Shagga concordava. Sustentar tantos membros do corpo com Beast alliance drenava sua aura muito rapidamente, teria que acabar com a luta logo, ou ficaria completamente fatigado. Concentrou aura em todas as seis barbatanas e preparou para dar uma investida poderosa. Mesmo com pouca aura canalizada nas barbatanas, elas ficavam praticamente indestrutíveis e terrivelmente afiadas, definitivamente confiava no seu poder de destruição, o verdadeiro problema seria acertar o Conde. Tentou confundi-lo usando de sua velocidade novamente, surgindo e aparecendo ao redor de toda arena em uma com uma frequência descomunal. Dessa vez, os olhos do Conde nem tentavam acompanhar, ele simplesmente encarava sua dianteira. Shagga continuou cauteloso, achando que se trava de um ardil. Continuou a movimentação frenética se aproximando cada vez mais. Desfez os punhos de Joe, já que não seriam muito úteis, ficando somente com as barbatanas nos braços. Elas tomavam quase que completamente seus braços, com uma na lateral do pulso, outra bem no meio do antebraço e a última quase no cotovelo. Assim, se o Conde resolvesse atacar seus braços novamente, só conseguiria ferir a si próprio. Estando já prestes a desferir o ataque, mudou um pouco de estratégia. As extremidades afiadas das barbatanas eram curvadas para trás, então, utilizando da "beast alliance" mais uma vez, recolheu as duas barbatanas do pulso e fez com saíssem no mesmo lugar novamente, agora maiores e com a extremidade apontada para frente. Finalmente atacou.

Imaginou que o Conde já estivesse esperando ser cortado, mas não furado, então chegou pela sua retaguarda e furou seu ombro com toda a força com a barbatana. O golpe havia sido violento o suficiente para quebrar facilmente uma clavícula, mas apenas a ponta da barbatana penetrou na pele, provavelmente devido ao Ryu usado de forma precisa. O Conde se virava para enfrentá-lo frente a frente. O Apache não queria dar tempo de reação ao Conde, então levantou o braço e o abaixou novamente para causar dano com as barbatanas curvadas para trás. O braço percorreu seu corpo no exato momento em que se virou, fazendo um enorme conte diagonal. Com o dano já causado, pôs-se a recuar agilmente logo em seguida. Pela primeira vez na luta, o Conde sangrava com abundância. As lâminas haviam rasgado seu fino gibão deixando um rastro de sangue diagonal que começava em seu ombro e percorria o tronco até próximo à cintura.

Ao contemplar suas vestes rasgadas e seu sangue escorrendo, uma expressão indecifrável cruzou o rosto de seu estranho rival. Era uma mistura de incredulidade com raiva, Shagga não sabia dizer ao certo. Só sabia que era a primeira vez durante a luta que o Conde parecia vulnerável, de guarda baixa. Sem refletir mais, partiu para cima novamente, pronto para pôr um fim na luta. Foi só quando já estava tremendamente próximo que reparou novamente em sua postura. Ele o esperava com um sorriso e também com os braços novamente abertos, em desafio.

Se é isso o que quer, Shagga impregnava suas barbatanas de aura agora, então o terá.

Despejou uma tempestade de golpes contra o adversário que, de fato, não procurou se defender. Shagga furou, cortou, socou e empurrou, de vários jeitos e ângulos diferentes, foi uma sequência de golpes devastadora, que terminou com o Conde sendo arremessado pesadamente ao chão, quase para fora da arena.

— 4 pontos! – berrou o árbitro.

O Conde se levantava lentamente, o torso em ruínas. Cortes e furos coloriram seu corpo de vermelho. Suas finas vestes da nobreza completamente rasgadas e amassadas. O que restava do gibão azulado cobria apenas os braços, dos pulsos aos ombros na parte da frente. Sua calça saiu ilesa apesar de ter sido ensopada pelo sangue.

— HAHAHWAHAHAWHWHAHWHWHAHWHHAHAWHAHWHA – a risada histérica irrompeu de seus lábios novamente; mais contida, contudo. – Faz literalmente DÉCADAS que não sou ferido dessa forma – e desatou a rir mais um pouco.

— Então devo me sentir honrado por me provar um oponente tão capaz.

— Deve sentir-se um tolo – o Conde ainda ria. – Você acabou de ativar as condições para minha habilidade. – Hemoglobina – entoou ele em tom mortal.

A poça de sangue que havia se formado no chão levitou e se desfez em tiras, que começaram a dançar em formato espiral até acabar na palma da mão do Conde, se juntando novamente para formar uma esfera. Larga e vibrante.

— Geralmente meus oponentes mais hábeis, que pesquisam sobre mim tentam me nocautear rápido e procurando me ferir o mínimo possível, cientes de que não terão chance de enfrentar minha habilidade. No entanto, descobrem que é igualmente difícil me ferir, o que acaba sendo frustrante tanto para eles como para mim, já que eu adoro usá-lá.

— E eu sou um tolo por não ter medo enfrentá-lo em condições iguais?

— Se você pretendia ganhar, sim, é um tolo – disse o Conde com certeza irritante. – Veja bem, já que me concedeu informações sobre suas habilidades vou fazer o mesmo. Para início de conversa, sou um manipulador – disse orgulhoso. – E você deve saber que quanto maior for o perigo para o usuário de manipulação, mais poder terá sua habilidade.

— E como você controla o sangue... – Shagga havia entendido.

— ...Quanto mais me ferirem, mais forte minha habilidade fica – o Conde completou sorrindo. – Isso somado ao fato de que é não simples me ferir, meu corpo é extremamente resistente. Mesmo sem me defender com aura e abaixando a guarda, raramente sou ferido com relevância, e, mesmo quando isso ocorre me recupero rápido, então isso se torna uma restrição a mais para que eu não possa usá-la.

As coisas agora começavam a fazer sentido de uma forma tenebrosa.

Se o que ele estiver dizendo for verdade, explica o fato dele perder tantos pontos quanto as estatísticas apontam, ele abre a guarda de propósito, como fez várias durante nossa luta refletiu Shagga sombriamente. Mas não usar aura pra se defender? Disso eu duvido.

Embora afirmasse para si mesmo que duvidava, sua convicção não se mostrava tão sólida, pois isso explicaria a estranha resistência que sentia ao golpear o Conde. Achava que essa rigidez que confrontava seus ataques fosse relacionada ao Ryu, mas nem sempre que atacava sentia a característica presença densa de aura no corpo do Conde. E também tinha o Punho de Joe. Lembrou da primeira vez que o usou durante a luta. O Conde deixou-se acertar em cheio e disse que só não fora jogado para longe por que havia concentrado aura nos pés deixando seu torso vulnerável.

Faz um maldito sentido. Mas do que será feito o corpo desse monstro?

— Agora estamos quites – disse o Conde. Ele contemplava o sangue dançar em sua mão, excitado, fascinado, como se fosse a primeira vez que via algo do tipo. — Eu conheço sua habilidade, você conhece a minha. Vamos com tudo.

Shagga agora via que as feridas do Conde estavam limpas. Os cortes, furos e hematomas ainda permaneciam a vista, mas sem nenhum resquício do vermelho vivo que os cobria minutos há atrás.

— Não quer que eu o acerte mais algumas vezes antes? – Shagga provocou. Não era do seu feitio fazer tal coisa, as palavras vieram a tona do nada. – Essa pequena quantidade de sangue não servirá de muita coisa.

O Conde gargalhou.

— Meu caro amigo indígena... Aqui tem muito mais do que o necessário. Para derrotá-lo só precisaria de algumas gotas – e atacou.

A esfera vermelha comprimiu em sua mão tornando-se longa e fina. Um chicote. Ele se aproximou um pouco e golpeou na diagonal, de cima para baixo. Seria simples para Shagga desviar já que ainda estava com os Cascos de Xerneas ativados, mas queria ver o real poder do rival por isso ativou Beast Alliance e virou-se de costas. Da parte de trás de seu corpo brotou uma armadura escamosa e espinhenta que recebeu o golpe. Era um casco de iguanodonte, um réptil enorme e pacífico, que possuía uma carapaça espinhosa nas costas afim de manter predadores afastados. A chicotada provou ser violenta. Despedaçou grande parte dos espinhos que acertou e penetrou fundo na carapaça, embora não a tenha atravessado completamente. O Conde golpeou novamente, porém dessa vez preferiu desviar. O chicote encontrou o chão da arena, rasgando-o profundamente e provocando um estrondo oco que fez vibrar todo o solo da plataforma. Se tivesse sido acertado, Shagga tinha poucas dúvidas de que partiria a carapaça.

O Conde colocou Shagga para dançar enquanto estalava seu chicote escarlate. Eram golpes rápidos e destrutivos que estavam danificando severamente o chão da arena, mas Shagga tinha pouca certeza de que o Conde quisesse acertá-lo de fato. Ele ria alegremente enquanto sacudia o chicote e mal tentava prever os movimentos de Shagga se limitando segui-lo com os golpes quase que preguiçosamente. Shagga então encurtou a distância, saiu da defensiva. Pôs-se a rodear o Conde em alta velocidade, corria tão rápido ao seu redor que levantou um tornado de poeira e entulhos da arena. Enquanto corria mal podia ver o Conde, a alta velocidade desfigurava sua imagem fazendo com que parecesse uma sombra clara e esguia; apenas seu sorriso se mantinha nítido. Agora parecia que sorria em 360º graus. O primeiro ataque foi justamente ali, na altura da boca, já estava cansado daquele sorriso trocista e para torná-lo vermelho de orelha a orelha usou as Lâminas de Jack. Estocou o braço esquerdo com força, na intenção rasgar e furar, mas uma mancha se interpôs entre o golpe e o Conde, defendendo-o. Shagga hesitou um pouco ao perceber que cortara uma superfície meio elástica, mas não demorou a voltar a atacar. Sem diminuir em nada a velocidade, deu um golpe baixo, alvejando as pernas, mas novamente atacou a mancha. Sangue, Shagga percebeu. Só se deu conta pelo cheiro forte, pois mal podia ver o que atacava. Prosseguiu com os golpes. Foram centenas. Corria e atacava selvagemente de todos os ângulos que conseguia. Porém, a mancha de sangue sempre estava lá para proteger o Conde. Se movia exatamente para o local dos golpes, em uma velocidade absurda. Quando Shagga acertava era como se pisasse em uma poça. "Splash", o sangue fazia com o impacto.

"Splash", "Splash", Splash", 'Splash", "Splash", "Splash", "Splash", "Splash"...

O som se repetia ritmadamente, criando uma melodia bizarra e viciante. Protegido por sua barreira de sangue quase intransponível, o Conde mantinha seu sorriso. Estava com os olhos fechados e balançando a cabeça alegremente como se a sequência de "Splash's" estivesse realmente produzindo uma canção. O conde abriu os olhos quando um dos ataques de Shagga estava próximo dele. Ele se abaixou, dessa vez a mancha não o protegeu. Ele vai contra-atacar, Shagga percebeu assustado. Mas era tarde. A mancha se moveu para o chão e Shagga passou em alta velocidade sobre ela. Escorregou, perdeu o equilíbrio. Ia de encontro ao chão quando sentiu algo se enrolar na perna direita com uma força gigantesca e o levantar a metros do chão. Olhou para perna e viu o sangue do Conde em formato de uma mão e fechada sobre seu tornozelo. Depois disso tudo ficou preto; chegou a desfalecer por dois segundos, visto que, logo após ser erguido, seu corpo foi arremessado contra o chão e o impacto súbito quase o nocauteou. O ar escapou do seu peito, seu ombro esquerdo deslocou levemente e uma pequena massa de poeira e algumas pedrinhas invadiram sua boca quando o rosto tocou o solo da arena. Começou a ser levantado novamente. E novamente foi de encontro ao chão contra a vontade. Dessa vez foi mais forte e mais rápido, e da vez seguinte também, e da seguinte também, contudo nem sequer levou dano. Com a ajuda do Ryu conseguiu distribuir corretamente a aura antes dos impactos. Só obteve sucesso, no entanto, pois o Conde novamente se mostrava pouco criativo com os ataques. Simplesmente o batia contra a arena de um lado para o outro, sem muita preocupação. Assim, não tinha problemas para se defender, tudo que fez foi canalizar aura nas costas quando estava próximo de acertar o chão e fazer o mesmo com o tronco quando era a vez deste sofrer o impacto. Podia ficar ali naquele bate-bate o dia todo que dificilmente se machucaria mais, só era ruim para a moral. Já havia batido tanto no chão que estava quase sendo enterrado e também devia estar parecendo uma bonequinha de pano sendo jogado de um lado para o outro daquele jeito. Para se livrar do domínio do Conde atacou a própria perna com as Lâminas de Jack, separando-a do corpo.