Bucky espalhou o creme de barbear por todo o rosto, de maneira lenta e deliberadamente distraída. Não tinha pressa, mas também não tinha propósito senão fazer com que o tempo, seus momentos com Wanda, escorresse entre seus dedos mais lentamente.

Estavam de malas prontas. Enquanto tentavam agir como adultos sobre aquele tópico, chegaram à conclusão de que era melhor que ela voltasse à casa da Bruxa para lidar com isso, da maneira que achasse mais conveniente, segundo os próprios objetivos, do que ficar ali. Além disso, era como se, cada dia mais, sentisse os efeitos místicos da Montanha sobre seus poderes, convicções e até sobre seu corpo — seus dedos sempre tremiam, estava sempre pálida e com a aparência cansada, dormia mais do que o comum, era quase uma surpresa que não tivesse ficado doente.

De alguma forma, era como se, enquanto Chthon literalmente “morria”, sem a interseção de Wanda, também tentasse se agarrar a ela, ao que representava, ao Caos que os conectava. Não sabiam se isso estava ligado a qualquer ritual realizado por seus comparsas, os seguidores que ainda mantinham a esperança de manter a entidade viva, mas era uma possibilidade provável, apesar de a própria não conhecer tanto de magia quanto sentia que deveria.

Arrastou a lâmina sobre a pele, considerando que não tinham tocado no sensível tópico das crianças. Para Bucky, Visão não era um problema, pois eles representavam coisas diferentes para Wanda. Não sabia se eles tinham tomado tempo construindo a ideia do que poderiam ser, mas sabia que a idealização de uma família perfeita vinha da ruiva e de sua carência por um tipo de estabilidade que nunca viveu. Bucky a compreendia, de forma quase sobrenatural, mas ela não tinha expectativas sobre ele.

Abaixou os olhos para a forma como a água limpava a lâmina e trincou a mandíbula, pois, até o momento, havia tentado não pensar sobre o assunto: Visão não era humano, não era um homem de verdade, portanto, poderia existir uma real conexão? Depois de tanto tempo vendo tantas coisas duvidáveis ao longo de suas eras, era incapaz de ser cético quanto a muitas coisas, mas não conseguia deixar de ser sobre a natureza do relacionamento dos dois.

Respirou fundo, novamente dizendo para si mesmo que o robô não era um problema, o problema era… Wanda. Ela e o próprio Bucky, no fim das contas, pois, consciente de toda a realidade que os rodeava, tinham decidido seguir em frente em nome de… Alguma paz. Algum sentimento não nomeado e pesado que pairava sobre eles sempre que se olhavam em silêncio, alongando o que poderiam ser, mas jamais seriam.

Era assim que sentia estarem as coisas depois do que ela havia revelado. Fazia alguns dias que conseguira ter acesso às crianças, Billy e Tommy, e apenas pelo timbre meio arrependido e receoso, percebera que, simplesmente, não tivera coragem de contar que havia conseguido encontrá-los. Talvez, por isso, também havia consentido naquele Dia de Ação de Graças transformado em um encontro. Como Bucky, ela queria prolongá-los, não havia outra explicação.

Voltou a molhar a lâmina após raspar a barba nos lugares certos mais uma vez e meneou a cabeça, em contrariedade. Seus pensamentos pareciam correr na velocidade da luz e, apesar de verbalizar não lê-los, literalmente, sabia que Wanda podia sentir sua ansiedade. Havia confessado que a ansiedade dele a deixava ansiosa, por isso, provavelmente também vinha desfrutando da inquietude mental de Bucky.

Então, quase que como um adolescente inexperiente, notou que afundou demais a lâmina na pele de seu pescoço, fazendo escorrer um grosso fio de sangue. Com um chiado apenas pelo reflexo, embora a sensação fosse bastante limitada em razão do soro, soltou o objeto sobre a pia e levou os dedos ao local, olhando no espelho o pequeno estrago, quando Wanda abriu a porta de maneira hesitante.

- Ei… — Os olhos esverdeados examinaram rapidamente, pelo espelho, o local onde sangrava até levantar os olhos para os seus, mordendo os lábios. — Você está bem?

- Sim…? — A fitou de maneira um pouco surpresa e também… Em dúvida. Imaginou se ela apenas sentira sua frustração ou, simplesmente, se era sua intenção o tempo todo, mas também chegou à conclusão de que jamais teria a resposta. — Você está?

Voltou a atenção para a torneira e lavou os dedos sujos de sangue, antes de pegar a tolha de rosto, para pressionar o local. A olhou, novamente, ainda na porta, como quando o acompanhara se barbear após o acidente com a adaga envenenada. Parecia ter sido há muito tempo, tanto que sequer sentia qualquer efeito colateral do acontecido, assim como todas as suas injúrias como Soldado Invernal.

Antes a ruiva parecia apenas distraída por vê-lo se empenhar em algo tão comum, satisfeita por algum tipo de domesticidade, normalidade ante tanta misticidade que os rodeava, ainda que não fossem exatamente nada um do outro, pois sequer tinham se beijado. Agora soava… Ansiosa por estar ali, os dedos fortemente fechados na maçaneta da porta.

- Posso fazer isso?

Ela perguntou de maneira hesitante, no que ele apenas meneou a cabeça e a permitiu se aproximar. Não gostava daquele estado, daquele momento, daquela forma como passaram a se tratar. Antes havia alguma hesitação pelo fato de não se conhecerem de verdade, de darem um passo de cada vez na direção um do outro, anuindo a quebrar barreiras apenas quando se sentiam confortáveis para tanto — especialmente no caso da Maximoff, a qual sempre mantinha muito de seus sentimentos somente para si.

As coisas agora eram inseguras e repletas de regras não ditas, pois passaram a se conhecer muito bem, durante todos aqueles dias, mesmo não romanticamente, ao entregarem detalhes um ao outro — tacitamente concedendo espaços, fossem eles grandes ou ínfimos, nos espaços de si mesmos e isso havia deixado ambos vulneráveis, como percebia agora. Não imaginava presenciar Wanda pisando em ovos com ele, não se imaginava mantendo a distância e sendo relativamente frio com ela, mas assim vinham sendo, pois aquilo que tinham vivido ali não era a realidade, era um lapso, uma borda do tempo.

Ela se aproximou e se colocou entre ele e a pia de cerâmica após pegar a lâmina com cuidado. Bucky apenas abaixou os olhos para ela, que o olhou hesitante e segurou seu rosto entre os dedos macios para começar a raspar no pescoço, perto da orelha, onde havia acabado de lesionar.

- Isso é… Íntimo.

Queria dizer familiar, doméstico demais, mas também era íntimo, no sentido mais literal da palavra. Jamais permitiria que uma desconhecida segurasse uma lâmina afiada contra seu pescoço, ainda que fosse costumeiramente descuidado com a própria vida, mas Wanda, no fim de tudo, era íntima.

- Se ficar tão perto… — Ela murmurou de volta, o único som que se ouvia no silêncio da noite, e fez o mesmo do outro lado, medindo, antes de subir para sua bochecha e perceber que estavam tão próximos que quase se tocavam, suas respirações quase se misturando no espaço tenso entre eles. — Não vou conseguir terminar.

Não era uma reprimenda, mas uma constatação, ao que ele apenas deu um passo para trás e deixou que ela segurasse seu rosto novamente para terminar a parte de cima, lentamente retomando o formato de sua barba. As mãos dela eram cuidadosas, como sempre, assim como os olhos que nunca encontravam os seus, e os lábios estavam apertados em uma linha fina, concentrados e, talvez, resignados.

Pelo espelho, pôde analisar como os cabelos ruivos, que se arrastavam pela cintura delineada, brilhavam sob a iluminação amarelada do banheiro. Se perguntou se Wanda tinha consciência da forma como ele era, inteiramente, fascinado por seus cabelos. Por toda ela. Os braços se sobressaíam na blusa branca de alças finas, assim como os seios sem sutiã, se movendo sempre que ela se movia. Gostaria de levantar sua própria mão para contorná-los, primeiro sobre o tecido revelador, para fazê-la amolecer como era comum; depois, abaixaria a blusa para sentir a pele delicada contra a sua mão, desfrutando da anuência sôfrega que ela, costumeiramente, dava àquele tipo de provocação.

Porém, esse não era o momento em que estavam e sentiria falta disso, da liberdade que vinham construindo um com o outro, sem grandes amarras, baseada na confiança que alimentavam todos os dias. Engoliu em seco e levantou os olhos quando Wanda usou a toalha para retirar o creme de barbear que ainda restava, lentamente passando o tecido por seu rosto e pescoço antes de descartar atrás de si, sobre a pia, fazendo menção de se virar para sair.

- Porque você não trouxe as crianças assim que as encontrou?

Wanda estacou, sem que sequer precisasse segurá-la onde estava. Queria respostas, ao mesmo tempo em que sabia que poderia ser massacrado por elas. Queria mergulhar naquele assunto, enquanto também desejava deixar tudo isso de lado e seguir em frente. Queria… Se arrastar em algum mísero fio de esperança, que ela não parecia disposta a conceder. Queria, também, que ela tentasse afastá-lo, pois então seria mais fácil.

- É melhor não falarmos sobre isso. — Ela molhou os lábios e respirou fundo para olhá-lo seriamente, ainda que alguns centímetros menor.

- Este sempre foi o objetivo, não é? — Pressionou. — Então, agora que está a um passo deles, não quer falar sobre o assunto?

Declarou, a observando cruzar os braços contra o próprio corpo, de maneira contrariada, concentrada em algo abstrato no chão do banheiro, parecendo querer sumir dentro de si mesma ao se encolher da forma como estava, o que o enfureceu por um instante. Não gostaria de vê-la se encolher; queria vê-la crescer, perante ele ou não, sem tentar se diminuir em suas próprias convicções como parecia fazer.

- É por isso que queria que eu fosse com Sam? Para o dia de Ação de Graças? — Pressionou um pouco mais, no que ela o encarou alarmada, tentando interrompê-lo ao negar. — Assim, teria o caminho livre e poderia ir atrás de Billy e Tommy sem nenhum empecilho?

- Não! — A observou, finalmente, deixar o estado de seriedade e apatia, para algo mais indignado. — Isso não é verdade, eu realmente estava pensando em você, no seu futuro…

- Bem, que altruísta da sua parte, Wanda! — Ela estreitou os olhos e, quando Bucky fez menção de lhe dar as costas para se afastar ou, finalmente, sair do banheiro sufocante em que se colocaram, a ruiva segurou seu braço com força para mantê-lo onde estava.

- Eu apenas… — Wanda se interrompeu e fechou os olhos por um instante, os dedos ainda firmes em seu braço metálico, antes de encará-lo de maneira aparentemente determinada. — Não queria que se decepcionasse como senti que se decepcionou quando contei sobre as crianças!

- Wanda, isso não… — Levou as mãos à fonte do nariz, um pouco incrédulo que essa era a impressão dela, apesar de tudo. — Eu nunca disse nada sobre os seus objetivos aqui, nunca tive nada contra as crianças. Você não pode basear suas escolhas no que consegue ler sobre mim com seus poderes ou algo do tipo. Eu disse para não ficar lendo a minha mente.

- Eu não li! Eu não leio… Nunca. — Ela respondeu rápido, tentando corrigi-lo. — Mas o que você sente… Eu não consigo ignorar o que as pessoas ao meu redor estão sentindo, você sabe disso. Eu só não queria que se arrependesse de ter ficado, quando olhasse para trás e percebesse que eu, realmente… — Ela continuou. — Realmente, não tenho nada para oferecer em troca do que sente por mim. O problema não é você, Bucky, sou eu. Não queria… Ser responsável por carregar o seu arrependimento, porque, se tivesse ido, nada disso teria acontecido e nós… Nós ainda estaríamos bem!

- Não, pois sequer haveria um “nós”, se eu tivesse escolhido voltar. — Disse a ela como se fosse óbvio, embora quisesse gritar que nada estaria bem se tivesse voltado a Praga e pegado o avião para voltar para os Estados Unidos com Sam. Aqueles últimos dias, ainda que fossem de uma paz ilusória, haviam sido essenciais para que se conhecessem sem pensar muito em magia, sem se prenderem a amarras e travas mentais. Haviam mergulhado um no outro sem medo, mesmo Wanda, que parecia ter adotado um semblante mais leve e menos sobrecarregado de… Escolhas. Diferente de tudo o que via no rosto dela. — Você deveria apenas ter me contado, invés de tentar me afastar como tem tentando por todos esses dias.

- Mas eu não queria te afastar, Bucky. Eu queria viver isso, não entende? Eu só estava… — Ela exalou, frustrada, os olhos lacrimosos. — Sendo egoísta, eu sei, mas… Tentando não te machucar, porque, no fim das contas, parece que tudo sempre vai terminar com alguém ferido.

- Bem… Isso não muda nada, no fim das contas, não é mesmo?

Reiterou de maneira firme, agora dando a ela as costas de vez para deixar o banheiro. Novamente, seus pensamentos voavam ansiosos e Bucky precisava respirar, fazer com que tudo retornasse a calma que havia construído com o passar do tempo, após retomar o controle sobre sua mente. Sentia o coração bater descompassado, quase em sua própria boca, e os músculos inteiramente tensos, embora aquilo estivesse longe de uma discussão física.

Contudo, Wanda foi rápida e se colocou entre ele e a porta, novamente impedindo que saísse, se afastasse, como deveria. Ela não gostava de discussões, mas de resoluções; gostava de manter o status quo tanto quanto fosse possível, gostava de colocar as coisas em pratos limpos, embora em seus termos, enquanto Bucky privilegiava algum protelamento em nome de sua própria sanidade mental. Precisava processar as coisas, chegar às suas conclusões por si mesmo.

A ruiva, de bochechas coradas e olhos injetados, segurando a si mesma para não chorar, o encarou com firmeza, encostada contra a porta, as mãos fechadas e juntas atrás do próprio corpo, como se assim pudesse segurá-lo ali. Uma ilusão, como diversas outras entre eles.

- Você está? — Sabia o que ela estava fazendo. Se dissesse estar arrependido, Wanda alegaria que o avisara que aconteceria, quando insistiu para que voltasse, e isso era tudo o que precisava para que se quebrasse. Então, os dedos dela tocaram seus braços e subiram para os ombros, parecendo distraída nas próprias hesitações, ainda que os dedos tateassem seu torso nu. — Está arrependido por ter ficado?

- Wanda…

- Esses dias… — Os olhos abandonadamente molhados o encararam e, de alguma forma, ele conseguiu sentir a dor quase física que estava estampada neles. — Foram os melhores de toda a minha vida, eu preciso que diga que não…

- Não. — Segurou os pulsos dela, para que parasse. Ela jamais precisaria disso em relação a ele, embora talvez sequer tivesse ideia, mas não queria fazer parecer que precisava, ainda que tivesse suas frustrações quanto a ela. — Não implore.

- Por favor… Você disse que não posso supor. — Ela estava tão próxima que suas respirações se misturavam e seu tom se mantinha em um sussurro intenso. — Eu preciso que fale, Bucky.

Ele abaixou os olhos para encará-la ao mesmo tempo que Wanda se esticou para fechar os lábios sobre os dele, firmemente. Inicialmente, tudo não passou de um selinho, mas então, ela se afastou e o encarou por um minuto, como que, esperando uma reação, que não aconteceu. Então, voltou a testá-lo, se colocando nas pontas dos pés para outro breve beijo, mais arrastado, mais superficial, ainda que mantivesse os pulsos firmemente entre suas mãos.

Na terceira vez em que ela fez o mesmo, continuando a testá-lo, quase provocá-lo, naquela tentativa de mantê-lo, Bucky não permitiu que se afastasse e a acompanhou no beijo, empurrando com seu corpo contra a porta em um impacto seco que não importou a nenhum deles enquanto suas línguas se misturavam e se encontravam depois de quase dois dias inteiros.

Se aproveitou dos pulsos em suas mãos para prendê-los contra a madeira, não se importando em deixá-la se sentir vulnerável, embora a ruiva não aparentasse ter ligado muito a julgar pelo ofego sôfrego contra sua boca e a forma como se arqueou contra o corpo dele, mesmo no pouco espaço que ainda restava entre Bucky e a porta.

Sua boca escorreu pesadamente contra a pele alva do pescoço, marcando. Já podia ver alguns vergões vermelhos pela barba recém-feita e aproveitou o momento para fazê-la tremer ao chupar um ponto inteiramente sensível na base de sua garganta. A ouviu gemer novamente e, imediatamente, entrelaçar os dedos místicos em seus cabelos, quando Bucky passou a contornar os quadris femininos apenas para alcançar as pernas, que se firmaram ao redor dele com um breve impulso.

Era como se a sincronia que mantinham para todas as outras coisas se manifestasse em cada movimento e intenção. A dele complementava a dela, eles se moviam nos espaços um do outro e se satisfaziam em um conhecimento novo, mas milimetricamente construído. E isso não era comum, pelo contrário, vivia há anos sem desfrutar daquele tipo de conexão intrínseca com outro alguém.

Notou que ela fechou os olhos, perturbada e excitada, quando a pressionou novamente contra a superfície de madeira da porta, sua pélvis sustentando a dela quando, rapidamente, enganchou os dedos na blusa branca. Wanda o ajudou a tirar ao levantar os braços, parecendo tão ansiosa quanto ele, que emendou um novo beijo nos lábios vermelhos e inchados ao passo que sua mão se arrastava pelas costelas dela até chegar no seio macio, deliberadamente lento.

Ela pareceu dividida entre desejar mais ou menos contato, o que o arrepiou por inteiro. Incapaz de sustentar o beijo, Wanda se afastou com um gemido baixo, que pareceu se arrastar por todo o seu corpo, e novamente voltou a se arquear contra ele, firmando a testa na sua. A respiração quente, errática, e os olhos fechados fizeram com que apenas depositasse um leve beijo em sua mandíbula, seguindo para abaixo do ouvido, junto aos fios ruivos impecavelmente cheirosos e macios.

O perfume dela estava por todo o ambiente e, durante aqueles dias, descobrira que adorava acordar no meio da noite, a trazendo para junto de si ao notar a distância, apenas para mergulhar o nariz nos fios ruivos, desfrutando do cheiro concentrado do creme hidratante que ela usava todos os dias junto ao aroma naturalmente doce de seu corpo. Sabia que era um perfume único, que ficaria total e inevitavelmente impregnado em sua memória.

- Bucky… — Ela o beijou rapidamente ao murmurar, os dedos firmes em seu pescoço.

Então, ele estacou para olhá-la, ainda tentando fugir da órbita quase esotérica em que Wanda o colocava apenas pela forma como mexia, inconscientemente, com todos os seus instintos. Bucky levou os dedos aos cabelos dela, afastando a franja dos olhos para que o rosto ficasse totalmente livre, como se fosse gravá-la.

Os olhos dela percorreram os dedos dele e Wanda apenas piscou ao encará-lo, sem entender como tudo havia parado tão abruptamente, restando apenas suas respirações ofegantes, seus lábios inchados e suas peles necessitadas. Ela engoliu em seco, até que suspirou fechando os dedos emblemáticos em torno do pulso que escorregava sobre a pele macia, fazendo questão de escorregá-lo até sua mão, para que conseguisse entrelaçar aos dela.

Estava acostumado a se sentir lido por Wanda, mas nunca deixaria de se sentir… Invadido, ainda que soubesse que não fazia parte de nada místico: ela o lia como o fazia a um homem, não a um inimigo e, talvez, a verdade disso soasse mais perturbadora do que qualquer outra. Por isso, ela não parecia, de fato, surpresa pelo repentino terminar de tudo, apenas um tanto quanto desapontada e desesperada, a julgar pela forma como sentia o coração descompassado dela contra sua mão.

- Não estou arrependido.

Por um momento, não reconheceu a rouquidão na própria voz, nem mesmo o bolo em sua garganta ou a falta de palavras que o tomava naquele momento. Era como se estivesse quebrando e a fazendo quebrar, ao mesmo tempo, pelo brilho dolorido que via nos olhos esverdeados da ruiva.

- Bucky…. — Ela voltou a apertar seus dedos como se, silenciosamente, implorasse. Então, a colocou no chão com lentidão e se abaixou para pegar a blusa branca brevemente esquecida por ali.

- Não estou. — Piscou, voltando a frisar, tentando verter todas as palavras que sabia que tinha para descrever toda a confusão sentimental em que havia se colocado. Estava afundado nela, ainda que não literalmente, e apesar de saber que Wanda tinha muita consciência de seus sentimentos, imaginava que ela não tinha ideia da profundidade disso. Olhou do tecido claro para o rosto dela, a expressão denotando como parecia inconsolável e desconfortável, agora que o frenesi anterior, passara. Por isso, sem pressa, a ajudou a colocar a blusa, o torpor a levando a encará-lo sem entender toda a ação ou a falta dela, apenas aceitando, sem se preocupar com a nudez. Seus dedos voltaram a percorrer o pescoço dela por um momento, se encaixando ali por um instante apenas para sentir a pele macia. — É apenas que… O futuro que você almeja, que você busca aqui, neste lugar… É algo que não está atrelado a mim, de forma nenhuma, ainda que nós tenhamos fingindo que sim por um momento… Pela nossa sanidade, eu acho.

- Pare. — Ela meneou a cabeça, ensaiando uma negação.

- Aquelas crianças, Wanda… Elas não virão de mim, nunca. E você sabe disso… — A ruiva o encarou, inconformada e perplexa pelo roteiro que aquele encontro havia ganhado, no fim de tudo. — Então, eu não estou arrependido, mas ainda assim… Acho que isso foi um erro para nós dois.


Notas finais
Ei!!! Eu disse que passaria a aparecer mais cedo. E com o coração apertado posso dizer que escrevi o ÚLTIMO capítulo da história. Eu já sabia o que queria, como seria, mas escrever de fato me deixou de coração partido porque sou muito apegada a esses dois e agora é reta final de verdade :( Enfim, sobre esse capítulo, também foi um dos mais difíceis da história pra mim, pois eu também sabia que ele chegaria - esse momento em que ele descobriria sobre ela ter encontrado as crianças, que faz referência ao final da série dela -, mas, ainda assim, sou um reflexo do Bucky sobre não estar preparada. O que vocês acharam e, principalmente, da escolha de Wanda em querer viver isso, desejar desfrutar de alguma paz é algo que eles sempre tiveram em comum, mas Wanda sempre está a um passo das escolhas erradas né? Enfim, me contem suas impressões porque amo discutir sobre eles ♥ Até breve ♥