Wanda e Bucky pegaram a estrada para a cabana de maneira silenciosa no dia seguinte, antes mesmo de a Bruxa e Sprite acordarem.

Ela ainda parecia cansada, mas concordaram que seria melhor voltar para a casa e pegar algumas coisas, pois ela teria que se dedicar aos exercícios mentais com a outra até se sentir apta a fazer o feitiço sem qualquer problema. Além disso, ainda havia a questão de encontrar as crianças, algo sobre o que ela não falava muito, mas certamente estava pronta para aceitar todo o tipo de ajuda possível.

Durante o caminho costumeiramente demorado pela estrada de cascalhos, a ruiva pareceu o tempo todo distraída, com a cabeça encostada contra o banco do carro e os olhos o tempo presos na janela à sua direita. Era um tipo de ansiedade tácita demais para que soubesse lidar, mas na qual ela sempre se fechava, por isso deveria estar acostumado. Exceto que não estava.

Durante a noite, enquanto tinha certeza que ela dormia, ocupando todo o espaço da cama que, ironicamente, insistira em dividir, pensou na proposta de Sam. Poderia encontrá-lo em Praga, tudo seria mais fácil se fosse embora antes que aquilo se tornasse um problema maior do que já era — ao menos para ele, considerou ao eco do que dissera a Wanda antes de dormir. Se ficasse, não haveria volta, se conhecia o bastante para saber muito bem disso e ela era alguém envolvida em toda uma outra realidade e o idealismo de uma vida com outra pessoa.

Sob o silêncio escuro da madrugada, contudo, tudo soava menos complicado. Tamborilou os dedos enquanto estreitava os olhos para o conhecido caminho à frente, como se tivesse algo contra ele ao invés de contra si mesmo naquele exato momento.

— Ei, eu estava pensando… — Começou, pescando cada palavra com cuidado, olhando rapidamente para como ela apenas o olhou, pouco prestando atenção. — Agora que tem ajuda… E companhia… E considerando que parece um pouco melhor do que quando Sam e eu chegamos aqui, após todo o episódio de Westview, acho que…

— O quê?

Ela apenas cruzou os braços, calmamente, esperando, pois aquilo havia sido pior do que qualquer coisa que tivesse pensado antes sobre aquela comunicação. Bucky respirou fundo, virando à esquerda para adentrar a estrada mais modesta que levaria à cabana, a qual já conseguia enxergar metros à frente.

— Provavelmente… Está na hora de eu ir embora.

A encarou no exato instante em que a surpresa passou por seu rosto, sob o boné escuro e os olhos um tanto arregalados ao se virar para ele tão rapidamente que até o surpreendeu.

— Ah…

Ela piscou, ainda processando o que acabara de dizer. Bucky tentou pensar em alguma outra coisa para remediar o que acabara de dizer, alguma outra justificativa que tornava sua vontade menos abrupta e estranha, mas seu cérebro pareceu estacado nos olhos dela, repentinamente confusos.

Wanda abriu a boca para dizer algo, mas, no mesmo instante, ela relanceou a visão para a estrada à frente, que terminava na cabana, e todas as suas feições se transformaram em preocupação. Ele seguiu o olhar dela, notando que, ao menos a janela lateral da pequena casa de madeira, se encontrava parcialmente quebrada, sendo mantida na parede apenas por uma das dobradiças.

— Droga.

Bucky acelerou para chegar mais rápido, parando com pressa à frente da varanda, onde Wanda desceu com pressa, olhando um tanto abismada a porta arrombada. Ainda olhou ao redor rapidamente, correndo o perímetro com os olhos em busca de algo diferente, mas não havia nada demais e, quem quer que tivesse estado ali, já deveria ter ido embora.

Batendo a porta do motorista atrás de si, seguiu pelos degraus a ruiva que, após parecer se certificar que estavam sozinhos, adentrou rapidamente a cabana. Tudo estava revirado. Os armários estavam abertos, copos, pratos e panelas estavam jogados no chão. Os sofás estavam fora de lugar e as cadeiras também jogadas por todo o local, onde havia espaço. A mala onde costumava deixar suas coisas também havia sido revistada, mas eram apenas roupas e foram esquecidas pelo chão, próximo à lareira.

Wanda seguiu para o próprio quarto, sem parecer se importar com os danos na sala. Imaginou que ela estaria atrás do tal Darkhold, mas, estacado à porta, para notar que se encontrava no mesmo estado da sala, talvez até um pouco pior por conta dos móveis completamente fora de lugar, notou que a ruiva procurava outra coisa. Levantando a cômoda com a ajuda de seus poderes, ela se ajoelhou no chão, procurando entre lençóis e roupas algo bem específico.

— Onde está? Onde está? — Ela jogava tudo para o lado, também sem cuidado, os dedos trêmulos agarrando qualquer pertence que estivesse pela frente.

— O que está procurando? — A observou continuar a procurar o que quer que fosse tão importante assim, especialmente entre suas roupas. Embora não soubesse onde guardava, esperou que não fosse o tal livro, pois então ela estaria realmente encrencada, mas, pela forma como a cada segundo, se dava mais conta de que o que estava procurando tinha sido levado e, por isso, parecia se desesperar mais, supôs que fosse algo mais pessoal. Ultrapassando o batente da porta, se ajoelhou ao lado dela, sem pressa. — Wanda.

Alcançou a mão dela, finalmente conseguindo chamar a atenção da mulher ligeiramente ofegante que se tornou dentro daquele quarto, em meio à cena de praticamente assalto em que a cabana se encontrava. Ela levantou os olhos para ele, alarmada, os dedos trêmulos mais um reflexo dela inteira.

— Eram as coisas de Billy e Tommy. — Wanda contou, lágrimas alcançando seus olhos no mesmo instante, levando uma das mãos a boca para evitar um soluço. — A faixa de cabelo e o relógio digital… Coisas que eles usavam!

Não conseguiu evitar levantar as sobrancelhas pela surpresa, pois não imaginava que aqueles dois objetos que tinha visto ali, no que parecia tanto tempo antes, eram das crianças dela. Meneou a cabeça, sem deixar de notar como ela ainda era afetada pela realidade que criou em Westview, como vivia na sombra de seus resquícios, alimentando aquela esperança de tê-los novamente, de uma forma quase obsessiva.

— Certo… — Tentou se concentrar em pensar algo rápido. — Podemos pensar em como pegar de volta.

Ela piscou, negando com a cabeça, sem conseguir realmente conter as lágrimas enquanto olhava ao redor, só então parecendo se dar conta do ambiente. Observando o perfil totalmente abalado sob o boné, notou novamente que parecia jovem demais para lidar com tudo aquilo que acontecia ao seu redor, pressionando a aprender, fazer escolhas, se dobrar aquilo que estava destinada a ser — algo bem maior do que uma simples sobrevivente de Sokovia. Tinham isso em comum, mas era tudo. Eram jovens demais quando a vida os deu um rumo diferente do que pensavam. No entanto, enquanto Bucky tinha conseguido se livrar de sua sina, ao menos em partes, Wanda ainda a vivia e não sabia estimar por quanto tempo esse seria seu caminho.

— Não. — Ela sussurrou, sem afastar a sua mão, os cílios molhados piscando na frente de olhos perdidos. — É uma armadilha. Os seguidores de Chthon… Eles sabem que Billy e Tommy são forças que me movem… Me querem exatamente dessa forma, de joelhos, vulnerável, por conta desse sentimento que parece me esmagar.

Um traço de fúria tomou o rosto delicado enquanto elaborava. É claro, queriam uma forma de atingir Wanda, nada melhor do que usar a cabana desprotegida para tentar justificar um motivo que a fizesse perder a cabeça novamente, como em Westview. Agora, apesar de tudo, ela parecia estar mais madura e pronta para o que quer que tivesse de enfrentar. Aquilo que viviam era um outro nível de problema relacionado aos seus poderes.

— Você está certa. — Isso não a fez se sentir melhor, no entanto. — Quanto ao Livro…?

— Está em segurança. A Bruxa e eu usamos nossos núcleos mágicos para escondê-lo…

Ela contou quase que em transe, sem parecer dar muita importância a isso, centrada na bagunça que a rodeava no quarto pouco espaçoso.

— Wanda. — Levou uma das mãos ao ombro dela, chamando sua atenção de forma repentina. Os olhos encharcados que o olhavam de volta fizeram com que algo em seu peito se contraísse e ele tivesse que se conter para não tentar, ele mesmo, secar as lágrimas que desciam pelo rosto delicado. — Sinto muito por isso.

Ela apenas abaixou a cabeça, remexendo os dedos uns contra os outros, por um instante que soou longo demais na manhã silenciosa e clara demais, que se estendia em torno deles como uma ironia fina demais para que ignorasse. Então o surpreendendo, Wanda se inclinou levemente e deitou a cabeça contra seu ombro, esperando… Ser consolada. Esperando um abraço ou algo que fizesse com que aquilo que deveria doer dentro de si passasse, imaginou.

Bucky vinha evitando pensar sobre como ela tacitamente o rendia há algum tempo, mas, no momento em que passou o braço em torno da cintura e a juntou contra si, apoiando o queixo contra cabeça a dela enquanto uma das mãos se concentrava em ajeitar os cabelos ruivos soltos pelas costas, notando como ela parecia ainda menor do que realmente era naquele estado, tudo ficou ainda mais claro e, simplesmente, deixou que ela chorasse.

Notas finais
Ei!!! Demorei, mas cheguei ainda no mês de Abril e, com este capítulo, tenho que dizer algo que acho ficará bastante claro daqui em diante. Bucky está sempre com medo do que sente 3 E, ainda assim, Wanda encontra um caminho sob isso! Sobre as coisas das crianças, tudo vai ficar mais claro com o passar dos capítulos, quanto mais vai ela adentrando essa realidade com a Bruxa, e, POR ISSO, vou trazer dois capítulos para dar uma adiantada nessa parte! Então, ao próximo! ♥