Bucky abriu a porta da cabana e, imediatamente, colocou os olhos no perfil encolhido de Wanda, sentada no degrau mais alto, como se em um déjà-vu de como a encontrava todos os dias quando Sam e ele chegaram ali. Quando ela ainda mantinha a distância e o silêncio sempre travados, concedendo pouca ou quase nenhuma abertura para conversarem, dizendo o que queria e absorvendo apenas o que a beneficiava.

Naqueles dias, ela ainda era o reflexo do que fazia com a projeção astral da Feiticeira Escarlate e, agora, entendia de onde vinha aquela apatia latente, a imensa falta de energia com que encarava a presença de Bucky e Sam. A Feiticeira parecia resistir contra eles para se manter ativa, o que, provavelmente, deixava Wanda ainda mais exausta. Para aquela parte dela, provavelmente, ela não deveria ter permitido que Bucky ficasse, se infiltrasse em sua vida, sua própria realidade fictícia, da forma que fez.

Contudo, por algum motivo, Wanda havia resistido. Ela tinha um objetivo e queria controle, mas percebia ser controlada, estar à mercê, sem qualquer tipo de barreira defensiva, contra aquele seu “outro lado”, uma versão mais poderosa, mais cruel e menos cuidadosa de si mesma. Era assim que a Feiticeira se apresentava à Bucky, que apenas podia observar de fora, sem grandes interseções, pois, apesar de tudo, ela era de si mesma e de mais ninguém.

Por mais que, atualmente, ela estivesse disposta a conversar, se abrir e refletir sobre sua jornada, a auto imposta e a que fora submetida, não tinha ilusões sobre sua influência sobre Wanda. Ela tomava suas decisões, tinha consciência demais das próprias dores, dos próprios sacrifícios, da própria cura, para se deixar levar por qualquer coisa que dissesse. Não havia nada que pudesse fazer a não ser, simplesmente, continuar, o que parecia cada vez mais… O mínimo, pouco em comparação ao que queria dela, ao que se via doar a ela sempre que escolhia ficar.

Apesar disso, parecia muito quando conversavam sobre qualquer outro assunto que não envolvesse seus problemas e os dela ou, quando, verdadeiramente, parecia distraí-la ao explorar seu corpo, cada vez mais conhecido, sentindo que a ruiva se via cada vez mais à vontade sob suas mãos e sua boca, quando os olhos brilhantes, mais suaves e menos carregados de escolhas, pareciam reflexos dos seus, quando as barreiras insistentemente levantadas contra todos, anteriormente, caíam só para ele.

— Ei… — Chamou, se aproximando e estendendo uma xícara de chá quente a ela. — Você está acordando cada vez mais cedo.

Ela aceitou o chá de hortelã com um sorriso mínimo, entrelaçando os dedos ao redor da cerâmica com a estampa surpreendentemente excêntrica das Indústrias Stark enquanto ele se sentava contra o outro pilar. De moletom, com os olhos baixos e os cabelos ruivos muito compridos caindo ao redor do rosto, evocava uma imagem ainda mais jovem e vulnerável do que realmente era.

— Não estou conseguindo dormir muito bem.

Bucky tinha notado desde que passaram a, realmente, dividir a mesma cama nos últimos três dias. Wanda vinha tendo o sono agitado e não parava de se mover entre as cobertas, até que acordasse e ficasse assim por horas ou, simplesmente, levantasse para matar o tempo fazendo outra coisa. Ela não dizia muito sobre isso, ainda que tivessem resolvido continuar ali após o Dia de Ação de Graças, e não queria perguntar diretamente, pois ela sempre se abria quando sentia estar pronta.

Este vinha sendo o modus operandi deles, porém, naquela manhã, analisando o perfil sem maquiagem, marcado pelo semblante cansado e até um tanto preocupado, além dos movimentos inquietos das pernas e dos dedos contra a xícara, notou que algo estava diferente. Percebeu que os olhos dela estavam fixos na Montanha à frente, Wundagore se estendendo diante e ao redor deles em grandiosidade pesada, especialmente em razão do inverno iminente, fazendo com que parte dos picos já ficasse tomada por neve e alguma neblina em razão do horário. Mais abaixo, as árvores e a grama já estavam quase que completamente tingidas pelas cores frias, tudo mais seco e desolado do que quando chegara, no que parecia tanto tempo antes, embora não tivesse mais do que dois meses.

Notou o suspiro e o semblante concentrado, como se sentisse algo mais do que seus olhos humanos, apesar do Soldado Invernal, podiam ver. Agora, era capaz de sentir a magia que mantinha a cabana no estado em que a conhecera, mas Wanda havia feito questão de lhe mostrar. Já na montanha, não podia ver nada, nem era capaz de sentir muita coisa além do que a própria mente, um tanto impressionada por tudo o que presenciara até então, podia imaginar.

No fim das contas, para Bucky, era uma linha tênue entre imaginar e, realmente, enxergar, enquanto Wanda parecia muito autoconsciente do próprio entorno. Não podia afirmar que isso se dava em razão dos poderes em si ou de sua real ligação com o lugar — pelo fato de, ali, serem suas verdadeiras raízes, essencialmente; e não em Sokovia, como sempre imaginara. Por conta disso, por tê-la passado a conhecer, ao menos minimamente, sabia como podia ser sobrenaturalmente influenciada pelo meio.

— Você não é este lugar, Wanda.

Ela piscou, parecendo sair das próprias divagações, e, finalmente, tomou um gole do chá, menos doce que o que ele gostaria, mais adaptado ao paladar dela.

— Eu sei, mas… É como se sentisse ele drenar cada possibilidade do que eu posso ser. Como se, a todo o instante, estivesse prestes a tomar um pedaço de mim. — O sotaque dela foi angustiado, carregado de sua língua materna, e os dedos voltaram a se tornar inquietos, ainda que não o encarasse diretamente. — Agora sei porque fui atraída para cá. É como se só pudesse ser o resultado do caos de Chthon, servir aos interesses dele, da Feiticeira, nada além disso, e por isso nós…

Ela mordeu os lábios e meneou a cabeça em negação, mudando repentinamente a própria linha de raciocínio.

— Nós?

Ante seu tom, controlado, Wanda respirou fundo e o encarou, contemplando seus olhos, — perturbadores, como ela havia descrito — e, então, todo o seu rosto por alguns instantes. Eles eram cheios de silêncios repletos de palavras cuidadosamente escolhidas para serem ditas, algumas deixadas de lado em nome da sanidade deles.

— Eu estava pensando… — Ela suspirou, um tanto contrariada. — Não achei que teríamos essa conversa assim, à luz do dia e do jeito que acabei de acordar…

— Ainda estamos em um encontro, certo?

Sugeriu, vendo um sorriso pequeno crescer no canto dos lábios dela, quando se virou para ele, encostando-se contra o pilar em um reflexo de como o próprio Bucky se encontrava, a xícara entre as pernas e a posição mais relaxada enquanto pesava “eles”. Ainda lutava um pouco com o fato de existirem, realmente, sem que fosse uma questão puramente platônica no fundo de sua mente, embora houvesse coisas que não passavam de circunstanciais.

— Você e eu… — Ainda que os dedos dela expressassem a ansiedade pela direção daquela conversa, Wanda sustentou o olhar no seu. — É diferente de como era com Visão.

Bucky, instintivamente, ajeitou a postura e o boné escuro, que usava aquela manhã, buscando as próprias palavras. Jamais imaginaria que aquela seria a direção dos pensamentos dela em uma manhã tão ordinária como aquela, depois de dias iminentemente comuns como os que passaram. Não havia nada de especial, ainda que, constantemente, tivessem um ao outro.

— Ok… — Gostaria de ter uma xícara entre os dedos para poder distrair a ansiedade, como ela fazia. Agora, era como se estivesse nu perante os olhos esverdeados e insistentes, que pareciam querer dizer mais do que a ruiva estava, realmente, dizendo. — Não achei que teríamos essa conversa, no geral… O que é diferente?

— Eu já disse antes… Eu gosto… De como você me decifra. — Ela colocou a xícara no chão de madeira ao seu lado e cruzou os braços, os olhos baixos. — Visão fazia isso de um jeito diferente. Ele se conectava comigo, com minha mente. Você… Realmente, me decifra, por si mesmo. Eu não… Eu não sei como consegue fazer isso.

Ela soou um pouco inconformada, ao mesmo tempo em que incrédula, um estado não muito diferente dele, que agora sabia o ritmo exato de seu próprio coração e como respirar parecia mais difícil. Então, engolindo em seco, estendeu a mão para chamá-la para mais perto, o que Wanda apenas encarou por um instante antes de deixar os ombros caírem e aceitar o convite silencioso, se arrastando até praticamente se aninhar entre suas pernas.

— Eu apenas… — Seus dedos, frios e sem luva, se arrastaram pelos fios ruivos, jogando-os para as costas antes de se acomodarem no espaço quente da nuca dela, fazendo com que o olhasse. Estava próxima, fisicamente, suas palavras faziam com que quisesse trazê-la para mais perto ainda, para dentro de si mesmo, mas, por algum motivo, algo continuava a distanciando. — Olho para você e tenho esse impulso de continuar fazendo isso, cada dia mais.

— Você não me toca como se estivesse prestes a quebrar. — Ela murmurou, os olhos analisando os seus, como de costume. — Você me toca, me olha… Como se eu fosse poderosa.

— Bem… — Bucky suspirou, grato por ela se sentir à vontade com ele a ponto de dizer todas essas coisas, por poder tê-la tão perto, ainda que algo parecesse fora do lugar, por simplesmente poder tê-la, pelo tempo que fosse. — É assim que te vejo. Eu apenas… Cheguei a conclusão de que essa é a realidade de estar com você. Você é poderosa, faz parte do que é de verdade. Eu apenas… Não temo isso.

Ela sorriu, agradecida, e se aconchegou contra seu corpo um pouco mais, segurando seu braço mecânico para contorná-la de vez, fazendo com que a abraçasse. Apesar de tudo, continuou a acariciar o pescoço macio e os cabelos ruivos, fascinado por poder tocá-los, enquanto Wanda meramente encarava a montanha à frente.

— Eu não quero que isso acabe.

Os dedos dela se apertaram contra o moletom dele e Bucky a segurou um pouco mais forte. O silêncio não foi longo, mas pesado por algum tempo, enquanto a sentia inevitavelmente tensa, embora se mantivesse pesadamente contra ele agora.

— Você parece… Fatalista. Como antes. — Disse contra os cabelos dela e a afastou para que pudesse encará-la. Wanda mordia os lábios e tinha os olhos repletos de lágrimas não caídas.

— Bucky, eu os encontrei. — Ela murmurou baixo. — Eu deveria ter contado antes, mas…

— O quê? — Piscou, sem entender.

— As crianças… — Bucky realmente a encarou, a observando buscar as palavras. — Foi por acaso, eu juro, em uma das nossas sessões, quando a Bruxa e eu conseguimos esconder o Livro em outra dimensão. Eles existem, são perfeitos e são… Essencialmente meus.

— Isso é…

Buscou as palavras, mas se sentia paralisado e um tanto chocado, por isso acompanhou quando ela engoliu um soluço e tentou sorrir, afinal este era o objetivo o tempo todo. Porém, ao mesmo tempo, havia tanta culpa e receio em Wanda, provavelmente por sua reação, que, apesar de tudo, ela simplesmente limpou a lágrima que escorreu por seu rosto delicado e se aproximou, passando os braços em torno dele, abraçando-o de verdade.

— Eu sinto muito.

Notas finais
Olá!!! Vim mais cedo esse mês por um motivo especial. Finalmente, os capítulos finais da história estão sendo escritos e, muito provavelmente, as atualizações serão com mais frequência agora porque sou ansiosa. Por esse capítulo, já dá pra ver que não é porque eles estão na loving season que tudo será mil maravilhas, embora pudesse ser! Me contem o que acharam do capítulo e o que esperam do futuro da história ♥ E já gostaria de agradecer a todos que tem acompanhado até aqui ♥ Até breve ♥