The Hurting. The Healing. The Loving.
58 Capítulo 57
Bucky levantou os olhos do relógio de pulso direto para a cama, onde Wanda permanecia inconsciente há quase vinte e quatro horas. Tinha a impressão de que ela não deveria sofrer tanto quanto uma pessoa comum, mas por algum motivo, desde que desmaiara em seus braços ao voltar para aquela realidade, continuava desacordada.
A outra Wanda havia limpado os ferimentos mais visíveis e chamado o Dr. Banner para examiná-la de maneira mais profissional. Parecia ser alguém em quem ela confiava ali e não demonstrou muita estranheza pela situação inusitada que se desenrolava à sua frente. Aquele que era o Hulk em sua realidade, mas não sabia se tinha qualquer relação com a criatura naquele mundo, havia deixado alguns aparelhos para monitorar seus sinais vitais e pressão arterial, mas, uma vez que não podiam ir até um hospital de fato, por diversos motivos — desde o cuidado para não colocar em risco o material genético da Wanda até a possibilidade de os ferimentos terem sido feitos por magia -, a orientação era esperar que o corpo da ruiva reagisse por si mesmo, o que tornava toda a espera frustrante.
O Darkhold havia sido deixado na mesinha de cabeceira logo ao lado da cama. Wanda revelou que a outra havia pedido que o mantivesse em segurança, pois ali, naquela realidade, não parecia ter de lidar com as mesmas ameaças que ela, o que fez de forma pacífica. Assim, imaginava que esse era o motivo de poder sentir a energia forte e opressora, que rondava o quarto. Para Bucky, era como se protegesse a Feiticeira e a mantivesse presa na mesma medida, afinal a magia que emanava dela também era bastante perceptível.
A outra Wanda parecia um tanto quanto resoluta por isso, afinal estavam na casa dela, com suas crianças, e apenas ela seria capaz de conter seu reflexo, caso algo saísse do controle. Ainda assim, ela não havia expressado nada ao deixar o quarto mais cedo, informando que tentaria manter Billy e Tommy longe — de sua versão possivelmente maligna e não confiável, completou mentalmente, evitando um suspiro.
Apesar de sua preocupação, um movimento lhe chamou atenção lá fora e Bucky se virou para notar como o tempo parecia nublado e fechado demais. O vento forte fazia com que as folhas outonais se movessem desordenadamente por todo o jardim e pelas ruas vazias da vizinhança. Aparentemente, a julgar pelo gramado amarelado e as plantas mais desfolhadas, ainda não era inverno naquela realidade e, apesar da temperatura cada vez mais baixa, as crianças continuavam brincando de maneira inabalada.
Eles não pareciam muito impressionados pela presença de uma mulher de aparência exatamente idêntica a da mãe sendo mantida no quarto de hóspedes, nem mesmo dele, chegando a chamá-lo para jogar com eles enquanto esperava, o que o fez se perguntar com que tipo de coisa eram habituados naquele mundo. Ainda, apesar dos poderes diferentes que apresentavam, brincavam de igual para igual enquanto jogavam bola, construíam coisas ou corriam de um lado para o outro, às vezes apenas entre eles, às vezes com outras crianças. Eles viviam uma vida totalmente comum e eram… Normais. Supôs que a Wanda daquele mundo havia se esforçado para tanto e isso era louvável.
Então, percebeu que algo chamou a atenção de Billy, que, ao defender uma das bolas que o irmão havia chutado ao gol, olhou diretamente para onde estavam, encarando-o através da janela, como se também pudesse sentir a energia, a magia que emanava daquele lugar. Tinha o cenho um tanto quanto franzido, intrigado, e os cabelos castanhos se moviam com o vento cada vez mais forte, embora parecesse inabalável em sua pouca idade. Imaginava que, como Wanda, os dois meninos possuíam habilidades mágicas ou coisa do tipo.
Porém, notou que o olhar do garoto não estava exatamente nele e, num sobressalto atípico e nada condizente com seus sentidos anormalmente apurados, Bucky notou que Wanda, ou uma versão dela, se encontrava logo ao seu lado, olhando-os da janela. O reflexo dela no vidro fez com que se arrepiasse por inteiro, especialmente porque não eram os olhos tipicamente esverdeados de Wanda que via, mas as íris avermelhadas da Feiticeira Escarlate.
A ruiva, por sua vez, ainda em seu traje de guerra, não parecia vê-lo ou se importar com sua presença, especialmente porque estava totalmente concentrada nas duas crianças que ocupavam o jardim, quase que em transe e, principalmente, dor. Ela levou as mãos ao ventre novamente, como havia feito ao chegar ali, mas todas as suas expressões faciais denunciavam que algo estava errado, que havia algum sofrimento no gesto ou, simplesmente, alguma dor relacionada a algo que estava ali, naquela realidade.
- Meus meninos… — A Feiticeira sussurrou, estendendo a mão enluvada e trêmula na direção da janela, os olhos escarlate gritando em dor e lágrimas não caídas. — Eu sinto muito.
Os dedos encardidos encontraram a janela e, prendendo a respiração, Bucky se voltou de verdade à mulher, calculando seus movimentos, sua mente trabalhando a mil por hora para entender o que aquilo queria dizer. Ela estava de pé depois de todo aquele tempo, mas ainda assim, não parecia consigo mesma e aquela reação às crianças — aquelas que havia buscado por tanto tempo — não parecia ser nada boa.
Já a havia visto tomada pela Feiticeira Escarlate, já havia sentido, quase que desfrutado do poder e magia que emanava naturalmente dela, no entanto, o que sentia agora era algo muito próximo do vazio, algo que parecia vir daquela versão da mulher e o fazia se questionar, silenciosamente, o motivo de sentir muito, como se estivesse enlutado.
- Wanda… — Murmurou baixo, tentando não tirá-la do transe de forma abrupta, aliviado que o corpo de sua versão não mística parecia recuperado, apesar da mente provavelmente estilhaçada com a qual tinha de lidar. Obedecendo a uma espécie de instinto que o dizia que a Feiticeira não estava habituada a qualquer tipo de gentileza, levou os dedos sem luva ao rosto suave, onde pode sentir a pele anormalmente fria e, quando não teve qualquer reação, lentamente rodeou com os dedos percorrendo suavemente sua mandíbula e, então, seu pescoço. Chamou novamente e, dessa vez, ela piscou e se virou para encará-lo lentamente, como se o visse pela primeira vez. Mas, notou, ainda não era ela e, apesar de poder sentir o poder que emanava da Feiticeira, não houve qualquer reação, apenas a anuência. Dela e do Caos. — Estou aqui. Estou aqui com você. Vai ficar tudo bem. Eles vão ficar bem. E você também.
Então, foi como se a misticidade dela o aceitasse, por isso não se intimidou. A ruiva o encarou por um bom tempo, como se tentasse compreender, como se processasse a aceitação de que aquela realidade, aquelas crianças não a pertenciam ou, simplesmente, como se estivesse se decidindo se confiava em Bucky, apesar de todos aqueles dias. Apenas depois disso, ela cedeu, inclinando a cabeça em busca de mais contato, fechando os olhos com o cenho franzido em razão de toda a carga de tristeza que parecia tomá-la pela conclusão a que chegara.
Com cuidado, a trouxe para si e a embalou em um abraço, mantendo a mão em seu rosto quando depositou a cabeça contra a curva de seu pescoço e se permitiu chorar silenciosamente, encolhida de forma que jamais imaginaria ver e associar a Feiticeira Escarlate, aceitando a forma como a consolava, agora alcançando os fios ruivos para tentar dar a ela alguma segurança, embora não compreendesse exatamente o que significava aquele momento.
Então, os dedos enluvados pelo uniforme vermelho escuro, que apertavam sua camiseta preta de maneira tensa na altura das costelas repentinamente se soltaram e, por algum motivo, o corpo dela voltou a perder as forças, o levando a segurá-la novamente em um reflexo. Antes de carregá-la de volta para a cama, chegou a sacudir o corpo ao chamá-la incessantemente, mas era como se houvesse sido drenada, inclusive de sua magia.
Ao ajeitá-la contra o colchão, notou que o semblante parecia um tanto quanto mais leve, menos sobrecarregado da tristeza e tensão anteriores, mas não podia julgar se era apenas impressão ou sua vã esperança falando mais alto. Arrumou os cabelos tipicamente ruivos ao redor do rosto, com os quais já estava mais do que acostumado, e suspirou pesadamente. Não havia nada que pudesse fazer, apenas esperar. Depois desse episódio, sabia que ela ficaria bem, ao menos fisicamente.
Assim que se colocou de pé novamente, seus olhos recaíram sobre o Livro dos Abandonados na mesinha logo ao lado dela. O objeto brilhou em escarlate, por dentro e por fora, como se propositalmente chamasse sua atenção, algo etéreo que se mesclava naturalmente à capa escura e as páginas aparentemente pesadas e encardidas do tomo.
Em sua mente, se lembrou da voz de Wanda, no que agora parecia ter sido muito tempo antes, dizendo que não deveria ter contato com o Darkhold, pois “havia alma demais” nele, mas, ainda assim, era como se a energia que emanasse daquele exemplar que sabia ser perigoso fosse irresistível — como a própria ruiva havia sido.
Levantou o braço metálico lentamente, considerando que a magia que sentia através de sua própria sensibilidade era muito parecida a da própria mulher, sempre que a sentira sendo manejada com ele ou próxima dele. Além disso, ainda era e seria para sempre um Soldado Invernal, portanto, ainda que pudesse manusear o livro, o mal que podia fazer a ele, provavelmente, seria neutralizado por seus próprios poderes. Não era um humano comum, apesar de sua alma, concluiu.
Estava pronto para tocar no livro, seus dedos a centímetros de encontrar o material da capa antiga e trabalhada, no entanto, quando os dedos dela abruptamente se fecharam ao redor de seu pulso e, como na primeira vez, impediram o contato de forma determinante.
Atordoado, principalmente pela forma como estava se deixando levar pela magia do Livro, o que notou imediatamente quando ela o parou, Bucky desviou os olhos para a mulher ainda deitada que o encarava direta e seriamente, com suas íris avermelhadas.
- Eu disse não.
Agora, as feições não eram mais doloridas, apenas totalmente frias e firmes, Wanda sob a armadura da Feiticeira Escarlate.
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