxima não é?”, Júlia desabafa. Rodney suspira e afirma que existe muita fake news envolvendo isso. Ele se aproxima e ela pede para ele se afastar.
Retomando o que havia dito antes, Rodney pergunta porque se importava com ele. Júlia admite que sempre via nele desde a primeira vez que entrou no voluntariado como alguém que tinha problemas. Ela não sabia quais eram, só que queria poder ajudar. Quando descobriu que ele era mutante através do Hope Squad pensou que era isso, mas não imaginava que era algo pior. Se culpando que, no fundo, talvez ela tenha um “complexo de salvadora” por conta de seus problemas com seu irmão. Um homem com talentos incríveis que se perdeu para o uso descontrolo de drogas. Com dificuldade em falar, Rodney desabafa que também se importava com Júlia, porque ela foi a primeira pessoa em muito tempo que se importou com ele. A garota estava confusa, não entendendo a si nem a ele, com medo e ainda gostando dele. Rodney lhe pede para poder, pelo menos, escutar algo que ele nunca disse para praticamente ninguém e que, talvez, assim pudesse o entender.
Júlia concorda. Então, ele conta que nasceu na pequena cidade costeira de Smallocean, no ano de 1997, filho de uma família de classe média na qual seu pai era o delegado de polícia, William Rodolf Accotach. Havia um empresário local, Jason Tremblay, que estava desenvolvendo um negócio relacionado a transportes firmando contrato com a mineradora que explorava a antiga mina de lá, levando ferro e cobre para as siderúrgicas do Canadá. Um negócio que ele chamou de Express Efficiency. Basicamente, ele usava essa atividade para encobrir o tráfico de armas e drogas que ocorria paralelamente as entregas que fazia, nos mesmos locais. Isso criou uma máfia, a Cockroach Blood Gang, a qual Tremblay era o principal expoente. Em 2008, seu pai descobriu pistas que apontavam irregularidades no trabalho da empresa dele, já não lembra mais como. Então, ele se tornou um problema e tinha de ser eliminado.
Júlia, então, entendeu aonde o rapaz ia chegar. Uma viagem de família termina em desastre quando o freio do carro é sabotado e, no meio do trajeto, são alvo de um tiroteio. O carro cai no lago Superior. Seu pai, sua mãe, seu irmão menor... Todos morrem. Menos ele, porque descobriu sua mutação e não a controlava. Não podia voltar a forma humana, assim teve medo de voltar a sociedade e foi dado como morto. Tremblay cresceu em influência, seu negócio expandiu, ele se tornou político e eventualmente prefeito. Cada vez mais intocável. Um pescador chamado Nereu lhe adotou em seu barco, lhe alimentava, mas um dia descobriu o que não devia e os homens do Jason o mataram. Rodney jurou vingança. É neste momento que Júlia compreende que ele se tornou uma espécie de justiceiro, com Rodney confirmando. Matava todos os envolvidos nos negócios de Tremblay e, uma vez, quase o matou quando arrancou parte de sua boca com os dentes. Uma fala que, lógico, tão carregada assusta a moça.
Porém, Rodney admitiu que sem ajuda de outros nunca conseguiu fazer justiça da maneira como se deve. Vivendo, sozinho, por quase 14 anos, debaixo da água como um peixe. Demorou para aprender a controlar seus poderes, e sempre que se lembrava do que Jason lhe fez se transformava. Uma raiva que só sentia por ele, até ouvir as palavras de Olivier no dia anterior. Rodney chora, dizendo que entende se ela se sentir confortável em o abandonar, por medo, mas agradece por ter sido uma amiga neste tempo em que ele esteve no voluntariado. Júlia admite que sentia medo dele, mas entendia que não era isso que ele merecia. Rodney também era um ser humano e pergunta se ele se lembrava disso. Ele abaixa a cabeça. Um silêncio desconfortável abre lugar entre os dois. Rodney, então, revela que agora não importa. Ninguém nunca iria aceitar mais ele, e estava disposto a abandonar sua humanidade de vez vivendo até a morte como a “besta dos mares” longe da civilização.
Impulsivamente, Júlia diz que ele não devia fazer isso e se aproxima. Surpreendentemente, ela lhe dá um abraço e diz que sentia muito pelo o que ele passou. Para sua surpresa, a postura sempre rígida do rapaz desaba e ele começa a chorar. Eles apenas ficam assim, abraçados, por um tempo. Ela diz que entende qual foi o grande problema dele e, apesar de tudo, ela estava certa. Rodney não sabe como é ser amado. Júlia diz que sente muito pelo o que aconteceu envolvendo o Olivier e que, no fundo, sabe que ele é uma boa pessoa e queria ajudar. Fica como algo discreto, mas ela não parecia querer sair de sua vida depois dele ter sido desligado do St. Lawrence Community Kitchen. Só invés disso, ela pede para ele ir até a central do Ontario’s Samaritans às 14h, no dia seguinte. Rodney pergunta para quê. Júlia diz que seria a maneira dele consertar sua vida.
Neste momento a garota, franzina e parecendo até indefesa diante do mais encorpado rapaz, se afasta dizendo que ia embora. Rodney estava nervoso, no sentido de apreensivo. Ele queria saber se, depois de saber tudo isso dele, ela ainda gostava dele. Júlia parecia estar se segurando para algo, mas apenas afirma que era muita informação para processar. Ela não sabia o que dizer. Mas, sim. Ela o admirava por ser uma pessoa que, genuinamente, tenta fazer do mundo um lugar melhor. Chegando a reconhecer que mesmo que ele tenha sido um assassino, agora não é mais. Sendo um rapaz gentil e prestativo, que merecia ser tratado com dignidade. “Espero que ainda possamos ser amigos”, ela diz. “Agora você sabe, eu não sei como é ter amigos. Mas, com certeza quero ser seu”. Júlia entra dentro de seu carro e sorri, sincera, com seus olhos esverdeados brilhando com a clareza de quem estava vivendo intensas emoções naquele momento. Rodney a vê partir, impressionado e reflexivo, curioso o que graças a ela estava por vir.
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Toronto, Ontário. 4 de novembro, 13h50min. Bordo-açucareiro, uma árvore não tão grande em tamanho, indiscutivelmente magnética através de sua beleza e excentricidade, que se tornou símbolo não só dá região como de todo o Canadá. Abundantemente presente nos arredores do enorme pátio da central de distribuição de cestas básicas e demais insumos da organização não-governamental Ontario’s Samaritans, local onde também funciona o principal escritório da empresa, com filiais por toda a província. Entre as muitas folhas que já caíram e ainda estão para cair, alaranjadas e até alguns vermelhas graças a própria magia da natureza, Rodney caminha inseguro, porém determinado a tentar melhorar sua imagem pública através da solução que sua amiga Júlia lhe planejou.
Ele se apresenta na recepção, já sendo uma figura conhecida entre os guardas e funcionários de lá. Eles não pareciam acreditar das notícias que andavam sendo espalhadas pelo mundo todo sobre ele. Para eles, Rodney era uma pessoa boa e faziam questão de serem legais com ele. Vinda de uma porta surge Camille Blanc, filha do dono e uma das principais supervisoras do projeto. Uma mulher bem cuidada, jovem, com um ar simpático naturalmente, e um aspecto pálido típico de quem tem ascendência do norte da Europa. Parecendo até a cantora Phoebe Bridgers em aspecto, só que um pouco mais séria e com seu cabelo curto, Channel. Ela repara em como Rodney parecia estar reparando em sua aparência e parece gostar disso, pedindo para ele seguir com ela para o corredor de onde ela veio. Enquanto eles caminham em direção as escadas, ela faz questão de perguntar quanto tempo ele escondia seus poderes do mundo. O rapaz diz: “a vida toda”.
Camille afirma que ajudou muito legal a proposta da Hope Squad e lamenta que ele esteja sendo alvo de fake news mal intencionadas. Antes de chegar a sala de seu pai, ela reafirma que era amiga da Júlia e diz que estaria ali para o que precisar. Ele agradece. Rodney abre a porta e se vê em um escritório iluminado, uma grande janela ao fundo com visão para toda a instalação e uma resistente mesa de peroba ao centro. De trás de uma confortável cadeira giratória estava Antonie Blanc, o responsável por aquela ONG e ainda empossado do cargo de vereador para coordenar uma divisão direcionada a assistência básica dos vulneráveis. Ele pede para o jovem sentar. Logo, então, pergunta como ele se sentiu após ser constrangido pelo membro do parlamento Olivier Richard. Rodney expressa que não foi muito legal sofrer essas acusações, mas era pior ver o que estavam falando dele.
Antonie chamou de ridículas as acusações de Olivier e sua equipe já se prontificou em entrar em um processo contra ele por difamação e calúnia, querendo deixar claro que apoia Rodney não só no voluntariado que ele fez, como também em seu trabalho no Hope Squad. Infelizmente, a controvérsia abriu discussões sobre o mantimento do programa St. Lawrence Community Kitchen e, por pressão, ele foi obrigado a o desligar. O rapaz diz que entendia, mas parecia desanimado como se isso não mais importasse. Neste momento, Antonie revela que sua filha está a dois dias fazendo sua cabeça para fornecer ajuda a ele para enfrentar esse momento difícil. Então, pergunta o porquê que até o momento ele não se defendeu dos boatos que só cresciam sobre ele. Um embaraço óbvio parece ter tomado conta dele, como quem simplesmente não queria se expor e falar sobre tudo o que aconteceu antes.
Este comportamento estranha Antonie, que começa a suspeitar que parte disso era verdade. Rodney, com um pesar enorme, é obrigado a confirmar. A dinâmica daquela conversa muda, com o empresário agora estando com medo de estar diante de um assassino. O jovem afirma que tem completo controle sobre sua transformação e que, não, não sente nenhuma necessidade de matar. Então, é questionado sobre que parte das notícias eram verdadeiras e quais eram falsas. Ele pergunta para Antonie se já conheceu Jason Tremblay. A resposta é inesperada: sim, ele já realizou negócios com ele para sanar uma necessidade do partido de distribuir alimentos por toda a Ontário. Também sabia que ele estava preso por associação criminosa, corrupção, tráfico de armas e outros crimes. Enfim, Rodney revela que ele foi o homem que acabou com sua vida.
Contando o como seu pai, o delegado Accotach, chegou até as provas de seus crimes na fase inicial ainda da carreira criminosa de Jason, e sua família toda foi assassinada com o carro caindo sem controle no lago Superior, ele revela que sua mutação foi o que lhe salvou de um destino semelhante. Mas, desde os 11 anos, havia se transformado numa criatura animalesca e por isso preferiu se isolar do mundo vivendo como um peixe nas águas. Antonie admite que essa é a história mais inusitada que já escutou, então questiona se ele se alimentava de pessoas nesse período para sobreviver. Rodney diz que não, só de outras criaturas marinhas. Os boatos surgiram porque conforme crescia ele começou a atrapalhar os negócios da gangue de Tremblay, a Cockroach Blood, e vivendo puramente por instintos matava os seus homens no processo. Então, ele era de fato um assassino. Rodney diz que graças a isso levou Jason a justiça, teve colaboração com autoridades eventualmente, então tecnicamente suas ações não são bem criminosas. Mas, por 14 anos viveu completamente alheio a seu lado humano.
“Por isso você se voluntariou”, Antonie exclama. Rodney confirma, dizendo que depois que ele vingou a morte de seus pais, ele queria deixar de lado seu lado animal e verdadeiramente abraçar tudo o que perdeu desde o dia da morte de seus pais. Só que não era algo fácil, ele tinha sérios problemas em se abrir, contou muito com a ajuda de seus amigos da que hoje é a Hope Squad, mas no fundo não sabia o que fazer. Até todos os boatos sobre suas aparições públicas vierem a tona e ele não saber o que fazer. Pedindo desculpas por acabar envolvendo o seu nome nisso. Antonie, então, diz que vai lhe revelar um segredo. Ele nasceu de uma família consideravelmente rica oriunda do norte da França que se mudou para o Canadá na esperança de aumentar seu patrimônio através das minas nas densas florestas de Ontário. Magnatas.
Entre três irmãos, era o único que não via sentido naquela vida de sempre procurar enriquecer, viver pelo dinheiro. Por conta disso, na juventude, adoeceu em uma vigorosa depressão que obrigou os seus pais a recorrerem a uma internação. Foi lá, entre os excluídos, que ele percebeu que a vida poderia ser muito mais plural do que estava acostumado em seus círculos. Cada pessoa tinha uma história, e essas histórias eram como uma jornada que, como em uma árvore, criavam novos ramos de diversidade e experiências. Essas pessoas, internadas, eram livres. Desde então, ele saiu de lá decidido a fazer com que todos aqueles que estejam passando por problemas possam crescer, se desenvolver, dar um bom rumo em sua história. Por isso o Ontario’s Samaritans, por isso seu trabalho. Ele só precisava confirmar o que, através de sua filha, já suspeitava.
Rodney pergunta o quê era. Antonie diz se realmente poderia ajudá-lo a superar essa crise que estava passando. Ele diz que vai mandar sua equipe trabalhar em um pronunciamento onde irá o defender, apontar o como foi um voluntário dedicado em quase cinco meses de voluntariado, e como acredita na capacidade do Hope Squad para melhorar o mundo. Que pretendia investir no grupo para não lhe faltar recursos, contanto que o rapaz parece de se martirizar pelo seu passado e assumisse, de cabeça erguida, o futuro. “Conte sua história, mas não se limite a ela”. Ele diz conhecer muitas pessoas influentes que podem fornecer caminhos nos quais Rodney realmente, com seus poderes, podia ajudar os outros. Mostrar ao mundo quem ele era de verdade. Só precisava de sua colaboração, claro, se aceitasse. Rodney parecia incrédulo diante do que ouvia, tímido. Mas, aceita. “Esse é o começo de uma grata parceria”.
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Melbourne, Victória. Southbank. 4 de novembro, 20h30min. Caprichosamente bem vestidos, Karslie Imota e Alecsandra Petrovich adentram se sentindo até um pouco deslocados na luxuosa Eureka Tower. Entre muitas pessoas importantes ou, minimamente, endinheiradas que estavam conversando no saguão, eles caminham em direção a segurança para apresentar seus documentos e confirmar que vieram para a festa de aniversário da atriz Elizabeth Basherville, a qual foram convidados. Seguindo para o elevador, Alex comenta que o fuso-horário da Austrália em relação aos Estados Unidos era muito estranho e, se essas viagens começarem a ficar muito frequentes, ela simplesmente não iria aguentar porque estava com muito sono. Karslie comenta que ainda dormiu muito mal na noite anterior, tendo que arrumar com um amigo que o ajudou, mesmo de madrugada, a deixar seus pertences em um depósito em Brownsville até achar uma casa.
Alecsandra fala que o pai dele sempre se supera quando o assunto é ser um monstro, com Karslie desabafando que os dois sabem como é ter um pai ruim. Chegando no andar certo, o rapaz comenta que já estava na hora deles alugarem uma casa e irem morar juntos. Alex brinca que sempre quis ter uma mãe, que deveriam resgatar a dele de lá e irem todos morar juntos. Ele diz que não é má ideia enquanto, enfim, chegam no apartamento. É uma surpresa para os dois perceberem uma música eletrônica ensurdecedora tocando pelas mãos de um DJ famoso, curtida por uma quantidade grande de jovens. Não era, exatamente, o que esperavam. Principalmente porque foram lá por razões profissionais. Eventualmente, Lizzie os percebe e vai calorosamente os cumprimentar, segurando uma taça com um martinez na mão. “Você deve ser a namorada do Karslie, né”, diz a atriz para Alecsandra. Ela confirma, com a outra dizendo que ele falou muito bem dele. Alecsandra elogia a tatuagem da mulher que cobria, justamente, o antebraço que segurava a taça. Elizabeth comenta que era um ramo de eucalipto, que fez com um dos melhores tatuadores de Los Angeles.
Karslie comenta que esperava que fossem discutir sobre a Tomorrow Foundation e sua colaboração com a Hope Squad. Demonstrando já estar um pouco bêbada, ela diz que pensava um pouco diferente. Que pretendia manter sim a parceria, que poderiam marcar uma reunião com o diretor da Tomorrow, Callaway Wigglesworth, para decidirem os pormenores. Mas, até lá, queria fazer com que se sentissem realmente parte do bando dela. Pedindo para se entrosarem, curtirem a festa que ela geralmente costuma dar das melhores. É então que ela grita para todos que a dupla faz parte do Hope Squad e tiraram um pouco do seu tempo para fazerem presença no seu aniversário. Uma grande parte das pessoas se aproxima e comenta que adoraram a ideia da iniciativa, o apoio humanitário em Manila e na usina R.E.Ginna, e formam um círculo para conversarem com eles.
Alex sorri e dá um passo para trás de Karslie, deixando que ele seja quem sociabilize por eles naquela festa. Assim, muita conversa vai acontecendo, a maioria curiosidade sobre como é ser mutante. Alguns pedem para eles demonstrarem seus poderes, mas Karslie afirma que não poderia porque os seus facilmente os colocaria em risco. Alecsandra, por outro lado, resolve mostrar os seus e cria um redemoinho de ar com as mãos. Todos ficam impressionados. O tempo vai passando, algumas amizades são feitas, e eles deixam de ser o centro das atenções. Alecsandra confessa que não era o que ela esperava e queria ir embora, porque essas festas lembram as que acompanhava seu pai quando morava com ele. O rapaz parecia concordar, mas ainda queria tirar uma dúvida com a Elizabeth antes. Então, eles decidem que ele iria ficar e ela iria ir.
Chega o momento em que, novamente, Karslie e a “dona da noite” se encontram novamente. Ela pergunta se ele estava gostando, notando que Alex já havia ido embora. Ele justifica que era por conta do fuso-horário, já que em Birdstown, Califórnia, ainda era o meio da madrugada. Lizzie diz que entendia, que isso era justamente o que a “quebrava” quando tem de fazer gravações em Melbourne e Los Angeles ao mesmo tempo. Então, ela pede para ele falar mais sobre ele. O tipo de música que ele gostava, dizendo que estava voltando a ouvir os primeiros álbuns da BANK em seu tempo livre de novo. Karslie admite que não anda tendo muito tempo para música, mas quando era adolescente escutava muito Rage Against The Machine e Linkin Park. Ela diz que combinava com ele. Aí, surge a oportunidade para perguntar porque ela parecia estar tão interessada nele. Afinal, claramente aquela festa era particular. Não parecia ser só sobre o Hope Squad.
Lizzie fica em silêncio por alguns segundos, ela já estava também um pouco alterada. Depois, finalmente admite que o assunto dos mutantes sempre a fascinou muito, desde quando era pequena. Karslie estranha, pois sua existência era algo conhecido como um fato recente. “Não como algo real. Quando eu era criança eu adorava vestir aquelas fantasias, sabe. Ser tipo uma Mulher Maravilha e fazer um show para o meu pai e minha mãe nas festas de aniversário. Eles adoravam isso. Acho que desde pequena eu queria ter essa história de ter poderes, mas sempre pareceu ficção. Até, eu descobrir que não é. Eu queria fazer parte disso de alguma forma, sei que parece estranho, mas é algo meio pessoal pra mim. A Hope Squad precisa de ajuda, então porque eu não posso ajudar?”, ela desabafa. Karslie a compreende, então pergunta se tudo isso era porque ela realmente queria sua amizade. Ela diz que sim.
Então, ele acaba cedendo e diz que seria fabuloso ter a oportunidade de ser amigo de uma celebridade. Ela sorri e grita de alegria. Logo, localiza duas de suas amigas, Tiffany e Mallory, que puxa para conversarem com Karslie, o apresentando como aquele que “desbancou o chato do Arnold Spencer no The American Thinker”. Tiffany diz que ele é um óbvio conservador que tenta menosprezar qualquer assunto que não siga as pautas do governo e, de certa forma, reconheceu que Karslie foi bem inteligente em sua argumentação contrária a ele. Agradecendo ao elogio, Karslie pergunta a Lizzie se todas as pessoas ali eram celebridades. Admitindo estar muito por fora desse mundo. Mallory diz que Elizabeth, na verdade, gosta de se misturar com pessoas que não estão nos holofotes. Tanto que suas festas tem todo um cuidado para serem secretas em relação aos tabloides. Lizzie diz que acha o mundo da fama muito artificial, algo que instiga Mallory a cutucar que não poderia ser mais artificial que o nude que o ator Taylor Lautner a enviou.
Elizabeth, então, oferece a Karslie um comprimido de ecstasy para ele aproveitar a festa, algo que ele recusa por não se sentir a vontade com drogas. Talvez, no máximo maconha. Ela afirma que esses são seus “pequenos prazeres”, antes de ver seu amigo, Brad T. Wilson, próximo a mesa dos petiscos e gritar seu nome para ir lá falar com ele. Karslie para, ficando apenas olhando um pouco perdido para ela, enquanto Tiffany aconselha ele a se acostumar com o jeito meio “aéreo” da amiga. Neste momento que ele decide, até pelo estresse dos últimos dias, simplesmente aproveitar a festa e até beber um pouco. Com muita conversa, fazendo mais amizades, ele acaba passando a ser bem quisto por aquele círculo. Em dados momento, Elizabeth surge eufórica por adorar uma música que estava tocando apenas para pedir que Karslie a dance com ele, e assim ele faz.
Acabou, no final das contas, sendo uma noite muito feliz.
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