The Hurting. The Healing. The Loving.
19 Capítulo 18
Quando subiu novamente os degraus da cabana na tarde seguinte, Bucky estava mais calmo, mas não menos perturbado, pois mantinha a convicção de que não queria ser minimamente parecido com o Soldado Invernal, caso não precisasse. Entretanto, a forma como reagira a ela fora intuitivamente soviética e mortal até se dar conta do que fazia.
Dessa vez, fora capaz de distinguir a voz e os olhos diferentes dos da Enfermeira o fazendo retomar o controle como que num chamado, mas, contrariamente a tudo que se conhecia sobre ele, tinha medo. Medo de voltar a ser como Ele, medo de sucumbir novamente aos gatilhos e àquela realidade que, em memória, o esmagava.
Passara metade do dia encarando as mãos manchadas de sangue, factualmente, metaforicamente, e a outra metade caminhando ao sopé da montanha, tentando colocar as ideias no lugar novamente. Sabia, pela forma como Wanda o encarara, que a havia ofendido, mas precisava daquele tempo, da privacidade de si mesmo novamente.
Talvez Sam estivesse certo e não havia sido, realmente, uma boa ideia ficar. Bucky não era alguém que cuidava de outras pessoas, especialmente quando, geralmente, as outras pessoas precisavam se manter em segurança da ameaça que ele representava. Sam estava certo.
A cabana se mantinha completamente silenciosa, o que não era uma surpresa considerando sua habitante. Com uma rápida inspeção, notou uma marmita pronta sobre a comprida mesa de madeira e a porta do quarto de hóspedes à esquerda atipicamente aberta. Franzindo os cenhos, fez menção de ir até lá, mas o movimento no sofá tomou sua atenção imediata, a visão periférica sendo preenchida pelo balançar de rabo do gato branco preguiçosamente estirado sobre a mesinha de centro e por Wanda, encolhida no sofá.
Ela se deitava em posição fetal, totalmente coberta pela manta do próprio Bucky, embora os cabelos ruivos se espalhassem por todos os lados. Com uma olhada rápida e cuidadosa na direção da porta aberta do quarto de hóspedes, decidiu dar a volta no sofá, se aproximando da mulher.
Por mais que parecesse determinada em seu sono, Wanda sustentava feições tensas, como a mandíbula e os lábios apertados e aquela pequena dobra de preocupação entre os olhos. Ela dormia em sentido contrário ao seu sem sequer ocupar todo o espaço do sofá, diferente do próprio Bucky, que mal conseguia se mexer direito naquele espaço.
Podia apostar que, por baixo da manta, também mantinha os ombros e os músculos em completa tensão e que parte do motivo para se sentir tão exausta de tudo o que a rodeava era que não conseguia, simplesmente, relaxar, pois tudo a mantinha em estado de alerta.
Sem se importar, espantou o gato da mesinha de centro e se sentou no espaço deixado por ele, constatando que, naquele momento, talvez fosse uma dessas coisas que a colocavam em suspensão. Em meio a um suspiro resignado, retirou com cuidado alguns fios ruivos que caíam de maneira displicente sobre o rosto e pousou a mão em seu ombro direito.
— Wanda.
Chamou em tom baixo, apertando levemente. Ela não titubeou para despertar, mas parecia mais lenta do que costume, os olhos verdes num tom mais claro o examinando de forma estreita por um instante, como que processando-o.
— Ah... Você está aqui... – A voz era rouca e preguiçosa, mas ainda assim, estranhou.
— Onde mais estaria? – Wanda ainda piscou por alguns instantes e respirou fundo, tentando ajeitar a bagunça de cabelos ruivos que se espalhavam pelo sofá.
— As pessoas da minha vida... Vem e vão, sem permissão. – Ela malmente deu de ombros, a postura e o tom conformado. – Você não seria o primeiro a... Desistir.
Um tanto incrédulo, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e a encarou bem, sem se preocupar em como poderia parecer invasivo e até mal educado. Era estranho que Wanda tivesse expectativas sobre ele, embora tudo o que havia sido no início fosse reticente quanto à sua presença. Não se surpreendia que as conclusões dela fossem justamente naquela direção, pois estava acostumada com as idas e vindas e, além de tudo, as perdas que a cercavam.
Entretanto, de uma forma torta para alguém com convicções tortas – como ele – aquela estranheza não era de todo ruim, embora um tanto assustadora. Fazia algum tempo que as pessoas não... O esperavam.
— Não estou indo embora.
A constatação saiu antes de ser uma, realmente. Quanto mais os dias passavam, mais complicado parecia deixá-la, como se enredasse todos que estivessem por perto. Se deixou ser perturbadoramente examinado pelos olhos verdes, sem se perguntar se ela estava tentando pescar algo em seu interior que fosse mais profundo que as próprias convicções ou se, simplesmente, estava tentando ler seus pensamentos. Nesse sentido, a ruiva era uma incógnita e, de certa forma, desistira de tentar controlar seus pensamentos perto dela, pois impossível e não natural.
— Bom.
Wanda murmurou, o sorriso mais satisfeito e sincero que vira em qualquer outro momento, apesar de ainda se manter deitada. Porém, continuou a encará-la seriamente, suas mãos juntas e tensas refletindo-o.
— Wanda? Não pode me deixar te machucar de novo. – Declarou de maneira firme, como uma condição que, certamente, não teria como saber se seria cumprida não fossem suas próprias ações. – Não quero machucar alguém novamente como machuquei você.
Era melhor que ela reagisse e, simplesmente, lidassem com isso depois, caso fosse necessário – principalmente porque Wanda possuía todos os meios necessários para tanto. Não havia nada nela que a faria se tornar uma vítima do Soldado Invernal e não admitia que se deixasse ser por ter sua mente – totalmente danificada – em tão alta consideração.
— Soa justo. – Bucky meneou a cabeça quando ela concordou e Wanda abaixou os olhos para as suas mãos, afastando a manta para alcançá-las e apertá-las levemente num acordo silencioso e estranhamente reconfortante. – Não precisa usar as luvas, se não quiser. O que aconteceu foi... Um incidente.
Antes que pudesse racionalizar, seu dedo enluvado contornou o dela num movimento abstrato, que ambos observaram alimentando o silêncio entre eles e ao redor. Apesar da costumeira imponência por si mesma, a mão dela sobre a dele parecia pequena e até delicada demais – uma característica que jamais associaria à Wanda Maximoff, sabia, exceto naquele momento.
— É melhor assim.
Ela não o contestou. Cada um deles sabia suas respectivas áreas de conforto. Então, com um suspiro pesado, Wanda afastou a manta e se sentou, jogando as pernas para fora do sofá enquanto examinava com cuidado o gato que antes parecia zelar por seu sono.
— Este gato é estranho. – A voz dela não foi de total animosidade, dessa vez, embora medisse o gato com bastante afinco antes de voltar sua atenção à Bucky. – Aonde foi?
No instante em que também levantou os olhos para ela, porém, precisou estacar por um instante, tão próxima Wanda se encontrava e, pior, sem se dar conta disso. Os cabelos ruivos agora caíam aparentemente macios numa profusão ruiva ao redor do rosto alvo, de feições ainda amassadas pelo sono. Não era incomum vê-la logo após acordar, mas, naquela tarde, Wanda não parecia tão sobrecarregada, talvez tendo conseguido realmente dormir e descansar, embora não pudesse ter certeza.
Desde que acordara, os olhos que o encaravam eram de um tom verde mais claro que o habitual e assim que o viu, as expressões tensas também se aliviaram um pouco, apenas esperando. Então, se deu conta de algo que não havia o chamado atenção nesse sentido. Wanda era uma bagunça... Adorável. A centímetros de distância, nada disso poderia ser apenas a impressão do que gostaria de ver nela e não conseguia tirar a própria mente daquela espiral para pensar num adjetivo melhor.
— Eu só... – Se forçou a parar de percorrer o rosto bem desenhado com os olhos e ajeitou a postura. – Só fui caminhar. Colocar as ideias no lugar.
Sua atenção imediatamente baixou para o pescoço, onde deveriam estar as marcas de seus dedos, mas Wanda fizera questão de vestir uma blusa que a cobrisse totalmente. Ela sorriu levemente, percebendo parte do motivo de sua inquietação, mas não passou disso, porque, desde o início, não quisera tornar aquilo uma questão.
Então, ela meneou a cabeça e se colocou de pé, sem pressa caminhando na direção de seu quarto, o que o levou a encarar fixamente a porta aberta do quarto de hóspedes, poucos metros além dela. Porém, antes que abrisse a boca para questionar, Wanda se voltou novamente a Bucky, os dedos incertos brincando com as mangas de sua blusa comprida e a cabeça um tanto inclinada em dúvida.
— Sabe... – Ela respirou fundo e olhou ao redor, mais desconcertada do que se lembrava de ver em qualquer outro momento. – Estou me acostumando com sua presença aqui, então...
Quis perguntar o que significava aquele ‘então’ quando a ruiva apenas deu de ombros e voltou ao quarto. ‘Então, não vá embora’. ‘Então, fico feliz que não tenha ido embora’. ‘Então, é bom que não seja mais um a me decepcionar’. ‘Então, talvez, não precise expulsá-lo como achei que teria’. A lista de opções era interminável e Wanda Maximoff, enigmática demais para tentar decifrá-la numa única conversa.
A porta do quarto dela se fechou suavemente e Bucky suspirou, se voltando ao gato branco. Ainda tinha um aspecto mal cuidado, parecia mais sem raça do que o comum e o olhava como se esperasse algo. Levando uma das mãos enluvadas à cabeça do animal, divagou que, talvez, não estivesse preparado para aquele tipo de intensidade.
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