Bucky alternou o olhar entre Wanda e a mulher de cabelos negros. Obviamente, a ruiva não a havia levado para o quarto em que estava hospedada e, com um olhar ao redor pelo bistrô, decidiu se afastar dos olhares e ouvidos alheios, encarando-o por um momento em um claro convite para acompanhá-la.

A outra apenas observou a interação e, enquanto Bucky a seguia até a estação, que naquele dia e horário já se encontrava quase que totalmente vazia, imaginou que aquela conversa não seria nada fácil. É claro que a Maximoff não havia aceitado ainda o fato de não ser filha biológica das pessoas que a criaram, que, na verdade, se revelaram seus tios. O passado, as escolhas e as crenças alheias eram algo sobre o que não tinha controle, o que sempre a tirava dos eixos.

Wanda se acostumara a consertar o que a feria por meio de magia, a forjar seu destino a partir daí, era para isso que estava de posse daquele Livro e, em razão disso, que estava praticamente obcecada em ter seus filhos de volta, depois do fim do hex em Westview. Porém, suas origens não mudariam em razão de sua negação. Mas, entendia que, naquele momento, analisando a postura defensiva da ruiva encostada à pilastra de pedra, logo ao seu lado, sabia que a negação era mais por conta do que aquela mulher ou seu grupo fizeram, do que por conta de seu passado, afinal Wanda estava interessada ter mais informações, detalhes que, provavelmente, pouquíssimas pessoas no mundo tinham sobre de onde, realmente, veio. Afinal, porque ela e o irmão foram criados pelos tios?

— Então… — Cruzou os braços também, com os olhos na mulher que mantinha as mãos juntas à frente do corpo, como uma mulher religiosa. — O que sabe sobre a mãe de Wanda?

Sob a franja escura, a mulher o olhou por um momento de forma impassível antes de encarar a mulher ao seu lado.

— Quando eu a conheci, Natalya já era uma seguidora de Chthon. — A ruiva ao seu lado arfou, pronta para contestar, mas se conteve. — Já estava iniciada nas artes do Mestre há algum tempo e era uma de suas seguidoras mais proeminentes. Fazia parte do círculo interno do Alto Revolucionário e era considerada de confiança. Ela vivia na antiga propriedade da família Von Strucker desde que tomou a missão como sua e eu era apenas uma menina…

— Quando você diz ‘seguidora’, você quer dizer… Uma bruxa? Como Wanda? — Questionou de maneira hesitante.

— Não, com isso ela quer dizer ‘fanática’. — Wanda cortou antes que a outra respondesse, mas esta apenas soltou um sorrisinho pequeno, subindo o canto dos lábios como se visse humor em toda aquela situação. Um humor macabro e de gosto duvidoso, certamente. — Eles não têm esse tipo de habilidade. Ao menos, não de forma natural.

— Nós sempre aprendemos algumas habilidades com o Alto Revolucionário, como manter a mente fechada, e com sua mãe não foi diferente. Ela era muito talentosa e, diferente de você, consciente de que era. — Notou que Wanda apenas mastigou a ofensa velada. — Então, em certo momento, uma profecia foi revelada a nós através do Alto Revolucionário. Chthon precisava de uma ligação com o mundo comum. Como se fosse… Uma extensão do que ele era. Ninguém sabia o motivo, apenas que nosso Senhor precisava que essa… Continuidade fosse garantida.

— Não. — Wanda deu um passo à frente, como que pronta para machucá-la, mas Bucky alcançou seu pulso, notando quão rápido o sangue corria em suas veias pelo rumo que aquela história repentinamente tomava. — Você está mentindo.

A mulher, que deveria ser muito mais velha do que aparentava, sorriu e inclinou a cabeça, humor seco escorrendo no brilho de seus olhos, apesar da expressão fria. Aquilo não podia ser o que Bucky estava concluindo que fosse…

— Wanda… — O tom suave da voz da outra foi deliberado. — Não é isso que todos os pais desejam? Continuar existindo através de sua prole?

— Então, está dizendo que…

— Você apenas existe… — A mulher o interrompeu, olhando de cima para Wanda. — Com todos os seus poderes, potências e egoísmos porque um ritual foi feito. E, assim, Natalya engravidou de Chthon. Sua magia vem diretamente Dele porque sua mãe aceitou fazer este sacrifício em nome do futuro de Nosso Mestre. Ele é o seu verdadeiro pai, Wanda.

Não havia qualquer reação plausível. Nem a sua, simplesmente encarando a mulher como se esperasse que aquilo fosse uma pegadinha, nem a de Wanda, que soltou o pulso que segurava de maneira repentina e se dirigiu a uma das lixeiras mais próximas, vomitando sem cerimônias.

Era… Totalmente surreal. Tecnicamente falando, não existia um pai, de fato, ela era filha de um ser místico e, por isso, seus poderes eram tão acentuados. Piscou, se voltando à mulher quando Wanda ajeitou a própria postura novamente e limpou qualquer resquício de sujeira dos lábios, antes de levar as mãos ao peito para respirar fundo e tentar manter o equilíbrio — ou ao menos tentar.

O que via nos olhos da morena era completo desprezo e, portanto, apenas podia imaginar supor o motivo de estar fazendo aquilo, no fim das contas, depois de todos aqueles dias em que desejavam tomar o Livro e não deram a mínima para o fato de Wanda ser filha de seu Mestre.

— Vocês precisam dela. — Wanda voltou sua atenção para ele, limpando os olhos marejados, antes de encarar novamente a seguidora de Chthon, como que esperando uma resposta. Ela não dava a mínima para Bucky, certamente o consideraria um ser humano comum e inconveniente por estar ao lado da ruiva, mas não se importava. — Por isso agora está aqui, disposta a contar tudo de forma tão… Pacífica, quando nem pensou em fazer isso antes.

— Wanda tem um caminho a seguir. — Ela escolheu dizer após, provavelmente, remoer uma resposta malcriada num apertar de lábios desgostoso. — Um caminho natural, que foi traçado para ela muito antes de nascer. Tudo o que a torna o que ela é, só foi possível em razão daquela decisão de Nosso Mestre. Agora, Ele a está esperando e não vai descansar até tê-la onde deve estar.

Não sabia muito sobre as questões esotéricas, que rodeavam Wanda, seus poderes e seu passado, sempre que descobria algo novo ficava um pouco chocado sobre como a realidade ao seu redor se desdobrava em muito mais do que aparentava.

No entanto, entendia de relações humanas, especialmente jogos de poder: aquela não era uma ameaça velada, era um ato de desespero, pois a Maximoff era a única que possuía poderes realmente assoladores e, desde que estavam ali, nenhuma das tentativas que aquele grupo empreitou para enfrentá-la surtiram efeito, mesmo que estivesse vulnerável por conta da falta de Visão e de tudo o que aconteceu em Westview. Portanto, não era coincidência aquela tentativa de “selar a paz” logo depois de invadirem a cabana e não encontrarem o livro, afinal isso só havia sido possível porque a Feiticeira Escarlate não estava presente.

Não sabia, no entanto, se este era o raciocínio de Wanda, quando se aproximou da outra lentamente. Ainda que tivesse os olhos brilhantes e avermelhados pelo vômito recente, seus passos eram firmes e suas feições muito fechadas. Mesmo que não houvesse nada de escarlate ali, quando sua mão rodeou o pescoço da mulher e a empurrou de maneira deliberadamente lenta em direção a uma das pilastras, seus dedos estavam cobertos pela conhecida energia poderosa.

A mulher, por outro lado, apenas ajeitou a coluna e respirou de maneira tensa, como era possível ante o peso da magia de Wanda, esperando sua vontade. Não havia como negar que, se a ruiva quisesse, acabaria com ela ali mesmo. Bucky olhou ao redor, através do átrio relativamente pequeno da estação, notando que não havia ninguém no local e as poucas pessoas que passavam na calçada, há alguns metros, estavam concentradas em seus próprios afazeres.

— Eu nem mesmo sei o seu nome e, não se engane, eu não quero saber. Mas ouça com bastante atenção… — Wanda murmurou sob o boné dele, que impossibilitava uma identificação tão rápida, caso alguém estivesse procurando-os. — Eu não devo nada ao seu Mestre e nem a nenhum de vocês. Meus poderes são meus para fazer com eles o que eu quiser, inclusive destruir aquele castelo em que vivem com todos vocês dentro.

— As coisas não são como você quer, Wanda. — A mulher disse já com alguma dificuldade, visto que os dedos da ruiva realmente começavam a apertar a pele clara de seu pescoço.

— Não… Mas elas podem ser. E sabe muito bem disso. — A seguidora de preto apenas piscou quando a ruiva praticamente murmurou em tom de voz deliberadamente baixo e suave demais ao encarar a outra de maneira firme e fria. Não havia nada da Wanda do dia-a-dia, que usava meias e moletom surrado, na mulher que ameaçava a outra ali. — Não apareça mais na minha frente e faça com que seus associados fanáticos não apareçam também ou vou esmagar cada um de vocês, um por um.

A ruiva ainda a encarou com desprezo latente antes de se afastar e dar as costas a eles sem pestanejar, caminhando em direção aos degraus de saída da plataforma. A mulher vestida de preto levou os dedos à garganta, pela primeira parecendo humana de verdade, ao piscar e tentar respirar fundo depois que os dedos de Wanda deixaram sua marca ali.

Bucky apenas a encarou, sem se importar minimamente, e começou a tomar o mesmo caminho de Wanda, mas a voz da mulher.

— Pelo menos, tudo isso serviu para que a conhecesse de verdade. — A mão dela massageou o próprio pescoço, no que Bucky sorriu, frio e sem qualquer vontade, e se virou à ela.

— Eu a conheço. — Declarou, internamente se perguntando se estava dizendo mais convencê-la ou a si mesmo. — Muito melhor do que pensa e muito mais do que você e seu secto jamais irão.

Pois Wanda não se deixaria ser usada novamente. Não depois de ser alvo de experimentos da H.Y.D.R.A, não depois de saber como era ser um objeto das vontades alheias, levando a um conflito que acabou com sua cidade de origem. Ao menos isso, tinha certeza a respeito dela, em detrimento de todas as incertezas que habitavam seu coração a respeito deles.

Notas finais
Hello! Demorei, mas voltei com todo o babado desse capítulo! Aos poucos tudo o que está acontecendo vai se encaixando, mas não posso deixar de negar esse capítulo é todo um pouco... Cruel com nossa Wandinha. Mas espero que tenham gostado e passem a se habituar mais com essa parte "esotérica", afinal faz parte pra complementar a história e é o que nos faz adorar Wanda. Ainda, com isso, o slow burn é realmente SLOW rs Mas enfim, Wanda do Velho Testamento está de volta! (um pouco) Me contem o que tem achado de tudo, minha vida a partir de agora vai ficar um tanto quanto caótica, mas tenho bastante da história adiantada pra continuar postando sem grandes empecilhos e não atrapalhar o ritmo de leitura! Enfim, até breve! ♥