Naquela tarde, notou que Wanda queria dizer alguma coisa, mas vinha fazendo rodeios. Pela primeira vez, ela ficou na área comum da cabana mais tempo do que o necessário, além de demorar demasiadamente a ajeitar a louça do jantar simples que preparara mais cedo.

Então, ela começou a tirar a poeira dos móveis com um pano molhado, sem pressa e sem utilizar os poderes em momento algum, o que sempre fazia quando era uma tarefa que não a agradava muito. O clima havia mudado do lado de fora, há algumas horas, com as nuvens se fechando numa feia promessa de tempestade. Por isso, todos os lampiões da cabana foram acesos muito mais cedo do que de costume.

Entretanto, por mais que a visse dar voltas e mais voltas ao redor, se manteve concentrado no calhamaço russo que lia, evitando puxar assunto, o que pareceu tê-la frustrado a julgar pelos suspiros impacientes que ouvia. Minutos depois, Wanda voltou do quarto com uma roupa diferente e pareceu ter feito alguma cerimônia para se sentar no sofá, aparentemente detestando o que quer que visse necessidade de fazer.

Deliberadamente, abaixou o livro e levantou os olhos para a ruiva, que mantinha uma postura ereta e as mãos juntas, o encarando fixamente.

— Algum problema, Wanda?

Ela estreitou os olhos para a leve provocação sob o tom sério, mas resolveu deixar de lado e, com um suspiro, se inclinou na direção da mesinha de centro levantando uma das mãos com a palma virada para baixo, gestos abstratos dos dedos começando a lentamente produzir a típica energia escarlate.

Levantou a sobrancelha e se ajeitou na poltrona em que se encontrava, mais próxima da janela, totalmente concentrado no que ela queria fazer. O vermelho que rodeava os dedos etereamente se estendia até os olhos verdes e, embora não parecessem ameaçadores naquela postura, emanavam certo magnetismo do qual não conseguia se descolar. Ainda não entendia como os poderes dela funcionavam, mas a presenciara em ação algumas vezes e, apesar do receio sobre o desconhecido, ainda parecia algo estranhamente atrativo.

Porém, tão etéreo quanto eram os movimentos da mão dela, também etéreo se construiu sobre a mesinha, aparentemente vindo de lugar nenhum, um exemplar pesado de um livro de aparência muito antiga. Franziu o cenho quando ela fechou a mão e se sentou melhor no sofá, encarando o livro de cima com algum receio.

— O que é isso?

Se levantou da poltrona, se aproximando para tentar ler o título na capa, mas era uma inscrição intrincada de runas entrelaçadas entre si e seu conhecimento sobre qualquer tema místico não parecia nada além de extremamente limitado, especialmente nos últimos dias.

— Esse é o motivo do que aconteceu ontem. – Wanda apoiou as mãos contra os joelhos, continuando a encarar o livro. – Queriam me obrigar a entregar e eu, obviamente, recusei.

— Ok... – Elaborou lentamente e se sentou ao lado dela no sofá. Era o momento de fazer as perguntas certas. – E porquê ele é tão importante assim?

Fez menção de levar uma das mãos até o livro para tocá-lo, mas Wanda segurou seu braço firmemente com um olhar de aviso, sobressaltando-o.

— É melhor não tocar. – Levantou uma sobrancelha e ela soltou seu pulso, se inclinando para segurar o exemplar pesado de maneira firme. – Há... Alma demais em você e este livro é perigoso.

Bucky duvidava veemente da afirmação, mas sabia que não podia contestar algo daquele tipo vindo dela, afinal provavelmente manuseava o livro há algum tempo.

— Então, porque aquele grupo o quer?

— É um culto e eu... – A observou passar os dedos pelas inscrições, parecendo pensar nas palavras corretas. – Ninguém que faz parte dele, aparentemente, tinha o poder de conseguir acesso ao livro em primeiro lugar. Há um tempo, eu tive o trabalho de... Tomá-lo para mim, então, agora, este clã o quer para que sirva aos seus propósitos, seja lá o que isso signifique.

— E eles exigiram isso.

Concluiu, vendo um menear de cabeça da ruiva, que se inclinou para manuseá-lo ainda que fosse com um menear de mão abstrato, que fez com que as páginas se abrissem magicamente onde ela desejava. Se remexeu um tanto desconfortável pela forma como ela tratava todo aquele poder de forma natural, mas não manifestou nada.

— Eu tenho uma teoria... – Ela apontou para a página, mas não conseguia realmente ler as inscrições em tinta muito negra sobre papel fosco e grosso, tão antigo quanto repleto de uma sensação, no mínimo, intimidante e questionável. – Chthon. Eles o querem para algo relacionado a este que parece ser... Uma entidade ou algo do tipo, mas não sei explicar exatamente qual o objetivo.

Bucky nunca fora de levar exatamente a sério aquela coisa de culto. Ao longo dos anos, presenciara muitos nomes, homens e mulheres, vendendo propósitos sagrados, que não passavam de golpes orquestrados para enganar multidões. Apoiou os braços sobre os joelhos, tentando enxergar algo conhecido na página que ela abrira, mas não conseguia relacionar a nada que conhecia.

— Você disse que roubou o livro antes deles. Porquê?

Se voltou a ela, tentando compreender a verdadeira raiz de toda a coisa, pois tudo aquilo parecia, ainda, simplista demais em comparação ao que via e ao que ouvira antes sobre Wanda Maximoff.

Antes do estalo, o contato entre eles nunca fora realmente extenso para que a conhecesse realmente, mas não havia como não saber sobre ela. De alguma forma, a ruiva nunca ficava à sombra. Ela era... Grandiosa demais para que se mantivesse às margens, embora tentasse a todo o custo.

Percebeu que seguia pelo caminho certo quando a viu se retrair, retirando a atenção que mantinha sobre o místico livro aberto para fitá-lo, os olhos mais verdes do que de costume, temerosos e analisadores, como se estivesse decidindo se deveria confiar nele ou não. No silêncio gigantesco daquela cabana, então, se deu conta de que gostaria que Wanda o fizesse.

Apesar de não conhecer nada sobre aquele mundo que se apresentava à sua frente, desejou que confiasse nele o suficiente para realmente compreender o que acontecia ali e com ela e sequer havia um motivo para tanto, além do fato de que isso parecia drená-la.

A observou morder a parte interna da bochecha voltando a olhar o livro por um momento, indecisão nos olhos verdes de fundo escarlate e dedos ansiosos no colo enquanto as feições se fechavam em mais seriedade.

— Eu não o roubei, eu tomei, é... Diferente. – Wanda corrigiu ainda tensa, no que ele concordou rapidamente, apesar de não enxergar exatamente a diferença. – Há essa mulher que... Algum tempo atrás, contou que existia um capítulo no livro inteiramente dedicado à Feiticeira Escarlate. Até então, eu não... Imaginava que esse poder viesse de algo tão... Secular. Tão... Místico, entende? Eu não era uma bruxa, por assim dizer, até que ela dissesse a palavra.

Sam havia comentado algo do tipo, mas sentia que associava a forma de se referir a ela mais como uma expressão de seu credo supersticioso do que como algo realmente concreto. Porém, ali estava Wanda, confirmando. E, mesmo que o fizesse, não conseguia enxergar qualquer entidade secular na mulher ansiosa em pijamas claros e cabelos molhados, mais vulnerável do que estava acostumado.

— Bem... Pelo o que contam nas histórias, toda bruxa precisa de um livro de feitiços, certo?

Wanda cruzou os braços e apoiou o rosto numa das mãos, o encarando por um instante. Sempre que se via nessa situação, quando ela não estava tão claramente se defendendo e se fechando em si mesma, o que era constante, se deixava intimidar pela forma como parecia sempre pronta a lê-lo e saber tudo sobre ele.

— Não é exatamente assim. – Ela começou elaborando lentamente em um sorriso resignado. – Estou usando o livro para... Tentar compreender melhor esse poder. Entender a Feiticeira Escarlate e até... Eu mesma. Só que... Além de Feiticeira Escarlate também me chamaram de... Precursora do Caos.

— O que isso quer dizer? – A ruiva voltou os olhos para ele angustiada, e decidiu, por fim, se colocar de pé. – Wanda...

— Caos é como eles chamam o tipo de magia que alimenta meus poderes, a Feiticeira Escarlate, enfim... Tudo o que eu sou. Antes, pensava que essas habilidades vinham da jóia da alma, a gema que... A H.Y.D.R.A. usava em experimentos. – Ela andou de um lado a outro, incomodada, hesitando ao mencionar a H.Y.D.R.A. temendo que pudesse ofendê-lo ou afetá-lo, mas estava tão concentrado na história, que não se importou. – Mas tudo o que sou vêm da Magia do Caos e... Estudando o livro, descobri que esse tipo de força pode vir apenas de um lugar: Chthon.

— O que é Chthon?

— Um tipo de... Entidade que... Algumas pessoas consideram um Deus. – Bucky respirou fundo e se recostou contra o sofá, repassando tudo o que ela contara até então. As coisas estavam adentrando caminhos inesperados e completamente esotéricos, com os quais não sabia exatamente lidar. – O livro é escrito por Chthon e aquelas pessoas... Acredito que o querem para, de alguma forma, ter acesso a este Senhor.

— Uau... — Acrescentou depois de algum tempo, apenas assimilando tudo o que acabara de ouvir.

— Eu sei.

Com um gesto de mão, o livro sumiu na mesinha de centro em névoa escarlate e, de certa forma, o silêncio posterior tornou tudo o que ela contara mais pesado, assim como tudo o que vinha acontecendo desde que chegara ali.

— Por que resolveu me contar tudo isso agora?

Afinal, antes Wanda não entregava nada e resistia à sua presença ali. Hesitante, a viu voltar ao sofá novamente, caindo sobre o encosto em sua postura tipicamente cansada, um suspiro deixando o corpo como que para demonstrar toda a exaustão dos ombros caídos e olhos fechados. Talvez, também se perguntasse o motivo e apenas não esperasse um questionamento tão direto, que pressupunha uma resposta tão direta quanto.

— Porquê... – Ela abriu os olhos repentinamente, franzindo o cenho como que para si mesma, embora encarasse o teto sem realmente vê-lo. – Porque você está aqui.

A aparente autoconstatação num murmúrio surpreso o pegou tão desprevenido quanto poderia. Novamente, parecia a afirmação de alguém que ficara sozinho por tempo demais e parecia pronto a despejar tudo sobre a primeira pessoa que estivesse disposta a aguentar, superada a barreira de resistência inicial.

Apenas encarou o perfil, sem saber exatamente o que dizer. Sim, escolhera ficar ali enquanto Sam tivera que sair, mas isso não queria dizer... Quis apertar os olhos sem conseguir direcionar os próprios pensamentos, esperando que Wanda não estivesse concentrada neles. Felizmente, ela voltou a falar, antes que precisasse se manifestar.

— A questão é.... – Ela voltou a ajeitar a postura no sofá, brincando com os próprios dedos. – Não sei como posso ter em mim esse “pedaço” de Magia do Caos, não sei de onde veio tudo isso, entende?

— Por isso está aqui. Para tentar descobrir.

A observou concordar com um aceno de cabeça, olhando-o rapidamente. Ela parecia sem jeito enquanto explicava sobre os próprios poderes, como se fosse uma inconveniência rotineira a que narrasse.

— Me desculpe por arrastá-lo para tudo isso. O que aconteceu ontem... Eu...

Wanda perdia o controle com facilidade e não entendia por quê. Quando sob os olhos vermelhos, realmente agindo em energia escarlate e não simplesmente coexistindo com essa parte de si mesma, parecia deixar de lado a realidade, bloqueando cada trava de cuidado que pudesse ter. Em certo nível, era semelhante à lavagem cerebral feita pela H.Y.D.R.A., exceto que aquilo, a Feiticeira, soava mais como parte dela, não algo inatural e cruel, com o que precisava descobrir como lidar.

— Wanda... Você não tem que se desculpar pelo o que é. – Apontou em um impulso, analisando cada reação nas feições delicadas. – Sabe disso, não é?

Pela forma como o olhou, ela discordava veemente, mas qualquer opinião que pudesse ter a respeito foi cortada pela chegada intrusa do animal mal cuidado, deslizando da esquina do sofá até as pernas dela e se esticando por ali como bem entendia. Wanda franziu o cenho e retesou, se afastando.

— O que é isso? – Perguntou encarando o olhar azulado do outro de forma veemente.

— Um gato. – Respondeu ganhando um olhar mal humorado dela.

— Porquê tem um gato e você não parece surpreso?

— Ele estava com fome.

Deu de ombros, estranhando a reação dela que, como ele, acompanhou incredulamente o gato deixar de lado as pernas dela para subir no sofá em um pulo sucinto e se acomodar no espaço generoso entre ambos, sem se preocupar com os dois humanos observando-o. Wanda ainda estreitou os olhos na direção do gato, como se pudesse lê-lo e se levantou, sem paciência para discussões.

— Nós não vamos ter um gato nessa cabana.

Com isso, simplesmente deu as costas e se dirigiu ao próprio quarto, fechando a porta de maneira seca. Franziu o cenho para o gesto, desceu o olhar para o animal, aparentemente confortável demais para se importar com Wanda.

— Não se preocupe, ela apenas… Não gosta de mudanças.

Notas finais
Hello! Novo capítulo da história e, agora, com algumas explicações de tudo o que acontece ao redor. Eu acho que aqui fica bastante claro que Bucky é mais uma porta de explicações pra tudo o que Wanda é. Ele é o nosso olhar né? Por isso acho interessante explorar essa confusão dele até que ela se sinta bem para dizer, o que vai construindo a relação entre eles! Me deixem saber se estão gostando do ritmo e das interações entre eles, ainda tem tanto a acontecer, até a próxima! ♥ Eu também postei uma nova winterwitch, baseada na música de Lady Gaga, Hold My Hand! Confiram! https://fanfiction.com.br/historia/809116/I_heard_from_the_heavens/