The Hurting. The Healing. The Loving.
6 Capítulo 5
Sam ainda insistiu que ficassem um pouco mais no café, enquanto terminava uma conferência com Sharon. Entendeu que ela estava em uma investigação e precisava dele, mas o Falcão foi reticente em pedir alguns dias para organizar seus “problemas domésticos”.
Wanda voltou pouco depois que Bucky, se mantendo silenciosa enquanto remexia distraidamente o canudo do suco de laranja que pedira. Ambos agiram como se nada houvesse acontecido, mas sua mente rodeou o que a senhora dissera à procura de pistas cruzadas com o comportamento da jovem.
No entanto, sequer podia afirmar se se tratava mais de ameaça ou de aviso. Era mais como... Um sinal, sobre o qual ainda não conseguia atribuir qualquer significado sem conhecer todas as peças daquele quebra-cabeça.
— Sharon, eu preciso desligar, tem dois pares mal humorados de olhos me encarando.
A ruiva o encarou realmente contrariada, pois parecia não se importar em esperar enquanto Bucky apenas torceu a boca e se levantou, entregando o dinheiro a Sam para que pagasse a conta. Se encostou a grade que separava as mesas do movimento escasso de carros na rua e apenas aguardou. Pode observar como Wanda ainda hesitou por um momento, antes de aproximar lentamente cruzando os braços.
— Sabe... Uma bruxa pode reconhecer outra mesmo à distância. – Apenas meneou a cabeça a afirmação, no que ela estreitou os olhos. – O que ela te disse?
— Nada demais, Wanda.
Ela abriu a boca para contestar, parecendo um pouco indignada, mas Sam já estava voltando e isso a fez recuar. Levantando as sobrancelhas para a ruiva, esperou que ela fosse à frente, o que fez muito relutantemente, e seguiu ambos de volta até o carro. Agora, ao menos, tinha algo que Wanda queria saber e podia trabalhar com isso – embora não soubesse exatamente o quê.
O retorno à cabana, dentro do carro, ganhou a mesma formatação anterior e eles voltaram pela estrada conhecida enquanto anoitecia cada vez mais com Sam explicando a trilha-sonora de Trouble Man a Wanda, a qual pareceu ter se esforçado para compreender todo o histórico que envolvia a música e o filme.
— Agora já pode admitir que nossa companhia não é tão ruim assim...
O ouviu provocar quando bateu a porta do carro após estacionar na garagem dos fundos. Observou a ruiva apenas sorrir brevemente, sem parecer muito impressionada ao retirar o boné e se virar para sair.
— Ao menos agora vocês já têm data para partir.
— Bem... Podemos te ensinar maneiras melhores enquanto isso. – Sam o olhou de maneira reticente e se aproximou, abaixando o tom enquanto o ajudava a cobrir o carro novamente. Provavelmente não seria usado novamente tão cedo. – Onde acha que ela foi? Não voltou com nenhuma sacola de compras, mas não soltou a bolsa desde que chegou ao Café.
— Eu não sei, Sam. – Respondeu alcançando as compras deixadas a um lado e seguindo pela lateral da casa até a varanda frontal. – Talvez seja algo íntimo.
— Não ouse colocar essa imagem na minha mente.
Apenas revirou os olhos, mal acreditando na própria suposição. Por mais que a garota não fosse exatamente aberta com eles, não faria tanto mistério sobre algo íntimo — achava. Sam disse que iria ajeitar as compras e decidir o que cozinharia para o jantar e Bucky avisou que iria tomar banho. Wanda deveria estar em seu próprio quarto, como sempre, e a noite seguiu calma e silenciosa até todos se sentarem ao redor da mesa para experimentar a lasanha vegana do Wilson.
A garota parecia receosa desde que haviam chegado da cidade, desconfortável ao redor deles, como que escolhendo gestos e hesitando a cada comentário que Sam fazia, o que o fez se perguntar se tinha algo a ver com a bruxa que o encontrara dizendo palavras inesperadas e sem qualquer sentido ou com os lugares desconhecidos em que fora na cidade.
Contudo, quando ela abriu a boca, se voltando para o ex-soldado acomodado logo ao seu lado, como havia sido desde a primeira refeição que fizeram juntos, soou real e surpreendentemente honesta em comparação a garota constantemente resignada que vinha sendo.
— Ei, Sam, eu... – Ela respirou fundo, o olhando rapidamente. – Eu não quis dizer aquilo sobre... Irem embora. Não quis soar tão... Vadia a esse ponto. Eu só... Estou acostumada a ficar sozinha e... Vocês terem chegado mudou tudo.
Tentou evitar a surpresa em suas próprias feições, o que Sam não conseguiu muito – ou o conhecia apenas bem demais. A abertura voluntária era completamente inesperada, mas, finalmente, parecia um passo para... Ela. Para saber o que lhe acontecia, porquê fez o que fez em Westview, porquê fora justamente para aquele lugar deserto ao pé da montanha e quais planos tinha. Até então, tudo sobre Wanda soava nebuloso demais.
— Sabemos que há certas... Particularidades com seus poderes. Não estamos negando isso... – Sam começou, no tom mais suave que conhecia dele. – Mas estamos aqui justamente para que saiba que você não está sozinha, Wanda. Todos nós passamos por aquele período completamente estranho depois do estalo, o mundo é diferente agora, mas... Estamos aqui, somos os Vingadores ainda.
— Ou o que sobrou deles.
Levantou o copo em direção a Wanda enquanto Sam a puxava de lado para um abraço, que a garota aceitou de bom grado, parecendo apreciar. Pensou ter sido coisa da própria mente, mas, no momento seguinte, foi como se a atmosfera dentro da cabana houvesse mudado, tornando-se um pouco mais iluminada, deixando o clima menos pesado.
— Steve gostaria que fosse assim. – Sam completou. – Você era importante para ele.
Ela lançou um olhar inseguro a ambos. Não parecia acostumada aquela dinâmica de família que sempre envolvia, querendo ou não, qualquer um que rodeasse Steve Rogers. Era como ele fazia todos se sentirem: parte de algo importante, maior do que si mesmo. E Sam, inevitavelmente, também se mostrava mais e mais assim do seu próprio jeito.
— Obrigada.
Sorriu para ela, que apenas respirava fundo, desconfortável, e todos se puseram a comer, comentando sobre a lasanha e as trivialidades do Café, onde Sam tinha instalado sua pequena base móvel para falar com Sharon. A noite terminou surpreendentemente positiva, considerando os três pares de olhos receosos, eternamente marcados pelo luto e trauma de guerra, que eram.
Logo Wanda terminou de lavar a louça sem a ajuda de seus feitiços e seguiu para o próprio quarto, enquanto Sam e Bucky se acomodavam em seus respectivos sofás. Já tinha um dos braços sobre os olhos e a respiração regular, embora não tivesse muito sono, quando ouviu o outro chamá-lo num tom baixo.
— Buck, está acordado? – Concordou com um murmúrio arrastado, sem se mexer. – Sharon realmente vai precisar de mim nos próximos dias...
Em meio a um suspiro, abaixou o braço e encarou o teto de maneira impaciente.
— Sam, é uma garota, não um alien. – Esperou que houvesse falado baixo o suficiente para que Wanda não ouvisse, seja lá como fizesse isso.
— Então, consegue lidar com ela? Por si mesmo? – Ouviu a insistência de Sam e se voltou a ele no ambiente quase em completa escuridão em meio a uma careta.
— Do que você está falando?!
— Eu sei que tem seus próprios problemas. – Lá estava o tom compreensivo de Sam. Aquele que não gostava, pois era parecido demais ao do homem que o convenceu a ir até ali em primeiro lugar. Compreensivo e persuasivo demais, constatou estreitando os olhos. – E sei que ainda não consegue lidar com todo o seu passado da maneira certa, então... Se não quiser ficar tudo bem. Wanda é uma grande responsabilidade.
Franziu o cenho, ponderando por um instante toda a questão. O Soldado Invernal e tudo o que fizera sob sua identidade ainda estava tão presente em Bucky, em James, que não sabia quando conseguiria se libertar de tudo aquilo. Talvez nunca, embora ‘nunca’ fosse uma possibilidade longa demais considerando sua longevidade. Ao menos, podia afirmar que, depois das intervenções de Shuri e das Dora Milaje, voltara a confiar em sua própria mente, no que ele era sob o manto do Soldado.
Wanda, por outro lado... Bem, não sabia se ela tinha alguma fé em si mesma, mas tinha certeza que a mente dela, sendo isso algo voluntário ou não, não era confiável para si mesma ou as pessoas ao redor. Ela estava ali, totalmente fechada em si mesma, como havia admitido antes do jantar, após usar tudo o que tinha em sua mente de maneira completamente instintiva, sem conhecer as possíveis consequências – ou, talvez, até se preocupar com as consequências. Isso não era controle.
— Wanda é só... Alguém que esteve sozinha por tempo demais. Ela não é um fardo. – Declarou baixo, refletindo. Já bastava que a própria garota se visse como um por quem estava ao redor, ponderou pesadamente. Ouviu o suspiro de Sam e o silêncio preenchendo toda a cabana por um momento, até que sua curiosidade falou mais alto. – Afinal de contas, porquê Sharon não te deixa em paz?
— Estou devendo um favor a ela. – Voltou a franzir o cenho ao perceber o tom incerto. – Ossos do ofício.
— Não pensei que estivessem tão... Próximos. – Não encontrou palavra melhor naquele momento.
— Cala a boca.
Soltou um riso rápido e se virou no sofá, tentando se ajeitar melhor. O que, logo ele, poderia fazer por Wanda, quando ela claramente não precisava de segurança ou qualquer coisa do tipo? Apesar de não comer direito e parecer exausta, além de ter atitudes suspeitas e questionáveis, ela parecia se dar bem sozinha. Assim como Bucky. Não sabia o que podia oferecer a ela, mas, no fim do dia, não a encarava como “a bruxa”, mas como a garota sokoviana e isso, talvez, fosse um começo.
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