The Hunter's Chronicles
6 Conto 2 - A Aura Suspeita
Notas iniciais
Quando Emily finalmente chegou ao local, repórteres e curiosos formavam uma volumosa barreira humana frente a entrada. Desceu do carro e atravessou a multidão a passos largos, empurrando não só as pessoas, mas também os microfones e celulares que eram apontados insistentemente contra sua boca. Quando chegou perto da faixa de isolamento mostrou seu distintivo e os agentes que faziam a proteção do perímetro introduziram-na no enorme edifício. Estava escuro e frio lá dentro, clima completamente oposto do que o de costume para aquele horário. Também não estava cheio como o de costume, embora as poucas pessoas presentes proporcionassem uma movimentação anormal.
O hall de entrada estava lotado de peritos e policiais, alguns bem armados. Os peritos estudavam detritos armazenados em sacos transparentes e analisavam fotos com ajuda de notebooks. Já os policiais emitiam ordens ou recebiam instruções por seus rádios ou celulares. Uma deles notou a presença de Emily e a chamou.
— Ah, até que enfim você chegou — disse Leon. — Não, estou falando com a Emily, espere um pouco — tirou o celular da orelha e apontou para o início da escada rolante — Tina está ali, estava te esperando.
Emily acenou para ele e se dirigiu na direção apontada. Avistou os cabelos louros de Tina que pendiam, amarrados em um longo rabo de cavalo. De braços cruzados ela conversava com um homem agachado, que examinava o corpo sob o lençol.
— E então, quem foi dessa vez? — perguntou Emily quando se aproximou.
— Lionel Benkins, era seu nome — respondeu Tina sem tirar os olhos do cadáver. — Um duas estrelas.
— Então as suspeitas estavam certas? É um serial killer de Hunter's?
— Serial killers tem como principal característica pegar algum tipo de lembrancinha da vítima, senhorita Emily — disse o homem abaixado. Sua voz jacosa era familiar. — Ou até mesmo deixar alguma. O que não tem sido nem um dos dois casos até momento. Está mais pra um Hunter de Hunter's — ele se levantou. — Deveriam ter te chamado mais cedo.
— Philip! — reconheceu ela. Havia sido seu parceiro no primeiro caso no qual ficara encarregada. — Juntos de novo, hã?
— Como nos velhos tempos! — ele sorriu, satisfeito por ela ter se lembrado.
— Deixem a festa de reencontro para quando acabarmos aqui — censurou Tina. — E então, o que descobriu?
— O mesmo dos outros dois: nada.
— Deixe-me vê-lo — Philip ergueu o fino lençol branco que fora colocado sob o cadáver, revelando um homem. Baixo e de meia idade. Os cabelos negros já haviam começado a embranquecer nas laterais e um óculos de lente trincada se empoleirava na ponta do nariz. — Ele estava exatamente nessa posição?
— Não — respondeu Philip — Disseram que ele caiu de bruços.
— Entendo — ela suspeitou que a rachadura na lente tivesse sido causada pela queda. Ao continuar a inspeção notou que a pele não perdera totalmente a cor, que o corpo ainda tinha algum calor e que a rigidez dos músculos não era significativa. Isso é bom, concluiu ela. Não está morto nem a uma hora. O ferimento que provavelmente o vitimara estava no ombro direito, um furo perfeitamente redondo causado por um projétil muito modesto. Foi só quando bateu os olhos no ferimento que percebera o real motivo de ter sido chamada. Não havia sangue.
Nenhuma gota, nenhum vestígio. Nem no chão, nem nas roupas do senhor Lionel. Emily nunca tinha visto uma cena de crime tão limpa. Olhou de novo o ferimento só para confirmar a real gravidade. Não chegara a atravessar o corpo, mas estava longe de ser superficial.
— O que eles disseram sobre o sangue? — perguntou com um gesto em direção aos peritos.
— Fizeram alguns exames, mas não acharam nada de anormal — Tina falou. — Não sabem dizer por que o sangue não sai, parece que ele coagulou de forma instantânea. Com os outros dois também foi assim.
— Na mesma região?
— Não. O furo do primeiro foi na barriga e do segundo no ombro esquerdo.
— Entendo.
— Tem alguma dúvida? — perguntou Philip ansioso.
— Não. Com certeza foi Nen.
O trio fitou o cadáver silenciosamente durante um tempo até que Philip falou novamente.
— Materializador?
— Eu apostaria nisso — concordou Emily. — Ou Emissor. Bem... — ela tirou os óculos. — Vamos descobrir.
Deixou aura escorrer por seu corpo e ativou seu Instinto Arcano. Uma onda de sensações caiu sobre ela. Primeiro viu todas as cores do arco-íris explodirem na sua mente, dando origem a centenas de outras com tons intensos e suaves. Em seguida os pêlos da nuca e dos braços se eriçarem e os lábios secarem. Depois sentiu gosto de sal, mel, cabelo, limão, café e pimenta. E Depois disso sentiu o cheiro de mar, de rosas, de cravo, de canela, de urina e de tomate.
— Emily, você está bem? — perguntou Philip quando Emily cambaleou levemente.
— Sim, só tinha me desacostumado a usá-la — se concentrou e pôde organizar melhor as sensações a sua volta. Focou sua atenção no cadáver e o sabor apimentado predominou. Saindo dele, viu duas finíssimas nuvens de fumaça, uma vermelho vivo e outra em um tom verde desbotado. — É um emissor — concluiu.
— Bom, agora já temos com o que trabalhar — comemorou Philip.
— Mas tem alguma coisa estranha.
— O quê?
— Por baixo da aura de emissão tem uma de manipulação.
— Não é do senhor Lionel?
— O senhor Lionel era um materializador — argumentou Tina.
— E quando a pessoa morre sua aura se apaga, não consigo detectá-la — reiterou Emily.
— Hm — Philip se pôs a refletir. — Não pode significar que foram dois assassinos então?
— Talvez, mas não faz sentido ela estar tão fraca.
— Vamos continuar trabalhando com a hipótese de que seja apenas um — declarou Tina. — Agora que Emily está aqui podemos achá-lo.
— Vai mandá-la sozinha? — perguntou Philip, um pouco incrédulo. — O cara já deu cabo de três Hunters profissionais!
— Não adianta destacar um grupo para persegui-lo — interviu Emily. — Parece ser um assassino experiente, vai estar atento a qualquer sinal suspeito.
— Eu sei, eu sei — disse Tina impaciente. — Quem vocês acham que eu sou? Alguma idiota? Não podemos prendê-lo sem comunicar a corte que se trata de um caso envolvendo Hunter's. Vou fazer o requerimento pessoalmente, Philip será minha testemunha. Só quero que você o localize para podermos agir rápido quando a ordem for assinada, mandarei apenas outro agente com você.
— Apenas dois continua sendo um pouco arriscado — observou Philip.
— Ele é da ESHLN — disse ela como se esclarecesse tudo. — Terá que buscá-lo, mandarei a localização dele.
— Primeiro você começa com um investigador que se formou em penúltimo na academia — disse Philip se referindo a ele mesmo. — E agora fará dupla com um agente da ESHLN? Admito que minha autoestima foi abalada.
Emily riu.
— Sabe que é o melhor parceiro que já tive.
— Tudo bem, tudo bem. Não precisa me consolar.
— Chega de gracinhas — interrompeu Tina. — Temos um assassino para pegar.
***
O velocímetro indicava aproximadamente 60 km/h. Emily dirigia de forma quase imprudente, avançando sinais e cortando carros. Via o rastro do suspeito cada vez mais distante, já não passando de um pequeno filete avermelhado que se comprimia mais e mais. Estava tentada a segui-lo e descobrir a identidade do infame assassino que já começava a fazer com que diversos Hunter's da cidade tivessem insônia. Mas tinha que buscar seu parceiro. Emily sabia que a ESHLN (Esquadrão Especial de Hunter's de Lista Negra) era uma organização criada secretamente pelo governo em conjunto com a associação Hunter para lidar com incidentes criminais que envolvessem uso de Nen. A ESHLN havia se mostrado extremamente eficiente, cuidaram de praticamente todos os casos que foram designados, eliminando ou prendendo criminosos e a perspectiva de trabalhar com um dos agentes a estava deixando ansiosa.
O endereço que Tina lhe deu era afastado do centro, onde casas modestas e antigas se avolumavam umas sobre a outras. As ruas eram pouco movimentadas, pouco iluminadas e simplesmente imundas. Emily nunca estivera daquele lado da cidade.
Assim que virou na rua de seu destino final, viu uma silhueta parada na esquina. Estava parado exatamente onde Tina disse que estaria: No final da calçada, em frente a um grande cartaz com os integrantes do Dir en Grey. Emily avançou com o carro e parou metros antes da figura. Esperou sua reação. A silhueta ficou completamente estática por mais de um minuto até que começou a se dirigir ao carro vagarosamente. Parou quando estava somente a uns 7 metros do carro e coçou a cabeça, olhando para os lados. Ficou nesse impasse por mais um minuto até finalmente voltar a andar. Emily colocou a mão dentro do casaco e envolveu a arma que descansava na cintura.
A figura deu dois toques no vidro, em seguida pressionou um distintivo prateado e uma licença hunter contra ele. Alex Alors, ela conseguiu ler. Abriu a porta.
Um jovem de mais ou menos vinte anos entrou por ela. Era esguio e não muito alto. Tinha cabelos cor de areia que caiam quase até o pescoço e mais alguns que saltava do queixo. Os enormes olhos castanhos eram marcados por profundas olheiras, que deixavam seu semblante ao mesmo tempo sério e despreocupado. Emily o achou estranhamento bonito.
— Agente Velinder, certo? — perguntou quando finalmente se sentou. Ele estendeu a mão.
— Pode me chamar de Emily — ela apertou.
— Também dispenso esse tipo de formalidades. Pode me chamar de Alex — ele bocejou. — E então, o que temos até agora?
— Tina não te informou? — quando Alex fez que não, ela esticou o braço até o banco traseiro e alcançou o tablet que continha suas anotações sobre o caso — É um assassino de Hunter's — ela entregou o tablet para ele e voltou a ligar o carro. — Temos que ser rápidos, ou perderemos o rastro dele.
— Ah, já conseguiram um meio de localizá-lo?
— Estou fazendo uso desse meio no exato momento — respondeu ela sem tirar os olhos da pista. Tinha que se concentrar na direção e em sustentar o Instinto Arcano.
— Hooo! — ele exclamou surpreso. — Você está usando o Gyo?
— Não, é minha habilidade mesmo. Com ela consigo ver, farejar ou até sentir o gosto de qualquer tipo de aura, mesmo sem o indivíduo liberá-la — ela voltou seu olhar para Alex e intensificou seu Hatsu. Emanando dele, pôde ver uma densa energia esverdeada.
— Posso dizer, por exemplo, que você pertence a classe da Manipulação. Estou certa?
Ele enrugou a testa em uma expressão surpresa.
— Pelo visto sua fama não é injustificada. Agora sei como conseguiu pegar o assassino do baralho em menos de 24 horas. Estou honrado em ser seu parceiro.
— Obrigada — ela enrubesceu um pouco. — Pena que ele fugiu.
— Como esse mata as vítimas?
— Com uma espécie de projétil, parece. Não sabemos ao certo ainda, mas todos os corpos tinham perfurações em formato circular.
— Ele não pode estar simplesmente usando o Shu? — sugeriu Alex.
— Pouco provável. A perícia não identificou nenhum tipo de resíduo anormal e os os furos são menores do que qualquer calibre conhecido deixaria.
— E ainda tem a questão do sangue, estou vendo agora — ele coçou a cabeça e voltou a colocar o tablet no banco traseiro. — Alguma arma feita de Nen então?
— É a hipótese mais viável até agora, ma... -
Um arrepio violento cortou Emily da cabeça aos pés, fazendo com que quase perdesse o controle do veículo. O pavor descomunal que se apoderou dela fazia com que suasse intensamente apesar do frio que sentia na espinha. Também fez seus longos cabelos negros se arrepiarem e sua cabeça latejar.
— O que houve? — perguntou Alex preocupado.
— A a-a-aura — ela tremia sem controle — C-consi-sigo sentir s-sua intenção as-s-s-s-s-sa-ssina. Ele vai atacar de novo.
— Vou avisar Tina! — disse ele levando o celular a orelha. Emily aproveitou para tentar se recompor. Estabilizou sua respiração aos poucos e fortaleceu o Ren. — Alô? Tina? Ele vai atacar agora!
— Já o localizaram? — perguntou ela. O viva-voz permitia que Emily ouvisse perfeitamente.
— Ainda não, estamos um pouco longe — respondeu Emily. — Mas parece que ele está na zona oeste — ela pensou um pouco. — Se eu tivesse que arriscar, diria que ele está no Bairro da Luz.
— Entendi. Mandarei uma equipe pra lá, já estou indo também. Vocês dois, tenham cuidado — e desligou.
Emily acelerou.
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