The Horror of Our Love
8 I wish I had your angel, your Virgin Mary undone
Notas iniciais
***
— “Naraku, você gosta de poesia, não gosta?” — indagava Kagome, no sonho que seria o último manipulado pelo hanyou araneídeo. Os dois estavam juntos agora diante do mar, observando o nascer do sol.
No mundo real, ele estivera a par do último encontro de Kikyou e Inuyasha. O youki de Naraku se descontrolou quando viu sua amada totalmente nua, com aquela expressão faminta nos olhos castanhos que ele adorava, direcionando sua recém-descoberta sensualidade para outro.
Lágrimas de ódio macularam o rosto do hanyou enquanto ele, sem notar o que fazia, incendiou o castelo com sua energia diabólica. Contudo, o instinto básico de sobrevivência o fez criar uma barreira ao seu redor. Naraku permaneceu sentado, imóvel, como que chocado demais até para procurar outro local para ficar.
Kagura, assustada, pegou Kanna e saltou para dentro de sua pena voadora com a pequena, que não entendia o perigo que corria ao estar próxima de seu mestre insano. Fora ela a mostrar ao hanyou a cena do outro casal com seu espelho. O fogo se alastrou rapidamente pela propriedade.
— Naraku está lá dentro... — murmurou a criança. — Ele deve estar precisando de nós, Kagura.
— Não mesmo! Ele está vivo sim, posso sentir. Eu que não volto lá... Desgraçado... Poderíamos ter morrido! O que aconteceu, Kanna? Você estava mostrando algo a ele no espelho, não estava?
— Ele me pediu para que lhe mostrasse Kikyou.
— De novo? E o que ela estava fazendo?
— Ela e Inuyasha estavam nus e iam se abraçar — respondeu Kanna, ingenuamente. — Não entendi nada. Quando vi, Naraku estava chorando e as chamas apareceram ao nosso redor. Foi quando você me tirou do quarto dele.
Kagura enrubesceu ao ouvir o tal relato. Então seu mestre tinha sentimentos por aquela humana morta? Tudo parecia muito confuso para a youkai.
E, no meio das chamas, Naraku continuava quieto, os olhos doridos e irritados pela claridade excessiva do fogo.
Ele apenas queria o amor de Kikyou, mas, a cada dia que passava, seu sonho parecia ainda mais inatingível. A agonia da perda e do ciúme o dilacerava; pensou em retirar a barreira de sobre si e se deixar queimar até a morte. Mas ainda assim seu corpo se regeneraria e ele não ficaria livre. O hanyou gritou como uma fera, ocasionando uma explosão que estilhaçou o pouco do castelo que ainda estava inteiro.
— KIKYOOOOOOOU!
E Naraku desferia socos no chão.
— EU... TE... ODEIO! POR SUA CAUSA ESTOU AGONIZANDO! NÃO PASSO DE UM INÚTIL! UM HUMANO FRACO! TUDO POR AMAR VOCÊ, SUA... PUUUUTA!
As mãos alvas se quebraram durante aquele momento de desespero.
— MALDITA SEJA! CADA MINUTO SEM VOCÊ É UM INFERNO! MALDITAAA! QUERO QUE VOCÊ MORRA!!!
Brados coléricos, maldições e blasfêmias foram atiradas ao céu, até que o hanyou ficasse totalmente afônico. Alguns escombros caíram sobre ele, sendo incinerados no mesmo instante em que o tocavam.
O fogo cessou. E Naraku, já bem fraco por sua condição emocional, perdeu os sentidos. Imediatamente sua alma despertou dentro de Kagome.
Estavam diante da praia mais linda do país. Desta vez, ele trajava suas vestes de daimyō rico e contemplava a imensidão do oceano com seus olhos tristonhos. Não estava ali para manipular Kagome. Só queria escapar um pouco de sua realidade desagradável.
Os lábios da mocinha se moviam; ela lhe dizia algo, mas ele quase não conseguia prestar atenção. Tudo em Naraku era desorientação e desordem. Foi quando sentiu a jovem aconchegando-se a ele, delicada e afável. Estava sendo abraçado e sentiu que ela lhe sorria.
— “Você me perguntou o que mesmo?” — indagou Naraku, procurando ser educado e ouvir sua interlocutora.
— “Se você gosta de poesia.”
— “Adoro poesias. Por que, vai me dar um livro de presente?”
— “Vou... É usado, está na minha escrivaninha. Mas sempre achei que ele combinava com você, não sei por que...”
O hanyou forçou um sorriso. Uma lufada de ar fresco os envolveu.
— “Conte-me mais sobre esse tal livro que você acha que combina comigo, Kagome. Tagore, não é esse o nome do escritor?”
— “Sim. É do Rabindranath Tagore, um indiano que viveu no século XIX. Até decorei um trecho de um poema dele quando fizemos um trabalho na escola. O poema se chama À Espera do Amado Desconhecido.”
— “Quero ouvir, estou curioso.”
Kagome fez uma breve pausa antes de declamar:
Quem é esta mulher, a sempre triste,
Que vive no meu coração?
Quis conquistá-la mas não consegui.
Adornei-a com grinaldas e cantei em seu louvor...
Por um momento bailou o sorriso no seu rosto,
Mas logo se desvaneceu.
E disse-me cheia de pena:
— A minha alegria não está em ti.
Comprei-lhe argolas preciosas, abanei-a com leques recamados de...
Um soluço interrompeu a prédica de Kagome, cujos olhos se arregalaram ao ver o demônio aracnídeo chorar alto ao seu lado. Naraku abraçou os próprios joelhos e não conseguiu reprimir o amargor que seu espírito sentia. A mocinha levou a mão ao peito, condoída. Ela sabia o que era amar e ser rejeitada, mas intuiu que a intensidade do sentimento do hanyou deveria ser um tanto maior do que o seu, justo por ser mais antigo.
— “E-eu não aguento m-mais...” — ululou o desesperançado demônio. — “S-se ela não tivesse m-me tocado... Se ela não me p-permitisse conhecer seu c-corpo...”
— “Naraku...” — começou a dizer Kagome, baixinho. — “Eu... Sinto muito.”
— “Ela BRINCOU comigo! O tempo t-todo... Kikyou... P-por quê?!”
Sem que percebesse, a colegial se viu atraída para o corpo soluçante de Naraku e o envolveu em seus braços, vendo com assombro que ele estendia a palma da mão e exibia, faiscante e bela, a Joia de Quatro Almas quase completa. Num ímpeto de ira, o hanyou comprimiu o artefato nas mãos, que de imediato enegreceu. Kagome chegou a abrir os lábios para respirar melhor o ar, que se tornou agourento e sobrecarregado.
— “Se v-você cumpre o desejo de seu dono, por q-que não me deu até hoje o coração d-dela?” — e, revoltado, atirou a Joia no mar.
Então tudo ficou escuro e o hanyou se sentiu acalorado. Abrindo os olhos, viu que estava em meio aos escombros do castelo, que ainda continha um ou outro foco de incêndio; suas mãos estavam ainda se regenerando.
Trêmulo, ele se colocou de joelhos e abraçou o próprio corpo, espantado com o que fizera. Aquilo não estava nada bem — seu amor e sua loucura pela sacerdotisa Kikyou o arruinariam. Agastado, Naraku respirou fundo, inúmeras vezes, para recobrar o controle de suas emoções. Nem tudo estava perdido, afinal ele ainda detinha os poderes da Joia, que estava bem segura guardada em seu ombro. Seus inimigos ainda não conheciam a vastidão de seus poderes. E, para completar, tinha um trunfo chamado Kagome.
Pelo que ele pudera notar, a jovem estava quase que totalmente possuída por ele. Quando ela retornasse à era feudal e estivesse por perto, ele a subjugaria por completo e fá-la-ia atacar o maldito hanyou cão que pusera as mãos no corpo da mulher que ele, Naraku, amava.
Sacudindo o pó de sobre suas roupas, o aracnídeo se levantou devagar e se deixou envolver por uma barreira. Concentrando-se, começou a chamar por Kagome. Ela não iria resistir ao apelo do seu “amigo confidente”...
***
Inuyasha, com o coração a mil, saía pelo Poço Come-Ossos e se foi, aos pulos, para a casa de Kagome. Estava mais do que angustiado; precisava daquela menina para acalmá-lo, para fazê-lo se sentir seguro. Por sorte, seu olfato apurado percebeu o aroma juvenil da colegial, que estava abrindo a porta da cozinha.
— Kagome... — murmurou ele, logo começando a bradar com prazer o nome da jovem que ele sabia amá-lo incondicionalmente. O hanyou chegara a se arrepiar ao vislumbrar a silhueta de Kagome. — Kagome, KAGOME! Eu... Vim te ver...
A voz do seu querido Inuyasha fez com que ela paralisasse ali, com a mão na maçaneta. Ela então se virou e o viu, com seus olhos âmbares brilhantes e ansiosos, entregue, encarando-a como se fosse a última vez. Foi aí que algo estranho aconteceu — um ódio súbito e incontrolável subiu ao íntimo da alma de Kagome, que, sem se mover, disse secamente:
— Osuwari.
Inuyasha foi atirado contra o chão cimentado. Meio atordoado com a pancada, ele se pôs de pé novamente. Ficou assombrado quando viu o estado da face de sua querida: Kagome estava visivelmente mais magra, com olheiras, lábios ressequidos e ligeiramente trêmula. Parecia uma velha adoentada. Não a sua sacerdotisa cheia de vida e luz no olhar.
— Kagome... Eu...
— Osuwari.
— Por favor, deixe-me fal-
— Osuwari — e dessa maneira ela foi andando meio claudicante para o Poço, dizendo “Osuwari” o tempo inteiro e impedindo o hanyou de acompanhá-la.
Enfim, Kagome chegou ao Poço. Seu corpo inteiro doía e ela estava assustada: por que tinha feito Inuyasha “sentar” tantas vezes? Isso poderia machucá-lo. Contudo, não era com ele que ela se preocupava no momento. Kagome queria desesperadamente estar com Naraku. Ele a acolheria em seus braços fortes e ouviria seus sentimentos mais íntimos, deixando-a se expressar livremente. Ele era mau, ela o sabia, mas era um ouvinte maravilhoso.
Na mochila, ia também o livro do poeta Tagore.
***
Kikyou andava com seus insetos, a cabeça dando mil voltas, quando ouviu um súbito choro de criança e pressentiu um youki poderosíssimo por ali. Meio aborrecida, a jovem intentou andar mais depressa para continuar sozinha quando os soluços pareciam ter aumentado. Atenta, Kikyou resolveu parar e, levando os dedos indicador e médio em riste para cima, concentrou-se e evocou seu poder. Aquela energia sinistra era absurdamente envolvente. Estava a alguns metros para dentro da floresta. Decidida, a sacerdotisa rumou para lá.
Qual não foi sua surpresa ao se deparar, repentinamente, com uma espada vibrante de youki maligno apontando para seu pescoço. À sua direita, o proprietário daquela arma, que a encarava de maneira homicida: longos cabelos prateados e olhos âmbares muito familiares, trajes nobres de um guerreiro, uma meia-lua em sua testa e marcas youkais nas laterais do rosto pálido. Um daiyoukai chamado Sesshoumaru.
Ela nunca o havia visto de perto, mas descobriu no mesmo instante de quem se tratava. Então, relaxou os ombros tensos e indagou sem temor:
— Pode me deixar passar? Ouço uma criança chorando.
— Você está impregnada com o cheiro do maldito Inuyasha. É a miko humana dele — retrucou ele acusatoriamente de volta. Kikyou titubeou, macambúzia. Doía muito lembrar-se do fracasso que vivera ao lado de seu querido momentos atrás.
— Sou uma miko humana, sim, e estive com Inuyasha... Agora, a criança...
— A criança está sob meu cuidado — afirmou Sesshoumaru, sem desfazer sua postura ameaçadora. — Não me lembro de ter solicitado sua presença aqui.
— Sesshoumaru-sama! — esganiçou-se um youkai verde, que saíra de trás de uma das diversas árvores. — Sesshoumaru-sama, Rin está piorando e... — ele franziu o cenho. — Oh, uma humana?
— Cale-se — interrompeu-o o daiyoukai, sem tirar os olhos de Kikyou. — Eu, Sesshoumaru, deixei você lá para cuidar dela, Jaken. Como ousa se ausentar?
— M-mas... — gaguejou o pequeno, assustado e servil. — S-Sesshoumaru-sama, ela...
— Ela está sendo incomodada por um espírito.
A interrupção de Kikyou levou os dois youkais a franzirem o cenho. Ainda com a ponta de sua espada Toukijin apontada para o pescoço da moça, Sesshoumaru indagou:
— Disse que ela está sendo incomodada por um espírito?
— Eu sinto — confirmou a sacerdotisa, serena. — Um espírito que não encontrou paz, possivelmente por ter sido de alguém que morreu assassinado numa dessas guerras que acontecem nesse país.
— Ei, sua miko humana, como ousa se dirigir a Sesshoumaru-sama desta forma tão informal e inconveniente e... — ia dizendo Jaken, quando um olhar de seu mestre o fez calar-se de imediato.
Sesshoumaru encarou profundamente Kikyou, ponderando se o que ela dizia fazia sentido. Resolveu confiar nela; afinal, Rin, a humana de sete anos que ele acolhera como sua tutelada, estava com um choro estranho e ininterrupto desde a noite anterior. Talvez uma miko como Kikyou, de quem ele já tinha ouvido falar como sendo uma mulher bastante poderosa para uma humana, pudesse fazer pela pequenina o que ele, até o momento, não conseguira fazer. Toukijin foi abaixada e embainhada. E o daiyoukai afastou-se, sabendo que seria seguido.
Sentada sobre uma raiz de figueira, estava a criança soluçante. Junto a ela, um espírito de outra menina, agarrado ao pequeno corpo, que olhou assustada para a sacerdotisa. Sesshoumaru as observava atentamente: como aquele espírito era humano e não um enviado do mundo dos mortos, o daiyoukai não o via, apesar de notar que havia mais alguém por ali. Com tranquilidade, Kikyou se ajoelhou do lado de Rin e afagou sua cabeça.
— Por que chora, minha linda?
— É p-porque Yué n-não tem mais a casinha dela... Nem o cachorro... Ela está s-sozinha... Não encontra a irmã d-dela em lugar nenhum...
— Oh... E onde está Yué? Eu quero vê-la — perguntou a jovem, de olho no espírito ali ao lado. A outra garotinha tinha cabelos curtos e uma ferida feia no abdômen, o que possivelmente lhe causara a morte. Ainda com olhos enormes de medo, o espírito da criança murmurou:
— Miko-dono... Eu não sei o que aconteceu. Eu estava no quintal da minha casa brincando com um cachorro que tinha aparecido lá quando ouvi minha aneue¹ Mei gritando... Ela apareceu de repente mandando eu fugir, quando um soldado veio e acertou uma flecha nela.
A menininha vacilou por alguns instantes e seus olhos se encheram de lágrimas.
— Aí ela caiu e o soldado começou a correr atrás de mim... O cachorro escapou dos meus braços e eu ainda estava chamando ele para voltar quando senti uma dor enorme nas costas. Aí eu levantei do chão e fui perguntar à Mei se ela não tinha visto para onde foi o cachorro, mas ela continuou caída no chão e não me respondia... Saí de lá, os soldados queimaram o vilarejo e... Tenho medo de eles pegaram o meu cachorro... E Mei já deve ter acordado, ela deve estar preocupada comigo...
Rin continuava a chorar inconsolavelmente. A dor daquela pequena era muito semelhante à sua, quando perdera toda a sua família e fora acuada pelos lobos. Sesshoumaru e Jaken permaneciam quietos e atentos ao que acontecia ali; por sua vez, Kikyou suspirava fundo, sentindo uma mão invisível lhe comprimir a garganta. Ela já havia se deparado com outras situações tristes, mas o mundo de agora parecia ainda mais violento do que o de cinquenta anos atrás. A pobre Yué não percebera que estava morta, assim como sua irmã.
Aquela era a hora em que a sacerdotisa, mais uma vez, guardaria sua dor no bolso para curar a dor alheia. Buscando se manter serena, Kikyou indagou ao espírito:
— Yué, você quer ajuda?
— A senhora sabe onde está minha aneue e o meu cachorro?
— Posso te mostrar o caminho certo para encontrá-los... — e Kikyou convidou Rin para sentar-se em seu colo, sabendo que a outra criança a acompanharia. Dito e feito. — Seu nome é Rin, não é?
— S-sim, miko-dono.
— Meu nome é Kikyou — disse a jovem, num tom meigo. — Meu bem, eu só posso ajudar Yué se você colaborar. Ela confia muito em você, então diga a ela que pode seguir em frente.
Sesshoumaru, de onde estava, arqueou a sobrancelha. O que ela estaria querendo dizer com aquilo?
— Não entendi, Kikyou-sama.
— Sua amiguinha só vai conseguir encontrar o caminho para a luz se você parar de ficar triste. Ou seja, quando você deixar seu coraçãozinho se encher de alegria por saber que falta pouco para ela rever sua irmã e seu cachorrinho, entende?
Rin olhou em silêncio para Kikyou e, após breve reflexão, fez um bico, enquanto as lágrimas tornaram a descer por sua face pálida. De imediato, Yué se encolheu, parecendo perdida e se aproximando ainda mais da pequena protegida de Sesshoumaru.
— Kikyou-sama, n-não dá. Eu não consigo p-parar de ficar triste. Também foi um soldado q-que matou a mamãe, o papai e meu irmãozinho Chang...
— Oh... — por aquilo Kikyou não esperava. — Entendo. Mas você já parou para pensar que, a cada vez que você chora, sua família fica muito triste também? Eles não querem te ver sofrendo, Rin.
— M-mas como eu vou conseguir parar de ficar triste?
— É só lembrar que agora você tem alguém que cuida tão bem de você como eles cuidaram... E esse alguém também não quer vê-la chorando — respondeu ela, olhando para Sesshoumaru. A pequena o encarou também, levando o daiyoukai a piscar duas vezes e ficar muito sério, esquadrinhando a alma da criança com seus olhos gélidos e perscrutadores.
“Essa mulher humana é estranha, mas ela soube fazer pela Rin o que eu, Sesshoumaru, não havia conseguido fazer...”
A pequena moreninha fungou umas últimas vezes e enxugou os olhinhos. Olhou para Yué e sorriu; sua tristeza não havia de fato passado, mas agora ela se sentia mais leve. O espírito a olhou de volta, um tanto ressabiado.
— Vai ficar tudo bem, Yué — afirmou Rin, com sua singeleza de criança. — Kikyou-sama vai te mostrar como fazer para chegar até onde sua irmã Mei e o cachorrinho estão.
— Certeza, Rin?
— Certeza.
Sesshoumaru e Jaken franziram o cenho ao ver a estranha cena da pequena Rin estender as mãos, parecendo segurar o nada. Kikyou sorriu quando Yué envolveu as mãos da menina nas suas e a contemplou.
— Então eu vou, Rin. Depois eu volto para a gente brincar.
— Isso! Venha e traga o seu cachorro.
O espírito sorriu; seu olhar agora era mais vibrante. A sacerdotisa estendeu a mão para Yué.
— E agora, Kikyou-sama? A senhora vai me levar?
— Vou te mostrar o caminho, Yué. Está vendo... — ela apontou o dedo para cima. — Aquela pequena luz?
— Estou...
— Onde, Kikyou-sama? Eu não vejo nada — indagou Rin, olhando fixamente para o alto e colocando a mão espalmada sobre os olhos.
— É um caminho que só Yué pode ver, meu bem. Agora... Yué, querida, está vendo algo mais?
— Não sei, não dá para ver quem está... Ei... É minha aneue! — e a garotinha desencarnada chegou a dar um pulinho. — Estou vendo! Estou vendo!
Kikyou se pôs de pé com Rin.
— O que está esperando? Vá, ela deve estar com saudades de você.
Yué segurou a mão de Rin pela última vez e, com um largo sorriso, deu uns passinhos para frente, ao passo que seu corpo pareceu se desvanecer. Ela olhou para trás e acenou alegremente com a mão:
— Depois eu volto, Rin! Obrigada, Kikyou-sama, Mei está na luz e o cachorro também... Eu... — a vozinha foi desaparecendo no ar e Rin arregalou os olhos. — Rin... Eu volto...
Yué se foi. Rin estava meio confusa, mas foi notória a sua melhora aos olhos dos dois youkais e de Kikyou, que correu a enxugar uma lágrima perdida que lhe escapulira.
— Kikyou-sama, para onde ela foi? — perguntou a menina. — Eu vou sentir saudades dela.
— Foi para a luz, meu bem. Não se preocupe, ela está muito bem agora. Agora, prometa para mim que não irá deixar seu coraçãozinho ficar triste daquele jeito de novo, certo?
— Mas por quê?
— A cada vez que você fica muito triste quando lembra da sua família que se foi, as almas de crianças como Yué ficam tristes e perdidas também. Pense nisso. Sua alegria contagia os vivos e, por que não dizer, os mortos também.
— Então isso foi um exorcismo? — interveio Sesshoumaru, depois de um tempo.
— Foi — respondeu Kikyou, agora se inclinando para abraçar Rin. — Preciso ir.
— Não, Kikyou-sama, fique conosco — ia chamando a moreninha. Porém a jovem sacerdotisa declinou do convite com um sorriso franco e um beijo na testa de Rin.
— Não, meu bem. Eu preciso resolver muitas coisas.
— Vai ajudar outras pessoas?
— É... Vou, sim... Esta é a minha missão — disse Kikyou, a princípio vacilante mas depois resoluta. Afinal, ela ainda era uma sacerdotisa. Socorrer os outros era uma atividade que se lhe impregnara no caráter; ela não conseguia simplesmente ser egoísta e negar auxílio ao próximo. Então, a jovem encarou Sesshoumaru e se despediu dele com um gesto de cabeça, que não fora correspondido, e deu as costas para todos.
Atrás de si, o daiyoukai começou a andar para a direção oposta. Surpreendendo, porém, Jaken, ele pegou Rin com seu único braço e saiu voando com ela, que agarrou-se com força em seu pescoço. O youkai verde correu o quanto pôde até alcançar a estola de seu mestre, que voava cada vez mais depressa em direção ao sul.
***
“Naraku... Onde posso encontrá-lo? Acho que estou ficando louca. Por que mesmo estou procurando por ele? Ah... Ele é bom, vai me dar um abraço, um conselho... O quê? Nunca! Ele é mau... Que droga... Eu... Me sinto tão confusa...”
Totalmente desorientada, Kagome Higurashi andava devagar pela floresta. Era noite; ela estava fraca e sentindo um cansaço terrível e despropositado. Além do peso enorme que lhe ia na alma por ter ficado tanto tempo em contato com as trevas do coração do perverso hanyou araneídeo.
A muitos metros dali, Sango cuidava de Kirara, sentada de frente para o monge Miroku, que a fazia corar com seu olhar penetrante. Era estranho como ele se sentia sempre diferente em presença da exterminadora; se tivesse oportunidade, manter-se-ia próximo de Sango o tempo inteiro. Mais do que uma oportunidade para boliná-la, Miroku aguardava ansiosamente pelos sorrisos dela, que infelizmente sorria muito pouco.
Foi quando um saimyousho cortou o ar sobre o casal, voando veloz em direção à floresta de Inuyasha. Os dois se puseram de pé no mesmo segundo, alertas. Kirara rosnou, transformando-se.
— Naraku está por perto, houshi-sama — afirmou Sango, rapidamente montando no lombo da neko youkai. — Vem, precisamos ir atrás dele!
— Pelo menos Kagome-sama está segura... E Inuyasha deve estar com ela, eu acho — ecoou Miroku, preocupado, sentando-se com a jovem.
***
Diante da Goshinboku, o hanyou Naraku e seus insetos se acomodaram dentro de uma barreira enquanto ele aguardada com certa ansiedade a chegada de Kagome. Propositadamente, o moreno, oculto pela pele de babuíno, atraíra a atenção de Miroku e Sango, como também a de Sesshoumaru. Ele ainda não percebera a presença de Inuyasha por ali, mas sabia que ele não estaria assim tão longe.
Os olhos vermelhos se estreitaram enquanto ele dava um sorriso mínimo, carregado de malignidade e sarcasmo. Ali ele, Naraku, enfim teria o prazer de ver as caras angustiadas daquele grupo quando todos presenciassem a possessão completa da colegial. O local era estratégico: pouco ou nenhum movimento de humanos e uma clareira de formato quase oval davam à região uma aparência de local propício para espetáculos. E ele adoraria se exibir para uma pessoa em especial.
Kikyou.
Para isso, Naraku estava preparado — vestido apenas com a pele de babuíno, ele se banhara muito bem uma hora antes de ir até a floresta, lavando também seus cabelos imensos e retirando deles todo o cheiro de fumaça. Sua pele havia sido cuidadosamente esfregada com óleo de madeira de aloés, que, ao impregnar-se naquele corpo, deu-lhe um aroma cativante e refinado, que era ao mesmo tempo bruto, apimentado e elegante. O demônio estava pronto para seduzir e capturar Kagome, de preferência quando Kikyou estivesse presente para contemplá-los.
Olhando sob o crânio do babuíno, Naraku sorriu ao avistar a silhueta de Kirara com o casal, que saltou do lombo da youkai e se pôs em posição de batalha. Para o araneídeo, era até divertido ver o quanto Miroku e Sango eram sentimentalmente transparentes — no momento, ambos compartilhavam de um misto de raiva pelo hanyou, medo, necessidade de proteger um ao outro. Sereno como sempre, o moreno voltou o rosto na direção dos dois jovens humanos.
— Taijiya, houshi — saudou-os. — Sinto falta do resto do grupo de vocês. Onde estão Inuyasha e Kagome? Poderíamos ter uma conversa agradável aqui.
— Maldito Naraku! — e Sango atirou o Hiraikotsu contra ele, que o repeliu sem se mover do lugar. A arma voadora voltou impetuosamente contra sua dona e ela quase foi atingida. Miroku, furioso, rilhou os dentes, ora encarando o hanyou, ora olhando para os inúmeros insetos que o impediam de tentar sugar Naraku com sua Kazaana.
— Qual é o seu problema, Miroku? — indagou suavemente o hanyou, ainda sentado sobre uma raiz. — Oh. Não precisa dizer. Você está aflito ao extremo, não sabe onde Inuyasha e Kagome estão. Por que teme? Está imaginando que eu saiba do paradeiro deles, não é verdade?
— Pare com os joguinhos, seu bastardo! — retrucou o jovem monge. Contudo, o outro apenas riu, aproveitando para retirar o crânio do babuíno de sobre a cabeça e expor seu rosto, duro e sarcástico, em nada parecido com a face desesperada e surtada de horas atrás, quando ele explodira de ciúmes e dor por Kikyou e incendiara o castelo.
Para total agonia de Miroku e Sango, Naraku acabara de virar a cabeça para o outro lado, fazendo-se satisfeito.
Kagome havia chegado e, ao avistar o hanyou, sua mente se tornou quase que totalmente embotada. Sua boca frouxa deu um arremedo de sorriso, enquanto ela procurou andar mais rápido para alcançar o araneídeo que olhava diretamente para seus olhos azuis agora estranhamente parados.
— Na...ra...ku — balbuciava ela, caminhando sem parar para Naraku, que estendera suas mãos de forma amistosa.
— Kagome-sama, NÃO! — gritou Miroku, percebendo enfim que a jovem aprendiz de sacerdotisa estava sendo controlada. Sango se desesperou, partindo em desabalada carreira até a amiga, mas a barreira do hanyou era mais forte e a repeliu fortemente. — Sango! Ela está fora de si!
— Kami-sama! Kagome-chan! Saia de perto dele! — berrou a exterminadora. — SAIA DE PERTO DESSE MALDITO!
Era aterrorizante ver o quanto a mocinha havia definhado durante aqueles cinco dias fora. O pior, entretanto, era vê-la sorrir como uma tola para o demônio que, agora, tinha uma expressão gentil e sensual, atraindo-a para mais e mais perto.
Nesse ínterim, Inuyasha acabava de assomar ao local. Seus olhos se esbugalharam ao ver a doce Kagome indo ‘voluntariamente’ até seu arqui-inimigo que, para horror de Sango, abrira a veste de babuíno e exibiu sua nudez da cintura para cima, estendendo os braços. A jovem enfim se achegava ao hanyou, que lhe disse com mansidão e candura:
— Kagome. Senti a sua falta.
Inuyasha começou a gritar e saltou em direção aos dois, brandindo a Tessaiga. Acertava-a inúmeras vezes contra a barreira, mas não conseguia parti-la.
— KAGOME, VOCÊ FICOU MALUCA?! SAIA JÁ DE PERTO DELE! NARAKU, SEU FILHO DA PUTA! EU VOU TE M-
— Eu também senti a sua falta... — respondeu Kagome, num tom de voz baixo, mas audível para todos os presentes. O hanyou cão chegou a sentir ânsia de vômito. Aquilo não fazia sentido! Não tinha lógica e... Era totalmente ERRADO! Kagome lhe pertencia!
Todavia...
— Vem — chamava o araneídeo, sedutor, embotando mais os sentidos da colegial, que já não discernia mais o real do ilusório. — Vem... Kagome... Vem. Eu preciso tanto de você...
— KAGOOOOOOOMEEEEEEEEEE! — urrava Inuyasha, investindo contra a barreira com toda a força que possuía. Naraku, por sua vez, estremeceu de contentamento nefasto.
Kikyou estava já na floresta. Era possível sentir seu cheiro; ela vinha apressadamente. Aquele era o momento — ele iria esfregar na cara daquela sacerdotisa que estava disposto a TUDO para esquecê-la. Inclusive tomar para si o objeto de desejo de Inuyasha diante dos seus olhos.
Restava uma única frase a ser dita.
— Sou todo ouvidos, querida Kagome. Conte-me como foi o seu dia...
Kikyou corria pelo matagal, ofegante. Vinha o mais depressa possível, assim que notara o movimento estranho perto da floresta de Inuyasha e sentira a presença inconfundível do araneídeo, que possuía uma energia sinistra peculiar devido à presença da Joia corrompida dentro do corpo. A jovem ouvia os gritos de Inuyasha, Miroku e Sango e se alarmou.
Logo ela colocava os pés naquela clareira, seu corpo enregelando-se dos pés à cabeça ao ver Kagome passeando devagar as mãos pelo peito do hanyou malvado, que lhe envolvia num abraço caloroso.
Não.
Aquilo não podia estar acontecendo. Kagome, com todos os diabos, o que estava fazendo?! Tocando o corpo de Naraku, que não conheceria jamais o que era o prazer carnal se não fosse por ela, Kikyou... Naquele momento, a sacerdotisa agarrou com ira seu arco. Já não lhe bastava perder Inuyasha para aquela garota, e agora... Agora AQUILO?!
“Ela não tem o direito...!”
***
Alheia a tudo aquilo, a parte ainda consciente da alma da colegial planava num local colorido e cheio de flores. Diante dos seus olhos, Naraku a convidava para um abraço cheio de afeto. Ela, sem pestanejar, o abraçava com vontade e carinho — ambos giravam, riam, trocavam beijinhos e carícias. As lembranças do que ele realmente era foram suplantadas. Tudo o que Kagome sabia era que ele era seu único amigo, confidente particular, dono de toda a razão e senhor das suas vontades.
Ela faria TUDO o que ele lhe exigisse fazer.
***
— Eu... Gosto de Inuyasha... — afirmava roboticamente a mocinha, agarrada ao corpo másculo do hanyou. — Mas... Ele... É mau... Me maltrata... Me deixa sozinha... Por causa de Kikyou...
— KAGOME! SAIA! SAIA DAÍ! NÃO SE DEIXE SER ENGANADA POR ESSE BASTARDO! — berrava Inuyasha, enlouquecido, mas ela não podia ouvi-lo. Sango havia caído de joelhos no chão, chocada, e Miroku parecia ter perdido a capacidade de falar.
— Ele não merece um coração generoso como o seu, Kagome — dizia Naraku, deslizando devagar a mão pelas costas da mocinha e provocando-lhe um arrepio de prazer. Vendo que, enfim, Kikyou havia chegado ali, ele aproveitou para descer ainda mais a mão e alcançar as nádegas de Kagome, apertando-as com força. Inuyasha, descontrolado, se atirava contra a barreira, usando suas garras. Há muito ele não raciocinava; apenas agia motivado pelo ódio.
Ódio este que contaminara a sacerdotisa mais velha, parada ali entre as árvores, vendo a mão do demônio deslizar pelo corpo daquela mocinha que, na opinião dela, não deveria sequer existir. Viu o exato momento que Naraku materializou um arco e uma flecha e as entregou na mão de Kagome, que agora pegava os objetos com sua mão trêmula e vacilante. Ela lembrava um zumbi desligado do mundo.
Naraku girou Kagome pelos ombros docemente e fê-la encarar o esfalfado Inuyasha, ali contido pela barreira, descabelado, desfeito, insano. O que fazia o hanyou cão gritar fazia a sacerdotisa Kikyou se manter calada, num ódio letal e surdo. Ela toda era ódio por Naraku, que a havia feito despertar para sentimentos de doloroso conflito por ele e, mais ainda, por Kagome, que recebia na cintura a mão safada do demônio, que a puxava delicadamente contra si e pressionava a ereção contra seus quadris. Aproveitando a deixa, o hanyou araneídeo colou o corpo ao da colegial e disse, despreocupado:
— Você é uma excelente arqueira, minha doce Kagome. E Inuyasha tem sido tão mau com você... Não tem?
— Tem... — ecoou ela.
— KAGOME, NÃO! NÃO O ESCUTE! ISSO É MENTIRA! — berrou Miroku.
— KAGOME-CHAN, EU TE IMPLORO! REAJA! ESSE DESGRAÇADO SÓ QUER NOS DESTRUIR! — chorou Sango, temendo o pior. Naraku concentrou-se totalmente na mocinha que o abraçava.
— Esta flecha é para você selá-lo. Será o castigo dele por ser tão cruel e pisar tão descaradamente no seu coraçãozinho de amor e candura, meu anjo querido... Agora, empunhe o arco e dispare a flecha...
— NÃO FAÇA ISSO, KAGOME!
A menina empunhou o arco, mas parecia duvidosa. Miroku e Sango estavam de pé, batendo contra a barreira com o Hiraikotsu e o báculo, mas ela nada ouvia.
— Mas... Eu... Eu o amo... Amo Inuyasha...
Ouvir a declaração murmurada pela garota possuída foi um golpe certeiro no íntimo de Inuyasha que, sentindo a garganta se comprimir e os olhos pesarem de dor, recomeçou a gritar e a atacar a barreira, se machucando no processo pelos inúmeros tombos que levava ao ser brutalmente repelido.
Kagome era tão delicada. Tão doce. E o amava. E, por sua culpa, estava sendo vitimada pelo maldito araneídeo. Inuyasha nunca desejou tanto ser mais forte para ter condições de salvar a jovem.
Naraku encarou Kikyou, ali inerte, e sorriu, lambendo de leve o pescoço de Kagome. Ele ria interiormente, intuindo que o crescente furor que se manifestava no íntimo da alma da mulher que ele amava era ciúmes de Inuyasha, já que este lutava desesperadamente para resgatar a mocinha.
— Ama Inuyasha? — indagou Naraku, capcioso. — Eu acredito que ame mesmo. Mas essa flecha não irá matá-lo... Só vai fazê-lo dormir. E, bem... Eu sou bem melhor para você do que ele.
— NUNCA!!! — gritou o híbrido inuyoukai, indignado.
— Naraku... — tartamudeou Kagome, ainda olhando fixamente para seu querido Inuyasha, ali diante de seus olhos. Ela não entendia o motivo das lágrimas que desciam pela própria face.
A bem da verdade, a alma de Kagome estava em vias de se partir.
— Eu posso cuidar de você, doce Kagome... — interveio o hanyou, agora pegando no queixo da jovem e virando seu rosto para si. — Eu posso cuidar dos seus sentimentos... Do seu coração... E desse seu corpo... Não consegue atirar a flecha contra Inuyasha?
— N-não...
— Eu compreendo... É tão simples. Toque meus lábios com esta sua boca que se assemelha a pétalas de rosa... Posso te levar às alturas com meus beijos. Vem. Beije-me AGORA e toda a dúvida desaparecerá de sua alma.
O QUÊ?!, pensou a sacerdotisa Kikyou, incandescendo-se de total rancor. Era só o que lhe faltava! Mas... Não. Não, aquilo NÃO podia ser real!
Kagome servilmente virou-se para Naraku e, erguendo-se na ponta dos pés, ofereceu-lhe os lábios virgens, que foram tomados de imediato pelos lábios sedentos do hanyou que dançava sua língua em contato com a da pobre colegial entorpecida. Era um beijo libidinoso e sugestivo; o moreno aproveitou e levou de novo a mão ao bumbum de Kagome, apertando-o (mesmo Miroku e Sango, que a tudo viam com olhos esbugalhados, chegaram a ter uma reação muito indesejada de excitação em meio àquela circunstância, que os constrangeu). Naraku inclusive mantivera os olhos abertos, olhando diretamente para um ponto da floresta — para sua inacessível Kikyou.
As cenas da primeira vez em que ele lhe beijara no castelo inundaram a mente da sacerdotisa mais velha, cujos pés recomeçaram a se mover, levando-a em direção àquela maldita barreira que ninguém havia conseguido desfazer. Ele a invadindo, ela o devorando. Memórias mil se digladiavam no interior da jovem, que, erguendo o arco em sua pose de arqueira soberana, disparou a flecha certeira que tinha por destino o corpo de Kagome. Inuyasha, a alguns passos de distância, olhou para trás e seu coração falhou uma batida ao ver o que a mulher estava fazendo.
Ele amava Kikyou e amava Kagome.
Kagome tentara salvar a vida de Kikyou.
Kikyou agora queria tirar a vida de Kagome.
— KIKYOOOU! NÃO! KAGOMEEEEEEEE!
O berro do hanyou cão estremeceu até mesmo o interior dos saimyosho, atraindo a atenção também do monge e da exterminadora, que suaram frio durante aqueles segundos de horror.
Obviamente, o clamor de Inuyasha inundou os ouvidos sensíveis de Naraku, que, percebendo a ação homicida da sacerdotisa, cuidou de desvencilhar-se de Kagome. Irrequieto e nervoso, o hanyou araneídeo deixou a mocinha à mercê da flecha impiedosa que, por fim, se lhe entrava na carne, penetrando-a pelas costas e arrancando gritos dos convivas.
Contudo, algo mágico acontecia — a flecha, ao invés de se projetar para frente, transformou-se uma luz pura e cálida, que se desfez por completo ao alcançar a garota, que agora tombou inerte e inconsciente no chão.
Naraku, por sua vez, deu um berro, transfigurou-se em um redemoinho de miasma e sumiu dali. Kikyou, por sua vez, ainda mantinha sua postura de ataque, olhando fixamente para Kagome e recebendo de volta o olhar magoado e furioso de seu querido Inuyasha, que lhe bradou com comoção desmedida:
— FICOU LOUCA, KIKYOU?! COMO OUSOU ATIRAR ESSA FLECHA PERIGOSA EM KAGOME?! JÁ ESQUECEU DO QUE ESSA SUA MESMA FLECHA FEZ COMIGO, SUA IMBECIL?!
— Kagome-sama! Graças aos céus, ela ficou livre... Está livre, graças aos deuses, graças a Buda... — repetia Miroku, correndo com a exterminadora em direção a eles. Inuyasha pegava sua menina nos braços.
— Oh, Kami-sama! Kagome-chan... — chamava Sango, agarrando também o corpo fragilizado da amiga. — Está viva... A flecha de Kikyou a libertou...!
Os três, simultaneamente, olharam para a sacerdotisa Kikyou em busca de explicações. Ela, porém, desaparecera dali sem deixar rastros.
Kagome, enfim, estava livre. Desmaiada, combalida, mas livre. Seu ritmo cardíaco e sua respiração agora voltavam ao normal. Os braços de Inuyasha a envolveram num abraço incontido e aliviado.
***
Naraku, por sorte, conseguiu se transportar para longe do vilarejo, indo parar nas proximidades de uma catarata na região de Fukuhara. Ele tremia; a flecha de Kikyou atingira Kagome, mas era ele quem sentia uma dor imensa entre as omoplatas. Cansado, ele tombou em meio a alguns rochedos. Seu corpo fraquejou e caiu; ele não conteve um grito. A cicatriz de aranha que tinha nas costas ardia como fogo.
Afinal, o hanyou tinha sido eficazmente exorcizado do corpo de Kagome e isso provocava uma dor física e espiritual imensuráveis. O fato de a mocinha não odiá-lo o fizera presa fácil daquela alma. Naraku já estava acostumado com o dulçor daquele olhar, o som daquele riso límpido. Era como rever a Kikyou de cinquenta anos atrás...
Kikyou.
Kikyou.
Kikyou.
Sua mente sempre o lembrava da existência dela. Aquilo o machucava tanto...! Aquela mulher parecia ser mais uma maldição do que uma bênção, a despeito da pureza espiritual que ela carregava.
Meio abobalhado, o moreno jogou longe sua pele de babuíno e, apesar do clima frio, ele ficou nu e se rastejou até a água. Lá chegando, se pôs de joelhos e levou as mãos vacilantes ao líquido gelado e as levou à boca. Estava morto de sede.
Foi quando, ainda no chão, ele pressentiu a chegada de mais alguém. Aturdido, olhou para trás e avistou os shinidama de Kikyou, que a traziam consigo pelos ares. A moça tinha uma expressão pavorosa na face — não seria exagero dizer que ela ostentava a ira de um ser maligno.
Naraku já não conseguia criar uma barreira: havia sido espiritualmente ferido e isso o deixou fragilizado. Em todo o caso, Kikyou não precisava saber daquilo. Colocando-se de pé, o hanyou a recebeu com um sorriso irônico, ao passo que seus olhos também destilavam o mais visceral ódio por ela.
Enquanto isso, a jovem se aproximava a passos rápidos. Tão furibunda estava que não se dera conta de que o arco e as flechas ficaram para trás. De qualquer forma, ela não precisaria daquilo para matar o híbrido, que exibia sua nudez absoluta sem nenhum pudor. Ele levou a mão à franja, disfarçando as dores que sentia, enquanto proferia:
— Você é uma miko poderosa mesmo. E, devo dizer, bem generosa, hein? Salvou a pobre Kagome do demônio Naraku. Se bem que... — ele olhou para cima, fingindo refletir. — Acho que sua intenção não era exatamente salvá-la, não estou certo?
— Seu filho da puta... Você a estava obsidiando — sibilou a moça, cada vez mais perto, o maxilar dolorido por ela o comprimir fortemente. Naraku gargalhou com desdém.
— Devo confessar que adorei aquela sua reencarnação, prezada sacerdotisa Kikyou. Kagome tem uma alma admirável e um corpo muito gostoso. Aquelas roupas curtas dela me deixam louco. A bundinha que nunca havia sido tocada... Senti os poros dela se arrepiando com a minha mão... Aquela bocetinha virgem exalava um cheiro de tesão incr-
O tapa veio rápido, fazendo o hanyou se calar, surpreso. Antes, porém, que Kikyou terminasse de baixar a mão, seu rosto alvo também recebia em cheio a bofetada do perverso, que já não mais sorria. A sacerdotisa sufocou um grito; não imaginava que Naraku seria capaz de revidar a agressão.
— Vo-você me bat-
— Qual é o seu problema, Kikyou? — interrompeu-a ele, com seu olhar mais letal. — Está com inveja de Kagome ao ver que Inuyasha e eu a desejamos? Fica brava ao saber que o mundo não gira em torno do seu umbigo?
— SEU MALDITO!
Desvairada, Kikyou saltou contra Naraku, que estava fragilizado, mas ainda podia se esquivar dela com seu poder telecinético. O hanyou se pôs a rodeá-la, desvencilhando-se de suas investidas furibundas.
— Afinal de contas — prosseguiu Naraku, rindo dos arroubos dela e ainda sentindo crepitar em seu interior um rancor que não se extinguia. — Ela é doce, pura... Virgem... Amorosa e altruísta, ao contrário de você...
— CALE ESSA BOCA!
— Estranho... — redarguiu ele, falsamente reflexivo. — Ainda hoje você estava fodendo com aquele híbrido retardado, esfregando seus seios no focinho dele. Se ele não fosse tão burro, poderia ter aproveitado para encher o seu cu de porra também, pois era isso que você queria, sua puta. Então por que se irrita por eu ter tentado me satisfazer com a menina Kagome... Sua vagabunda?
As palavras chulas e a menção ao sexo frustrado que ela tivera mais cedo a fizeram congelar, morbidamente pálida, pois não imaginava que o araneídeo a espionava daquela maneira.
— N-Naraku...
— Você e eu não temos compromisso algum, não é verdade? Você me seduziu por pura diversão... A sacerdotisa “do bem” que tripudia e pisa no coração de um youkai “do mal”... Agora, conte-me: quantas vezes você achou divertido me ver chorar?
Agora Kikyou era a presa — estava terrificada demais para se mover. Naraku levou uma das mãos ao seu pescoço e a ergueu, fazendo-a se debater e sufocar. Nos olhos dele, o ressentimento perene que não o abandonava.
— Maldita seja, Kikyou... Acha que não sei de todos os seus passos? Acha que vou mesmo deixar você brincar com esse amor amaldiçoado que sinto por você e que tem sido a minha ruína...? — os olhos dele lacrimejaram. — Acha que vou bater palmas enquanto você se diverte com outro que NEM MESMO A AMA MAIS?!
A mão crispada da moça se ergueu. Em sua agonia, decidiu que iria destruir o demônio naquele instante — afinal seu espírito ainda estava mais forte do que o dele. Agarrou-lhe o pescoço e liberou seu houriki; de imediato Naraku vacilou e arquejou, respirando com dificuldade e tremendo.
— Você... V-você não passa de uma vadia... Uma v-vadia que pensa q-que tem todos os homens na p-palma da mão... — a jovem apertou com mais força, já tonta de falta de ar.
Contudo, ela era um espectro; não seria tão simples matá-la, ele apenas a machucaria. Se Naraku comprimia seu pescoço era por puro desespero e dor. Kikyou, todavia, poderia purificá-lo caso liberasse mais de sua energia sacerdotal. O hanyou já via tudo turvo e sentia seu corpo cada vez mais pesado. A Joia de Quatro Almas em seu ombro brilhava a ponto de ser visível sob o músculo.
Então era o fim, pensou ele, encarando os olhos que amava tanto.
— Eu... E-eu sou livre... Para odiar... Para amar... — treplicou a jovem ofegante, o pescoço doendo bastante. — E vou m-matar você, demônio...
— P-pois bem... Mate-me... Liberte-me dessa d-dor... — e, firmando o olhar, Naraku viu lágrimas descendo pelo rosto convulsionado da jovem.
— Naraku... Maldito...
A mão dele vacilou e afrouxou — estava sendo queimado por dentro e gemia de agonia. Ele ainda a ouviu soluçar. As próximas palavras da sacerdotisa soluçante, porém, fizeram-no despertar de seu torpor.
— Eu t-te amo, Naraku. Te amo... Estou apaixonada p-por você... Não posso sequer imaginar v-vê-lo com outra... DÊ ADEUS... DÊ ADEUS AO MEU CORAÇÃO! — ela começou a gritar, como se tivesse enlouquecido. Naraku mal conseguia abrir os olhos. Ela estava matando aquele demônio, destruindo-o...
E, de alguma maneira, Kikyou sabia que seu coração morreria com ele.
— AGORA MORRA!!!
Ela O QUÊ?!
O coração de Naraku falhou mais que uma batida.
Eu preciso saber o que ela quer dizer! Não posso morrer... Não agora!
E Kikyou permitiu que seu houriki se elevasse no afã de purificar o hanyou. Ela, porém, não imaginava que ele, atônito ao extremo ao ouvir sua confissão, usasse suas últimas forças para criar outro corpo idêntico ao seu, que saiu de sua cicatriz de aranha, ao passo de que o Naraku estrangulado por Kikyou finalmente sucumbia e perdia a consciência, arrastando-a consigo e fazendo-a cair. O segundo Naraku, tão frágil quanto um humano, porém, a olhava com seus olhos vermelhos e saltados, nitidamente assustado, sentado no chão.
Aquilo fora demais para ela, que não esperava que o hanyou conseguiria reagir ao ouvir sua declaração. Era para ser segredo; Kikyou não queria que ele soubesse...
— Você... Você d-disse... — balbuciou ele, torturado. — Você disse q-que...
— M-maldito seja, seu merda! N-nem para morrer você s-serve! — gritou ela, insana. — EU TE AMO! Por isso mesmo vou te dest-
Antes que pudesse se esquivar, o hanyou saltou sobre ela, soltando-a do Naraku “original”.
— Não p-posso acreditar, sua... Sua miko maldita... Acha mesmo que permitirei que me mate agora que sei disso?!
— Quem disse q-que eu quero amá-lo?!
— E quem disse que eu não vou fazê-la QUERER me amar?! Você se apaixonou... POR MIM! ERA TUDO QUE EU SONHAVA!
Sem conseguir negar todo o calor que aquela esperança benfazeja lhe trazia ao espírito sofrido, Naraku começou a rir como um louco, derrubando Kikyou sobre a grama verde e rasgando brutalmente suas roupas. A moça tremia, nervosíssima. Logo ambos estavam despidos e o hanyou se pôs a beijá-la com muito desejo.
A sacerdotisa ainda tentou rechaçar o moreno, mas era impossível. Não havia sequer um poro de sua pele que não desejasse ardentemente o araneídeo que agora mordiscava levemente seu mamilo.
— Eu... Eu me recuso a amar v-você...
— Deixe para tentar me convencer disso depois que eu te fizer gozar... — e uma das mãos de Naraku foi direto até a virilha de Kikyou, que arfou e se remexeu. A jovem sentia sua vulva produzir muco em abundância e seu centro de prazer latejar ante a expectativa de ser preenchida pelo hanyou em chamas de luxúria. Logo a polpa do dedo dele a tocava ali, fazendo-a gritar de tesão, ao passo que a boca de Naraku se ocupou em sugar e lamber freneticamente os bicos intumescidos de suas mamas redondas.
— AHHH...!
De repente, o outro Naraku desmaiado no chão se ergueu, tonto, esfregando os olhos. Ela franziu o cenho e buscou se controlar para elaborar uma pergunta:
— Naraku... E aquele ser ali... É uma marionete? Ou seria você a marionete?
— Ambos somos Naraku.
— O quê?!
— Eu também não sabia que era capaz disso, mas... Minha alma se dividiu quando tentei obsidiar Kagome e agora há pouco, em que estava lutando para sobreviver a você... — ele riu fracamente, ainda estimulando o seio e o sexo dela. — Como sabe, este meu corpo me permite que eu me divida como quiser. Aquele Naraku ali é a parte da alma que você expulsou de Kagome com a hama-no-ya.
De fato, o outro Naraku parecia confuso e olhava ao seu redor, olhava para si mesmo e, enfim, encontrou Kikyou, a poucos passos de distância. Seu olhar se tornou mais vivo e ele, devagar, se pôs de pé, caminhando placidamente em direção a ela, que fitava diretamente o membro ereto dele. Enfim, ele se pronunciou:
— Ah... Kikyou, que visão maravilhosa você me proporciona...
— ...
Ele se pôs de joelhos perante o casal.
— Naraku, eu a quero. Saia daí.
— Sério? Pois eu cheguei primeiro, Naraku — replicou o hanyou, rindo zombeteiro, enquanto Kikyou fechava a cara.
— Que palhaçada é essa, Naraku?
— Oi? — responderam os dois. O que a acarinhava riu de leve, olhando para sua réplica. Logo os dois Narakus encaravam-na, fazendo-a corar até o último fio de cabelo.
— Eu não planejei nada disso — afirmou o Naraku mais distante — Entretanto... Acho que não seria uma má ideia se você permitisse... — ele mordeu o lábio, malicioso, porém um pouco mais abatido que a réplica que não parou de excitar a moça, que arregalou os olhos ao intuir o que ele queria.
— N-Naraku...
— Se você se permitisse ser possuída por dois de mim.
***
¹ — Aneue: irmã mais velha.
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