EU TINHA SEGUIDO UM JOVEM À FESTA, MAS ASSIM QUE ME LEMBREI DE MATT, DE alguma maneira, voltei-me para a direção da mansão Lockwood e, felizmente, o encontrei lá.

— Ei! — disse eu.

Matt estava com uma prancheta à mão e virou-se para trás para me olhar. Sorri para ele e acenei com a mão. Ele riu.

— Ei — disse ele.

Em alguns passos, eu já estava ao lado dele.

— Pensei que não te encontraria aqui — disse eu.

— Então por que veio para cá? — rebateu ele.

Dei de ombros.

— Não sei — falei. — Sei lá, acho que era melhor vir para cá e vim.

Ele me olhou unindo as sobrancelhas.

— Hmmm, O.K..

Assenti para ele.

— O que é isso? — perguntei apontando para a prancheta.

Ele olhou para a prancheta.

— Ah, isso? — perguntou ele levantando a prancheta. — Nada demais. Coisas do Grill.

— Hmmm — disse eu. — Vamos para a tal festa?

— Sim, vamos — disse ele, como se estivesse esquecido. — Me deixe só... — ele jogou a prancheta dentro da casa, fechou a porta, a trancou e me olhou. Ele sorriu de lado. — Vamos.

Ri dele.

— Vamos — disse eu.

E Matt e eu partimos dali para a festa.

Eu realmente não acreditei que teria tanta gente assim naquele local.

A festa era bem adentro da floresta de Mystic Falls — bem próximo do esconderijo dos híbridos de Klaus. Tinha uma descida para um enorme lago à nossa frente. Alguns carros de sons estavam tocando uma música agitada que eu não suportava e alguns jovens curtiam a música com seus copos azuis e vermelhos repletos de bebida. Alguns dos jovens vestiam calções de banho com blusas sem manga e algumas jovens vestiam biquines ou blusas sem manas com shortinhos. Tinha, também, alguns jovens se pendurando em uma corda, presa em uma árvore, e se jogando no lago. Jovens, pensei.

De qualquer modo, Matt e eu adentramos mais naquela bagunça jovem e não encontrei Tyler ou Jeremy ali. Tampouco Damon e Stefan Salvatore e Caroline Forbes. Mas, pelo contrário, consegui ver todos os híbridos do meu senhor. Ali estava Marcus, Lucas, Andrea, Demetri, George, Gwen, Sebastian, Kitty, Jaxon, Andy, Irine, Abby, Abraham, Charlie, Patrick, Charlotte, Emily, Ashley, Taylor e Erica. Vinte híbridos. Todos eles estavam misturados com os humanos da maneira como eu tinha dito para estarem. Sorri com isso. Lucas se atreveu a olhar para mim e sorrir, mas eu lhe lancei um olhar como quem dizia: “Aqui não” e ele assentiu a com a cabeça e voltou a se misturar com os humanos.

Ele tinha que continuar com o disfarce, ele não podia estragar nada agora. Se ele estragasse, além de eu matá-lo, Klaus iria me matar e eu nunca mais poderia estar com meus irmãos novamente — consequentemente, é claro. Mas Lucas não me desapontaria, pois ele nunca foi de me deixar na mão e tampouco me desapontar. Ele gostava de me agradar; como se eu fosse seu verdadeiro mestre e não Klaus. Óbvio que eu não tirava proveito disso, eu repreendia Lucas por me venerar daquela maneira e dizia que Klaus era o seu chefe e não eu, mas ele continuava a dizer que me trataria como tratava Klaus: com respeito.

Contudo, Matt e eu chegamos mais perto de um carro, pegamos uma bebida — ele, na verdade, pois ele não me deixou pegar bebida alcoólica — e, olhando para perto da árvore que tinha a corda para os jovens se jogarem na água, consegui ver Jeremy e Tyler com alguns amigos: Caroline Forbes, Damon e Stefan Salvatore, uma menina morena que se parecia um pouquinho com Jeremy e uma menina de pele cor de café. Eu sabia quem elas eram: Elena Gilbert (vulga doppelgänger de Katherine Pierce e irmã mais velha de Jeremy Gilbert) e Bonnie Bennett (vulga bruxa Bennett e amiga de todos).

Tyler acenou para nós dois.

— Já era hora! — disse ele com certa raiva quando chegamos perto dele e de todo o resto. — Já estava me perguntando para onde você tinha levando meu irmão, Donovan.

— Ele é meu irmão também, Lockwood — rebateu Matt com seriedade em sua voz.

— Argh! — revirei os olhos. — De novo isso? — suspirei.

Eles dois se cumprimentaram com um aperto de mão e riram. Revirei os olhos novamente. Ridículos. Fazendo cena para os amigos? Péssimo.

— Irmão? — perguntou a doppelgänger.

— Irmão? — repetiu à loura, Caroline Forbes.

— Irmão? — repetiu a bruxa Bennett.

— Irmão? — disse Stefan Salvatore repetindo a pergunta das três, curioso.

— Irmão? — repetiu Damon Salvatore da mesma forma que o irmão.

Matt e Tyler riram.

— Pois é... — disse Tyler.

— Ele é o nosso irmão mais novo — disse Matt.

Eles pareceram totalmente chocados, olhando-me com as sobrancelhas levantadas, exceto Jeremy, que deu um risinho.

Por mais que eu possa ser tão maldoso com os lacaios do meu senhor, eu era tímido. Quando meus irmãos disseram que eu era seu irmão mais novo, meu rosto corou e escondi o rosto, olhando para outro lugar, quando o restante pareceu chocado. Bem, eu não gostava muito, também, de apresentações. Mas, suspirando, fiz um esforço e olhei para os cinco, exceto Jeremy, com um sorriso de lado.

— Olá — disse eu, um tanto desconfortável.

— Ahn... prazer — a bruxa Bennett foi a primeira a apertar minha mão com gentileza e eu não gostei muito.

— Prazer — disse eu.

Eu sabia que ela podia descobrir que eu era um híbrido apenas com um toque, Klaus tinha me dito isso. Mas, não. Ela não teve nenhuma aversão ao meu toque ou qualquer outra coisa do tipo, ela apenas sorriu para mim e soltou minha mão logo em seguida.

— Eu não sabia que tinham irmão — disse Caroline Forbes e apertou minha mão. — Prazer — ela sorriu para mim e soltou minha mão.

Sorri para ela.

— Igualmente — disse eu.

A doppelgänger veio até a mim.

— Bem, prazer em conhecê-lo — disse ela ao apertar minha mão.

— Prazer em conhecê-la também — disse eu.

Os irmãos Salvatore me olharam com certa desconfiança, mas Stefan foi o primeiro a vir até a mim e apertar minha mão com certa força. Eu sabia que ele iria fazer isso, então deixei que ele apertasse e não a apertei de volta; ele poderia desconfiar.

— Prazer, cara — disse ele.

— Igualmente — disse eu.

Ele foi até o irmão e chacoalhou a cabeça negativamente para ele, mas foi tão rápido que só um vampiro, lobisomem ou híbrido poderia ter visto — eu era um híbrido, então eu tinha visto.

O irmão, Damon Salvatore, olhou de Stefan para mim, para Stefan novamente e depois para mim outra vez. Ele veio até a mim e apertou minha mão com mais força que Stefan.

— Ai... — reclamei tirando minha mão dele e esfregando-as.

Não tinha me machucado, é claro. Mas eu tinha que disfarçar, então eu tinha que fingir que tinha doído. Era estranho fingir dor quando eu não sentia dor há quase três anos. Claro que nenhum humano poderia me machucar a não ser com madeira, mata-lobo ou verbena. Mas o que tinha me apertado tinha sido um vampiro mais velho do que eu, então ele poderia me machucar. Mas seu aperto de mão não foi tão forte o suficiente para me machucar.

— Você apertou a mão do meu irmão? — perguntou Matt se pondo ao meu lado.

— Você é algum louco? — Tyler, o estourado, foi para perto de Damon.

Damon deu de ombros e levantou as mãos para o alto, como se rendesse. Elena tinha se colocado entre Tyler e Damon.

— Tyler... — disse ela.

— Ele é um idiota, Elena. Sabia disso? — perguntou Tyler.

— Eu sei que Damon está pronto para se desculpar, não é Damon? — perguntou Elena olhando para Damon.

Damon olhou para ela, fez uma careta e deu de ombros.

— Bem, ele não é — disse Damon e veio até a mim, estendendo a mão. — Prazer em conhecê-lo.

Eu sabia o que ele queria dizer com aquele “ele não é”. Ele tinha se certificado que eu não era um vampiro, lobisomem ou híbrido. Bem, se enganou e eu tinha conseguido enganá-lo direitinho. Otário, pensei. Mas, a real, eu queria era que ele morresse. Queria que meu mestre tivesse matado-o quando tinha a ótima oportunidade para fazê-lo. Damon era um idiota. Mas, infelizmente, meu mestre o não matou. Droga, pensei.

Apenas fiquei olhando para mão dele e depois o olhei.

— Não tenho nenhum prazer em te conhecer — falei sério olhando em seus olhos incrivelmente claros.

Ele me olhou curiosamente em meus olhos azuis.

— Justo — disse ele.

Damon pareceu constrangido, se ajeitou e voltou para onde estava.

— Não dê ibope para ele — disse Stefan chegando perto de mim. — Desculpe-me pelo meu irmão.

Assenti para ele.

— Não se preocupe — disse eu. — Ninguém tem culpa de ter o irmão que tem — acrescentei olhando para Damon e lhe dei um sorriso desdenhoso.

Damon sorriu da mesma forma para mim.

Um pequeno silêncio se propagou entre a gente.

— Então... — disse Caroline. — Desde quando vocês têm um irmão mais novo?

A pergunta dela fez todos a olharem.

— O quê? — perguntou ela. — estou curiosa.

Todos riram, menos Damon. Mas eu não me importei, é claro.

— Por volta de... — disse Matt pensando e virou-se para mim. — Quantos anos têm? — perguntou ele franzindo a testa.

— Dezesseis — disse eu, com certa raiva por ele esquecer a minha idade.

— Isso — disse ele apontando para mim —, por volta de dezesseis anos. Minha mãe e o pai de Tyler tiveram um caso...

— E, como vocês sabem, o meu querido pai não gostava de ser motivo de chacota — completou Tyler revirando os olhos. — Então ele encobriu o caso com a mãe de Matt.

— Minha mãe tinha saído da cidade por nove meses, voltou depois disso e ficou escondida em uma casa bem perto da divisa de Mystic Falls. Só descobrimos sobre Jason... sim, o nome dele é Jason. Desculpe, eu me esqueci de dizer — Matt coçou a cabeça. — Enfim, só descobrimos sobre Jason quando ele tinha três anos.

— Mas mesmo assim, meu pai não queria que os outros descobrissem — disse Tyler. — Richard tinha posto o Lockwood no nome dele... meu pai podia ser um idiota, mas ele disse que ser um Lockwood era uma honra — ele revirou os olhos quando todos o olharam chocados na parte de Richard me dar o seu sobrenome. — Enfim, e a mãe de Matt tinha colocado o Donovan, mas ele tinha que ir para fora da cidade. E ele foi com a mãe, e só voltou quatro anos depois.

As lembranças vinham em minha cabeça ao decorrer que eles contavam. Meu pai brigando com minha mãe, minha mãe brigando com o meu pai. Carol, a mãe de Tyler, defendendo minha mãe e meu pai brigando com a própria esposa por ela defender minha mãe e a mim. Tudo isso em minha frente quando eu era criança.

Uma das piores lembranças era de quando eu tinha feito treze anos e ido para Detroit, de volta. Bem, eu não tinha voltado para lá, na verdade, pois Klaus tinha me achado no meio do caminho, descoberto sobre meu sobrenome e me levado com ele para Nova Orleans, onde ele me transformou em um híbrido. Mas isso já é outra história.

— Não me façam dizer sobre meu aniversário de sete anos, por favor... — sussurrei.

— E ele quando ele voltou com sete anos, fizemos sua festa de aniversário — disse Matt.

Soltei o ar e fechei os olhos, chacoalhando a cabeça. Obrigado, Matt, disse eu em pensamentos.

— Cara, foi épica — disse Tyler rindo.

O olhei de cara feia e ele se recompôs.

— Sério? — suspirei.

Os outros nos olharam com a testa franzida.

— O que aconteceu? — perguntou Jeremy.

O olhei e suspirei novamente.

— Bem, eu não gosto de festas — disse eu. — E eu fiz um grande escândalo quando eles resolveram me fazer uma... e surpresa. Quando Richard mandou todos irem embora, ele, bem, não ficou só na conversa séria quando me repreendeu — terminei a frase olhando para outro lugar, para que eles não vissem minha cara de tristeza e para eu não ver a cara de pena deles.

Eles ficaram em silêncio.

Eu não queria que eles sentissem pena de mim, mas me temessem — uma coisinha que aprendi com meu mestre. Ter aquelas lembranças me fazia ficar com tanta raiva e aquilo era a chave para eu por os lacaios de Klaus que estavam em meu comando na linha.

— De qualquer maneira — disse Matt desconfortável —, o importante é que esse moleque está de volta — ele passou o braço envolto do meu pescoço e me deu alguns cascudos. Ouvi a risada dos outros. — E gostamos muito disso.

— E o queremos aqui — acrescentou Tyler, também me dando alguns cascudos na cabeça. — É bom tê-lo de volta.

— Me larguem... — reclamei, tentando-me solar-me dos braços de Matt.

Mas foi completamente impossível — já que eu não podia usar minha força inumana —, pois Matt segurou em meus braços e Tyler em minhas pernas. Eles chegaram perto da margem do lago, tiraram meu celular do bolso e, contando até três, me jogaram na água, de roupa e tudo.

Voltei para a superfície assim que tinha acabado de me submergir no lago. Olhei para eles dois e ambos estavam rindo. Olhei para seus amigos e eles a mesma coisa. Fuzilei Tyler e Matt com os olhos e corri — não como um borrão atrás deles — para lhes dar o troco, mas algo de estranho ocorreu.

Quando eu finalmente tinha conseguido pegar Matt — depois de muito esforço, pois ele corria bastante —, um grito de duas garotas invadiram toda a festa. Os carros de som pararam de tocar as músicas, todos olharam em direção para dentro da floresta e duas meninas saíram de lá de dentro.

Uma ruiva e outra de pele cor de café. Ambas estavam abraçadas uma com a outra e choravam.

— Alguém chame uma ambulância! — gritou à ruiva.

— Nossa amiga está lá dentro da floresta e está morrendo — disse a de pele cor de café. — Por favor, rápido!

Alguns pegaram seus celulares e começaram a discar o número da ambulância, e colocaram os celulares no ouvido. E as meninas voltaram a correr para a floresta.

Vi meus irmãos e seus amigos irem atrás delas, assim como uma porção de gente, e os segui.

A floresta ali era mais repleta de árvores do que perto do esconderijo em que os híbridos de Klaus estavam. Tinha um pequeno caminho para carros passarem, mas era totalmente impossível um carro passar ali agora, pois aquilo estava repleto de gente. Caminhando um pouco mais, os jovens estavam aglomerados em um círculo e, afastando alguns, consegui avistar a jovem caída no chão.

Ela tinha cabelo louro, mais ou menos do tamanho da Caroline Forbes, sua pele estava começando a ficar totalmente cinza e seus lábios, que deveriam ser rosados, estavam começando a ficarem roxos. O sangue que escorria ao lado esquerdo de seu pescoço estava se aglomerando, formando uma poça. Ela ainda respirava e sussurrava por ajuda, mas ela só deveria ter um ou dois minutos de vida, a ambulância não chegaria a tempo; ela iria morrer.

Eu não era estúpido. Eu sabia muito bem o que tinha causado aquele ferimento em seu pescoço e não era nenhum animal, como os jovens ali estavam começando a comentar. Tinha sido um vampiro ou, mais precisamente, um híbrido novato. Um dos que eu estava tomando conta. Klaus tinha que saber e, com certeza, ele iria me punir por conta disso, mas eu não iria contar para ele agora. Meus irmãos estavam ali, igualmente com seus amigos. Isso levaria muita suspeita. Mas eu tinha que ter uma pequena conversinha com o híbrido responsável por aquilo.

Stefan Salvatore foi até a menina e tampou o ferimento dela no pescoço e segurou em uma das mãos dela.. A menina olhou para ele assustada, mas segurou na mão dele. Porém, era totalmente inútil, pois, alguns segundos depois, a pele da menina ficou completamente cinza e seus lábios ficaram incrivelmente roxos. A mão que segurava a mão de Stefan ficou mole e se soltou da mão dele; a menina morreu.

A ambulância e a polícia chegaram dez minutos depois e dispensou todos da festa.

Matt e Tyler ficaram me perguntando se eu estava bem o tempo todo. Eu dizia que sim, mas eles pareciam que não acreditavam em mim. Mas eu não podia dizer para eles que já tinha matado gente, não é mesmo? Eu tinha que parecer com quem estava em choque e essa era a minha reação para eles, sendo que no fundo, eu estava completamente irritado e com raiva.

Meus irmãos, seus amigos e eu voltamos para o centro de Mystic Falls em menos de dez minutos depois que a polícia nos expulsou de lá. Eles foram para o Grill, mas eu disse que precisava ir para casa para trocar de roupa e assim o fiz.

Eu estava irritado demais para ir para o Grill beber, comer, conversar ou qualquer outra coisa que eles fossem fazer. Eu queria arrancara cabeça do híbrido idiota que tinha feito aquilo. Eu tinha dito que era para eles se misturarem e não estragarem nada! Porquê aqueles idiotas nunca aprendiam?, perguntei a mim mesmo.

Assim que cheguei na mansão Lockwood (vulga minha casa), troquei de roupa rapidamente e, partindo como um borrão, fui na direção da casa em que os híbridos de Klaus estariam — pois já estava começando a anoitecer. Eles tinham que estar lá, caso contrário, eu os caçaria e seria fácil, uma vez que eles não podiam sair de Mystic Falls por conta da hipnose que meu mestre tinha imposto sobre eles.

Chegando naquela espelunca, adentrei, bati a porta atrás de mim com toda a minha força e me surpreendi por ela não ter caído.

Eles estavam conversando alegremente, mas assim que me viram, calaram-se no mesmo instante.

— De quem foi a maldita ideia de drenar alguém? — perguntei gritando e todos eles abaixaram a cabeça.

Comecei a andar lentamente e olhar na cara de todos eles.

— Digam agora, porque se eu descobrir, eu acabo com cada um de vocês eu mesmo — ameacei.

Um garoto do meu tamanho, louro, mas totalmente magricela deu um passo à frente. Aquele era o Jaxon.

— D-desculpe, Jason — disse ele e levantou a cabeça para me olhar. — E-eu... eu.. eu não consegui parar. O sangue é tão bom quanto não nos transformarmos na lua cheia — ele me olhou com cara tristonha. — Eu... eu não queria matá-la. Juro!

Deu um passo na direção dele e lhe deu uma forte bofetada na cara. Ele caiu no chão e pôs a mão onde eu tinha lhe dado uma bofetada. Os outros híbridos me olharam com os olhos arregalados, mas não se atreveram a sair do lugar. Algumas das meninas puseram a mão na boca e outras cobriram o rosto. Ri com aquilo, pois era aquilo que eu queria que eles sentissem de mim: medo. Talvez assim eles me escutem, pensei.

Dei mais um passo em sua direção, mas ele fechou os olhos e se encolheu no chão. Porém, não lhe dei uma bofetada desta vez. Em vez disso, lhe estendi minha mão e ele a pegou. O ajudei a se por de pé, a limpá-lo — pois o chão daquele local era totalmente repleto de poeira — e a ajeitá-lo.

— Eu te perdoo, Jaxon — disse eu. — Mas será que o mestre lhe perdoará?

Tirei o celular do bolso e balancei para ele.

— J-Jason... por favor — disse Jaxon. — Eu lhe imploro. Não conte a ele.

Balancei a cabeça em negativa.

— Sinto muito — disse eu. Mas eu realmente sentia. — Realmente sinto muito, mas são ordens dele. Ele me disse que se um de vocês saísse da linha, eu teria que lhe avisar.

— Jason, eu pedi desculpas. Não tenho tanto autocontrole que nem você e os outros — ele estava completamente desesperado. — Eu sou o mais novo de vocês, sabe disso. Eu admito meu erro, mas eu não quero morrer.

Ele se jogou no chão e segurou em minha perna. Senti uma pequena parcela de pena por ele.

— Sinto muito, Jaxon — disse eu. — Mas regras são regras. Desculpe — lhe dei uma cara tristonha e ele assentiu, chorando.

Disquei o número de Klaus no celular, cliquei no botão do viva-voz e ele atendeu no quatro toque.

— Diga, meu querido híbrido — disse aquela voz com sotaque britânico.

— Mestre — disse eu. — Está podendo falar?

— Bem, se eu lhe atendi, Jason, significa que eu estou podendo atendê-lo — ele riu.

Ri também.

— O que me diz? — perguntou ele.

— Mestre, houve outro acontecimento indesejável aqui — disse eu.

Ele pareceu pensar por um momento.

— Prossiga — disse ele.

— Então... — prossegui. — Um de seus híbridos, Jaxon, não atendeu conforme minhas ordens.

— Ele ainda permanece vivo?

— Sim, mestre.

— Por que não o matou?

— Porque ele pediu misericórdia, senhor. Jaxon é novo, mas é um garoto esperto. Eu o perdoei, mas não podia dizer o mesmo por você e foi por isso que o liguei.

Klaus fez mais uma pausa e olhei para Jaxon.

Jaxon parecia que tinha chorado ainda mais, pois seus olhos estavam vermelhos e lágrimas escorriam como cachoeira de seus olhos. Os híbridos que estavam ao nosso redor pareciam estátuas, eles não se mexiam. Lucas, o que mais falava e que mais queria me lisonjear, parecia uma estátua.

Klaus tinha me dito que eu podia matá-los se eu visse necessidade, porém eu não queria matá-los. Matá-los significava que eu teria que enterrá-los, cremá-los ou sei lá mais o quê para esconder o corpo e isso dava trabalho. Sem contar que me deixava com menor número se acontecesse algum tipo de briga entre nós contra outro grupo de criaturas que poderiam surgir por ali — Mystic Falls poderia aparentar ser pacata, mas não era nada disso; aquela cidade estava bem longe de ser pacata do que Detroit, a cidade em que eu tinha dito que tinha morado com a minha querida e irresponsável mãe —, ou seja, poderíamos estar em perigo constante e eu não arriscaria meu grupo.

Eu realmente não queria que Jaxon morresse, para ser honesto. Ele era realmente bastante esperto. Era valioso, pois ele tinha cérebro, mas somente seu autocontrole que era o pior de todos. Ele sempre tinha sido um problema nesse requisito. Mas, não dependia de mim, e sim de Klaus.

— O.K., mate-o — disse Klaus.

Olhei para Jaxon e ele começou a balançar a cabeça em negativa para mim, como quem suplicasse.

— Mestre, pense bem — disse eu. — Se ele morrer terá dezenove híbridos aqui comigo e isso não é um número muito bom para o quer que aconteça em Mystic Falls. Ele seria de grande ajuda. Ele é bastante esperto. Seria uma pena matá-lo

— Ó, Jason, Jason, Jason... — disse Klaus e podia imaginar seu rosto sorrindo. — Sempre misericordioso e pacífico.

Ri um tanto sem graça.

— Ele está te escutando agora, senhor — disse eu. — Qual é o seu veredito?

Jaxon começou a tremer e soluçar. O olhei com certa pena. Bem, a verdade era que eu não ligava muito para a vida dele, mas ligava para as qualidades que ele tinha. Porém, dependia do meu senhor, não de mim.

— Está bem, deixe-o viver — disse Klaus e Jaxon largou minha perna, completamente aliviado. — Ele ainda me escuta, Jason? — perguntou ele.

Assenti, mesmo sabendo que ele não podia me ver.

— Sim, senhor — disse eu.

— Que sirva de lição, querido Jaxon, pois não terá uma segunda chance — disse Klaus em uma voz ameaçadora.

Sorri de lado. Era legal ouvir meu mestre ameaçar alguém.

— S-si-sim se-senhor... — gaguejou Jaxon.

— Muito bem — disse Klaus. — Agora, preciso lhes dizer algo importante, meus híbridos e quero que escutem com atenção.

Nenhum de nós ousou nem ao menos respirar.

— Meu querido irmão Elijah está a caminho de Mystic Falls — prosseguiu Klaus. — Ele ficará no comando de vocês, exceto em Jason. Jason é meu — sua referência a mim me deixou desconfortável por um segundo. Era bom receber elogios de meu mestre, mas era totalmente vergonhoso ouvir isso na frente de muitos. — Mas isso não significa que vocês não irão mais obedecê-lo.

Olhei para os híbridos em minha volta e eles assentiram freneticamente.

— Depois de Elijah, ele é o que comanda em vocês — disse Klaus. — Quando Elijah não estiver por perto, Jason os manda. Entendido?

— Entendido — disseram todos nós em uníssono.

— Pois bem. Elijah chega em Mystic Falls amanhã pela manhã. Enquanto isso, todos são completamente bem vindos em minha casa. A casa é de vocês.

Os híbridos comemoraram e ouvi a risada de meu mestre pelo telefone. Eu também ri.

— Mystic Falls ainda me teme e a meus híbridos também — disse Klaus. — Jason entregue a chave e certifique que nenhum deles mais faça nenhuma bobagem até que Elijah chegue. Caso contrário, mate-os — o final daquela frase fez todos os híbridos, menos eu, pararem de falar.

— Sim senhor — disse eu.

— Mais alguma coisa, querido Jason?

— Não, senhor.

— Então até mais, meus queridos — despediu-se Klaus. — Não me decepcionem.

E ele desligou o celular.

Todos os híbridos me olharam. Tirei a chave da casa de Klaus em Mystic Falls do bolso e a joguei para Lucas.

— Você será o responsável até que Elijah chegue — disse eu a ele. — Certifique-se de que todos estejam bem confortáveis e se alguém fizer alguma gracinha, me comunique. Como nosso mestre disse, não terão uma segunda chance — eles me olharam e assentiram. — Vão — indiquei a porta atrás de mim com a cabeça.

Em questão de segundos, aquela espelunca tinha se esvaziado.

Fui para a mansão Lockwood e encontrei meus irmãos já estavam lá. Tyler estava na sala de estar assistindo tevê enquanto Matt estava sentado ao lado dele, mas com aquela prancheta novamente à mão e escrevendo algumas coisas nela.

Sentei-me no sofá ao lado do que eles estavam e comecei a ver tevê com eles.

— Por onde esteve? — perguntou Tyler.

— É, você não apareceu no Grill — comentou Matt sem tirar os olhos da prancheta.

Pensei no que poderiam mentir e disse:

— Tomei um banho, troquei de roupa e comecei a andar pelas ruas de Mystic Falls — menti. — Sabem, aquilo ficou bastante em minha cabeça.

Matt parou de escrever em prancheta e Tyler parou de olhar para o jogo de futebol americano que estava passando na tevê, e me olharam. Fiz uma careta para eles e dei de ombros.

— Ah... — disse Tyler e olhou para Matt.

— Certo... — disse Matt olhando para Tyler.

Eles abriram espaço no sofá entre eles e bateram, juntos, no local para que eu sentasse no meio deles. E fiz aquilo. Saí do sofá onde eu estava e me sentei no meio de meus irmãos.

— Não se preocupe com isso, amigão — disse Matt mexendo em meu cabelo.

— É, você vai superar isso — disse Tyler pegando em minha mão e me dando uma piscadela.

Sorri de lado para eles.

— Obrigado, irmãos — disse eu sem jeito.

Eles sorriram para mim.

Era horrível mentir para eles, é claro. Mas eu tinha que mentir. Klaus tinha me posto uma ordem e eu tinha que cumpri-la sem estragar o disfarce. Se aquilo dizia que eu tinha que mentir para eles, por mais que partisse meu coração, eu teria que mentir. E eu não podia fazer nada a respeito.

E, sem mais tocar no assunto, meus irmãos e eu voltamos a assistir ao jogo na tevê.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.