The Horror of Our Love

10 Beauty always comes with dark thoughts


Notas iniciais
Oi, pessoal! Desculpem pela imensa demora... Enfim, voltamos com The Horror of our Love! Perdoem eventuais erros. Meu PC está com defeito; escrevi o texto no computador do trabalho... E, definitivamente, não consigo redigir direito pelo celular, apesar de tentar. Não flui por mais que eu me esforce. Sem mais, boa leitura!

Kikyou abriu os olhos ouvindo o cantar do passaredo ao redor da machiya. Achou estranho notar que Naraku permanecia dormindo pesadamente ao seu lado, de costas para si. A farta cabeleira cacheada estava bagunçada e volumosa; a cicatriz em suas costas estava ali, diante dos seus olhos. O hanyou ressonava sereno; a sacerdotisa se ergueu em um dos cotovelos para admirá-lo. Ao se mexer, sentiu o quanto seu corpo doía, principalmente nas regiões íntimas. Ela corou e riu consigo mesma, ainda um tanto assustada ao se lembrar da aventura sexual bizarra que tivera com o seu agora marido.

Delicadamente, a jovem voltou a se deitar, agora aproximando um pouco mais o corpo ao de Naraku. Curiosa, perguntou a si mesma se aquela cicatriz dele ainda doía; deslizou a mão pelas costelas do seu híbrido, sentindo sua temperatura um pouco mais quente. Foi quando ele estremeceu ligeiramente, despertando e olhando ao seu redor um tanto desorientado.

— Naraku — chamou-o Kikyou, em voz baixa. — Está tudo bem?

— Ah...

O aracnídeo observou a sacerdotisa por alguns instantes antes de se lembrar de tudo e coçou a nuca, cenho franzido. Logo, retomou sua postura de segurança e sorriu para Kikyou:

— Não poderia estar melhor, minha doce miko.

— Você parecia confuso quando acordou.

— É impressão sua — retrucou ele, puxando-a para um abraço. — E quanto a você, querida? Está bem? Não ficou ferida depois de ontem?

Ela corou antes de responder:

— Ainda dói... Será que eu vou conseguir andar hoje?

— Ah... Pobre Kikyou. Acho que a nossa brincadeira não deve ter sido tão agradável assim, no fim das contas — afirmou Naraku, meio murcho. A moça, porém, beijou-lhe o rosto com candura.

— Foi agradável, mas muito desgastante, só isso. Não se preocupe, eu vou ficar bem.

O hanyou fechou os olhos e suspirou, sentindo a cabeça pesar.

— Podemos passar o dia aqui, se você quiser, querida.

— Naraku, você está bem mesmo?

— Por que pergunta, amada?

— Você está... Está... Não sei como dizer — admitiu ela. Ele riu.

— Kikyou, me dividi em dois para, digamos, celebrar nossa união de uma forma mais marcante. Se você está exausta, eu também estou. Mas não precisa se preocupar comigo, vou me recuperar rapidamente.

A sacerdotisa sentiu que ele lhe mentia, mas optou por não forçar a barra. Cedo ou tarde, ela descobriria o que havia de errado com seu companheiro, já que ele não conseguia ocultar seus reais sentimentos da jovem.

Por outro lado, Naraku sabia exatamente o que estava acontecendo e, em seu interior, tudo era angústia. Em menos de dois dias, sua forma humanoide daria lugar ao que ele realmente era: um conjunto heterogêneo de centenas de youkais.

O primeiro sinal era a diminuição da acuidade visual e auditiva, além da sonolência e uma indisposição generalizada. Entretanto, o híbrido estava apavorado; ele preferia morrer a ser visto por Kikyou daquele jeito.

Logo ele a convidou para se banharem; o casal passou um momento aprazível e relaxante juntos, trocando carícias e afagos discretos, onde Naraku tentava camuflar seus incômodos de todas as maneiras.

As horas se passaram: na machiya, os empregados voltaram e retomaram suas atividades cotidianas. Após vestir um yukata leve, Kikyou resolveu interagir com eles e, então, a preocupação com o não-sei-o-quê estranho em seu marido acabou sendo levemente esquecido. Ela nem parecia a mesma, andando para todo lado com aquelas vestes nobres e floridas.

Assim que o almoço foi servido, Naraku vestiu um haori branco com um hakama azul e chamou sua sacerdotisa do coração na entrada da propriedade. Ela, que colhia ervas por ali com um cesto, correu ao encontro do demônio e o abraçou. Logo se afastou, olhando-o preocupada:

— Naraku, você está com febre?

— Eu?! Com febre?! Ora, minha querida, eu sou um youkai... — e ele riu para disfarçar o nervosismo. — Não estou com febre. Isso simplesmente não acontece comigo.

— Corrigindo: você é um hanyou. Um meio-youkai. Ainda é humano, ainda que parcialmente.

— A única parte humana que há em mim é o coração, a sede de minhas emoções. E, cá para nós, manter a aparência de humano tem suas vantagens... — replicou Naraku em voz baixa e maliciosa, mordendo de leve o lábio enquanto dirigia um olhar significativo para Kikyou, que enrubesceu de imediato. — Creio que neste ponto você concorda totalmente comigo, querida.

—N-não mude de assunto, nem tente me enrolar — redarguiu a jovem. — Você está estranho. Sua pele não é assim tão quente.

— Não é nada demais. Ah... — ele olhou para baixo. — Eu sinto ter que dizer isso, mas vou precisar me ausentar. Há um vilarejo a oeste daqui onde também tenho uma propriedade. Recebi um comunicado da família humana que cuida daquelas terras, onde eles me chamam com urgência. Devo passar o dia fora. Espero de coração que você não fique magoada comig-

— Por que eu sinto que você está mentindo? — cortou-o a sacerdotisa, séria.

— Querida... — ele pegou a mão livre da moça e a beijou. — Dado o nosso envolvimento anterior, é perfeitamente plausível que você fique desconfiada de mim. Mas garanto que estou lhe dizendo a verdade. Não há motivo para mentir para você, Kikyou... Agora que estamos juntos... — Naraku a envolveu em seus braços, distribuindo beijos por todo o rosto cético da sua agora esposa. — Não tenho nada a esconder.

— Se não tem, deveria me levar, não?

— Da próxima vez iremos juntos.

— Por que não agora?

— Ah, Kikyou...! — afirmou o hanyou, já desesperado para sair de perto dela. — Você sempre consegue tudo o que quer, não é? Então, tudo bem... Eu preciso de um tempo sozinho.

— Mas você anda sozinho desde que se fundiu com Onigumo e os youkais!

— É exatamente por isso! Estou tão acostumado à solidão que me sinto desorientado no meio desses humanos.

Naraku aproximou o rosto do da sacerdotisa, dizendo com suavidade:

— Eu prometo que estarei aqui à noite, meu doce anjo.

— Mas...

— Não se esqueça... Eu te amo — e o hanyou a silenciou com mais um beijo.

Kikyou, ainda muito contrariada, fechou os olhos para desfrutar melhor da carícia; ao sentir que Naraku apartava os lábios dos seus, abriu-os e viu, decepcionada, que ele havia desaparecido. Fez um muxoxo.

— Ele tem algum plano obscuro, só pode ser. Mas eu vou descobrir.

A jovem voltou à machiya, sendo bem recebida pelas mulheres que trabalhavam ali. Sendo ela mesma de origem humilde, conseguia se sentir à vontade entre as servas do suposto Kagewaki. Elas, por sua vez, admiravam o jeito agradável e tão independente que aquela jovem demonstrava ter. Com discrição e doçura, Kikyou anunciou às mulheres que iria sair para resolver “negócios do marido”. Aproveitando, selou um cavalo e se ausentou dali até um pasto bem verde, onde poderia deixar o animal.Sua aljava com as flechas e o arco estava às suas costas — foi impossível não se lembrar de quando estava viva, cinquenta anos atrás, e era chamada para socorrer pessoas nos mais diversos lugares.

Então, assim que notou que estava só no meio do campo, Kikyou evocou seus shinidamachuu e voou entre as copas das árvores, concentrando-se profundamente para encontrar Naraku. O youki dele parecia muito distante, mas ela o pôde detectar.

— Está indo na direção do norte...

***

Naraku, que havia se teletransportado para quase um quilômetro de distância dali, usou sua energia demoníaca para criar uma barreira que o protegesse e, também, contatar a pequena Kanna. Ela, sendo uma youkai sem alma e sem nada mais que denunciasse sua presença, seria a pessoa ideal para resguardá-lo assim que seu organismo principiasse a traí-lo.

O hanyou se encolheu entre as falhas das rochas de uma pequena colina, morto de frio. De fato, Kikyou estava certa; ele estava com febre. Para seu alívio, Kanna o encontrou rapidamente.

— Vamos, o que está esperando? — indagou ele, de mau humor, assim que a menina colocou a cabeça para dentro da minúscula gruta onde estava escondido. — Tire-me logo daqui.

— Quer ir para onde?

— Para o castelo em Fukuhara mesmo, se ele ainda existir... Esses soldados andam destruindo tudo... — e Naraku espirrou. Kanna, agilmente, criou uma barreira e envolveu-se com o mestre nela. Teleportou-o para o porão do castelo, bem a tempo de ele tentar andar e ver sua perna esquerda se soltar do corpo; o hanyou levou um tombo. Kanna, inexpressiva, deu um passinho em sua direção, como quem quer ajudar, mas ele a rechaçou com um olhar raivoso.

— Deixe-me só, Kanna! Apenas vá lá para cima e mantenha sua kekkai!

A menina, sem nada responder, subiu a pequena escada de madeira e saiu pelo alçapão, fechando-o logo após. Entretanto, Naraku já não tinha mais condição de prestar atenção nela; os dedos de sua mão direita caíram, um a um, se transformando em onze criaturas diferentes. Em seguida, o antebraço e o braço também se soltaram do tronco e o híbrido rastejou lentamente pelo chão, louco para alcançar a parede e se recostar nela. Uma substância viscosa emanava de suas articulações; youkais de vários formatos e cores, aos poucos, lotavam o porão. Estes também pareciam enfraquecidos e sensíveis. Ele sentiu ânsia de vômito; sua laringe se destacou da garganta, tornando-se em duas salamandras.Logo todos os seus órgãos internos, bem como seus ossos, criavam vida e aparência distintas.

Febril e indisposto ao extremo, com algum esforço o araneídeo conseguiu chegar até a parede, suspirando. Dentro de quarenta minutos, a forma humana máscula e altiva que Naraku adorava manter havia se desfeito, restando dela somente a cabeça e parte da espinha dorsal, dentro da qual o demônio guardara a Joia. Patas, olhos, cabeças, arcadas dentárias, vísceras, se multiplicavam aos montes. Todas elas estavam doloridas; a cabeça do hanyou estava tonta pela febre, sua consciência embotada o fazia não prestar muita atenção ao quadro crítico ao seu redor. Seus olhos, agora castanhos, se encontravam pesados.

O verdadeiro Naraku era composto de seiscentos e vinte e nove seres, fora as habilidades intelectuais e místicas de mais outros trezentos e quatorze que ele absorvera.

***

Kikyou voou por muito tempo, até que resolveu parar perto de um vilarejo. Ela estava apreensiva; sentia, ainda que muito vagamente, a presença de fragmentos da Joia de Quatro Almas, que parecia vir de lugar nenhum. De irritada, ela estava profundamente angustiada no momento.

— Seria ele?

Foi quando a jovem teve a estranha sensação de que, por algum motivo, deveria ir ao local onde havia declarado seu amor para o demônio. Os shinidama a ‘alimentavam’ constantemente enquanto ela planava pelo céu. O sol estava se pondo; todo o céu estava colorido com tons alaranjados e acobreados, revelando uma bela visão. Não demorou para que Kikyou avistasse uma catarata lá embaixo; ela decidiu descer ali, não reconhecendo muito a paisagem. De pé sobre os rochedos, a moça se mantinha imóvel, procurando sentir alguma energia sinistra.

Um pulsar espiritual levíssimo parecia vir de trás da cachoeira. A sacerdotisa, de imediato, rumou para lá, flutuando diante da queda d’água e aspirando seu frescor, no intuito de acalmar seu próprio espírito.

Do alto da montanha da catarata, Kikyou olhou atentamente para o que parecia ser apenas uma floresta de coníferas. No entanto, era possível para ela discernir a presença da alma de um ser vivo por ali. Sem demora, a moça voou para lá, intentando pousar no solo, mas foi repelida por uma kekkai invisível.

— Mas quem poderia criar uma barreira tão densa e, ao mesmo tempo, tão imperceptível?! — indagou a sacerdotisa, impressionada. Ao tocar a barreira, notou o quanto esta era forte, mas não tão indestrutível, já que ela conseguiu adentrar.

De dentro do castelo, Kanna se levantou de sobre o alçapão, onde estivera sentada. Geralmente, ela aguardava ali por longas horas, até que Naraku estivesse refeito.Surpresa por sentir a presença de um intruso na propriedade, a pequenina fitou o espelho.

Miko Kikyou? Como ela conseguiu encontrar o castelo?

Do lado de fora, Kikyou voava velozmente rumo à porta principal daquela propriedade quando, de repente, se viu sendo rodeada de espíritos agressivos. Era uma tentativa da pequena serva de Naraku para detê-la. Com um sorriso irônico, a sacerdotisa afirmou:

— Seja lá quem for, não vai me intimidar com isso... — e ela levou as mãos unidas em prece, elevando a toda sua energia mística e purificando aquelas almas, que puderam então ser livres do feitiço da youkai do espelho e seguirem para o outro mundo. Em poucos minutos, Kikyou pisava no solo do castelo silencioso. A Joia estava ali dentro em um algum lugar, era perfeitamente possível a ela senti-la.

Foi quando as almas em seu corpo agitaram-se e começaram a sair, uma a uma, deixando-a estarrecida e muito fraca. Logo a jovem caía de joelhos; ao erguer os olhos, viu a pequena Kanna apontando o espelho para si, a uns cinco metros de distância.

— Você não vai passar— anunciou a albina, apaticamente.

— N-Naraku está aí, não está? — inquiriu Kikyou, irritada consigo mesma por ter sido surpreendida. — Você... Você recebeu ordens dele? Onde ele... — suspiro. — Onde ele está?

— Você não vai passar — repetiu ela. — Vou proteger Naraku.

Proteger?! Mas proteger de quê?!

— Vou tomar sua alma, sacerdotisa Kik-

No entanto, a youkai não contava com a magnitude dos poderes da sacerdotisa que, com rapidez, atingiu em cheio o seu espelho com uma flechada certeira.

Atrapalhada sem seu objeto de defesa, a garotinha ficou sem ação por alguns instantes enquanto via Kikyou recuperar as almas que lhe mantinham de pé e mirar em sua cabeça. No entanto, algo no olhar vazio e sem expressão de Kanna levou a sacerdotisa a desistir de matá-la. Ela, então, mirou em suas vestes e disparou uma flecha que acertou no tecido acima do ombro da albina, prendendo-a contra a parede. A menina se debateu, mas não conseguiu sair.

— Sei que você é uma youkai, mas, como é uma filha de Naraku, não vou matá-la. Agora me diga onde ele está.

— Não adianta ter piedade de mim. Ele mesmo irá me matar depois que se recuperar, por eu não ter conseguido parar você.

— Se recuperar...?!

Kanna a olhou com sua expressão vazia; Kikyou achou perturbador o fato de aquela criaturinha com aspecto tão infantil e inocente não poder ter sequer um sentimento.

— Onde está Naraku, Kanna? — perguntouKikyou, incomodada. — Diga de uma vez.

— No porão — respondeu ela com simplicidade. — Você vai matá-lo, não vai?

— Isso não vem ao caso! Por que ele está no porão? O que está fazendo lá?

— Está em repouso.

— Mas... Mas que diabos! Repouso de quê?!

— Ele sempre fica muito cansado quando retoma sua forma original uma vez por mês.

— Forma original...

Com o coração aos pulos, a sacerdotisa deixou Kanna pendurada na parede e correu até o alçapão.

***

“Kikyou... A essas horas, você deve estar dormindo... Apesar de que eu nem sei se a noite já veio...”

Assim pensava Naraku, suando em bicas, em meio às partes de seu corpo. Febril e entorpecido, ele se sentia louco de saudades dela. Por ter perdido seus poderes, não notou que a barreira de Kanna havia sido quebrada. Um barulho no alçapão se fez ouvir; o demônio franziu o cenho, sem conseguir ver nada em meio à escuridão — na verdade, ele sequer abriu os olhos, exausto. Kanna não costumava entrar no porão enquanto ele estava naquele estado.

Por sua vez, Kikyou terminava de descer a escadinha e conteve um grito de agonia ao ver aquela multidão de youkais letárgicos e grudentos espalhados pelo chão; um de seus shinidama gerava iluminação suficiente para que ela pudesse vislumbrar o que havia ali. Mal dava para pisar no assoalho; nervosa, a jovem olhava para todos os lados, contemplando aquela visão bizarra e assustadora. Se ela fosse uma garota comum, desmaiaria de pavor. A Joia estava ali, em meio a um emaranhado de patas verdes e um confuso amontoado de cabelos negros.

Cabelos negros em ondas... Fios bastos, cujo dono ela conhecia muito bem.

— M-mas o que...

— Kanna — rouquejou o hanyou, ainda de olhos fechados. — Saia daqui.

Kikyou estremeceu vivamente ao reconhecer a voz de Naraku. Ela agora olhava para todos os lados, agoniada, observando cada um dos youkais inteiros e fracionados dispostos no cômodo frio e recobertos por uma camada de algo que lembrava clara de ovo. Sua respiração entrecortada acabou chamando a atenção do demônio que, crendo que estava sonhando, abriu os olhos e sussurrou:

— Kikyou...? Querida... Vá d-dormir.

— Naraku...

Ela, enchendo-se de coragem, foi devagar em direção à cabeça do hanyou. Por mais que a sacerdotisa já tivesse se deparado com youkais horrendos e assustadores ao longo de toda a sua vida, jamais esperava ver algo tão bizarro como aquela cabeça humana ligada a tantos seres, todos parecendo doentes.

E aquele era o indivíduo para quem ela havia dedicado todo o seu ódio e, paradoxalmente, também o seu mais genuíno amor. Lágrimas corriam pelo rosto pálido da jovem, sem que ela sequer as sentisse. Kikyou não estava acostumada a sentir aquilo pelo seu antigo algoz.

Misericórdia? Empatia? Ou seria a confirmação de um amor profundo?

Nem ela sabia!

Sem mais aguentar, a moça disparou com voz emocionada:

— V-você está tremendo tanto!

— Hmmm? — volveu ele, sem notá-la realmente.

— Está... Está com febre, não é? — e ela soluçou, sem saber como chegar mais perto. O som de seu choro finalmente despertou o torpor de Naraku, que agora a fitava com olhos enormes.

— Que situação estranha... Estou tendo uma alucinação — comentou o demônio, confuso pela visão de sua amada ali, com um de seus insetos brilhantes.

— Eu sou real! — exclamou ela. — S-sou real... Meu querido...

Naraku abriu a boca, sem nada conseguir responder a princípio. O que ele jamais queria que acontecesse havia se realizado. As partes de seu corpo também sentiram sua agitação e a sacerdotisa ouviu os muitos youkais se remexendo. O hanyou ignorou o mal estar generalizado que sentia e vociferou (ou tentou, já que ele não conseguia gritar):

— Você... Você não deveria estar aqui! NÃO DEVERIA!

— M-mas...

— EU NÃO LHE DEI ESSE DIREITO DE... — Naraku se calou, entontecido por uma dor de cabeça. — De... De...

— C-como se eu precisasse de alguma permissão de sua p-parte para fazer o que quero — revidou ela, enxugando as lágrimas, ainda abalada. — P-por que... Escondeu isso de mim...?

— Não é da sua conta...

Agora é, demônio maldito... Tudo sobre v-você é da minha conta, inclusive o fato de você se tornar esse monte de youkais e...

— Eu SOU um monte de youkais! — rosnou ele. — Não era segredo. Agora desapareça daqui.

— Não, eu...

Algo como a cauda gigante de um escorpião se ergueu de um ponto atrás de Kikyou e, sem aviso, a capturou e a tirou do chão, assustando-a. Ela então foi carregada até bem perto da cabeça de Naraku, cujo rosto suado e lívido tinha uma expressão desgostosa, que ele tentava disfarçar como se fosse raiva. Mesmo assim, a jovem notou o quanto o demônio estava envergonhado. O casal se fitava com intensidade, enquanto o shinidama flutuava por ali.

— Não faço ideia de como você conseguiu burlar a barreira de Kanna, mas não se iluda — sussurrou Naraku, procurando não tremer de frio. — Eu ainda posso matar...

— Pare de dizer idiotices. Você está doente...

— Não estou doente! — esbravejou o demônio, revoltado. — Maldita Kikyou! Cada parte do meu corpo contém veneno! Eu deveria te... Atchim!

O espirro fê-lo calar-se de uma vez perante o olhar ainda incrédulo e úmido de Kikyou, que, em meio às lágrimas que ainda escorriam de seus olhos, começou a rir de nervosismo pela situação, incomodando Naraku, que rilhou os dentes:

— Com todos os caralhos, qual é a graça?!

— Você também fica resfriado...!

Havendo perdido toda a empáfia, Naraku ficou rubro. Sentiu que sua amada se remexia por dentro de sua cauda de escorpião e decidiu afrouxar o aperto para que ela libertasse os braços. De imediato, ela estendeu a mão para tocar-lhe o rosto, mas foi impedida pelo ferrão da cauda, que se colocou entre eles.

— Por favor, não me toque... Não estou limpo.

— Deixe de bobagens. Não tenho nojo de você.

— Kikyou, você não entende...

— Não entendo mesmo. Por isso preciso tocá-lo, senti-lo. Afinal, tudo isso é o corpo de “Kagewaki-sama”... Melhor dizendo, o de Naraku, o meu marido.

O lábio do hanyou tremeu enquanto ele buscava conter sua emoção. Cuidadosamente, Kikyou afastou o ferrão de perto de si e tocou a têmpora do marido com a ponta dos dedos. Logo ergueu a outra mão para afagar os cachos embaraçados dele, que olhava para baixo, constrangido.

— Está quente — afirmou ela, com ternura. — Eu sabia que você estava com febre desde mais cedo...

— Estava... — disse ele baixinho.

— É devido à sua... Condição atual?

— Não. É porque fiquei resfriado mesmo.

A jovem afastou a franja de Naraku da frente de seu rosto. Ele mal podia crer que estava recebendo aquelas ondas de amor tão puras daquela mulher tão nociva para si e, ao mesmo tempo, tão necessária. A cauda que segurava a sacerdotisa se remexeu.

— Isso é um abraço? — indagou ela, com um pequeno sorriso que aqueceu ainda mais a alma do hanyou fragilizado.

— Se te faz se sentir confortável, é um abraço meu sim, meu amor.

— Mas que parte é essa do seu corpo, Naraku?

— É o meu antebraço esquerdo...

Pausa.

— Kikyou..

— Diga.

— Você não tem mesmo nojo de mim?

— Não, não tenho. A bem da verdade, seu corpo não é uma visão agradável, mas não é o suficiente para me afastar.

— Oh.

Ele parou de falar, ficando ainda mais vermelho, o que chamou a atenção da jovem.

— Que foi, querido?

— Kikyou... Se importa se eu te colocar no chão? Eu... Eu estou cansado.

— Ah! Kami-sama! Claro que não me importo. Só não me mande deixá-lo sozinho, porque isso eu não vou fazer.

Então Naraku colocou a esposa sobre uma área livre entre as partes de seu corpo, enquanto troncos e patas se mexiam como podiam no espaço apertado. Então a cabeça do hanyou deslizou por entre quelíceras, ficando então à altura da sacerdotisa.

— Aqui não há conforto para você, querida.

— Não vim atrás de conforto. Vim para cuidar de você.

— Você vai se cansar...

— Cuidar de Onigumo também era cansativo.

Algo peludo passou pelos pés de Kikyou; um ser de baixa estatura que lembrava a pelagem de um urso e, diferente dos outros seres ali, estava seco. Ela olhou interrogativamente para Naraku, que lhe devolveu o olhar.

— Se não se incomoda... Sente-se aí.

— O que é isso?

— O osso de minha coxa direita.

A moça se sentou, ao passo que o hanyou aproximou sua cabeça um pouco mais dela, timidamente. Vendo-o receoso, Kikyou afirmou:

— Se é para passarmos a noite juntos, você deveria estar mais perto de mim.

— Deseja isso mesmo?

— Sim. Prometi cuidar de você, e vou fazê-lo...

Por cinquenta anos consecutivos, Naraku passava por aquela transformação mensalmente; no entanto, aquela era a primeira vez em que ele estaria acompanhado justo pela mulher que tinha o poder de aniquilá-lo. A uns cinco metros de distância, uma aranha inteira, vermelha e graúda abriu os olhos e, vendo a cena, os fechou de novo, como se quisesse dormir.

A sacerdotisa levou uma das mãos aos cabelos do marido, ainda com o olhar sobre a aranha vermelha. Ele deu um sorriso amarelo.

— Vejo que descobriu quem era a ‘consciência Naraku’.

— Hein?!

— Este youkai foi quem idealizou, junto com Onigumo, a fusão de onde fui originado. Ele... — o hanyou suspirou. — Ele odiava você. Enquanto aquele bandido imundo queria tomá-la, ele incitou os demais youkais, que também te detestavam, a driblar a consciência de Onigumo para conseguir atingir você.

— Imagino que essa aranha seja um órgão vital importante para você — ciciou a jovem.

— Ela é o meu coração, Kikyou.

Silêncio.

— Onigumo era um humano podre — continuou Naraku. — Pervertido e imoral. Ele amava você, mas seria capaz de violentá-la devido à sua luxúria. A alma dele está selada dentro da minha.

— Você me ama...Por causa dele?

A cabeça do hanyou se moveu, desconfortável.

— Eu a amo como Naraku, não como Onigumo.

— Não compreendo. Aquela aranha é a ‘consciência Naraku’ que me odiava, então...

— Não se engane... Apesar de tudo, eu não sou aquele youkai aranha, querida. Eu, Naraku, realmente nasci há cinquenta anos, com uma alma e uma personalidade novas e distintas. Claro que herdei o intelecto junto de inúmeras características dele, contudo Naraku é um ser único. O youkai aranha era sagaz, mas não chega a um terço do que sou hoje.

Curiosa, Kikyou abraçou os joelhos como uma criança, interessada em ouvir o relato.

— Então você não me conhecia antes de minha morte?

— Vamos ver se consigo explicar isto de forma lógica... A maioria destes youkais aqui a detestava; os demais foram absorvidos depois de sua morte, não chegando a conhecê-la. Entretanto, havia um conflito em minha alma recém-originada... O amor de Onigumo e o ódio dos youkais. Todos se lembravam de você, pensavam constantemente em sua pessoa. As lembranças do bandido relacionadas a você eram muitas, apesar de ele estar selado dentro de meu espirito; então, para mim, era como se você fosse uma pessoa conhecida, amada e odiada ao mesmo tempo¹.

— Céus...

— Confuso, não é? Pois bem... Eu constatei, para meu pesar, que os sentimentos de Naraku, não os dos youkais ou o de Onigumo, para com você eram de amor, assim que aquela bruxa profanou o seu túmulo e recriou seu corpo, lhe dando vida através do rei da menina Kagome. Quando a vi desacordada aos meus pés, tão real, enquanto eu recriava o meu corpo graças ao Fuko no Jutsu... Eu precisei raptá-la. Precisei tê-la próxima de mim, já que todo o meu ser entrou em franca polvorosa. Era o ódio se digladiando com o amor que eu, Naraku, não deveria ser capaz de sentir, já que fui formado para ser um demônio homicida.

— Então...

— Então o amor tomou proporções absurdas desde que você veio até mim naquela noite...

— Mas quem planejou aquilo de... Me matar e me fazer odiar Inuyasha?

— Os youkais planejaram e eu executei. No fim das contas, a responsabilidade é minha mesmo, já que todas as consciências deles deram origem à minha...

A essas alturas, o demônio não olhava para a sacerdotisa. Além de o assunto ser denso, ele continuava com dor de cabeça.

— É por isso que eu a odeio... E a amo. E, agora, acabaram-se todos os meus segredos.

O casal permaneceu quieto, enquanto Kikyou processava aquele monte de informações novas. De repente, ela se pôs de pé e deu as costas para Naraku, que ficou atônito.

— Kikyou... O que há? Eu disse algo errado? Ei... — ela já estava subindo os degraus para fora do porão. — Amor, o que aconteceu? Por que está me deixando sozinho?!

E tudo ao redor de Naraku era escuridão mais uma vez. As centenas de youkais se movimentaram, indicando o quanto o hanyou ficara aflito. Em sua mente, um pensamento desagradável: Kikyou o estava rejeitando. A cabeça dele doeu mais, enquanto um gosto amargo de derrota se lhe apegava ao paladar. Contudo, um ruído se fez ouvir mais uma vez ali, sendo seguido de um brilho intenso de algo que o demônio não conseguia discernir.

— Q-quem está aí? — inquiriu Naraku, magoado e irritado.

— Sou eu... — respondeu uma voz infantil, que era a voz de Kanna. — Aquela sacerdotisa Kikyou me soltou e pediu para eu recriar minha kekkai.

— Mas por que você veio para cá, se pode fazer isso lá fora?

— Foi ela quem disse para eu vir...

— E desde quando você obedece a ela?!

— Não foi uma ordem — retrucou a pequena youkai, envolvendo todo o porão com sua barreira. — Foi um pedido. Ela disse que eu deveria ficar ao seu lado, protegendo-o, enquanto ela purificaria a área ao redor do castelo.

Naraku franziu o cenho, mais do que confuso com aquilo. Kanna, silenciosa como sempre, estava próxima à sua cabeça e se pôs a olhar para o espelho. Logo o virou para que seu mestre pudesse contemplar o que era exibido ali.

Do lado de fora da propriedade, acontecia um confronto — alguns youkais sentiram o cheiro de Naraku assim que a sacerdotisa havia desfeito sua barreira, momentos antes. Postada junto à porta principal, estava ela, expressão séria e resoluta, disparando a segunda hama-no-ya e fazendo, assim, com que os monstros fossem aniquilados, garantindo mais segurança a eles.

Kanna observava apaticamente a fisionomia angustiada do hanyou, que mordia o lábio, apreensivo. Emocionalmente sensível, ele deixou escapar uma pergunta:

— Será que ela fez isso para limpar seu caminho e partir...?

— Não acho que ela vá partir — interveio a menina.

— Você não entende dessas coisas! — resmungou ele, incomodado.

— Mas se ela fosse partir, não estaria se aproximando daqui de novo, Naraku.

Surpreso, o demônio ouviu o ruído do alçapão sendo aberto e o cômodo foi iluminado, desta vez, por três shinidama. Kikyou, serena, se aproximava dos dois e, gentilmente, se dirigiu à youkai do espelho:

— Obrigada por atender ao meu pedido. Se importa de nos deixar a sós?

A resposta de Kanna foi olhar para o mestre querendo sua permissão. Meio abobado, Naraku resmungou um “vá, vá, vá!”; ela, então, fez uma pequena reverência e saiu. Kikyou voltou a se sentar sobre a pele de urso, enquanto os insetos pousavam suavemente sobre seu colo.

— Ainda bem que eu os notei a tempo.

— De que está falando? — perguntou o hanyou.

— Dos youkais que sentiram o seu cheiro e vieram nos atacar. Confesso que foi culpa minha. Eu desfiz a kekkai de Kanna e a prendi na parede com uma de minhas flechas. A pobre não teria mesmo como fazer nada com o espelho.

— Você foi purificar os youkais?! Mas por quê?!

— Para protegê-lo. Ou acha mesmo que eu o deixaria morrer nas mãos daqueles demônios fétidos, agora que somos uma família?

Ele se calou depois de ouvir isso. Fechou os olhos, refestelando-se de bons sentimentos ao sentir a mão delicada de Kikyou afagar seus cabelos. Assim, Naraku suspirou enquanto murmurava para ela:

— Tão bom morrer de amor e continuar vivendo²...

***

Madrugada. Kikyou acabou dormindo sob o olhar atento e devotado do araneídeo, que, dadas as suas condições de meio-youkai, não conseguia sequer cochilar, tanto pelo mal estar quanto pela febre.

Foi aí que uma revolução começou no local. Naraku, sabendo que teria de conviver com aquele momento crítico por anos a fio, aprimorou suas habilidades, de forma a conseguir reduzir o tempo em que permanecia “desmontado”, voltando a ter seu corpo em formato humano, apesar de continuar sem poderes. Com pouco mais de seis horas daquele jeito, ele começou a se recriar. O barulho acordou a sacerdotisa, que presenciou a estranha cena.

A aranha youkai vermelha foi a primeira a se reconectar ao corpo do híbrido. Em seguida, as muitas partes de corpos foram sendo atraídas para a cabeça do hanyou, ligando-se a ela. Concentrado, ele sequer olhou para a esposa. O processo durou uns vinte e cinco minutos; logo o corpo de Naraku estava completo, mas ele respirava com um pouco de dificuldade e tossia, nu, grudento e trêmulo. Acabou caindo no chão, alarmando a moça. Prontamente, Kikyou se levantou para acudi-lo, mas o moreno a interrompeu com uma exclamação ríspida:

— Não chegue perto!

— Não chegar perto de você? Mas...

— Você é surda?! Deixe-me em paz!

A jovem, sem se intimidar, continuou a se aproximar de Naraku, que estava caído de bruços, tentando se apoiar sobre os cotovelos. Sentindo-a perto de si, ele a olhou com raiva. No entanto, Kikyou logo notou que ele estava muito envergonhado de ser visto daquele jeito tão frágil quanto antes.

Ele era totalmente humano agora.

— Naraku, vamos sair daqui.

— Eu tenho duas pernas, maldita, não preciso de... — um arroto e um acesso de vômito o fizeram se calar. Afinal, seus órgãos ainda estavam se reajustando dentro do corpo; a substância viscosa que estivera recobrindo as partes de youkais estava sendo expelida, sujando o queixo e o pescoço do hanyou.

Morto de constrangimento, o moreno se colocou de joelhos com algum esforço e deu as costas para a sacerdotisa. Ela, compreensiva porém decidida, não arredou pé. Derrotado, ele sussurrou:

— Kikyou, deixe-me só. Ao amanhecer, recuperarei minhas forças e poderemos ir para onde você quiser, mas agora...

— Agora nós vamos lá para cima e você não vai me desobedecer — sentenciou Kikyou, tocando-o no ombro.

— Você não entende?! Não posso ficar assim perto de você... — redarguiu Naraku, meio desesperado e vermelho como um pimentão. — Eu estou sujo... Eu estou fedendo! Pareço aqueles andarilhos humanos que não se lavam durante semanas...

— E daí? — volveu a jovem, passando um dos braços por baixo dos dele, procurando ajudá-lo a se colocar de pé. As pernas do hanyou tremiam e mesmo seus dentes rangiam de frio. — Esqueceu-se daqueles meses na caverna?

— Como assim?!

— Era eu quem banhava e limpava Onigumo... Ele não podia andar, lembra?

O casal se pôs de pé com certo esforço; Kikyou queria vê-lo bem e confortável, então não hesitou em segurar aquele corpo pegajoso. Meio contrariado e irracionalmente enciumado, o hanyou resmungou:

— Aquele filho da puta foi cuidado por você desse jeito... É, agora me recordo. Maldito Onigumo... — e Naraku espirrou de novo.

— É estranho ouvir você se referir a ele dessa maneira...

— Ele era um assassino degenerado, um idiota.

Com dificuldade, Kikyou conseguiu sair com Naraku de dentro do porão. Kanna, ao lado do alçapão, continuava a sustentar a barreira e olhou casualmente para o casal; a sacerdotisa se encheu de vergonha, afinal seu marido estava nu.

— Naraku, acho que deveríamos ter saído na direção oposta de Kanna... Ela o está vendo sem roupas — murmurou ela, vermelha.

— Ela não se importa. Kanna já me viu tantas vezes neste estado... Ela conhece minha nudez externa e interna, vê meu corpo se despedaçando todos os meses.

— Ela é uma criança!

— Ela é uma youkai sem alma, Kikyou. A diferença é enorme.

— Para mim, ela é uma criança — treplicou a jovem. — E você deveria ter dado uma alma para ela, é o direito de cada criatura neste mundo e...

— Seu banho está pronto, Naraku — soou a vozinha delicada de Kanna. — O que a miko Kikyou está fazendo com você?

— Eu o estou ajudando a andar — respondeu Kikyou, sem rodeios. — Obrigada por ter preparado o banho para ele.

— Pensei que você iria matá-lo — afirmou a pequena youkai, inocentemente. — O cômodo de banhos fica naquele corredor à direita.

Alguns minutos depois, o casal chegava ao banheiro, iluminado por velas, com uma tina grande cheia de água. A moça auxiliou o demônio, que agora era um homem comum, a entrar ali e, vendo que ele não parava de tremer, acabou lavando-o. Ao que tudo indicava, o organismo de Naraku havia se estabilizado, porém a gripe o deixara bem frágil. Ele agora tossia, espirrava e tinha uma expressão de dor no rosto lívido, passando o tempo todo calado e indisposto durante os cuidados de sua amada para consigo. Ela, por sua vez, esfregava a pele meio pegajosa dele com um sabão com aroma de flores, cheia de vigor e dedicação.

Apesar da carranca, o sentimento do hanyou naquele instante era de comoção e candura.

É estranho... Estar nos braços de Kikyou mais uma vez, sendo cuidado por ela, depois de cinquenta anos... Eu... Definitivamente, não consigo mais imaginar minha existência neste mundo sem esta mulher...

Ao terminar a atividade, Kikyou interpretou os olhos fechados e o silêncio absoluto do marido como sendo cansaço, mas ele estava muito atento a todos os seus movimentos. Sutilmente, a mão de dedos compridos do araneídeo tocou o braço da jovem.

— Há um quarto logo à frente desse cômodo, pode me levar para lá? — pediu Naraku, num murmúrio.

— Sim, posso.

A moça o ajudou a sair dali, aliviada por ver que havia uma toalha dobrada sobre um pequeno banco dentro do banheiro. Tendo enrolado o híbrido nela, conduziu-o gentilmente para o quarto contíguo, deitando-o despido mesmo sobre um futon após enxugar seu corpo e tentar prender sua cabeleira em uma trança; em seguida o cobriu com os grossos cobertores colocados ali. Definitivamente, Kanna era muitíssimo cuidadosa para com seu mestre, pensou Kikyou. A jovem ia se levantando do chão quando Naraku abriu os olhos, sonolento, chamando-a baixinho.

— Amor... Não me deixe.

— Não vou deixá-lo. Eu só preciso de um banho também — afirmou ela, carinhosa. — Volto logo.

Ela saiu do quarto, fechando a porta de correr atrás de si quando olhou para frente e se deparou com uma cena inusitada: Kanna, em silêncio, aguardava do lado de fora do quarto com um samburá cheio de figos, pêssegos, maçãs e goiabas.

— Naraku precisa comer — murmurou a garotinha. A sacerdotisa não segurou um sorriso terno.

— Obrigada por se dedicar tanto a ele.Você é uma boa filha...

— Filha? — volveu ela, confusa, ao passo que Naraku revirava os olhos em desdém. — Não sou uma filha.

— Mas pode vir a ser — retrucou Kikyou, dando uma piscadela para o hanyou, que a encarava com um bico contrariado. — Eu amo crianças.

— Não sou uma criança... Sou uma extensão do corpo de Naraku — revidou Kanna, colocando as frutas perto de seu mestre, que, havendo se sentado, se pôs a comê-las com certo desespero.

— Prefiro vê-la como uma criança inocente, prestativa e gentil. Pode fazer companhia para ele enquanto me ausento, por favor?

— Sim. O seu banho já está preparado.

— Como sabe que eu queria tomar banho?

— As flores nos cabelos dela são, na verdade, uma extensão de seu corpo que permitem que ela fale comigo por telepatia — respondeu o araneídeo. — Ela me perguntou se você também queria se banhar, então eu confirmei. Kanna é muito prática.

— Você é uma menina incrível! — afirmou a sacerdotisa, surpreendendo Kanna por afagar de leve seus cabelos brancos. Em seguida, saiu.

A forma afável como Kikyou se dirigiu a Kanna levou Naraku a ficar meio constrangido, de forma que ele comeu em total silêncio, sendo observado pela garotinha. Alguns instantes depois, a sacerdotisa retornava ao cômodo, a pele fresca do banho recém-tomado.

— Agora pode se retirar, Kanna — afirmou o hanyou.

— Obrigada por tudo, Kanna — completou Kikyou, com um sorriso. Neutra como sempre, a pequena se ausentou, fechando a porta de correr e deixando o casal a sós.

A moça, então, começou a se despir do yukata, causando rubor em Naraku.

— O que está fazendo?

— Minhas roupas não estão limpas. Se não se im

porta, vou dormir sem elas. Amanhã as visto de novo.

— Kikyou... — o híbrido estava tímido. — Não sei se conseguirei satisfazê-la...

— Kami-sama! Quem está falando em satisfação? — replicou a sacerdotisa, rindo de leve, enquanto colocava ao lado do leito o seu traje.

— É q-que na maioria das vezes em que estamos juntos, acabamos nos entregando um para o outro... E imaginei que você ficaria desapontada se eu não pudesse lhe dar prazer um dia.

A jovem se pegou pensando em quanto estava apaixonada por aquele híbrido; afinal, Inuyasha havia falhado com ela na hora do prazer, dias atrás, e ela ficara furiosa. Coçando a nuca, envergonhada, ela respondeu, com genuína sinceridade:

— Não estamos juntos apenas por luxúria. Vamos apenas dormir, querido. Eu não ousaria exigir nada de você, depois de tudo o que passou...

Os dois se abraçaram após se cobrirem, fechando os olhos; ele se deitara de lado, ao passo que ela estava de costas. Contudo, o sono dele não veio; Naraku, apesar de muito cansado, não conseguia relaxar, ainda acabrunhado depois de ter sido visto e cuidado pela esposa. Ele odiava se sentir dependente de outrem, no entanto o desvelo da sacerdotisa o comovia, o fazia se sentir muito amado e benquisto. O shidinama de Kikyou voejava em silêncio por ali, não muito próximo do casal; ao notar a jovem enfim cair no sono, o pequeno inseto voador se retirou, deixando o quarto em total escuridão. No entanto, o interior de Naraku não era mais escuro como antigamente.

A luz do amor verdadeiro lhe dera novos horizontes, onde a luz principiava a despontar.

***

1 — Estas considerações foram retiradas da fanfic "A Confissão de Naraku III — A Feiticeira Youkai", da querida ficwriter @hanyouSamyra, no capítulo 7 (A Confissão de Naraku para InuYasha). A teoria dela acerca dos sentimentos de Naraku por Kikyou é simplesmente brilhante. Recomendo fortemente a leitura!

2 — Frase do poeta e jornalista brasileiro Mário Quintana.

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Notas finais
No próximo, teremos Inuyasha e Kagome, afinal... Não sabemos o que está acontecendo fora do castelo. Como estarão eles? Aguardo seus comentários! Beijos da Mamãe @Okaasan