Há alguns minutos, apenas ouvia em silêncio os ruídos discretos vindos da cozinha. Deitado no sofá oposto ao que Sam dormia pesadamente em meio a um leve ronco, mais próximo à janela, Bucky encarava o teto concentrado no movimento baixo de Wanda preparando a própria comida.

Notara que era muito cedo ao encarar a janela e constatar a pouca claridade. Porém, seu sono era leve o bastante para perceber até os passos descalços percorrendo o corredor e, agora, andando de um lado a outro pela cozinha. Ela provavelmente estava com fome, pois teimosa e silenciosamente, se recusara a comparecer ao jantar improvisado que prepararam ao constatar que Wanda simplesmente não deixaria o próprio quarto tão cedo. Enquanto permanecessem ali.

Não antecipou como aquela viagem seria... Frustrante, de certa forma. Não sabia exatamente o que esperar, mas também não tinha exatamente um objetivo concreto, afinal Wanda estava ali, viva e bem, dentro do possível. Além disso, tinha certeza que não precisava realmente deles e de suas opiniões não solicitadas sobre sua vida para se defender, caso algo a colocasse em perigo – o que duvidava, considerando a quietude magicamente orquestrada daquele lugar.

Em meio a um suspiro contrariado, sentou-se no sofá se virando para encontrá-la debruçada sobre a mesa, apoiando-se nos próprios cotovelos, parecendo mordiscar distraidamente um pedaço de pão rústico de centeio com mel. No entanto, a tranquilidade dela foi clara e imediatamente substituída pela tensão ao levantar os olhos para encará-lo. Wanda era sempre direta e vazia de hesitações nesses momentos, o que parecia ser instintivo, mas isso não deixava de incomodá-lo e até intrigá-lo.

— Bom dia.

Cumprimentou baixo após o silêncio se alargar demais pelo ambiente pequeno. Isso pareceu despertá-la enquanto os dedos brincavam com o miolo do pão.

— Seus pensamentos são altos demais. – Declarou em tom baixo, não sabia se em respeito a madrugada lá fora ou a Sam dormindo logo ali. Então, após examiná-lo por um instante, o típico vinco de curiosidade na testa, Wanda meneou a cabeça, um brilho diferente perpassando seu olhar, embora o tom se mantivesse distante. – Interessante.

Então, ela imediatamente se levantou, alcançando uma caneca do que deveria ser chá quente, e se dirigiu para fora, os cabelos apenas meio-presos no alto do cabeça ondulando compridos pelas costas. Dessa vez, era ele quem estava confuso, pois tinha certeza de que ninguém jamais descreveria seus pensamentos e lembranças como “interessantes”. Além disso, também não sabia qual a extensão do que ela ouvia. Às vezes, tinha a impressão de que ouvia tudo, cada palavra suprimida em nome das convenções sociais; às vezes, imaginava que fosse mais como uma sensitiva.

Irritado, jogou os cobertores para o lado e seguiu ao banheiro, onde rapidamente tomou banho, fez sua higiene e, finalmente, pode trocar de roupa. Quase poderia dizer que o próprio reflexo aparentava tranquilidade, apesar do óbvio descanso após literalmente andar por horas para chegar àquela casa. Porém, havia também tensão. Algo naquela casa o colocava em alerta, fosse o quase completo silêncio ou a forma como tudo era mantido em seu devido lugar. Não era um lar, sabia disso por experiência própria, o que o fazia se perguntar o que a Maximoff continuava a fazer ali, além da auto reclusão?

Em meio a um suspiro resignado, somente terminou de secar a barba recém-aparada com uma toalha e juntou suas coisas para sair do banheiro, imediatamente procurando por comida tendo em vista ambas as portas do quarto completamente trancadas. Deixou a mochila no chão ao lado da lareira e seguiu para abrir os armários em busca de algo mais forte do que pão, mel e chá.

O soro que o tornava resistente o fazia imediatamente dependente de alimentação balanceada para manter a capacidade sobre-humana funcionando como deveria. Era uma falha no plano do soldado perfeito, Bucky tinha absoluta certeza. Se Zola e seus comparsas da HYDRA pudessem, o teriam transformado em algo ainda mais distante do que um ser humano comum deveria ser.

Por fim, decidiu por um grande copo de leite com café, torradas, queijo e ovos mexidos. O estoque mantido por Wanda era limitado e, pelo o que via, a garota não se importava muito com comida. Algo supérfluo para alguém tão autoconsciente do mundo ao redor, talvez, mas, de certa maneira, gostava dessa superficialidade terrena. Assim, podia ficar mais próximo da realidade a qual pertencera um dia, sem os fantasmas do Soldado Invernal.

Lançou um olhar para o sofá, onde Sam se revirava pesadamente, insistindo em dormir um pouco mais. Provavelmente conseguiria, pois o dia anterior havia sido mais cansativo que o previsto. Ainda mastigando a fatia de queijo, pegou a xícara e se dirigiu à varanda, abrindo com cautela a porta de madeira apenas para encontrar Wanda sentada no último degrau da entrada. A manhã era fria e, pelo que parecia, uma tempestade se aproximava ao sul, na direção da coluna que ultrapassaram para chegar até ali.

Diferente dela, se acomodou no degrau mais acima, junto ao pilar à direita da varanda, pondo-se a observá-la mais do que seria considerado apropriado ou simplesmente educado. Ela tinha os pés descalços na grama, como se pudesse sentir alguma energia advinda do contato enquanto simplesmente absorvia a sensação de olhos fechados. As feições harmoniosas pareciam atipicamente tranquilas, ao passo que as mãos seguravam com força a caneca de chá com os braços apoiados nos próprios joelhos. Era como se, tentasse explorar a breve pausa que o universo dava todas as manhãs antes de tudo se tornar vida de verdade.

— Wanda. – Ela abriu os olhos assustada, expirando e por um momento deixando de lado a máscara de firmeza que segurava com tanta constância. – O que sabe sobre meus pensamentos?

Questionou sem rodeios, ignorando de propósito o brilho escarlate que surgira nas íris geralmente verdes até que tudo voltasse ao normal. Wanda lidava com um tipo de poder desconhecido que não parecia ter nada a ver com... Química e testes cruéis. Se lembrou do tom de Sam afirmando com receio que era ‘uma bruxa, uma bruxa de verdade’. Porém, embora não compreendesse de onde a garota tirava aquela força desconhecida que fizera Thanos recuar na batalha, não tinha medo. Já havia visto – e passado – o suficiente em mais de 100 anos para que algo diferente fosse apenas isso. Seria mais fácil se apenas a tratasse normalmente, como Wanda, não como a “personalidade vermelha”.

Além do mais, sabia que a frase ficaria martelando em sua mente por muito tempo, se não perguntasse. Então, como num estalo, Wanda retomou a postura acautelada, abaixando os olhos para o chá enquanto parecia procurar as palavras certas.

— Não sei explicar direito. Quando está por perto... É como se pudesse ouvir algo se agitando em seu interior. – Ela estreitou os olhos para a claridade, analisando a própria habilidade sob o óbvio teste que fazia com ele. – Não sou capaz de ouvir cada palavra do que pensa, não se preocupe, mas... É como se ouvisse lapsos de memória, as coisas que fazem de alguém quem é. Especialmente os mais gritantes. Era assim com Stark também.

Ficou surpreso pela aparente sinceridade dela. Do ponto de vista da completa falta de malícia que aparentava ser ali, era só uma garota, jovem demais para presenciar horrores de guerra, suportar traumas e perdas mais pesados do que merecia, além de lidar com poderes desconhecidos. Analisando o perfil limpo de maquiagem, parecia ainda mais jovem e aparentemente sem qualquer necessidade de mentir sobre aquilo. Wanda não precisava jogar com ele... Precisava?

— Bem... – Tomou um gole longo de sua bebida, exagerada demais no açúcar, acompanhando o olhar dela no horizonte. — Alguns interiores estão mais desesperados do que outros, eu acho.

Ela se voltou a ele por um instante, ignorando a gracinha e realmente pensando sobre aquilo em meio a um olhar avaliativo.

— Na verdade, acredito que seja exatamente assim. Apesar de carregar muito consigo, eu não podia ouvir Natasha dessa forma. De algum jeito, ela conseguia ser tão silenciosa e vigilante dentro de si mesma quanto era com todo o resto. – Wanda elaborou lentamente. Mencionar a Romanoff não a deixava confortável, percebeu pelo modo como apertou os lábios e mudou de assunto. – Quando voltei do estalo, Clint também tinha... Se tornado um pouco como você e Stark.

Ela não teve medo de ofendê-lo e Bucky realmente não se sentiu assim, mas, de outro lado, sabia o que isso significava para Clint. O Gavião Arqueiro havia sobrevivido ao estalo e vivido por, ao menos, cinco anos num mundo totalmente arrasado pelo que Thanos fizera.

— E como ele costumava ser? – A observou dar de ombros levemente.

— Ele bloqueava a escuridão, os fantasmas, porquê... – Ela se colocou de pé, andando lentamente pela entrada gramada. Não havia pressa em seus gestos, sabia, pois não havia qualquer lugar para ir a seguir. Por mais que não se interessasse por Clint Barton em si, percebeu que estava curioso pela percepção dela sobre o arqueiro. – Acreditava no propósito do que fazia. E ele... tinha para quem voltar. Uma família que fazia parecer que o trabalho valia a pena no fim do dia.

‘E você não tem’, quase pode ouvi-la terminar o que seria a verdade mais absoluta daquela conversa. Bucky tinha Steve, mas havia sido... Pouco. A amizade deles, apesar de ser a coisa mais constante em sua vida, havia sido breve demais em comparação a tudo o que vivera longe do outro. Seus dedos percorreram a borda da xícara, constatando que via o propósito em Sam e porquê eles eram tão diferentes. Steve o havia escolhido pois ele tinha em que acreditar e porquê. Bucky não.

Com uma careta desgostosa pela direção dos próprios pensamentos, voltou a olhar a garota distraída no gramado, aproveitando a suave luz do sol da manhã há alguns metros. Por mais que parecesse melhor naquela manhã, ainda parecia cansada e doente, de certa forma – não por um resfriado qualquer, mas algo que a deixava fisicamente fraca. Embora fosse tipicamente pálida, aquele não era um aspecto comum.

— Consegue fazer isso? Bloquear a escuridão?

Perguntou o que já sentia saber a resposta, mas era melhor fazê-la falar do que prolongar o silêncio. Este soava sempre ensurdecedor demais para Bucky e sua própria mente. A Maximoff, então, se voltou a Bucky de maneira resignada, parecendo pronta a responder. Entretanto, a porta atrás dele foi aberta e pode ouvir com familiaridade as botas de Sam no piso de madeira.

— Cara... Vocês levantam cedo. – Ele já tinha uma xícara de café muito quente na mão e se apoiou contra o poste de madeira como se fizesse isso todos os dias, sob o olhar pesado de Wanda. – O que estão fazendo?

— Acordando.

Ela respondeu de maneira monossilábica, voltando a se concentrar nos próprios pensamentos, como se recusasse a se aproximar e se esforçar para estabelecer outra linha de diálogo.

— Obrigada pelo café. – Apenas meneou a cabeça ao murmúrio do outro e se colocou de pé, pronto para dentro da cabana. Porém, Sam voltou a insistir com a garota. – Ei, Wanda. Sei que criou toda essa coisa... Ao redor de nós para evitar visitas indesejadas, mas eu realmente preciso dos meus brinquedos de volta. Preciso de comunicação com o mundo.

Bucky suspirou e Wanda se voltou a Sam, apertando os olhos pela claridade.

— Trinta e cinco quilômetros naquela direção. – Apontou para a direção oposta a que haviam chegado, fazendo com que olhassem com curiosidade. – Há civilização e sinal de internet.

A ruiva deu as costas a ambos, encerrando o assunto e começando a caminhar realmente pela campina em direção às colinas opostas ao lago. Parecia tranquila, mas ainda assim... Havia algo de pesado em seu interior. Algo de que não conseguia fugir.

Notas finais
Finalmente, interação de verdade entre eles! É estranho pensar que eles possuem um tipo de antagonismo parecido em relação ao Tony Stark, não é? A quem acompanha, espero que esteja gostando do desenrolar dos acontecimentos até aqui, porque acho que já ficou claro que não vai ser rápido. Se você gostou, deixe um comentário! ♥