The Hunter

1 Capítulo 01 - Caça ao Lobo


Notas iniciais
E assim começamos a acompanhar a história de Edward.

Capítulo 01

Caça ao Lobo

Era uma noite fria e sombria na cidade de Moscou. Já havia mais de anos que estava longe de minha terra natal. Se é que eu possuía uma.

Nunca gostei de Londres, mas foi lá que eu nasci e fui criado. Foi lá onde eu tive minha infância feliz. Foi lá onde tive meus amigos, minha primeira – e única – namorada. Foi lá, também, que eu perdi tudo isso. Fui massacrado, torturado e... treinado.

* * *

Balancei minha cabeça encharcada pela chuva fina que caia naquela cidade gelada, tentando, inutilmente, afastar essas lembranças. Mas como inútil é inútil, tudo o que pude fazer foi prosseguir com elas; afinal de contas, tinha uma missão a cumprir. Para eles era uma missão... para mim, acabava sendo uma forma de diversão.

Olhei para a fachada do bar. Tinha aparência de ser um lugar requintado. Certamente não era um boteco qualquer. Sua entrada era uma bela fachada em tijolos aparentes. A grande porta de vidro na entrada estava fechada e, acima dela, um letreiro luminoso dizia algo que não compreendi. Russo não era meu forte.

Poderia ter chegado de táxi, mas preferi caminhar um pouco. Como poderia adivinhar que essa maldita chuva iria começar?

Antes de entrar, olhei-me na porta de vidro espelhada. Contemplei meus 185 centímetros de altura. Certamente não tenho um corpo muito musculoso, mas posso dizer que meus músculos são definidos.

Reparei em meus cabelos molhados. Esta é uma parte de mim que chama muita atenção. Eles são totalmente brancos; como os de um velho. Passei minha mão por eles, tentando arruma-los. Ficaram aparentáveis, mesmo bagunçados. Por fim, fitei meus próprios olhos verdes. Para mim, são eles que chamam tanto a atenção das mulheres.

Pude sentir que algumas pessoas estavam me observando do lado de dentro do recinto. Não as via, mas sentia que estavam fazendo isso. Resolvi entrar.

Abri a porta lentamente e fitei dois seguranças do sexo masculino e uma do sexo feminino. Todos de terno e blazer respectivamente. Como sempre, a primeira coisa que repararam foi em meu cabelo e, em seguida em meus olhos. A terceira coisa seria o sobretudo preto; sempre estou vestindo um, só variando o modelo. Por estar frio, esse fato não chamou realmente a atenção.

O mais alto dos três se aproximou para me revistar. Se o fizesse, encontraria duas pistolas desert eagle e uma kusarigama, armas que uso para caçar. No entanto, assim que ele se aproximou, mostrei-lhe um distintivo da Interpol – obviamente falso.

O segurança sorriu, sem graça e chamou o segundo homem, mas foi a mulher quem se aproximou para olhar o distintivo.

– Interpol – concluiu. – Será que podemos ajudar?

– Apenas me deixando entrar sem nenhuma restrição – respondi com meu fraco russo. Por sorte ela compreendeu.

– Rapazes, deixem-no passar.

– Se fosse você a me revistar, não me importaria – disse à ela.

A mulher sorriu e mexeu nos cabelos loiros, fazendo charme.

– Agora não posso, estou no trabalho – explicou, mas, em seguida, sussurrou em meu ouvido: — Quem sabe depois.

Devolvi-lhe o sorriso.

– Depois serei eu a estar trabalhando.

Fácil de mais. Mulheres assim nunca me interessaram; sempre gostei de desafio.

Aproximei-me do balcão e pedi uma bebida: Vodka com limão, a especialidade da casa. Enquanto sorvia lentamente a bebida – afinal, não poderia ficar bêbado – observava todo o ambiente. Em breve encontraria o que procurava.

Eu tinha razão. Nem quinze minutos depois de eu entrar um homem de meia idade apareceu. Ele olhava para os lados como se temesse algo. Sim, estava realmente assustado, percebi isso logo.

Virei o copo e sorvi o restante da bebida em apenas um gole. Ela desceu queimando em minha garganta, mas isso foi realmente bom para espantar o frio. Após isso, aproximei-me sorrateiramente do individuo para perguntar-lhe o nome.

– Igor Kruschov?

O homem se virou assustado e me observou da cabeça aos pés. Passado o susto, ele perguntou com seu forte sotaque russo:

– Edward Van Killen?

– O próprio.

– Quantos anos você tem? Esse seu cabelo parece ser o de um velho, mas você não deve passar dos trinta.

Nesse momento eu não aguentei e comecei a rir – algo raro de me ver fazendo.

– Tenho apenas vinte e sete anos. Não sei porque meu cabelo é assim.

Na verdade eu sabia bem o motivo, mas não valia a pena entrar nesses detalhes.

– Agora vamos tratar de negócios – disse tornando meu tom de voz novamente seco. – Quem de sua família foi atacado?

– Meu filho – ele começou a falar muito baixo. – Mas não sei exatamente o que o atacou. Você não poderia ter escolhido outro local para nos encontrarmos? – ele mudou de assunto de uma hora para outra.

– Lamento, não fui eu quem marcou o encontro. Apenas fui mandado para cá porque já estava resolvendo outro caso na Rússia.

– Seu chefe deveria perguntar antes de marcar essas coisas.

Nunca tive uma paciência muito grande e o frio excessivo estava me perturbando. Se não soubesse logo do que eu estava atrás e não tivesse um pouco de ação para me aquecer, logo minha paciência seria esgotada. Resolvi ir direto ao assunto.

– Quero que me conte exatamente o que aconteceu, enquanto me leva até o local.

Meu tom de voz certamente o assustou. Sendo assim, saímos do estabelecimento imediatamente e entramos em seu carro. Nesse meio tempo, o sujeito baixo e com uma protuberante barriga começou a me contar o que tinha ocorrido.

– Meu filho e eu estávamos caminhando pelos bosques próximos à minha fazenda. Ele tinha dezessete anos e nós sempre fazíamos isso.

Começou a contar em seu forte sotaque russo. As palavras que eu não compreendia eu podia deduzir pelo contexto.

– Nunca ficávamos depois do anoitecer, mas aquele dia nós paramos para conversar e acabou ficando tarde. Resolvemos voltar para casa e ele me disse ter visto um vulto. Não dei muita atenção, disse que era só sua imaginação.

Nesse momento ele começou a falar mais lentamente. Era incrível como certas pessoas conseguiam se emocionar apenas contando um fato ocorrido.

– Foi ai que... foi quando algo passou do nosso lado com grande velocidade e ele sumiu. Não entendo o que aconteceu. Só sei que continuei procurando por ele, mas só fui encontrar seu corpo no outro dia.

Agora aquele sujeito quase calvo tinha os olhos marejados de lagrimas. Se ele começasse a chorar, acho que minha paciência chegaria ao limite. Por sorte, ele se conteve.

– Achei o corpo dele mutilado e quase irreconhecível no meio do bosque. Chamei a polícia, mas eles não fazem ideia do que poderia ter feito isso. Foi então que alguém me ligou dizendo que você se encontraria comigo naquele bar.

Chegamos na porteira da fazenda e um empregado abriu-a para que entrássemos com o carro. Assim que chegamos até a cede, pedi para que ele me levasse até o local onde o corpo fora encontrado.

– Agora? À noite?

– Sim – respondi sem emoção alguma.

Meio que relutante, o homem pegou uma lanterna e nos embrenhamos na mata. Embora ele soubesse que minha intenção era ajudar, tenho certeza de que despertava muito medo nele.

O sujeito era lerdo, mas o local era próximo. Não levou mais do que meia hora para chegarmos a uma espécie de clareira. O local estava sendo bem iluminado pela lua e meus olhos, adaptados ao escuro, não tiveram dificuldades em ver o que havia em meu redor.

Além de muito sangue no chão e alguns pedaços do corpo, que os homens da polícia não haviam recolhido, as árvores estavam muito arranhadas. Já descobri de imediato com o que estava lidando, isso me fez sorrir.

– Deseja mesmo saber o que atacou seu filho?

– Sim.

Meu sorriso se alargou.

– Se eu contasse, teria que te matar.

Eu vi Igor tremer naquela hora. Por pouco ele não se borrou todo. Podia sentir o medo que ele emanava.

– Estou brincando.

– Seu senso de humor não é dos melhores.

Eu bem sabia disso. Humor negro e sarcasmo, os dois únicos que eu sabia fazer. Se fosse outra pessoa ali ao invés de mim, tenho certeza que Igor ficaria furioso.

– Agora, falando sério, esta será a última vez que nos veremos e é melhor que você não saiba o que se passou aqui.

Assim que disse essas palavras, desapareci na floresta seguindo a trilha deixada pela criatura. Uma trilha que, diga-se de passagem, era muito visível. A polícia tinha de ser muito amadora para não percebê-la.

Após certo tempo, percebi que dei a sorte grande naquela caçada. O idiota conseguiu perder um de seus documentos, que me possibilitaria descobrir a sua localização.

Resolvi voltar para o hotel e dormir um pouco, no dia seguinte iria terminar o serviço. Seria mais fácil localizá-lo por aquele documento que rastreá-lo pela cidade.

* * *

A internet realmente facilita a vida de um caçador. Foi através dela que consegui descobrir o nome e o endereço do meu alvo. Esperei anoitecer novamente para poder ter diversão.

Assim que a noite caiu, fui novamente para a zona rural de Moscou – muito próximo à fazenda de Igor, por sinal. Avistei um pequeno casebre de madeira por ali. Era aquele o local; confirmei com uma placa contendo o endereço.

Aproximei-me da casinha rústica. Era realmente pequena, algumas partes da madeira estavam rachadas e em outras já havia pequenos buracos. Era sorte de seu habitante não ter problemas com o frio, pois eu tinha.

Bati na porta de madeira, já muito surrada, e logo um rapaz de aparência muito desmazelada me atendeu. Ele era um pouco mais alto do que eu e um pouco mais forte também. Tinha os cabelos pretos até a altura dos ombros e muito embaraçados. Seus olhos me fitavam com avidez e seriedade.

– Senhor Yerik Blotski?

– Sim, sou eu – me respondeu com uma voz rouca.

– Tenho um assunto para resolver com o senhor, será que eu posso entrar?

– Resolveremos aqui mesmo – ele falava tão baixo que eu não conseguia entender tudo o que dizia; é claro que minha dificuldade com russo também atrapalhava.

– Creio que isto seja seu – ofereci-lhe o próprio documento de identidade.

Nesse momento, ele imitiu um som mais parecido com um rosnado que com uma palavra.

– Gostaria de confirmar se você é mesmo o que eu procuro antes de matá-lo.

Eu iria começar a irritá-lo para que ele se revelasse, mas percebi que ele era muito jovem e não tinha muito controle. Começou a se transformar.

Sua blusa foi a primeira a se rasgar, ele praticamente dobrou de tamanho muito rápido. Os pelos começaram a tomar conta do corpo e garras se desenvolveram em suas mãos enquanto sua boca e seu nariz se transformaram em um longo focinho. O restante das roupas se rasgaram e eu pude ver uma enorme forma de lobo-homem em minha frente.

Nesse meio tempo, saquei com calma uma de minhas pistolas desert eagle e apontei-a para a cabeça dele.

– Ora, ora, senhor lycan, percebe-se que é muito jovem e inexperiente. Além de deixar muitos rastros ainda teve a ousadia de se transformar na frente de um inimigo. Não vou atirar agora. Senão, qual será a graça dessa caçada?

Guardei a arma de volta na cintura lentamente. Neste momento ele me atacou. Tentou me cortar com as garras, mas não conseguiu; fui mais rápido e me esquivei.

Tentou novas investidas e eu continuei me esquivando. Isso o deixava cada vez mais irritado e eu me sentia cada vez melhor por isso.

Por fim, achei que estava na hora de parar com as brincadeiras. Aquele adversário não tinha valido a pena nem a procura. Segurei um de seus braços em sua investida e usei-o de impulso para atingi-lo no rosto com meus dois pés. Ele cambaleou para trás e quase caiu. Continuei a me esquivar e golpeá-lo. Sabia que meus golpes não surtiam muito efeito, era evidente que sua força era muito maior que a minha.

Quando cansei de brincar – desta vez, enjoei mesmo – decidi acabar com a luta. Peguei uma das pequenas foices da kusarigama e arremessei-a do lado esquerdo de seu pescoço. A corrente presa no cabo se enrolou nele e deu uma volta. Segurando a outra foice, presa na outra extremidade da corrente, saltei para trás dele, enquanto ele se sentia desnorteado.

Com as duas foices novamente nas mãos e a corrente enrolada em seu pescoço, usei toda minha força e um impulso em suas costas para puxar. Pude ouvir o som agudo de algo estralando e quebrando. O corpo daquela criatura caiu no chão agonizando com o pescoço quebrado.

Soltei minha kusarigama lentamente e a guardei novamente. Logo após ele morreu. Uma morte limpa e rápida, do jeito que eu gosto.

Já estava se tornando humano novamente. Provavelmente quando as autoridades encontrassem o corpo – presumindo-se sempre que eles encontrariam – iriam investigar o que ele estava fazendo fora de casa nu e como havia quebrado o pescoço.

* * *

Uma hora depois, eu estava tomando um banho. Não tinha nem suado naquela luta – isso graças ao frio intenso – mas lutar com essas criaturas sempre fazia com que eu me sentisse sujo. Assim que sai do banheiro, meu celular tocou. Fiquei realmente feliz em saber quem era quando consultei o identificador de chamadas.

– Alô, Natenska, você tem informações novas para mim?

– Certamente que sim, Edward, mas você sabe o que eu quero em troca.

Eu sorri ao ouvi-la dizer aquilo.

– Eu sei bem o que você quer. E terei prazer em lhe pagar. Onde você está?

– Se importaria de vir até a Polônia?

– Tudo pra sair desse lugar gelado.

– Então até mais, estou ansiosa para lhe passar a informação.

Desliguei o telefone e aguardei uma mensagens com mais detalhes. Logo de manhã teria de ir ao aeroporto e pegar um avião até a Polônia. Esperava que daquela vez fossem informações realmente concretas do que eu procurava.

Notas finais
E o que acharam do primeiro capítulo?