Bucky empurrou a porta do carro, que se fechou com uma batida seca, após colocar sua mala no banco traseiro. Wanda havia dito que poderia ir até a cidade de carro, pois não tinha planos de voltar tão cedo à casa da Bruxa. Ela se sentia pronta para resolver as próprias pendências, inclusive sobre as crianças e, além disso, não queria colocar Sprite e a outra em perigo — como já o colocara antes. A ruiva não havia falado, realmente, mas não precisava de muito para chegar a tal conclusão.

Havia ignorado aquela sensação apertada em seu peito enquanto arrumava suas coisas, sem tanta pressa, embora determinado. Não estava arrependido, nem do ponto a que chegaram, nem do que passara a sentir, nem do que dissera a ela. Wanda ainda não estava certa sobre a percepção de si mesma: ela tinha muito a oferecer a Bucky, mas não… Naquele momento. Olhando para trás, agora era capaz de entender.

Quando chegaram, ela estava de luto, ainda tinha outros objetivos e, depois, quando tudo mudou entre eles, a confusão passou a nublar toda a determinação dela (sobre Visão, sobre os filhos), especialmente porque queria agradá-lo, preencher alguma expectativa que achava ter sobre ela, apesar de acreditar não poder retribuir o que sentia. E, enquanto ela se sentisse assim, como um peso para Bucky, alguém sobre quem ele sempre teria de curar — e não alguém que podia fazer isso por si própria -, Wanda não estaria pronta para… O que poderiam ser. Pelo contrário, ela estaria disposta a sempre arruiná-los.

Engoliu em seco e levantou os olhos para a figura de braços cruzados, estacada sob a varanda da cabana, o encarando com os olhos avermelhados, não pela Feiticeira, mas pelo choro que se recusou a chorar na frente dele. Apesar de tudo, sabia que ela também tinha consciência de que deveria viver o que precisava viver — desde o término do luto às escolhas que precisava fazer — sem Bucky. Ele estava ali para emaranhar seus objetivos nas vontades particulares de ambos e, ainda que isso não caracterizasse nenhum pecado capital, seria capaz de levá-los ao fundo do poço se continuassem a ser a barreira para o que ela precisava ser naquele momento — mais Feiticeira do que mulher — para enfrentar aqueles que a desafiavam.

Embora conseguisse enxergar a tristeza e a mágoa nas feições sérias e fechadas e nos olhos esverdeados mais escuros que o normal, também via conformidade, apesar de saber ser pelos motivos errados, pois Wanda simplesmente julgava ser um fardo — para Bucky ou qualquer um que convivesse com ela naquele nível.

O pouco tempo que conviveram naquele lugar havia sido o bastante para perceber como fazia pouco de si mesma, apesar de suas tentativas de fazê-la enxergar como era mais extraordinária do que a maioria das pessoas que conhecera em toda a sua vida. A questão é, não podia tentar curá-la enquanto ela não fizesse isso por si mesma, pois ele também costumava estar sempre quebrado.

Respirou fundo e se aproximou dos degraus de entrada, a observando cruzar os braços e se encolher em si mesma, mais em uma postura de defesa do que pela brisa fria que fazia seus cabelos ruivos e brilhantes balançarem por suas costas e invadirem seu rosto, vez em quando.

- Eu acredito em você, Wanda. — A ruiva voltou a encará-lo, piscando sem entender. Levou uma mão ao curto corrimão da escada de três degraus, apenas para ter em que se apoiar, enquanto pesava cada palavra com cuidado. — Sei que gostaria de… Prolongar nosso tempo aqui. Você teve a sua chance de… Viver isso, mas… Acho que sabia que eu não tinha nenhuma.

- Bucky, eu…

Ela deu um passo, engolindo em seco, mas apertou os lábios, parecendo desistir do que ia falar no último minuto. Wanda, então, desviou o olhar para a Montanha à frente, tentando fortemente manter a compostura, mas, diferente de quando chegara e era, realmente e deliberadamente, distante, não conseguia mais se esconder com tanta facilidade por trás daquela barreira invisível, algo de que Bucky silenciosamente se orgulhava, pois agora sabia que conseguia alcançar outra camada dela. Não havia sido um tempo perdido, não encarava assim e nunca diria isso.

- Não diga que sente muito. Eu estava falando sério quando disse que não me arrependo. — Wanda, simplesmente, voltou a olhá-lo, novamente com aquele ar de inconformidade que a habitava desde que dissera que iria embora, de fato. — Você vai ficar bem? De verdade?

Ela meneou a cabeça, passando a brincar ansiosamente com os próprios dedos, algo tão característico dela quando estava nervosa, que teve de se conter para não alcançá-los com as próprias mãos e fazê-los parar, acariciando a pele quente.

- Eu só… Eu só não queria que me deixasse assim, quando… As coisas parecem tão...Confusas. — Wanda mordeu os lábios por um momento, mais do que o comum, parecendo lutar com as palavras e com o que queria expressar. — Mas acho… Bem, eu sei que é egoísta querer que fique.

Engolindo em seco com o murmúrio dolorido, precisou desviar o olhar ante a imensidão esverdeada estilhaçada que o olhava de volta. Porque parecia que estava a deixando como todas as outras pessoas que passaram pela vida dela — a deixando sozinha novamente e isso praticamente o dilacerava por dentro, porém, ao mesmo tempo, se perguntava o que ela queria que fizesse. A esperasse buscar sua família feliz e, então, os escolhesse em detrimento do que tinham vivido ali? Ou, caso sua busca não terminasse como queria, continuasse com Bucky como um prêmio de consolação, a única pessoa que lhe restou quando não tinha mais nada? Ele era compreensivo e empático com Wanda, mas, pela forma como gostava dela, sabia que isso não seria suficiente. Queria mais, a queria por inteiro. Mas preferia ter nada de Wanda do que apenas resquícios da mulher que ela poderia ser, uma sombra do que restaria na busca pela família que idealizara.

- Não estou te deixando. Tecnicamente. — Tentou convencer, tanto a si mesmo quanto a ela. — Você apenas… Precisa terminar o que veio fazer aqui. Sua família, seus filhos… Sei que nunca os esqueceu, nunca esquecerá. Você me mostrou, Wanda. Eles são sua vida, são como... sua essência. Eu entendo, acredite. A minha vida ficou para trás há muito tempo, então… É bom que você esteja tentando retomar o controle da sua, buscando a sua própria felicidade.

- Isso não é justo com você. — Ela murmurou, novamente um tanto indignada, mas não elaborando mais do que o superficial sobre o que sentia. Ele sorriu um tanto amargo, não era realmente justo com nenhum deles.

- Eu sou bem grandinho. Nada é irremediável, você pode ir me encontrar quando, finalmente, encontrar o que veio buscar. — Repetiu o cenário ideal, que havia criado em sua cabeça para que tornasse aquilo menos dolorido, menos real. — Você pode ir até mim sempre que quiser.

- Mas… Eu não vou poder deixá-los, eu…

Bucky sabia que ela estava falando a verdade. Que, uma vez que percorresse aquele caminho na direção dos filhos e da família que sempre quis, nada a faria mudar de ideia, pois o que ela sentia por eles era incomparável. E não queria competir, pois não poderia exigir algo daquela magnitude dela e estaria quebrado quando ela terminasse.

Ainda, ela soava um pouco anestesiada, olhando-o como se não o reconhecesse e não pudesse também elaborar muito além daquilo sobre sua partida, como se não tivesse concebido que, em algum momento, Bucky fosse realmente desistir. Deus, esperava que não estivesse lendo sua mente, pois sabia que, naquele momento, não conseguiria esconder nada dela.

- É melhor assim. Pra nós dois. — Murmurou de maneira resignada e, simplesmente, não resistiu a subir os degraus que os separava, tirando o boné cinza escuro da própria cabeça para colocar na dela. Wanda não se moveu enquanto ajeitava os fios ruivos ao redor do rosto, embora continuasse o encarando de perto, tensa, os olhos acompanhando os seus quando os abaixou para olhá-la. — Gosto de você com ele.

De fato, era uma imagem que jamais esqueceria. Wanda havia abandonado o próprio boné preto e estava, constantemente, usando o seu. Era com ele que estava quando se beijaram pela primeira vez e, desde então, parecia exercer certa posse tácita sobre o objeto de forma que pertencia mais a ela do que ao próprio Bucky. Sentiria falta de olhar para ela daquela forma, pois não somente preferia… Amava vê-la usando, concluiu, brincando suavemente com a ponta dos fios ruivos.

- Não diga isso. — Ela piscou, quase sussurrando aos tropeços, os braços cruzados na blusa de inverno, simplesmente permitindo que se despedisse. — Vou usar quando nos vermos denovo.

Bucky sorriu da tentativa dela e meneou a cabeça, sentindo o estômago afundar com o peso indescritível da constatação de que, realmente, a amava naquele visual — mas também em todos os outros; todas as outras vezes que estivera prestes a chegar à mesma conclusão, mas obrigara a si mesmo a dar um passo atrás. Wanda acreditava demais nas fantasias que criava, enquanto ele não tinha nenhuma crença de que aquilo faria bem a eles — a ela, principalmente.

Fazia mais tempo do que conseguia contar, que a olhava e já não conseguia sentir nada além de fascínio e aquele outro sentimento sufocante, que o tomava sempre que estava com ela. Parecia tão maior que eles, que não fazia sentido dizer, mas era incapaz de não se deixar amá-la sempre que acordava ao lado dela, segurava sua mão, sentia seu cheiro ou a textura dos seus cabelos ou, simplesmente, se perdia nos olhos esverdeados.

Ouviu o soluçar baixo e levantou os olhos apenas para encarar o rosto de Wanda contorcido em lágrimas, que borraram os olhos injetados e brilhantes e desciam livremente pelo rosto, mas foi tudo o que viu antes de a ruiva se precipitar sobre ele, abraçando-o pela cintura. Os braços contornaram seu torso, logo embaixo da jaqueta, tão fortemente que pensou ser uma tentativa de se fundir a ele.

Rendido, Bucky simplesmente a amparou, deixando que apoiasse o rosto em seu peito e assim ficasse pelo tempo que quisesse. Tão perto como estava, a sentia tremer e soluçar, mas era tão discreta que quase não se ouvia ruído algum, embora estivesse determinada a se manter assim pelo tempo que pudesse. Acariciou suavemente os cabelos dos cabelos ruivos e apoiou a mão na nuca delicada, afagando o local com uma intimidade da qual já sentia falta, que fazia de forma já quase saudosista.

- Eu tenho que ir.

Murmurou baixo contra ela e depositou um último beijo em sua têmpora, se afastando a passos largos enquanto ela se encolhia contra si mesma, os ombros trêmulos e o rosto baixo, mas contorcido em lágrimas. Tudo o que queria era ficar, mas, em detrimento de seu interior retumbante e de suas mãos atipicamente trêmulas no momento em que abriu a porta do carro, seguiu em frente.

Apenas alguns metros adiante, quando já conseguia controlar melhor a respiração e a sensação sobrenaturalmente pesada, que se abatia sobre ele, conseguiu olhar pelo retrovisor, para vê-la levar as duas mãos ao rosto vermelho de lágrimas. Mais distante, nas roupas de inverno e naquele clima acinzentado e de nuvens prontas para precipitar a qualquer momento, Wanda parecia ainda menor, formando um quadro ainda mais triste, mas, determinado, apenas engoliu em seco e se ajeitou no banco do motorista para continuar o caminho até a cidade.

Em meio ao clima cada vez mais tempestuoso e escuro, seguiu pela estrada de cascalhos por um longo período e, apesar de seus pensamentos ansiosos repetirem todas as palavras de Wanda e os diversos momentos que os levaram até ali, se manteve firme até o momento em que o que pareceu a sombra de uma pessoa cruzou a dianteira do carro de forma abrupta, fazendo com que puxasse o volante bruscamente para a esquerda, onde uma breve ribanceira fez com que capotasse rapidamente ao menos três vezes.

Imediatamente, duas coisas fizeram com que sua mente entrasse em estado de alerta, tão rápido que foi quase como se sentisse o Soldado acordar. Wanda vira algo na estrada há algum tempo, que fez com que parasse abruptamente; a “sombra” da pessoa era bastante parecida com a mulher de cabelos negros e franjas escuras que havia os abordado na cidade, no que, agora, parecia muito tempo antes.

Por isso, grunhindo insatisfeito, mais estressado do que realmente atormentado, soltou o cinto de segurança com um puxar despretensioso e empurrou a porta, emperrada pela forma como estava amassada com o braço metálico, sem medo de terminar de destruir o carro.

Poeira e fumaça tornavam o acidente mais caótico do que, realmente, era, uma vez que era quase impossível agredi-lo seriamente. Mas, assim que colocou os pés do lado de fora, notou que a sombra havia se transformado em uma pessoa de verdade, exatamente quem ele pensava que era, e, agora, o encarava da estrada, metros acima, rodeada de ao menos mais quinze outras pessoas vestidas exatamente iguais à ela — vestido longo e branco com mangas largas -, o olhando de cima.

- Bem… — Os olhos dela brilharam mordazes sob a luz avermelhada do farol traseiro do carro, o fantasma de um sorriso estampando os lábios. — Não é interessante como as mulheres Maximoff estão sempre rodeadas de homens, que dariam tudo por elas, mas sempre acabam indo embora?

Notas finais
Olááá!! Voltando com mais um capítulo e esse é desses que eu sempre soube que existiria na história, mas olha o quanto demorou pra chegarmos até aqui! Eu tinha essa cena, com a coisa do boné e ele percebendo que a ama - SIM, ELE ACEITOU - ao mesmo tempo em que decide ir embora, desde o início, mas eu precisava do "caminho até aqui", certo? Enfim, quando cheguei nela, travei horrores, porque este Bucky é cheio de complexidades, assim como Wanda, mas no final... Saiu como eu queria, o que quer dizer que amo um melodrama rs Finalmente, Bucky percebeu que a amava, mas é tarde demais?! Who knows?! E a reação de Wanda?! Espero que tenham curtido esse capítulo, pois é um dos meus favs e acho que um dos definidores desta fic ♥ Comentem pra eu saber! Até breve ♥