The Hurting. The Healing. The Loving.
43 Capítulo 42
A ansiedade o atingiu no mesmo instante em que se moveu na cama e foi completamente inundado pelo perfume dela.
Não se lembrava de ter dormido tão pesada e confortavelmente como havia acontecido naquela noite, nem que o perfume dela fosse tão predominante dentro daquele quarto, mas lá estava Bucky, quase lutando contra a vontade de permanecer ali, desfrutando do silêncio imperando de maneira bem-vinda pela manhã enquanto lidava com todas as perguntas que começavam a aparecer em sua mente.
Naquele emaranhado desordenado de sons, sensações, respirações pesadas, contatos e sentimentos escondidos, era quase como se tudo naquela madrugada não passasse de um sonho embalado em filtro escarlate, quase como se tivesse acontecido a outra pessoa, não a eles dois, tal a distância que acreditava se encontrar de quem Wanda era em todo o seu potencial. Porém, o fato de ainda se encontrar ali, bastante consciente da mulher ao seu lado e de tudo o que havia aprendido sobre ela, seu corpo e suas vontades há poucas horas, bagunçava tudo. Tornava as coisas melhores, ao mesmo tempo em que mudava tudo.
Apesar disso, Bucky também era autoconsciente o bastante das coisas ao redor para se questionar: tudo o quê? Ainda que soubesse pouco sobre o mundo de Wanda, já havia se acostumado, ao menos para si mesmo, torcendo para que muito discretamente, ao fato de que era fascinado por ela e que, paralelo a qualquer sentimento que isso pudesse causar a ele, possuía uma jornada própria e única em nome de sua família. Então, talvez, fosse um prepotente acreditar que dormir com ela fosse capaz de mudar suas concepções e determinismos auto impostos — embora, a consciência disso não deixasse de ser… Incômoda, no mínimo.
— Você está acordado.
Todas as suas conjecturas pareceram suspender imediatamente. Não foi uma pergunta, mas uma constatação, e Bucky, de repente, se lembrou do que ela havia comentado há alguns dias: a ansiedade dele a deixava ansiosa. Ela estava, o tempo todo, ciente de suas emoções, como bem havia frisado na noite anterior, e Bucky se obrigou a respirar fundo e, simplesmente, se arrastar contra o travesseiro macio enquanto se virava para ela e levantava os olhos para, finalmente, encará-la.
Diferente dele, Wanda não tinha os olhos estreitos e pesados, nem parecia ter acabado de acordar. Encostada à cabeceira de madeira da cama, mantinha as pernas esticadas e nuas sob as cobertas e as mãos juntas sobre o colo. Ela nunca dizia nada além do necessário, mas, de repente, a postura monossilábica e meramente observadora o recordou de seus primeiros dias na cabana, quando não queria a presença de ninguém no lugar e sequer se falavam muito.
Porém, os dedos apertados uns nos outros, como se com isso conseguisse conter a inquietude, e os lábios apertados, denotavam alguma expectativa. Ao menos sobre isso não estava sendo egocêntrico: aquela madrugada havia mudado a dinâmica entre eles, embora ainda não soubesse como seria dali em diante. No momento, tudo o que conseguiam era se analisarem mutuamente a fim de reagirem um ao outro.
— Bom dia. — Não fez questão de se levantar, queria prolongar aquele momento, queria… Olhá-la apenas como Wanda, sem considerar o entorno que esperava e temia pela Feiticeira Escarlate. — Dormiu bem?
Tateou sobre as cobertas até encontrar a perna dela para apertar o ponto logo acima do joelho, descansando a mão ali numa tentativa de quebrar a distância imposta pelo amanhecer e de deixar as coisas mais parecidas com a madrugada, mais… naturais.
— Mais do que isso.
Ela desviou os olhos para alcançar sua mão, pressionando-a entre os próprios dedos frios em contraste com a pele quente de sua perna. Wanda sem jeito era um fenômeno raro, mas quase podia vê-la evitando encará-lo diretamente para não corar.
A ruiva costumava ser inteiramente fechada, além de parecer calcular todo e qualquer movimento de forma bastante certeira para evitar justamente aquele tipo de saia justa. Por isso, Bucky teve que se esforçar para esconder um sorriso e a forma como seu ego se revirou por vê-la, tê-la, daquela maneira.
— Então… — Seu dedo rodeou o dela, ainda a analisando do travesseiro, vestida em sua camiseta da madrugada anterior, apenas uma calcinha e os cabelos ruivos e compridos emoldurando de forma desordenada o rosto, algo que ela não pareceu se preocupar em detrimento de todo o resto, o que secretamente apreciou. Agora que conhecia a textura de seus fios, gostava do fato de ter sido ele a bagunçá-los daquele jeito. — Estamos bem?
— Sinto que… Deveria ser eu a fazer essa pergunta.
Ela manteve o tom baixo, como se estivesse murmurando para que ninguém do outro lado da porta ouvisse, e abaixou os olhos; a expectativa mal escondida no brilho esverdeado e na unha contra seu dedo. Estava certa, afinal, havia tomado a iniciativa quando Bucky fora inteiramente cauteloso sobre a possibilidade tentadora e, cada vez mais intensa, “deles”, especialmente depois daquele beijo na hospedaria.
Porém, apenas respirou fundo e refletiu sobre seus passos até chegarem naquele ponto, dando vazão à questão que sempre martelou no fundo de sua mente, desde o início, desde quando ainda eram dois estranhos convivendo em pouca harmonia no mesmo espaço, desde o momento em que se deu conta de que possuía certo senso de dever sobre Wanda, pois ela fazia parte do time deles, até isso se tornar algo mais incerto e inominado.
— Porque me deixou ficar? — Ela titubeou por um instante, os dentes mordiscando os lábios inchados. — Você poderia ter simplesmente me chutado para fora da cabana… Especialmente quando Sam foi embora.
Apesar da incerteza e da hesitação, Wanda, por fim, suspirou e levou uma das mãos até seus cabelos, parecendo ponderar as palavras de maneira cuidadosa enquanto o distraía com a carícia suave de seus dedos místicos.
— Steve falava sobre você… Não muito, acho que tentava evitar se sentir culpado pelo caminho que as coisas tomaram. Mas, para além disso… Eu gostava de como ele se sentia quando se lembrava de você ou… — Os dedos dela escorregaram por sua têmpora e, então, sua mandíbula. — Quando estava por perto.
— Como no aeroporto?
Tinha sido a primeira vez que se lembrava de tê-la visto, mas, é claro, não sabia que ela era empática às emoções alheias, afinal não houve tempo para qualquer interação, além de um cumprimento superficial. Todos os amigos de Steve sabiam que era Bucky Barnes, seu amigo mais antigo, e o máximo de informação que teve foi os nomes dos demais, antes de entrarem em combate com Stark e sua equipe. Parecia fazer tempo demais, mesmo para ele, que estava acostumado com as peças pregadas pelo passar implacável dos anos. Ela sorriu, concordando.
— Mesmo que houvesse uma luta ou um empecilho, tê-lo por perto novamente o deixava… Em um estado silencioso e reconfortante de paz, depois de todos esses anos… Como se, mesmo com o compromisso de salvar o mundo e comandar todos ao redor, você fosse a maior missão dele. — Bucky conseguia enxergar em Steve a responsabilidade que achava que tinha sobre ele, apesar de tudo o que aconteceu nos Alpes ter sido um acidente infeliz e trágico, mas nunca havia pensado nas ações de seu melhor amigo sob a ótica dela, mesmo que tivesse enfrentado governos e seus próprios amigos para mantê-lo solto. — Talvez… Sem saber, talvez quisesse desfrutar… Eu mesma, dessa sensação que causava nele.
Aquela era uma direção para a qual não esperava, realmente, ir. Não associara a permissibilidade de Wanda a Steve em momento algum, sequer pensava sobre tal possibilidade, mas, ainda assim, suas palavras eram reconfortantes. Steve era a parte mais proeminentemente boa de sua história, mesmo que tivesse restado mais no passado do que com ele, quando, finalmente, poderiam pensar em alguma… Paz.
— Isso foi… — Ele a encarou por um instante até que respirou fundo. — Inesperado.
Ela sorriu, ainda parecendo encabulada, continuando a mexer em seus cabelos. Gostaria que ela se sentisse mais à vontade, embora soubesse que isso não aconteceria de um dia para o outro. Tudo o que aconteceu e a forma como elaborou mais do que esperava sobre Bucky já parecia ser um grande passo para a quietude intrínseca de Wanda.
— É bom que tenha decidido ficar.
Concentrado unicamente no rosto quase que desenhado sem maquiagem, livre de qualquer imperfeição ou até olheiras naquela manhã, mesmo após terem dormido por apenas algumas horas, não conseguiu resistir em se aproximar e se inclinar para beijar a perna que segurava de maneira distraída um segundo antes.
Apreciou a pele macia da mesma maneira que na madrugada anterior e, de certa forma, até mais tranquila e deliberadamente. Aquela bolha temporária criada em torno daquele quarto, e daquela cama, soava como a paz almejada por ela — por eles. Rodeou o quadril adornado apenas pela calcinha de malha simples enquanto subia até o rosto dela, sincronizando suas alturas, satisfeito pela anuência dele.
— Estou feliz por ter ficado. — Alcançou os lábios macios mais uma vez, desfrutando dos dedos místicos ainda em sua nuca ditando o ritmo lento de suas bocas. Se pudesse descrever em uma palavra como era beijá-la naquela manhã, após experimentar todos os seus beijos na madrugada anterior, seria: soturno. Combinava com a calma naturalmente instaurada ali, a qual gostaria de prolongar mais e mais. — Então… Essa sensação de paz que disse… Você está sentindo agora?
Questionou, se afastando apenas para encará-la em meio às respirações pesadas, enquanto seus dedos comuns se fechavam na curvatura da cintura dela, sentindo a pele quente sob a camiseta larga. Wanda sorriu em seus lábios inchados e respirou fundo, como se tivesse de se concentrar em algo onipresente ali, entre eles, entrelaçando os dedos lentamente em seus cabelos.
— Sim. — Ela murmurou.
— Porque… Eu poderia me esforçar mais.
Flertou para vê-la rir dessa vez e encerrou o assunto em mais um beijo, se ajeitando cada vez mais contra ela, que se deixava escorregar contra os travesseiros. Porém, apesar da bolha quase consistente criada ali, foram interrompidos por alguém batendo a porta de maneira baixa.
— Wanda? Você já acordou?
Era a Bruxa — a outra. Se afastou o suficiente para encarar a superfície de madeira, como se pudesse ver a senhora ali e expressar todo o seu desgosto pela interrupção inconveniente. Mas ela não fazia ideia do que se passava, então apenas voltou a encarar a ruiva com seus cabelos charmosamente bagunçados e a expressão adolescente de quem tinha sido pega no flagra.
— Sim?
A resposta saiu mais como uma pergunta, notou estreitando os olhos para ela, que apertava as mãos contra as curvas de seus ombros e o olhou, prendendo a respiração. Apenas por isso, decidiu deixá-la um pouco em paz. Eles não estavam ali de férias e a presença da Bruxa, de repente, a recordava disso.
— Eu vou tomar banho.
Murmurou baixo e beijou a bochecha dela uma última vez antes de se virar, jogar as cobertas para o lado e se encaminhar para o banheiro, fechando a porta em seguida. Só então, enquanto encarava o próprio reflexo bagunçado e amassado no espelho, pode se concentrar em fazer o próprio coração voltar ao ritmo normal.
Com as mãos apoiadas sobre a pequena pia e os olhos presos em seus próprios lábios inchados e nos cabelos escuros bagunçados sob a pouca luz do banheiro completamente desorganizado, concluiu que, há anos, não sentia coisas tão intrinsecamente humanas e complexas ao mesmo tempo.
Fale com o autor